Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba
Fez-se
a luz. Com isso, saímos da escuridão. Passamos a enxergar melhor. O ser humano
percebeu que um dos seus prazeres era a felicidade. Seja ela simples,
sofisticada, inesperada ... “Como seria legal eternizar esse momento de
felicidade”, pensou alguém. Talvez tenha sido o homem das cavernas quem disse
isso. Sei lá. Mas nas imagens rupestres é possível ver desenhos de homens
caçando ... o que é aquilo? Um bisão? Bom, não vamos entrar neste detalhe. Ela
eterniza uma cena que deveria demonstrar o poderio social de então. Ou apenas a
sobrevivência humana. Sei lá.
Com
o tempo surgem as ilustrações, as telas a óleo que propagaram a realeza, a
elite. Surgem os desenhos que retrataram na ponta do pincel o Brasil e suas
belezas tropicais. Mas, tudo mudou 200 anos atrás, quando um processo químico
consegue fixar no vidro ou num metal uma imagem real, não aquela adaptada pela
mão humana. Ora, pois. Estava toda embaçada e precisava-se passar horas para
tentar interpretá-la. Mas, foi esse o primeiro passo.
Foi
em um dia qualquer de 1826 que, na França, Joseph Nicéphore Niépce consegue
fixar uma imagem em uma placa de estanho, depois de horas de exposição. Ele
usou muitos produtos químicos. Errou diversas vezes. Seguiu uma linha de
pensamento que já vinha da China por vários séculos, podendo dizer que a
fotografia é obra conjunta de diversos autores, até chegar no atual formato
digital. Vieram outros depois, como Louis Daguerre que diminuiu para minutos a
exposição de sua câmera utilizando chapas de cobre e vapor de mercúrio. Houve
muita química. Houve muitos danos. Lembram da invenção do raio-x, em 1895?
Wilhelm Conrad Röntgen usou a esposa Ana como cobaia, expondo-a a raios
perigosos, sem saber disso.
A
partir daí, pôde-se eternizar momentos de alegria como aniversários e
casamentos; tristes como mortes; jornalísticos; aventureiros ... enfim, uma
diversidade de opções. Tudo feito na terceira pessoa e o fotógrafo, o clássico
lambe-lambe, sempre esquecido, colocado na berlinda. A selfie surge em 2013
quando os celulares passaram a ter câmeras frontais.
Com
as imagens estáticas, criou-se a imagem em movimento, ou seja, 24 imagens por
segundo dando noção ao olho humano que a imagem se movimentava. Pronto ! Estava
criado o cinema que em dezembro completou 130 anos, através de outros
franceses, os irmãos Lumière (Auguste e Louis). Quem viveu a era do super-8 ou
16 milímetros ou foi ao cinema e sentir as luzes se apagando, hoje vive de
saudade. Nostalgia gostosa para ver como a fotografia e o cinema se tornaram
indústrias poderosas e sensoriais. Uma fotografia de formatura ou de casamento
sempre foi um sonho de consumo. Eterniza momentos ou pessoas que se foram. Tempos
atrás era comum enviar uma foto sua mesma, assinada, para familiares. Quando
surgiram as revelações automáticas, como a Polaroid, a sensação de imediatismo
passou a fazer parte de nossa rotina.
E,
em nossa Piracicaba ? Em menos de um ano após a apresentação oficial do cinema
em Paris, nossa cidade recebeu uma exibição a qual todos ficaram maravilhados.
Fotografia era algo caro, inacessível. Jornais como a Gazeta de Piracicaba, que
circulou a partir de 1882, não traziam fotos. Um dos motivos eram os linotipos
e clicherias que funcionavam como grandes carimbos quem prensavam a tinta no
papel. O custo da reprodução de uma foto era inacessível para o maquinário da
época. As fotografias começam a surgir na imprensa local nos anos 1900, com
maior ênfase nos anos 1950.
Mas
as fotos circulavam de mão em mão. Em papel fotográfico mesmo. Muitos deles
guardados até hoje pelas famílias. Marc Ferrez, mecenato de Dom Pedro II,
esteve em nossas terras retratando paisagens naturais como o seco salto do rio
Piracicaba numa das estiagens durante a virada do século retrasado para o
século passado. Cozzo foi outro fotógrafo que viveu das paisagens e da sociedade
piracicabanas. Foi o inovador na cidade com sua Foto Rápida Cozzo que prometia
revelações em alguns poucos dias.
Da
luz, fez-se a imagem e dela eternizou-se no papel (hoje, no digital) tudo o que
o ser humano realizou de bom ou ruim na Terra. Sorria !
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