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domingo, 25 de janeiro de 2026

Imagem em movimento

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Magia, escapismo, indústria... Afinal, o que é o cinema? É empolgação quando vemos “O Agente Secreto” ser finalista ao Oscar 2026? É tristeza ver os minutos finais de “Titanic”? É recordação de um tempo que não volta mais, nos fazendo regredir para o passado e, com isso, lembrar de alguém que já esteve ao nosso lado e hoje não mais está? A resposta é simples, todos estes conceitos fizeram do cinema uma das maiores indústrias do entretenimento, assim como são os games, os jogos de futebol ou basquete, entre tantos outros que se criaram ao longo do século passado.

O cinema completou 130 anos de vida. Foi em 28 de dezembro de 1895 que a França nos brindou com a imagem em movimento. Um filmete de quase um minuto mostrava a saída de funcionários de uma fábrica. Nada de roteiro. Nada de música. Nada de estrelas de renome. Era uma fotografia que se movimentava. Isso era retido em celuloide e podia ser exibido diversas vezes em vários lugares.

A imagem em movimento já era realizada há séculos com a lanterna mágica chinesa. Thomas Alva Edison proporcionou ver estas imagens com seu kinetoscópio, também apresentando poucos segundos de imagens em movimento. Porém, era um prazer solitário (no bom sentido), em que as pessoas colocavam suas vistas em um aparelho individual e viam algo se mover. Sensacional para a época, irrelevante na atualidade.

Auguste e Louis Lumière fizeram o contrário. A exibição era para várias pessoas ao mesmo tempo, numa tela bem menor que aquela que conhecemos hoje. Exigia sala escura, sem som e com todas as pessoas em pé. Nada de poltronas, assentos ou cadeiras, pois os filmetes eram curtos. Muita gente assistia e ficava maravilhada sem saber ao certo o que viu. Mas, surgia a curiosidade e com esta novidade todos queriam tomar contato. No filme que mostrava a chegada de um trem a uma estação francesa, muitos saíram correndo pensando que a locomotiva fosse atropelá-los.

Com o tempo, o ser humano passou a dominar esta técnica. Colocou roteiro, fez do fantástico algo que povoou a tela, inseriu música, fez dublagens, até chegar ao contexto que conhecemos hoje.

Muitos iam ao cinema ver adaptações clássicas de livros, de passagens da Bíblia, desenhos animados, da ilusão que nos alimenta neste um século e três décadas.

Em menos de um ano de sua primeira apresentação na França, o cinema aportou em Piracicaba, com sala exibidora improvisada. Na época, nada de telefone, rádio, internet, televisão ... A cultura corria “à boca solta”. Claro que tínhamos jornais, livros, teatro ... e o que mais? As sociedades se completavam com idas aos teatros, não para ver peças e sim para se socializar, participar de palestras, festas, assembleias e se aprofundar num conhecimento necessário para as pessoas. O cinema era uma extensão do livro, do teatro e do circo! Sim, o circo! A ilusão agora era transformada em celuloide e viajava o mundo. Os Lumieres eram ilusionistas, viajavam vários países com suas apresentações e o que fizeram no cinema? Viagem a lua, viagem ao fundo do oceano ... Ilusão pura que se tornou convencionalismo.

Piracicaba recebe a sétima arte em um barracão próximo a Matriz situada onde hoje está a praça José Bonifácio, na hoje rua Moraes Barros, com chão de terra batido, com ruas já delineadas e muita curiosidade. Klene e Mewe trazem a cidade o cinematógrafo, o espectro cinematográfico, que apresentaria um mundo nunca imaginado pelas pessoas. Na leitura de um livro, cada qual interpreta uma passagem do jeito que sua imaginação manda. O cavaleiro preto e capa pode não ser o Zorro como nos vem à mente. Então, exibição de trens em movimento, animais andando, cidades europeias causam alvoroço entre nossos cidadãos, ou seja, “há vida além de Piracicaba”!

O primeiro filme apresentado em terras caipiras era de vistas naturais, mas elas eram “animadas”. Assim fez-se a luz! Ou melhor, assim se apagou a luz para ver a primeira exibição de cinema na cidade. Em outubro, completa-se 130 anos de feito histórico. Merece um Oscar!


(Publicado no Jornal de Piracicaba de 25 de janeiro de 2026)

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O fim chegou

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

“Bugou?”. “Não. Não bugou”. E assim começamos um novo século temendo o bug do milênio o qual previa caos com a mudança numeral de 1999 para 2000. Os Estados Unidos e outros países, à nossa frente com sistemas já informatizados, temiam um descontrole nas transações bancárias, no abastecimento de combustíveis e nos voos intercontinentais. Nada aconteceu.

“E o Mundo, acabou?”. “Não. Não acabou”. “Mas, Nostradamus previa que o planeta deixaria de ser habitado em 2.000”. Não acabou e nós somos provas vivas disso.

Olhando para o hoje, notamos que já vivemos o primeiro um quarto do século atual. Os primeiros 25 anos do século XXI se encerram nesta quarta-feira, 31 de dezembro de 2025. O fim chegou. E como foi chegarmos aqui? Não quero filosofar sobre o que deu certo ou errado, mas resgatar algumas passagens às quais vivemos e acabam caindo no esquecimento. Algumas memórias são agradáveis.

Iniciando o novo século o Brasil parou para comemorar seus 500 anos de descobrimento. Foi a última vez que o 22 de abril foi feriado nacional. O meio milênio de história foi lembrado na Inglaterra, Espanha, França, Holanda, Portugal e outros países que tentaram colonizar as terras descobertas por Pedro Álvares de Cabral. Piracicaba teve atividades comemorativas. O Engenho Central foi palco de uma grande exposição.

Nestas duas décadas e meia, a cidade cresceu culturalmente. A Festa das Nações e a Paixão de Cristo do Guarantã se consolidam com estrondosos sucessos. Foram atividades que movimentaram o antigo Engenho Central, à beira do rio Piracicaba. A cidade ganhou um novo teatro construído pelo poder público, o Erotides de Campos, assim como uma ponte estaiada dr. Aninoel Dias Pacheco e outra ponte próxima ao salto do rio, denominada de arquiteto Caio Tabajara Esteves de Lima.

O comércio também cresceu. Conheceu novos empreendedores com a criação da lei das MEIs. Conheceu o avanço tecnológico em que robôs compartilham a linha de produção com o ser humano no fabrico de veículos automotores e elétricos. A tecnologia da Coreia do Sul desponta em um novo bairro, trazendo diversos fornecedores. E pensar que até o início dos anos 1980 Piracicaba era referência como cidade vizinha a Rio Claro, onde se construía o Gurgel, ou de Santa Bárbara d’Oeste com sua Romi-Isetta.

O atual século mostrou que não temos domínio sobre nossas ações. No final de 2019, começam a ecoar as notícias sobre o vírus SARS CoV 2, a Covid-19, tão devastadora que colocou o planeta em alerta mundial dizimando milhões de pessoas. Culparam os coitados dos bichinhos civeta e pangolim como os propagadores. Teorias da conspiração tendem para o descontrole de vírus de laboratório em Wuhan. Mas, aí já é outra história.

Chegamos a 2025 impressionados com a inteligência artificial que desde os anos 1950 povoavam teses acadêmicas, seriados de tv, filmes de cinema e principalmente livros. A IA é mais que remodelar uma foto transformando-a em filme. É a chave condutora para veículos autômatos na Europa e na América do Norte. É o drone teleguiado que atira bombas e granadas na Ucrânia ou dispara fuzis sem a presença física do ser humano com exatidão no alvo. É algo que nos assusta.

O espaço é pequeno para discorrer sobre o ataque às torres gêmeas do World Trade Center ou a Primavera Árabe. Mas olhemos para nosso microcosmo chamado Piracicaba, onde vivemos nossa vida. Tínhamos 329 mil habitantes no primeiro ano do século, somando hoje, segundo determinadas fontes, 420 mil pessoas. A gastronomia cresceu de forma exponencial para satisfação dos comensais. Nas mídias sociais, ouvimos o clamor por um ou mais de um novo shopping center. O atual remonta o final dos anos 1980. Dois outros foram prometidos, à margem do rio Piracicaba e outro no Taquaral. Ficaram apenas na promessa. Mas, mesmo com estas solicitações, o piracicabano ainda frequenta avidamente este centro comercial.

Os desafios estão aí. Iniciativas públicas e sociais se reúnem para enfrentar o crescimento urbano da cidade. Pensar na Piracicaba 35 já é um desafio em prática. E tenhamos um ótimo início do segundo um quarto de século. Bom ano novo !


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

O retorno do caipira a Piracicaba

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Foi um nome que colocava respeito. Afinal, ministro chefe da Casa Civil da República não era título para qualquer um. Me recordo que, lá por meados dos anos 1990, noticiava eu, pelas ondas da Rádio Alvorada AM, na extinta frequência dos 910 kilohertz, fatos de um governo que prometia esperança para o país. Havíamos passado pela abertura democrática em 1984, tivemos eleição de Tancredo Neves, a posse de seu vice José Sarney e em seguida foi empossado o “caçador de marajás”, Collor de Mello. Era um período de transição na qual o brasileiro buscava sua identidade.

Foi uma época de falta de esperança. A inflação atingiu astronômicos 80% ao mês. Era como receber 1 mil reais no início do mês e ele valer apenas 20%. O poder de compra caiu drasticamente. Em 1994 surge o Plano Real, equiparando o real ao dólar norte-americano. Ou, seja 1 real vale 1 dólar. A prática mostrou ser pura utopia, pois logo em seguida a crise na Argentina fez a moeda brasileira perder por 2 a 1, ou seja, o dólar valorizou 100% em poucos meses. Mas de lá para cá aprendemos a controlar a moeda, evitando, nestes 31 anos, de cortar os zeros comidos pela inflação galopante ou mudar a denominação de nossa moeda.

Pode não ter sido o “ovo de colombo” na economia ou na política. Mas ajudou na identidade do brasileiro.

Isso tudo foi contado no livro “O caipira e o príncipe”, produção independentes do autro, lançado em Piracicaba na segunda semana de novembro por um dos personagens que participou destas ações em Brasília junto ao governo FHC, o “quase” piracicabano Xico Graziano. Nascido na vizinha Araras, Xico tem os pés em Piracicaba por ter estudado no Colégio Sud Menucci e ter se graduado na ESALQ. Foi o caipira representando Piracicaba no governo federal nos anos 1990, em conjunção com outro piracicabano, Barjas Negri, o qual atuou como Secretário do Ministério da Saúde, assumindo em seguida a pasta quando o titular José Serra se candidatou a presidente da República. Xico disse, no lançamento, que pretendia publicar o livro “O caipira e o príncipe” apenas depois do falecimento do ator principal do enredo, Fernando Henrique Cardoso. Mas sua veia de escritor aguçou a necessidade de colocar no papel todo bastidor vivido em Brasília na segunda metade dos anos 1990. Triste é saber que, conforme anunciado no lançamento do livro, FHC está em estado delicado de saúde, sem reconhecer as pessoas, relembrar os fatos, ou conforme disse Xico, “esperando a vida apagar-se aos poucos” ...

A obra pode não ser vista como uma elegia ao tucanato do PSDB mas coloca em evidência nomes esquecidos pelo brasileiro como o ministro das comunicação Sérgio Motta, o governador Mário Covas, o ministro da saúde José Serra e outros vistos como personagens que moldaram o Brasil anos após a redemocratização. São bastidores necessários para se conhecer porque o país é assim hoje. Assim, como Laurentino Gomes fez com a história pré República ou Elio Gaspari discorreu na coleção sobre a ditadura iniciada em 1964.

Nada de endeusar partido esse ou aquele, principalmente em época de polarização política. Mas curioso é ver, através do livro como um caipira tão próximo a nós viu, vivenciou e esteve tão perto do poder que regulou a política, a economia e a sociedade por cerca de uma década.

Piracicaba teve vários caipiras no poder. Isso pode ser visto nos livros locais desde a época da independência, passando por Prudente de Moraes (piracicabano não nato, mas de fato). Agora, triste é ver que toda essa dedicação ao poder caia no esquecimento em época de internet, com total desinteresse da geração atual. Faz parte do ciclo natural da vida ...


domingo, 12 de outubro de 2025

Rua sem saída

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Na última quarta-feira (8 de outubro de 2025), a história de Piracicaba foi reescrita. Mais uma vez reescrita. E desta vez sua história foi resgatada à oito mãos, sendo dedilhada por Barjas Negri, Miromar Rosa, Kátia Mesquita e Fábio Bragança. Com a publicação do livro “1001 Ruas”, produção independente dos autores, resgata-se não apenas uma lista de endereços e sim personalidades homenageadas em logradouros como ruas, avenidas, vielas, travessas, viadutos e afins.

Para quem não tem destino, qualquer caminho serve, já dizia um velho ditado. Porém, as ruas são referência para nossa rotina diária. Imagine como eram as referências no passado: pegue a rua direita (que partia do rio Piracicaba), siga até o bairro alto (no alto da colina esquerda do rio) e próximo você encontra o bairro dos alemães (em homenagem à colônia germânica aqui estabelecida). São pequenos exemplos que nos norteiam na direção a ser tomada.

Passear pelas ruas é um conhecimento curioso e gostoso. Afinal, vamos à Governador visitar as lojas sem muitas vezes estudar quem foi Pedro de Toledo, interventor federal em São Paulo no início dos anos 1930, deportado para Portugal por ter colaborado com os paulistas na Revolução Constitucionalista. Aliás, existem poucas referências – apenas em anúncios em jornais – sobre a rua João Pessoa, anteriormente denominada de rua do Commércio e posteriormente Pedro de Toledo. A mudança de nome de qualquer logradouro hoje demanda não apenas da mudança das placas em cada esquina e sim na mudança cartorial e suas avenças financeiras.

Temos bairros com ruas que homenageiam a Segunda Guerra Mundial (Monte Castelo e Pistóia, no bairro Verde), assim como cantores (Francisco Alves e Ataulfo Alves, também no bairro Verde), países, aves, flores e outros. Mas “1001 Ruas” busca homenagear as pessoas que fizeram e construíram Piracicaba, num abecedário com diversas verbetes. Não são biografias extensas, mas referência necessária para saber quem é o nome estampado nas esquinas quando se coloca o pé na calçada ou no asfalto.

Também é uma forma de viajarmos no tempo com nossa memória que às vezes fica empoeirada. Talvez poucos se lembrem dos carros batidos, amassados e recolhidos pela Ciretran em sua sede ao lado da praça da Boyes, na rua Luiz de Queiroz onde hoje serve-se uma das melhores gastronomias locais. Ou de um tempo de antanho quando a rua do Porto era aquela conhecida hoje por rua Moraes Barros, já que ela é quem dava destino ao porto no rio Piracicaba. A própria rua do Porto, ao lado da avenida Alidor Pecorari era uma zona residencial até os anos 1980. Nos dias atuais é um centro comercial movido pela gastronomia servida à mesa.

Andar pelas ruas de qualquer cidade é possível ver belezas (como as grafites no Largo dos Pescadores) e as “feiuras” como lixo ou a má conservação das calçadas, entre outros.

O livro evoca memórias e esclarece algumas pessoas que não fazem ligação que alferes era a atual patente de tenente no Exército Português. E que José Caetano (Rosa) foi vereador, dono de usina e escravocrata. Além disso, foi um dos principais arruadores da cidade, numa era em que tudo era feito nos “zóio”, sem GPS nem nada.

Aliás, já que abordamos localizadores, alguns deverão se lembrar de como era difícil viajar para São Paulo, Campinas e Santos sem o Mapa Rodoviário 4 Rodas, publicado pela revista da Editora Abril. Dirigir sem ela era difícil. Mas dirigir com ela era pior já que o mesmo ocupava quase todo o painel dos veículos.

Neste interim surgiu o GPS. Tínhamos de pagar para suas atualizações. Não era como hoje no celular. Semáforos, radares, ruas sofriam alterações... dá-lhe atualização! E pagava-se por ela. Hoje, você viaja com o celular que lhe dá conselhos sobre policiamento a frente, ou veículo parado mais adiante ou objeto no meio da estrada. Ficou mais fácil. Ou, seja: o Waze é meu pastor e ele me guiará...

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 12 de outubro de 2025)

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Saci teve um pé em Piracicaba

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Saci teve um pé em Piracicaba. Aliás, teve seu único pé em Piracicaba. E não é ironia. Vamos usar uma história para descrever o porque disso. Há 100 anos atrás, as pessoas liam uma obra de Bram Stocker intitulada “Drácula” e, cada cabeça imaginava um jeito como deveria ser o Vlade Tapes, mais conhecido como o vampiro que se alimentava de sangue humano e vagava como um intrépido insone, fugindo do sol. Porém, foi Tod Browing em conjunto com Carl Laemmle Jr. que deu a imagem que conhecemos hoje, longe dos livros. Um sujeito de cara fechada, vestido de roupa negra e uma longa capa. Pronto ! Estava feito o estereótipo do vampiro noturno !

Pouco mais de 100 anos atrás, sem televisão, cinema e internet, a imaginação corria à solta. A conversação arrepiava as pessoas. Foi daí que se propagaram lendas urbanas e rurais, dentre elas o saci.

Coitado do nosso Pererê... Teve de caminhar a duras penas para que no imaginário popular tivesse a composição de uma pessoa de meia idade, segurando um cachimbo, vestido apenas de shorts e um gorro na cabeça. Sabia-se que ele era terrível para com todos, que dava assobios ensurdecedores, aparecia em redemoinhos os quais surgiam do nada ! Mas, como se elaborou esta aparência ?

Pois, bem. Monteiro Lobato, lá por volta de meados da década de 1910, utilizava as páginas do jornal “O Estado de São Paulo”, para fazer seus inquéritos. Foi aí que ele criou, em crônicas, seus pensamentos sobre o homem interiorano, depois reunidos no livro “Urupês”. Surge o Jeca Tatu, típico caipira, desleixado que vive no campo, pita um cigarro, e espera a vida acontecer. Foi neste Jeca que surgiu o nosso Jeca, o “Nhô Quim”, mascote do Esporte Clube XV de Novembro de Piracicaba. Uma história puxa a outra.

Foi nestes inquéritos do Estadão que Lobato questionou o vanguardismo da Semana da Arte Moderna, hoje inconteste revolução artística. Na época, ele considerava os trabalhos de Anita Mafalti como aberrações em forma de telas. O tempo foi cruel com Lobato, mostrando-lhe que os rabiscos de Anita criaram fama e alcançaram milhares de dólares quando postos a venda nos leilões.

“Inquérito sobre o sacy-pêrêrê” foi uma das suas articulações para que, em conjunto com os leitores pude criar a “cara” desta lenda contada em todo o Brasil. “Mythologia brasílica” era o nome da coluna. Aí é que Saci coloca o pé – com perdão para a expressão – na cidade de Piracicaba. Em 1º de março de 1917, o Estadão publica carta de Sebastião Nogueira de Lima ajudando a compor esta face do negrinho que aprontava suas estripulias, seguindo tradições indígenas e africanas que povoaram por muitos séculos as tradições orais.

Nogueira – que foi vereador, delegado e interventor federal em São Paulo – lançava curiosidades interessantes sobre o Pererê, criando inclusive uma música (também publicada naquela edição) sobre como deveria ser o assobio do perneta, lembrando o seu forte silvo.

Nogueira conta uma face admirada por Lobato: o saci sentimental. Aliás, não é o saci e sim vários sacis, todos com feições iguais, mas com sexos diferentes e idades também diferentes. Ele mesmo cita que, quando criança, ficou ensurdecido com o silvo de um saci chamando sua amada, num solfejo a la “rhtymo de polka”, conforme descrito naquela edição.

“Inquerito sobre o Sacy” virou um livro escrito por Monteiro Lobato. O depoimento de Sebastião Nogueira consta nele. Não dá para dizer, então, que Saci Pererê não seja piracicabano. E viva nosso cidade !




(Publicado na Tribuna Piracicabana de 11 de outubro de 2025)

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

História acessível

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Um acervo acessível. Não naquilo que se trata de acessibilidade com rampas. Mas, sim, acessível onde a pessoa estiver. É para isso que o Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba tem trabalhado nos últimos anos. Pois, com a pandemia aprendemos muito. Surgiram aplicativos e plataformas de consulta a distância sem a necessidade de presença para pesquisar no material físico. Empresas aprenderam com o home office ou o modelo híbrido. Dias atrás foi destaque a demissão de 1 mil funcionários que estavam nestas condições num banco de renome no país.

Recentemente, folheando um jornal de 50 anos atrás notei que deveria tomar total cuidado pois ao virar de forma rápida o mesmo tenderia a rasgar. Não era este meu propósito. Se estou folheando um veículo da imprensa local lançado meio século atrás, quem seria eu nesta ordem? Não queria ser a ferramenta que impediria de tê-lo conservado por mais e mais anos.

Isso nos ensina muito. Institutos locais e centros de documentação estão cada vez mais restritivos com relação às consultas pessoais. Por conta destas condições e também por ações consideradas como vandalismos, as quais posso enunciar algumas aqui: o surrupiar de um bem; o recorte de parte da página; ou rasgar a página toda de um livro, um caderno etc.

Há receio de abrir documentos originais por vários motivos. Um foi enunciado acima. Outro é sua conservação. Três pastas encontradas recentemente em nosso acervo destaca a vida de Antonio Pádua Dutra, tudo muito bem conservado, com seus telegramas enquanto em terras europeias, assim como suas correspondências manuscritas um século atrás. Separadas em papel manteiga, estavam fotos da época. Tudo daria um livro. Se não for inventariado, não pode ser aberto à população.

Pois, bem. Há mais de dez anos nas gestões de Pedro Caldari e Vitor Pires Vencovsky, o IHGP tem se lançado ao mundo digital como forma de facilitar a propagação da história de Piracicaba. Para isso tem na plataforma Flickr mais de 13 mil registros fotográficos. O acervo de fotos do Jornal de Piracicaba dos anos 1980 a 2000 aos poucos está sendo disponibilizado. Importante salientar é que todo o acervo pode ser visto e baixado gratuitamente, em resoluções que vão da versão web até para a confecção de imensos painéis, como pode ser visto em redes supermercadistas locais.

Há o que ser feito. Há muito a ser feito, diga-se. O IHGP tem vídeos e palestras em plataformas de streaming. Está lançando agora em setembro seu podcast no Spotify. Em breve terá uma sequência entrevistas no seu videocast. Tudo para registrar a atualidade para o futuro e resgatar o passado com gente que possui muito conhecimento.

A história de Piracicaba remonta 258 anos de vida. Até mais, se formos levar em conta as expedições que por aqui se aportaram, mas não fincaram raízes, ou as monções discutidas mas nunca efetivadas pelos povoadores. Não temos toda esta história. Algumas delas só é possível em consulta presencial em Portugal, para onde eram enviadas cartas e deliberações em geral para escrutínio da coroa real.

Assim, criamos vários públicos que se interessam por um passado longínquo e curioso. Outro que viveram meados do século passado e lembram muito mais do que nós, porque conviveram com outras pessoas naquele período. E a geração que vive a expansão de Piracicaba com, por exemplo, as boates, os parques industriais, os shoppings centers e aquela memória mais afetiva que ainda povoa nossa lembrança, sejam elas dos anos 70, 80 ou 90... Ao estarmos no primeiro um quarto do atual século, cabe lembrar que os anos 2000 já têm uma carga histórica de passado. Uma carga preciosa a ser preservada e divulgada.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 21 de setembro de 2025 e na Tribuna Piracicabana de 27 de setembro de 2025)

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Tadinho do “seu” Vitório ...

Nelson Gonçalves e Cobrinha

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba


Numa saudade que punge e mata, nos esquecemos do “seu” Vitório. Cancioneiro daqueles que não existem mais, cujos olhos vibravam enquanto entoava seu violão, que fazia serestas para doces mulheres que se prostravam nas sacadas das residências. Sacadas hoje nem existem! Ou estão cercadas por concertinas ou tiveram instaladas grades.

Vitório Angelo Cobra foi um resgate que o Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba fez na sessão comemorativa de seus 58 anos de fundação no último dia 26 de agosto, na Câmara de Vereadores. Fizemos questão que o Hino de Piracicaba fosse executado por uma antiga gravação conseguida por um LP de 1974. Eis que na ocasião, a Miss Bicentenário Maria Graziela Victorino França veio e me confessou: “nos 200 anos de Piracicaba, a Câmara não tinha uma sede e a solenidade de aniversário ocorreu no palco do Teatro São José; enquanto estava eu para receber o título de Miss, ao nosso lado estava o ‘seu Cobrinha’ para tocar este hino”. Foi emocionante para ela na ocasião e foi emocionante ver no telão da Câmara a voz do “seu” Vitório Angelo estalar seu gogó em letras marcantes quando se refere a Piracicaba como “cheia de flores, cheia de encantos”. Por mais que seja uma gravação simples acompanhada de um violão e um teclado, foi importante este resgate. Isso porque na atualidade, Cobrinha vem sendo legado ao ostracismo, provocado por plataformas digitais de músicas, por mídias digitais que sequer pensaram em digitalizar obras locais como do próprio e referido Vitório Angelo, Pedro Alexandrino, Parafuso e outros seresteiros. Tal Hino de Piracicaba hoje é acessível e fácil de ser conferido nas vozes de Craveiro e Cravinho ou Aninha Barros. Novas versões, novas roupagens. Mas, nada tira o brilho de nosso cancioneiro mor acompanhado muitas vezes no teclado por Caçulinha. Quem nasceu em 1967 foi presenteado pelo poder público municipal com um compacto composto por quatro músicas cuja performance foi de Cobrinha, incluindo tal hino.

Me lembro nos anos 1990, quando funcionário da Rádio Alvorada AM, ter visitado Cobrinha em sua residência no Bairro Alto. Titio Luiz, ou Luiz Antonio Cópoli, não deixava escapar uma. “Pega o carro, vai na casa do Cobrinha e faz uma entrevista com ele pelo telefone”, dizia. Seu Vitório já estava cansado. Mas nunca disse não. Faleceu em 1995. Deixou um legado necessariamente a ser resgatado. Aos 15 anos de idade começou a dedilhar o violão ao lado dos irmãos Pedro, Salvador, João e Antonio, que formavam o grupo “Choro Cobra”. Foi pioneiro, pois tal “Piracicaba” chegou a ser gravada por ele e Mariano 93 anos atrás, em 1932, nos Estúdios da Columbia, em São Paulo, naqueles pesados discos de 78 rotações. No auge da carreira, foi membro de bandas nas quais estavam, entre outros, Leandro Guerrini e Francisco Lagreca. Dividiu o microfone com pesos pesados como Francisco Alves, Silvio Caldas, Orlando Silva e Vicente Celestino. Só feras!

Em agosto, numa das idas ao Cemitério da Saudade, parei no bolsão de estacionamento em frente e fitei por alguns minutos o busto de Cobrinha empunhando um violão na praça Vitório Angelo Cobra, Cobrinha. No local, de 1981 a 1988 ficou instalado o Monumento ao Soldado Constitucionalista, que retornou ao seu local de origem na praça José Bonifácio após acórdão com o Supremo Tribunal Federal. Na praça, lá está Cobrinha no alto do monumento olhando para o Cemitério e dedilhando para aqueles que hoje não mais estão no meio de nós.

Porém, o tempo é cruel. Ele acompanha o esquecimento de mãos dadas. O próprio poder público, que em julho de 1993, instituiu uma Semana em sua homenagem esqueceu desta festividade. Aproveite a vida, pois na morte, todos tomamos o caminho do esquecimento. E salve o “seu” Vitório !