Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba
A memória ainda me permite lembrar. “Este é o Maurício”, disse-me minha mãe Ivete referindo-se então para uma criança de sete anos. É quase certeza que a cena ocorre em 1974 e eu retornava à minha residência pelas mãos de meu avô Humberto após um passeio com os netos. Dos meus 1,15 de altura olho para cima e vejo uma figura que meu pai Edson constantemente citava em casa. O rosto da pessoa era um sorriso de orelha a orelha, e, engaçado, quando ria, os olhos se fechavam como se fosse um oriental. Tal pessoa, sempre simpática, era Maurício de Sousa, sim, o pai da Turma da Mônica.
Não
sei se foi a única vez que esteve em nossa residência, mas era motivo de
ligações e correspondência junto ao meu pai, desenhista profissional desde os
anos 1950. A ideia era levar Rontani pai para a Bidulândia, depois Maurício de
Sousa Produções. O “namoro” foi intenso e longo, mas não rendeu frutos. Rontani
pai tinha receio em deixar Piracicaba onde constituiu família e batalhava como
funcionário público inicialmente pela ESALQ e depois pelo CATI da Secretaria
Estadual de Agricultura.
Várias
cartas demonstravam o carinho deste ícone do quadrinismo nacional e
revolucionário do merchandising com sua turma que ia desde o Jotalhão, passando
pelo Bidu, Piteco e, claro, os mais populares como Mônica, Cebolinha e Cascão.
Em muitas destas cartas fazia referência à Caninha Tatuzinho, por aqui
produzida.
Estas
memórias me tomaram conta ao assistir a “Maurício de Sousa: O Filme”, 2025,
produzido pela Star e disponível na Disney+ após curta temporada nos cinemas.
Não caiu no gosto público, mas é uma viagem para quem conhece o trajeto da
história em quadrinhos no brasil e da luta de Maurício em sobreviver com
desenhos, tornando-se um ícone da arquitetura artística. Ele recebeu um sonoro
não quando estava no Grupo Folha, sendo que lhe falaram que ninguém iria viver
fazendo desenhos. Ledo engano!
Maurício
não teve vida fácil para alcançar o sucesso com o bico de pena. Foi
persistente. Tinha um dom natural para esta arte. Sabia fazer negócios. Surgiu
na época certa, com padrinhos do porte de Jayme Cortez, Ziraldo e outros. Os
Mesquita lhe estenderam o longo caminho da fama quando na primeira metade dos
anos 1960 criaram um suplemento educacional para crianças intitulado
“Folhinha”, ainda hoje impresso na Folha de São Paulo. Foi lá que o Rontani pai
desfilou uma capa, em 1965, mostrando uma pessoa pescando num lago numa ingênua
piada de salão ! Pudera ! Ele pescou uma botina ou algo assim. Começava assim a
amizade entre Rontani e Sousa, sendo o primeiro anteriormente flertado por
Adolfo e Naumin Aizen, proprietários da EBAL, que por décadas foi a
licenciadora no Brasil dos heróis da Marvel e da DC Comics.
O
filme tem uma ótima interpretação de Mauro Sousa, filho natural do homenageado.
Claro que toda sua composição é pura poesia, como vemos nos momentos em que a
musa inspiradora surge para a criação de seus personagens. Impossível crer que
ele ou qualquer humano se concentre para criar isso ou aquilo. É aí que as
ideias correm e não se concretizam. As ideias surgem de ideais que por sua vez,
surgem do improviso, da distração e principalmente dos erros.
Não
há por dizer que Maurício tenha sido original de uma fórmula utilizada desde os
anos 1950 nos quadrinhos norte-americanos. Lembra da quadrinista Marge que nos
anos 1935 criou Luluzinha e com ela trouxe Bolinha e seu clube só de meninos?
Ou de Charles Schulz na turma do Minduim com Charlie Brown, Woodstock, Marcie,
Paty Pimentinha e até o sujinho personagem que lembrava o Cascão ?
Cinema
é escapismo, dirão uns. Cinema é a personificação do alterego, dirão outros.
Porém, a indústria cinematográfica consegue atingir em cheio uma catarse
necessária para nós humanos.
Me
lembro como se fosse hoje de outro prazer trazido por Maurício de Sousa: a
revista Pelezinho, da Editora Abril. Enfim, um herói com raízes brasileiras.
Quantas vezes não esperei chegar um novo exemplar na banca situada no largo do
Mercado Municipal.
Uma
das últimas, senão a última, visitas a Piracicaba de nosso mestre ocorreu em
2017, quase dez anos atrás, quando veio a Engenho Central participar do Salão
de Humor de Piracicaba. Muitas raízes Sousa deixou fincadas em nossa terra.
