Páginas

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Mácula ao luto piracicabano

 Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba





Muito terrível. Nos dias em que se lembrou o 9 de julho deste ano, chega a informação de que foi subtraída uma peça no Mausoléu ao Soldado Constitucionalista do Cemitério da Saudade. Uma situação que mexe com o luto das famílias que perderam seus entes 94 anos atrás. A peça subtraída era uma espada representando a infantaria dos “voluntários de Piracicaba” que partiram para os fronts de batalha em busca de um ideal: a democracia.

A peça foi feita em bronze, assim como outros ornamentos que compõem o jazigo onde repousam na eternidade piracicabanos que perderam suas vidas por uma causa nobre. Mexe em muito com o âmago de pessoas como eu, que tive um tio-avô colhido em vida pela causa constitucionalista. Natal Meira Barros, faleceu na segunda quinzena de agosto de 1932, em Registro, no Hospital do Sangue da cidade, três dias após levar um tiro de raspão que lhe rompeu a jugular. Com o sangramento, perde tudo ... circulação sanguínea, esperança e a vida ! Com apenas 17 anos, fugindo de casa para se alistar como “voluntário piracicabano” está no Mausoléu. Hoje, furtaram sua dignidade, seu repouso eterno, sua esperança de um Brasil melhor.

Natal serviu o 2° Batalhão de Funcionários Públicos que dominara a cidade de Pinheiros. Viveu entrincheirado por dias. Os restos mortais do jovem Natal chegam em caixão na Estação da Paulista. Os irmãos, na casa dos 6 aos 12 anos, não sabiam ao certo o que havia ocorrido. A casa dos Meira Barros entristeceu por muito tempo. Tempo este que não apaga a dor. Judith e sua irmã Julieta por décadas mantiveram o ideal de Natal, com visitas ao Mausoléu, participando das atividades do 9 de julho e jurando viver até o fim de seus dias propagando o ideal do jovem de 17 anos que abandonou carreira e família para ter seu nome na lembrança de 1932. Jaz no Cemitério da Saudade e tem seu nome estampado em Travessa situada no bairro Higienópolis, em Piracicaba, e em rua no Jardim Aricanduva em São Paulo.

Uma peça de metal já não mais faz parte do Mausoléu na Saudade. Sabe-se lá para onde foi. Apenas, supõe-se. Porém, sabe-se que tal peça foi furtada durante a madrugada e, cremos, deverá ser vendida para que fundida tome outras formas. São quase 100 anos de contemplação num projeto arquitetônico construído no próprio ano de 1932 e que anualmente havia motivado peregrinações de familiares. Uma dessas pessoas que chorou diante do jazigo foi Yvone Meira Barros, irmã de Natal, que também morreu em tenra juventude por depressão ao perder o jovem irmão. A questão: “como dormirão os responsáveis pelo sumiço de uma peça que compôs uma espada empunhada para cutucar e matar as forças federais de Getúlio Vargas em 32, como tivesse o papel de uma baioneta?”. Será que dormirão tranquilos? Creio que sim, por história não faz parte do intelecto de alguém que afronta a história.

O Mausoléu dos Voluntários de Piracicaba tem pouca história conhecida, apesar de sua veneração. A Gazeta de Piracicaba, 30 de outubro de 1932, cita uma romaria aos túmulos dos voluntários piracicabanos, dizendo: “Os abaixo assignados, componentes do Batalhão Piracicabano vêm, por este meio, convidar a todos os seus companheiros de lucta e demais voluntarios para, incorporados, prestarem uma homenagem á memoria dos bravos piracicabanos que tombaram no campo de batalha, em defesa da causa sagrada que S. Paulo esposou.

Essa homenagem constará de uma romaria ao Cemiterio Municipal, no proximo dia 2 de novembro (Finados).

Para esse fim, todos os que tomaram parte na campanha deverão reunir-se ás 9 horas no Largo da Matriz. Este convite se extende tambem ás associações exittentes (sic) na cidade e ao povo em geral.

(aa) Dr. Jacob Diehl Neto, Prof. Benedicto Rodrigues de Moraes, Lauro Alves Catulé de Almeida, Thomaz Whately, Ary Machado de Britto, Rubens Pereira Lima 

E, assim, mais uma vez, a história caminha para seu esquecimento.


(Publicado no Jornal de Piracicaba de 19 de julho de 2026)

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Omnes similes sumus

Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

O título me lembra uma aula que tive nos anos 1980 na Escola Estadual Dr. Jorge Coury. O professor era Franscislídio Beduschi que também lecionava no ensino particular. Ele foi responsável pelas matérias – extintas com o tempo – “Organização social e política do Brasil” e “Educação moral e cívica”. Num destes encontros vespertino com os alunos ele, no mais profundo de seu conhecimento, dispara:

- “Quem sabe o que está escrito no frontispício do Cemitério da Saudade?”

Grande maioria dos alunos ficou pensando o que seria frontispício, que em muito rimava com hospício e daí os risos na sala de aula. Frontispício, disse ele, na área de arquitetura, é a entrada decorada de um edifício e na Saudade está a inscrição “Omnes similes sumus”, ou “somos todos iguais”, numa tradução para lembrar que na morte não há distinção. Todos, somos iguais.

Muito menos dolorido que em Paraibuna, São Paulo, cujo cemitério traz em sua entrada a inscrição “Nós que aqui estamos por vós esperamos”. Dizem que a frase veio de padres europeus no contexto de que “nós que aqui estamos, esperamos por vossas orações”.

Mas, tradições e lendas à parte. Em breve, o IHGP republicará um trabalho importante dos autores Maurício Beraldo e Paulo Tot Pinto, dupla que possui talento e vocação para falar sobre o mais que centenário Cemitério da Saudade. São dois estudiosos que merecem aplausos da sociedade piracicabana. E o IHGP com esta republicação espera estar preenchendo uma lacuna sobre este local que atrai curiosidade por seu contexto arquitetônico e também pelas personalidades nele sepultadas, além, claro, de ser ponto de devoção por aqueles que já partiram deste mundo.

Piracicaba tem cemitérios centenários, reconhecidos ou não. O Cemitério da Saudade tem mais de 150 anos. Continua sendo motivo de devoção, de casa para felinos domésticos, de visitas dos “amigos do alheio” e também de ponto de visitação pela arte cemiterial que proporciona. Nele estão sepultadas personalidades importantes que trabalharam para a construção da sociedade local. Nele estão monumentos considerados verdadeiras obras de arte, as quais merecem nossa admiração e estudo. Não é à toa, que anos atrás foi encenada em plena meia-noite a peça “Vozes do Comurba” com grande sucesso. Hoje são sucesso as visitas noturnas ao cemitério, tornando claro que não se deve ter medo com os mortos e sim com os vivos. Essas visitas noturnas unem o inesperado com o temido e, em especial, com o assombroso, o qual é dominado em conjunto pelas dezenas de pessoas que visitam suas ruas com lanternas e sempre na expectativa do que virão pela frente.

Confesso que anos atrás via grupos se formarem para conhecer e discutirem tal arte cemiterial. Tinha pavor. Com o tempo passei a nota que muitos jazigos trazem uma história rica sobre a pessoa ali sepultada. Tomemos por base o mausoléu de Almeida Júnior, pintor sediado em Itu, morto em Piracicaba pelo marido de sua prima em frente ao Hotel Central, na praça José Bonifácio. Seu contexto arquitetônico é magnífico, rendendo momentos de reflexão e contemplação. Esse é apenas um dos vários exemplos. Temos também a quadra das vítimas do Comurba. Temos um presidente da República aqui sepultado. Temos prefeitos. Enfim, é uma história viva sobre os mortos. Pessoas que deram muito de si para termos essa Piracicaba fortalecida na qual vivemos.

“Somos todos iguais” que em breve será colocado a disposição do leitor nos ajuda nestas reflexões. É um roteiro das principais personalidades sepultadas na Saudade.

Que seja a todos um ótimo livro de cabeceira para conhecer histórias, lendas e tradições locais.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 14 de junho de 2026)

 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Memórias recentes - 2

Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Na coluna anterior, relembrei três fatos que vivi nos anos 1990. Talvez, todos desconhecidos da grande população. Foram poucas as pessoas que estiveram ao meu lado durante o ocorrido e, involuntariamente, servi como testemunha ocular dos fatos. Vamos para mais alguns.

Ordem ao coronel - Falecido dia 17 de fevereiro do ano passado, Carlos Miranda notabilizou-se como o “Vigilante Rodoviário” na série televisiva dos anos 1960. Em 1993, esteve em Piracicaba a pedido da Polícia Rodoviária do Estado, base local. A intenção era dele, enquanto coronel da Polícia Militar Rodoviária Estadual, abrir uma exposição sobre acidentes nas rodovias, realizado no Shopping Center Piracicaba onde está hoje a praça de alimentação. E lá veio, de Itanhaém, onde residia. Foi recebido pelo policial Guedes (Luiz Antônio Guedes de Moura), que estudava jornalismo na Unimep e exercia a função de assessor de comunicação de uma base na região. 

Miranda posou com muitas pessoas ao lado do seu veículo Simca Chambord, similar ao do seriado. Repentinamente, começa a queixar-se dos coturnos que lhe matavam os pés. Tira um imenso canivete e começa a recortar as botinas. Romualdo José Briganti, professor Babi, renomado no ensino e cinéfilo adorador do personagem, solta um berro que parou o Shopping: “por favor, senhor Vigilante ! Não faça isso !!!”. Miranda queixa-se do calçado que lhe aperta os pés, tira as duas botinas e entrega a Babi. Este, esboça um sorriso tremendo por ter sua memorábilia os coturnos de seu ídolo televisivo. Sai abraçado ao par de pisantes. E o coronel, outrora vigilante das rodovias ao lado do fiel cão Lobo, parte pelo Shopping caminhando pelos corredores com sua indumentária de policial rodoviário da TV apenas de meias...

Maravilha - Foi numa sexta feira que antecedeu o Carnaval de Piracicaba. Deve ter sido em 1991 ou 1992. O cenário era o saguão do Beira Rio Palace Hotel, por volta das 18 horas. Havia na ocasião uma coletiva de imprensa para falar sobre o Carnaval daquele ano. 

No sofá, toda colorida e simpática estava a atriz Elke Maravilha, contratada pela Prefeitura para animar a folia daquele ano. Apresentação daqui, falatório dali, Elke passa a dar atenção aos representantes das mídias de forma individual. 

Eis que o repórter da Rádio Alvorada lhe pergunta como ela via Piracicaba sem Carnaval de rua naquele ano. Ela, na maravilha que lhe tornou peculiar na TV, solta um alto e estrondoso: “Como não vamos ter Carnaval ??? O que vim fazer aqui, então???”.

Silêncio no salão, até que um assessor vem e acalma a jurada do Cassino do Chacrinha: “não teremos Carnaval de rua, mas teremos blocos carnavalescos e bailes noturnos que se concentrarão em determinados locais da cidade”. E assim Piracicaba maravilhou-se com Elke naquele ano.

Encontros – Como jornalista e profissional da Rádio Difusora e Rádio Alvorada, participei de vários encontros com os artistas de grande renome dos anos 1980 e 1990. Alguns deles foram Edwin Louise (da novela “Princesa Isabel”), os membros do grupo Casseta e Planeta entre outros. Um dos casos mais “saia justa” ocorre nos estúdios da Rádio Alvorada AM, cuja frequência é hoje ocupada pela Jovem Pan News. Na ocasião, estava em Piracicaba Mário Lago, ator de renome nas novelas da TV Globo e musicista – foi ele quem compôs “Amélia” (...aquilo sim que era mulher de verdade...). Lago aparece no estúdio da emissora acompanhado de assessores da Secretaria de Cultura. O locutor de plantão, sem saber o que abordar, no meio do bate-papo diz: “como o senhor tem conhecimento...”. Lago diz de uma forma bem ríspida: “meu jovem, eu com mais de 60 anos de atuação e 80 anos de vida se não souber como as coisas são não estaria aqui onde estou”. Eis que repentinamente, uma lágrima escorre do locutor, que tem a boca seca e exclama: “nossos comerciais, por favor”. Quem souber outra, que conte !



 

domingo, 24 de maio de 2026

Memórias recentes

Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 


A vida é feita de memórias. Muitas vezes, é melhor colocar essas memórias no papel para evitar lapsos ou esquecimentos. Algumas delas são curiosas e engraçadas, valendo compartilha-las.

Vista longa - A memória pode falhar, mas talvez em 1994, um famoso político veio a Piracicaba apoiar candidatos que concorriam a vagas para deputado estadual e deputado federal. Foi recebido pela comitiva no estacionamento do Zilliat Shopping Center, onde hoje é o estacionamento do Supermercado Jau Serve. Passaria pelo interior do Shopping e na sequência percorreria o Mercado Municipal para se expor diante dos comerciantes e consumidores.

Isso tudo acabou ocorrendo. O fato é: quando chegou ao estacionamento, possivelmente num Comodoro cor preta, a comitiva não soube onde enfiar a cara. Estava em construção o Edifício Central Parque vizinho de parede com o Zilliat.

A obra tinha diversos trabalhadores que davam a forma final do prédio. Eis que lá do alto, ouve-se um uníssono “LADRÃO”!!! Um simples trabalhador da construção civil reconheceu o político e soltou esta pérola. Membros da comitiva se contiveram seriamente para não estragar a recepção. Mas que depois foi motivo de discussão nas rodinhas, isso ninguém pode negar.

Discussão – Novembro de 1996. O local era a escadaria do Ginásio Municipal de Esportes Waldemar Blatkauskas, ao lado do Estádio Barão da Serra Negra. Horário: por volta das 18h40. Ocorria a apuração das eleições municipais que demorava dias para ser finalizada. Emissoras de rádio marcavam presença destinando sua programação para a apuração. A contagem dos votos era manual e muitas vezes exigia uma revisão para referendar tal urna ou seção de votação.

A equipe da Rádio Alvorada estava a postos até que chega um senhor e pergunta: “Quem é o responsável por isso aqui? Aquele indivíduo – apontando o locutor de plantão – está acabando publicamente com minha imagem”. O locutor que estava ao vivo e percebendo a intenção, talvez por serem desafetos, desliga o microfone e começa a bradar: “falo mesmo sobre você com toda categoria que lhe é pertinente”. Ambos chegam próximos e passam a discutir até que o primeiro arranca da mão do locutor um microfone pesado, dobrável, estilo “boca de jacaré”, e atira-o na cabeça do locutor. Este, que usava brilhantina sofre o impacto e, por mais irônico que pareça, parte de seu cabelo vem à frente como uma ave ouriçada tipo cacatua quando busca briga. Ao jogar o microfone, o ofendido o desligou do cabeamento de transmissão deixando a emissora num silêncio sepulcral.

De longe, via-se cerca de seis policiais militares em célere caminhar direcionando-se à balbúrdia. Quase todos foram para a delegacia explicar o ocorrido. Os dois senhores do embate viram-se um de costa para o outro seguem sua vida. Minutos após a emissora retorna ao ar com “A Voz do Brasil”.

Fim da surpresa - Era a Festa das Nações por volta de 1993 ou 1994. O evento ocorria em dois finais de semana e apresentava mega shows que atraiam multidões. Numa destas noites iria se apresentar Fábio Jr., renomado ator e músico, consagrado com milhares de discos vendidos.

A multidão de fãs se aglomerava próximo ao camarim do palco que ficava à esquerda da plateia. Era o único caminho para entrar no palco e realizar sua apresentação. Tietes aos montes.

Eis que chegam duas viaturas da Polícia Militar. A primeira estaciona e saem seus ocupantes. Na segunda, uma pessoa acenando as mãos chama a atenção das fãs que gritam “é o Fábio ... lindo, bonito, gostosão, nós viemos aqui para te ver”.

A viatura para, sai um homem coberto por um paletó. Ao tirar o paletó, um policial militar. Fábio Júnior estava no primeiro carro e entrou na surdina. Frustação total ... Todos tiveram que se contentar em vê-lo apenas no palco acima da plateia.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 24 de maio de 2026)

terça-feira, 19 de maio de 2026

Ad perpetuam memoriam rei

Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Cena principal: A banda musical se prepara, toda de branco, com seus quepes brancos, esperando o sinal do maestro para começar o repertório musical. Ninguém aguentava o calor que fazia em Piracicaba. No meio do público, aglomeração generalizada, alguém solta: “será que terá boca-livre?”.

Bom. É imaginação. Mas, a cena pode ter ocorrido durante a inauguração de uma placa de bronze, de um monumento ou talvez uma inauguração qualquer. Pode ser sido recentemente ou, provavelmente, muitos e muitos anos atrás.

Pode ter ocorrido durante inauguração, no final dos anos 1950, quando Luciano Guidotti foi homenageado com placa que ainda hoje existe no Mercado Municipal com a inscrição “Ad perpetuam memoriam rei”, ao prefeito que dedicou-se à canalização do Ribeirão do Itapeva.

Confesso que a última inauguração de um monumento da qual participei foi a pouco mais de oito anos atrás, quando Piracicaba completou 250 anos e, no Engenho Central, foi inaugurado o Marco Zero de Piracicaba, ou algo assim. Uma pedra referenciando o ponto de partida de onde surgiu nosso querido município.

Monumentos, coretos, obeliscos, jazigos ... Muitos deles estão instalados em nossa cidade. Em todos os bairros. O próprio Jornal de Piracicaba os catalogou em 2017 numa coluna chamada “Memória e História Esculpida” explicando o que é aquela mãe com duas crianças na entrada do Mirante ou quem fez o pórtico colorido da ESALQ representado por trabalhadores rurais. Um trabalho necessário para que a história e seus autores não caiam no esquecimento. Assim como o próprio JP fez com nossa pinacoteca a céu aberto: as paredes do Cemitério da Saudade, publicando livro com obras na parede assinadas por vários autores.

O avançar da sociedade, já no final dos anos 1970, clamava por modernidade. “Então, vamos tirar todos os monumentos da praça José Bonifácio, a praça central da cidade, levando um ar mais novo para o calçadão planejado”, pensou alguém. Lá foram alguns monumentos. Alguns ficaram e ainda estão lá, como o que homenageia Luiz de Queiroz. Mas saíram o monumento a Mário Dedini (hoje em frente a Igreja Imaculada Conceição da Vila Rezende) ou o monumento ao Soldado Constitucionalista. Este, uma obra do italiano Lélio Coluccini, foi erigido com doações do povo que se cotizou para manter viva a memória dos piracicabanos que faleceram na Revolução Constitucionalista de 1932. Sua inauguração ocorreu em 7 de setembro de 1938. Ele foi desmontado e peça por peça foi levado e montado na praça situada em frente ao Cemitério da Saudade. Ego ferido, muitos piracicabanos não se contentaram com a iniciativa. “Imagina ! Mexer com o luto de muitas famílias que perderam seus entes queridos que partiram defronte do Teatro Santo Estêvão, local onde estava o Monumento!”, pensou alguém. Até que em 1988, por decisão do Supremo Tribunal Federal, tal Monumento retorna a praça José Bonifácio. Transporte difícil, pedra por pedra, pedaço de bronze por pedaço, e com ele, o intangível: a alma dos piracicabanos que tombaram pela democracia a qual ainda hoje respiramos.

Monumentos, obeliscos, edifícios ... Há uma áurea especial em preservá-los principalmente por sua arquitetura que representa uma nostalgia ou um trabalho com afinco que enche nossos olhos quando, por exemplo, vemos as gárgulas existentes na Escola Estadual Barão do Rio Branco, no Centro. Ou pensar em dois monumentos que sumiram com o tempo: o Obelisco dos anos 1950 instalado em frente ao Ginásio Waldemar Blatkauskas durante os Jogos do Obelisco ou o Monumento aos 200 anos de Piracicaba erigido em frente a Casa do Povoador. Mistérios que ainda sondam nossa cidade ....

Aí chegamos no ponto mais nevrálgico possível. Triste ponto. A quem compete a preservação disso tudo? Se uma lixeira é colocada pelo poder público para que não joguemos lixo na rua, trabalha-se com a educação. Porém, houve investimento financeiro para sua compra. Quem financia o poder público? O cidadão com seus impostos. Não precisa ser falado mais nada. Preservar um bem público é papel do cidadão. Pirâmides no Egito, Corcovado no Rio de Janeiro ou Torre Eiffel em Paris. São fontes de renda para o turismo? São, sim! Se não preservarmos não temos este turismo e com ele a economia não gira.

Resumindo, que tal cada um cuidar do seu monumento, do seu obelisco, do seu coreto? A história e a sociedade agradecem!

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 17 de junho de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 23 de maio de 2026)

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Passado preservado

 Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Foram muitas as ideias e as promessas. Lembro-me que, quando entrei no Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, ouvi a promessa de digitalizar o acervo deste importante centro cultural. A promessa veio do poder público. Ao lembrar que ouvi isso em abril de 2010, noto que a ideia ficou apenas no papel. Já faz muito tempo.

No dia 28 de março, o IHGP em conjunto com a iniciativa privada, disponibilizou mais de 8 mil imagens do jornal “Gazeta de Piracicaba”, periódico trissemanal que circulou de 1882 a 1938. A coleção não está completa, mas tem quase sua totalidade. E o material disponível ecoa a história de Piracicaba na época do Império até a segunda Constituição Federal promulgada por Getúlio Vargas. Claro que ela passa por décadas e mais décadas de registros do que ocorreu em nossa cidade. Estas imagens podem ser lidas, consultadas e baixadas a partir do site do IHGP. Tudo de forma gratuita.

A “Gazeta” foi importante centro de informação de uma Piracicaba provinciana. Foi consultada por dezenas de jornalistas, professores, estudiosos, pesquisadores, historiadores ... Praticamente os principais acontecimentos foram nela estampados. O jornal foi por muito tempo o único veículo de comunicação de Piracicaba.

Em suas páginas é possível conferir como a cidade recebeu a notícia do assassinato de Almeida Júnior, contemplado pelo mecenato de Dom Pedro 2º e autor das principais telas a óleo do país, com reconhecimento internacional. Almeida foi morto por golpes de adaga na praça José Bonifácio em frente ao Hotel Central quando o marido de sua prima descobriu uma traição conjugal.

Brasílio Machado também conseguiu destaque através das páginas deste jornal com seu poema “Piracicaba”, dando a Piracicaba o epíteto de “Noiva da Colina”. Inicialmente ele havia publicado o poema em um livro, “Madresilvas”, edição portuguesa de 1876, mas foi na “Gazeta” que ele conseguiu repercussão maior. Não há de se negar que tenha dado certo.

O jornal é fonte importante do mercado publicitário. Passaram por suas páginas as principais empresas locais. Curioso é ver os restaurantes e hotéis oferecendo seus serviços e sua gastronomia. “Suculentos bifes com deliciosas batatas em qualquer horário do dia”, dizia um. “Hotel no Centro com bebedouro para cavalos na praça do entorno”, dizia outro. Pelas artes publicitárias é curioso conhecer um mercado distante com empresas que não mais existem ou deixaram sua marca como o Hotel Lago, de Manoel do Lago, tio de Mário Lago – ator da Globo e autor de “Ai que saudade de Amélia”.

Foi neste matutino que se soube que Piracicaba recebeu o primeiro filme de cinema 130 anos atrás – a serem lembrados em outubro próximo. Isso ocorre dez meses após a apresentação do novo equipamento em Paris por Auguste e Louis Loumière. Um barracão improvisado próximo a Matriz na hoje rua Moraes Barros, possivelmente no estacionamento do extinto Banco Santander. Klene e Mewe trazem a cidade o cinematógrafo, o espectro cinematográfico, que apresentaria um mundo nunca imaginado pelas pessoas. Filmetes curtos de animais correndo, trem chegando a estação e assim por diante fizeram a primeira sessão numa magnífica avant-premiére.

No acervo disponível é possível ver a trajetória de Martha Watts, Prudente de Moraes e outros personagens que moldaram a sociedade local. É possível acompanhar como foi a instalação da iluminação elétrica nas ruas da cidade. Claro que o jornalismo não era o que mesmo que conhecemos atualmente ou de tempos mais recentes. As informações eram bem rasas e cheias de adjetivos. Poucos nomes eram citados. Mas o conteúdo serve de base para muito conhecimento. E que, com o acervo digitalizado e disponibilizado, possa-se reescrever e descobrir histórias de Piracicaba.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Ano seis

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

- Morreu de que ?

- Morreu de covid.

- Ué ? Mas ainda se morre de covid ?

- Sim.

Tive esta conversa com um amigo mês passado, fevereiro de 2026. Isso ocorreu seis anos depois do primeiro caso da covid 19 ser registrada em Piracicaba. Passou tanto tempo que deu até para esquecer que ainda estamos na pandemia provocada pelo sars cov 2. Talvez tenhamos nos tornados mais resistentes, ou o vírus tenha enfraquecido.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, foram 48 mil novos casos de covid no Mundo nos 28 dias iniciados em 15 de janeiro passado. O Brasil lidera o ranking de países afetados, com 18 mil casos. No mesmo período, foram 1,6 milhão de mortes, liderados pelos Estados Unidos com 1,4 milhão. O Brasil reportou à OMS que em 28 dias, faleceram 33 pessoas pelo vírus.

Talvez o período pandêmico seja algo que todos querem se esquecer. Primeiro por termos vivido tal período. Segundo por ser algo muito recente, ainda em curso. Em dezembro de 2019 víamos os noticiários das mortes desenfreadas na China. Depois víamos carros de bombeiro levando caixões e mais caixões pela Europa. E pensávamos o que ? “Está longe. Nunca chegará até nós”. E chegou. Veio à nossa vizinhança e à nossa família. Chegou a atingir nós mesmos !

Me trouxe um sentimento de impotência ao ver dias desses, banners imensos da Festa de São José que retorna à Estação da Paulista, onde ocorreu por um final de semana em março de 2020. Inicialmente estava programada para dois finais de semana. Mas as normas sanitárias impediam a circulação e aglomeração. Parecia ser impossível, mas o Shopping Piracicaba anunciara semanas antes que fecharia suas portas por tempo indeterminado.

O início da pandemia foi algo conflituante. Tudo para, tudo fechado. Nada de festa, nada de balada, nada de pizzaria. Nem aniversário adiantava fazer, pois os convidados não apareciam. O medo se instalou em todas as camadas sociais. E a vacina contra este vilão vem ou não vem ? Mas vem de qual país ? Qual é mais eficiente ? Surgem as lives na televisão, no streaming, aumentam as vendas de alimentos e entregas pelos aplicativos de celulares. Jogos, novelas, programas de televisão são cancelados. E voltam as reprises. Mas assistir à final da Copa do Mundo de 20 anos atrás, num domingo a tarde, era para afundar ainda mais o tédio ou coçar a depressão.

Daí voltamos ao ponto de partida. Ninguém mais passa álcool gel com a intenção de desinfectar-se. Alguns o usam como forma de limpeza, esquecendo que ele é apenas um paliativo para quando não se tem sabonete e água corrente. Espirramos ou tossimos sem a preocupação com o próximo ou ainda de irmos ao lavabo assear as mãos. Até as maçanetas pegamos como antes, sem lembrar que elas são grandes propagadores de determinadas doenças. Lembra quando deixávamos o jornal no sol para matar o vírus, ou aquela pessoa que o esquentava com um ferro de passar roupa ? Se a covid não morrer por bem, morrerá pelo calor. Havia também quem chegasse do supermercado e em casa lavasse cada item, esfregando nele uma esponja como a mãe que tira a sujeira atrás da orelha da criança. Fizemos apenas um modismo ou ainda hoje praticamos isso?

O certo é que, neste sexto ano, aprendemos e desaprendemos muitas coisas. Algumas delas essenciais para nossa sobrevivência, pela manutenção da vida dos nossos semelhantes. Será que aprendemos ? Ou já esquecemos que ainda se morre pela Covid?

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 08 de março de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 14 de março de 2026)

domingo, 1 de março de 2026

Similes sumos símios

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 


Esta semana, “a casa mais vigiada do Brasil” perdeu a liderança do Ibope. Tomou seu lugar o zoológico mais vigiado do planeta, aquele onde está o macaquinho Punch. O macaco-japonês nasceu em julho passado, e é alvo do interesse das pessoas no Zoológico de Ichikawa, no Japão.

A imagem deste macaco bebê dentro de um cubo de concreto, mobilizou os olhares piedosos de muita gente. Pela internet, pudemos acompanhar e cair aos prantos pela rejeição feita por sua mãe, que o jogou à berlinda do grupo de macacos que ocupa uma grande cela.

Até aí, nada de novo. Desde que o ser humano se reconhece por ser humano, a rejeição faz parte de sua linearidade na Terra. O que não existiu ao longo dos milênios foi o processo midiático do qual Punch pode ser considerado uma vítima. Aliás, vítima do que? De um voyeurismo que não dará em nada na sua aceitação diante do seu grupo social? Ou da emoção do ser humano como se estivesse assistindo à um novelão mexicano a la SBT?

A rejeição das pessoas é histórica. A exclusão social está explícita em muitos livros. Servem de base para uma discussão ao menos forjada numa mesa de bar. O instinto coletivo nos permeia com críticas vorazes ao que um grupo de jovens supostamente teria feito ao cão Orelha. Ou ainda, num microcosmo mais próximos de nós mesmos, à capivara que cresceu com uma argola em seu peito. Onde estaria ela? Podemos ajudar? Vamos montar armadilhas para pegá-la e cortar aquele infortúnio que lhe reduz as condições respiratórias e musculares. Aliás, tal capivara também foi abandonada pelo grupo, num instinto de que poderia colocar em risco seu bando. E quem chorou por esta capivara tão próxima de nós ? Mas muitos derramaram lágrimas pelo Punch que está do outro lado do Mundo.

O universo midiático tem disso. Só sentimos compaixão por aquilo que vemos, seja uma residência desabando em Goiás, seja por um assalto registrado por câmeras de segurança na rua, seja por alguém chutando um cão comunitário... Confesso que ultimamente tenho sentido medo, pois jogo grãos de arroz para pombas que passeiam pelos restaurantes os quais frequento.

Existem condições psicológicas, psicodramáticas e psíquicas nas quais não quero entrar em detalhes aqui. Até porque sou um mero jornalista, dono de um “parpite” que pode não coincidir com seu pensamento. Por que dar atenção a um macaquinho desprezado pela mãe se na sua esquina uma criança sofre nas mãos de seus pais? Existe algo que podemos colocar com ponto de discussão que é a sensação de “sozinho na multidão”, ou o pensar diferente, sair da “caixinha” comum. Quem pensa diferente é o “estranho”, é o “biruta”, é o “que vive no mundo da lua”. Então, viver o dia todo abraçado num orangotango criado por uma grife da moda, a Ikea, é valer-se do merchandising, e ter seus “dez minutos de fama”, como diria Andy Warhol. De forma inconsciente, claro. Daqui uns dias, “a casa mais vigiada do Brasil” volta a ser a mais vigiada. O macaco-japonês num estalar dos dedos vira adulto e ninguém mais se lembra dele. De coitadinho passa a praticar o mesmo bullying com outros bebês macacos.

Mas, convenhamos. Esse processo midiático está colocando a situação na frente de nossos narizes. Ou melhor, na ponta de nossos dedos, através dos smartphones.  

Houve um episódio de um seriado de TV em que, durante a “Guerra Fria”, um ser humano é lançado em órbita. Chega a um planeta desconhecido e é bem recebido. Lhe dão uma casa com uma TV imensa, uma cozinha com os melhores equipamentos, uma lareira na sala... Até que, em certo momento, ele tenta abrir uma porta e uma janela. Não consegue. Em poucos segundos, uma barreira abre e todos estão contemplando uma jaula com ... um “terráqueo”. Zoológico interplanetário. Um ser humano preso. Afinal, símiles sumos símios...

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 01 de março de 2026)