Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba
Noventa
e quatro anos atrás Piracicaba recebia tristes notícias. Em setembro de 1932,
estava em curso, havia dois meses, a Revolução Constitucionalista.
Semanalmente, a cidade chorava pelos seus filhos mortos. A bestialidade humana
parava a sociedade que, de longe, assistia o sofrimento de piracicabanos ou
membros incluídos no Batalhão Piracicabano que defendia o setor norte do estado
de São Paulo, evitando avanço das forças federais de Getúlio Vargas. Estas
forças viriam com arrogância tremenda sufocar os “rebeldes” neste que foi o
último levante social armado do Brasil.
Foram
vitimados piracicabanos e outros representantes do estado de São Paulo.
Setembro deixava uma conta amarga: Alexandre Petta, Antenor de Barros César,
Claudionor Barbieri, Francisco Honório de Souza, João Sampaio, Lauro de Barros
Penteado e Romário de Mello Nery. Foram alguns piracicabanos, outros passaram
por Piracicaba para trabalhar ou estudar, e teve também aquele que foi
incorporado ao Batalhão que levou o nome de nossa cidade na Revolução de 1932.
A
cidade assistia às ações com determinada distância – geográfica, diga-se de
passagem. O relato para a cidade era feito em cartas despachadas de distantes
cidades, entregues ao Correio Militar MMDC e que viajava de veículo automotor
até chegar ao seu destino/destinatário. São Paulo foi o único Estado a ter três
serviços do correio: o oficial mantido pelo governo federal, o estadual para
civis e o Militar MMDC. Todos passavam por censura. Os que passavam pela mão do
correio federal mau chegavam ao seu destino em São Paulo. Era uma forma de
evitar passar informações ao inimigo. As demais demoravam semanas para serem
entregues.
No
início de setembro, Piracicaba recebe carta do 2º. sargento Juvenal Fernandes
de Oliveira comandante do pelotão piracicabano destinada ao sr. Luiz Dias
Gonzaga, Prefeito Municipal. Ele relata: “Completamos hoje o nosso trigesimo
dia de trincheira, no alto da Serra da Mantiqueira, dois quilômetros dentro do
territorio mineiro. Por isso, quero justamente elogiar a demonstração de
altivez, nobreza de caracter, disciplina, cumprimento fiel do dever,
extraordinaria resistencia ao frio, á geada, á chuva, ao tufão, com suas
rajadas de gelar o corpo humano, que são os peores inimigos dos meus heroicos
comandados: Nelson Nobrega, Cassio Ferraz Sampaio, Celso Barbosa Ferraz,
Henrique Nehring, Edgard e Nelson Ferraz Cotrim, Oswaldo Miller, o bravo
“mascotte” que é de uma coragem extraordinaria, Joaquim Rodrigues Gaspar,
Christovam Bettoni, José Bassan, Dorival Dias de Toledo e Antonio Pacheco, que
sabem affrontar a morte sempre com um sorriso nos labios.”.
Outra
carta “Do jovem Lazaro, valente voluntario de 16 annos apenas, ao seu pae, sr.
Sebastião Figueira Bueno: Barra Grande, 2-9-932, (...) Estive 5 dias com dòr de
ouvido, mais (sic) não foi nada; agora estou bem. Resolvi para as trincheiras;
não me acostumo a ficar sem meus companheiros, pois com elles a vida passa mais
alegremente.”. Foi publicada no jornal O Momento de 7 de setembro de 1932.
Mais
uma: “Saudações por mãos do nosso companheiro Antonio Alexandre recebemos os
“capuzes” que a vossa bondade patriotica nos enviou. Nesta serra, onde o clima
tem qualquer cousa de indomável, a vossa offerta veio completar o nosso
aparelhamento de defesa. E, nas noites de geada, tufão ou chuva, na mente das
sentinellas que ficam ao relento, vigiando pelos companheiros, são renovados
constantemente os nossos agradecimentos. Carta de Nelson Nobrega a Lucila
Zanotta.” (Gazeta de Piracicaba, 9 de setembro de 1932).
A
imprensa local era o ponto de elevação da moral. A sociedade se guiava pelos
informes dos jornais impressos e pelas notícias recebidas pelo rádio de outras
cidades. Na cidade não havia TV nem emissora de rádio. A informação era passada
de boca a boca ou pelo papel como o jornal ou telegrama.
Havia
momento de civismo como escreveu em carta de “Silveiras, 7 de Setembro de 1932.
Hoje, mesmo nas trincheiras commemoramos a data de nossa independência.
Suspendemos o fogo e, todos reunidos, em formatura, prestamos continencia a
Bandeiram que foi hasteada sobre as trincheiras, ao som dos clarins. Depois
cantámos o hymno Nacional e voltamos para o nosso posto. QUIZINHO, carta de
Joaquim Norberto Junior (O Momento, 10 de setembro de 1932).
Vivia-se
uma utopia que não imaginava-se que estava no fim. Semana que vem vamos
esclarecer.


