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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Correr atrás do tempo

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Este ano poderei cumprimentar uns poucos amigos que aniversariam em 29 de fevereiro. Ironia proporcionada a cada quatro anos. Mas, por que perseguimos tanto o tempo ? Ilusório ele é. Convencionalismo que nos ensinaram a agarramos após a Revolução Industrial, que criou o dia dividido em três fases de 8 horas para trabalhar, dormir e curtir a família. Algo tão ilusório quanto falarmos que estamos no ano 2024. Não se pode negar que estamos sim, porém da Era Cristã. A história do Mundo e do ser humano é mais antiga.

A contagem do tempo é universal e não vem de hoje. Curioso é ver o espanto de um amigo de meia idade quando falei sobre rotação e translação da Terra, algo que ele, pasmo, pareceu-me não saber do que eu falava. Didática aprendida no primário, nas carteiras do Colégio Barão do Rio Branco, estes movimentos regem nosso dia (e noite). Em 24 horas a Terra realiza o movimento em seu eixo, criando a rotação. Fontes indicam que esse movimento é feito em 23 horas, 56 minutos e 4 segundos. O movimento da Terra em torno do sol é conhecido por translação e dura 365 dias, 5 horas e 48 minutos, formando o ano. À quem descobriu isso, nossas láureas. A quem ouviu isso estupefato – como meu amigo – as batatas !

Para aproveitar mais a duração do dia, com o advindo da industrialização e da criação da luz elétrica – e com ela, a vida noturna – países implantam o “horário de verão”, adiando o relógio em uma hora evitando, assim, o excesso no consumo da energia elétrica. No Brasil, a mais recente reintrodução do horário especial de verão ocorre em 1985 no governo José Sarney. Mesmo período em que houve a antecipação dos feriados. A busca do tempo era para otimizar os dias úteis. Se um feriado ocorresse numa quinta-feira ele seria empurrado para a sexta-feira, evitando emendas. O mesmo ocorria com os feriados que caíam na terça-feira : eram antecipados para a segunda. Realmente isso ocorreu no Brasil.

Mas o tempo é ilusório. E nem nos damos conta disso. Até dois milênios atrás, os anos seguiam as fases da Lua. As estações, assim, caíam em épocas diferentes. Tivemos na Roma antiga anos com 304 dias e 10 meses. Em seguida, o ano passou a ter 355 dias em 12 meses. Mas a cada dois anos era preciso um 13º mês de 22 ou 23 dias para ajustar o ciclo solar ao calendário civil. Que bananada !

Surge, então, o calendário juliano, criado com base no que os egípcios já faziam. O ano passa a ter 365 dias, 12 meses (metade com 30 dias e outra metade com 31 – com exceção de fevereiro que tinha 29). Estudiosos chegaram à conclusão que o calendário teria 11 minutos a menos. Em outubro de 1582 cria-se o calendário gregoriano (o que seguimos atualmente) anulando dez dias do calendário anterior. A lógica do ano bissexto, era de que os anos terminados em 00 só seriam os bissextos aqueles divisíveis por 400.

O nome bissexto por si é uma corruptela em latim. O imperador Júlio César haveria ordenado “ante diem bis sextum Kalendas Martias”, ou “repetir o sexto dia antes de começar o calendário de março”. Fevereiro possui 28 dias pois dois dias foram tirados pelos romanos para serem colocados em julho e agosto em homenagem aos imperadores Júlio César e César Augusto. E assim caminhou a humanidade ...

Mais estupefato fiquei eu quando, em 1995, durante passagem a Piracicaba, o ator Mário Lago foi entrevistado na Rádio Alvorada A.M. e o locutor comentou : “o senhor interpreta muito bem o papel do desembargador Veiga na novela De corpo e alma”. Eis que este dispara ferozmente ao vivo: “queria o que ? Não comecei ontem. Faço teatro desde os anos 1930 ! Não sou criança”. Silêncio geral. Mas Lago, que era filho de Antônio de Pádua Jovita Correia do Lago – nascido em Piracicaba em 13 de junho de 1887 – e possuía determinado parentesco com Manuel do Lago, proprietário do Hotel Lago, ao lado do Teatro Santo Estêvão, esculpiu a máxima : “Eu fiz um acordo com o tempo. Nem ele me persegue, nem eu fujo dele”. E passemos o tempo com cultura !


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Carnavais e carnavalescos

 Edson Rontani Júnior, jornalista, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Acho um tanto quanto injusto ocupar estas linhas e falar de carnavalescos. O pecado de citar nomes é que muitos ficam de fora. E é comum eu encontrar com um ou outro conhecido e me dizerem: “você esqueceu de falar de tal coisa, de tal pessoa...”. A história é infinita, a memória não. O conhecimento também é expansível, hoje, graças à internet, na qual podemos buscar maiores referências além daquelas citadas. Isso é ótimo ! Pois aguça a curiosidade, nos faz movimentar a “massa cinzenta” e faz pensar com maior clareza.

Corro, portanto, não o risco de esquecer uma pessoa ou uma situação, e sim me afogar nas lágrimas de relembrar tanto de um passado que temos enquanto ser humano e ter na nostalgia uma forma de expressar um pouco daquilo que já foi realizado pelo Carnaval de Piracicaba.

Usemos por exemplo, o centenário do Esporte Clube XV de Novembro de Piracicaba que, em 2013, motivou o Carnaval oficial de rua e foi tema da Banda da Sapucaia. Um Carnaval não tão recente assim, mas que já evoca saudade. Falar da saudade é também falar de um tempo recente ... é falar do dia de ontem que já entrou na história. E é não se prender numa época específica, como o início do século passado, os anos 50 ou anos 70.

Um período em que era gostoso ver nos jornais e em suas colunas sociais as celebridades que em nossa terra marcavam presença num destes festejos. Muitas destas beldades clicadas pela lente de Cícero Correa dos Santos e cujas fotos eram expostas nas vitrines de clubes como o Coronel Barbosa. Época de entretenimento socializável em que as pessoas saíam às ruas e davam atenção ao que ocorria em seu redor. Período em que havia filas na Banca do “seu” Pilon atrás da Catedral para ler a capa e a última página de “Notícias Populares”, colocadas como atrativas para uma leitura que não acrescentava nada em nossa vida. Não sei ao certo qual ano era – poderia ter sido 1992 -, conheci e entrevistei Elke Maravilha numa coletiva de imprensa no Hotel Beira Rio, quando a mesma foi convidada pelo poder público municipal para abrir a apresentação dos blocos. Não haveria Carnaval de rua naquele ano.

A história tem carnavalescos como bem lembrou Pedro Caldari em um de seus livros sobre a Vila Rezende. “Armandinho Dedini tinha espírito alegre ... Escolas, creches, clubes de futebol, cordão carnavalesco, entidades assistenciais, pessoas carentes ou dificuldades... todos podiam contar com a sua ajuda generosa e incondicional”. Era uma espécie de mecenas da folia de Momo.

Maria Pepa Delgado é um nome esquecido. Mas, a piracicabana nascida em 1887, expôs o nome de nossa cidade no Rio de Janeiro, então capital federal, na década de 1900. Foram delas as principais marchinhas dos carnavais fluminenses da época, entre elas “O maxixe” lançado pela Odeon. Um sucesso nas paradas dos bolachões de 78 RPM.

Em muito me vem à memória os bailes carnavalescos realizados no Ítalo, atrás do Mercado Municipal. Não que eu participasse deles, mas ao presenciar a muvuca que se instalava na rua por ser passagem obrigatória para ir à casa de minha avó materna. O Clube Recreativo Ítalo Brasileiro surgiu em 16 de agosto de 1951, ocupando a Sociedade Italiana de Mutuo Soccorso, situada à rua dom Pedro I. Teve grandes eventos carnavalescos. Foi dirigido por Lélio Ferrari, Mário Dedini, Antonio Romano e Lino Morganti (o qual tem um busto no jardim de sua sede).

Samuel Pfromm Neto nos ensina que bailes carnavalescos ocorriam também no andar superior do Bar e Restaurante Comercial, de Fernando Lescovar, na virada das décadas de 1940 para 1950. Lescovar anos depois adquiriu o Restaurante Brasserie, por volta de 1953, explorando um delicioso espaço em frente a praça José Bonifácio até décadas atrás. O salão reunia foliões que comemoravam o Carnaval. Estava situado acima do Restaurante Comercial que por sua vez ocupava o andar térreo de onde está hoje parte da Galeria Brasil, mais precisamente o Edifício Georgetta Brasil.

Jamil José Netto foi outro envolvido com o Carnaval. Radialista e amante da boa locução, trocou sua natal Porto Feliz por Piracicaba onde presidiu a Ekyperalta em 1976. Tivemos também nossa força feminina no Carnaval. Maria Luiza Piza Oliveira e Silva, além de fundar, participava da Comissão de Frente da Equipe Lanka. São duas agremiações icônicas na Carnaval local. Alcides Pársia também merece sua participação no hall dos carnavalescos, sendo de sua autoria a marcha carnavalesca “Centro do Professorado Paulista”, de 1987.

Citado linhas atrás, Cícero Correa dos Santos era uma figura ímpar. Sua filha Célia Regina Signorelli foi uma das maiores expoentes do Carnaval local. Cícero era um exímio fotógrafo com seus registros impressos nas mídias locais. São incalculáveis quantos cliques ele tirou durante sua vida. Pfromm lembra: “graças à máquina fotográfica de Cícero, Piracicaba ganhou imagens valiosas de festas e acontecimentos do passado notadamente do (...) carnaval”. Fundou a Zoon-Zoon e nos desfiles anuais recebia homenagens das escolas de samba. Nascido em Rio Claro, só recebeu – para mágoa de muitos – o título de Cidadão Piracicabano após ter falecido. Nossas honras ...

 


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Clubes e teatros em Piracicaba

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Houve um tempo em que os clubes sociais serviam de passarela para a sociedade. Eram nestes que ocorriam os bailes, carnavais, casamentos, festividades... Muitas vezes, restritas à elite.

Até décadas atrás, famílias abastadas realizavam seus eventos familiares em clubes ou centros poliesportivos públicos da cidade, como o Coronel Barbosa ou o Ginásio Waldemar Blatkauskas. Não era ostentação. É que não havia outro espaço para abrigar centenas de pessoas na mesma ocasião.

Com o tempo, os Clubes Sociais adotaram também o nome Recreativo, oferecendo espaço a céu aberto, como quiosques, churrasqueiras, piscinas e outros atrativos.

Aos poucos, tivemos uma mudança na sua concepção. Tornaram-se acessíveis às diversas camadas sociais. Entraram em condomínios fechados que atualmente possuem piscinas, quadras de tênis e futebol, playground e ... olhaí de novo ! ... churrasqueiras coletivas. Piracicaba tem hoje os remanescentes daqueles clubes que outrora foram feitos para abrigar até dois milhares de pessoas. O Teatro São José chegou a ter dois mil assentos. Na esteira, surgiram os centros criados pelo Serviço S, como o Sesc, Sesi e Sest/Senat, cada qual para sua categoria profissional.

Num passado não tão remoto, foi possível curtir a piscina ou os carnavais no Nauti Clube Bela Vista, no bairro Itaperu-Guaçú, assim como pegar um bronzeado na piscina da sede campestre do Clube Coronel Barbosa em condomínio fechado logo após Artemis. E já que falamos da Rodovia Geraldo de Barros, por que não lembrar do Thermas Water Park, da família Andrade? Surgiu numa época em que os “Amigos” sertanejos estavam revolucionando a música brasileira, alavancados pela cerveja Bavária e pela Rede Globo. Fez sucesso. Abarrotou a SP-304 lá por volta de 1988 quando se apresentaram no espaço nomes como Zezé di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó e Leandro & Leonardo. Não era para menos. O engavetamento para acesso o Park era quilométrico.

Mas de um passado recente para um mais distante. Os clubes sempre deram o ar da graça em Piracicaba. De forma curta e grossa, o “Almanak de Piracicaba para o Anno de 1900” diz que em 9 de novembro de 1867 “dá o seu primeiro baile o Club Semcerimonia”. Isso, portanto, há 156 anos atrás. Na época, nem se sabia o que era o cinema, o rádio, a internet... As pessoas saiam de casa para buscar prazer, entretenimento e sociabilidade.

Os Clubes sempre foram pontos de encontro da sociedade. E não apenas para festividades.

No Teatro Santo Estêvão, citemos duas situações. A convulsão local na Revolução de 1932 teve nele seu ponto de concentração. Alberto Vollet Sachs secretariou a primeira reunião que conseguiu 200 voluntários para a frente de batalha, os quais partiram em 16 de julho de 1932. Não à toa, o Monumento ao Soldado Constitucionalista situa-se à praça José Bonifácio (então praça 7 de Setembro), de onde partiram os voluntários. Outra citação é que a Associação Comercial teve seu embrião discutido e criado no Santo Estevão, 90 anos atrás.

Ainda hoje reverenciado pela população, o Santo Estêvão tinha pinturas em seu interior que evocam o supra sumo da arte. Na reforma patrocinada pelo Barão de Rezende no início do século passado, Bonfiglio Campagnolli foi contratado para realizar os motivos decorativos de seu interior, unindo-se às obras anteriormente feitas por Joaquim Miguel Dutra. O Estêvão foi demolido em 1953.

Ele foi o primeiro cinema permanente da cidade. A partir de 1908 passou a ter exibições regulares, propriedade de José Claes. O cinema no início era de responsabilidade da Santa Casa, proprietária do projetor. Em seguida passou para Ribeiro de Magalhães e depois para Claes, tendo a denominação de “Theatro Cinema” de 1910 a 1914, quando passou a ser administrada pela Claes & Companhia.

A arquitetura também teve sua contribuição para clubes e teatros. Orlando Carneiro – requisitado profissional da construção – foi o responsável pelas obras do Teatro São José, Clube Piracicabano além de reformas da Santa Casa e do Hotel Central.

Os palcos locais eram tão movimentados que Piracicaba também “exportou” artistas. Uma foi Maria Pepa Delgado (1887/1945), que passou por muitos palcos locais tanto pessoalmente quanto pelo celuloide. Na década de 1900 era uma das principais artistas da Casa Edison do Rio de Janeiro. A lenda diz que chegou a ser confundida como se tivesse origem espanhola, mas era piracicabana da gema. Gravou cerca de 40 títulos de sucesso na época em que os discos traziam apenas duas músicas e rodavam em 78 RPM. Em 1908 estrelou com João de Deus o filme “Sô Lotero e Siá Ofrásia com seus produtos na exposição”. Uma curiosidade rara de se encontrar.

O teatro também foi onde o público estava. É o que ocorreu com o Circo Teatro Piranha de Waldemar “Piranha” Dias (1928/1992). Tinha no circo sua família a exemplo do que fez o Veneno, outro circense local. Esposa, filhas, genros e neta formavam a trupe que percorria cidades. Esteve ativo até 2003. E assim, o show deve continuar !


sábado, 27 de janeiro de 2024

Meus cães, meu passado e minha vida

 * por Edson Rontani Júnior, jornalista e amante de cães

– Força, amigão ! Você consegue !!! – disse diversas vezes ao Pancho, um boxer alemão com cerca de dez anos de vida. Diversas semanas antes ele se entregou para a morte, como se sentisse a partida de meu pai e logo em seguida a ida de sua companheira Xuxa, uma fox paulistinha que partiu devido a diversos tumores que se alastraram por sua cadeia mamária levando metástase para todo o corpo.

Foi assim que em agosto de 1997, o velho boxer se entregou para a morte. Um dia antes, ainda me lembro, ele correu atrás de uma bola, brincou comigo à noite, como se estivesse diante da felicidade. Às 18 horas do dia seguinte, ainda no trabalho, recebo o telefonema de minha mãe dizendo que ele não estava mais respirando. Aí terminou uma jornada iniciada dez anos antes e tomou-se uma decisão : “não teremos mais cachorro em casa, pois eles se integram à nós e, quando partem, deixam uma lacuna imensurável”.

Pancho – não me lembro ao certo se foi em homenagem ao trio musical Los Panchos ou ao Sancho Pança, fiel amigo de Don Quixote de La Mancha – uivou como nunca houvera feito, em fevereiro daquele ano, ao “sentir” a morte de meu pai. Todos sentimos é claro, mas animais morreram e perdemos plantas depois desta passagem, dando-me certeza de que eles se tornam parte de nosso ambiente. Mas, seu maior pesar, deve ter sido a partida de nossa cadelinha Xuxa que, não tendo mais que 40 centímetros impunha muito respeito ao boxer com mais de 1,60 metro. Como cresceram juntos, viveram bons momentos como um casal de pessoas.

O fim da vida de Xuxa foi condenado pelo veterinário que a operara duas vezes anteriores para extirpar o câncer que atingia suas mamas talvez por nunca ter procriado. Foi “mãe psicológica” de uma bonequinha loira de borracha. Cuidava dela como se fosse sua filha. Enrolava-a em um pano e a levava de um lado para outro, ficando brava quando mexíamos nela. Em abril ou maio daquele ano a anemia obrigou-nos a tomar a decisão – como se tivéssemos este direito – a tirar sua vida. Pancho ficou inconsolável, pois sentia a ausência de meu pai e depois da companheira. Acordava à noite com medo ! Como pode um cachorrão assim sentir medo ?! As portas da casa tiveram por meses as marcas de suas ranhuras para que as portas ficassem abertas nos solicitando companhia e só dormindo com a luz acessa. Foram três ou quatro meses de tratamento envolvendo homeopatia e alopatia. Quantas vezes tive de sair do meio do expediente de trabalho, carregá-lo até o veterinário para tomar soro e esperar alguma reação. Mas … nada ! Nenhuma reação… Entregou-se à morte como um ser humano.

Os mais céticos podem crer que muitas crianças abandonadas nas ruas deveriam ter a atenção que damos aos cachorros. Mas … cada cabeça uma sentença.

O francês Anatole France escreveu em 1908 que um monge chegou a uma ilha onde só havia pinguins. Cegado pelo branco da neve confunde-os com homens, evangeliza e os batiza. Ao saber de tamanha heresia, os Céus urdem e os anjos, santos e Deus ouvem, durante a assembleia, a ideia de Santa Catarina : que seja concedida uma pequena alma aos animais.

Como disse, cada cabeça uma sentença.

Fui criado com cães em casa desde a gestação. Sempre ouvi falar da basset Soraya com a qual mantive contatos enquanto engatinhava. Recordo dela através de fotos. Importante presença em minha vida foi a boxer Diana que durou 18 anos, inteligente como ela só, adorava nadar na margem direita do Rio Piracicaba em uma chácara próxima ao Nauti Clube Bela Vista e ficava em pé para abrir as maçanetas da casa.

No meio dos anos 70, Diana dividiu espaço com um coelho de nome Kiko, o qual foi trocado pela fox paulistinha Kika, inteirinha branca com uma pinta preta nas costas. O nome era dado a um dos quadros famosos do programa da TV Globo “O Planeta dos Homens”, Kika e Xuxu (vivido por Agildo Ribeiro). Kika de repente se entregou à vida por uma virose. Não andava, não comia, perdeu toda a alegria que nos deu durante anos. E sentimos com isso.

Kika e Diana ainda dividiram espaço com a boxer Pantera. Ainda me lembro de ter visto um de seus irmãos, com poucos meses, no colo de sua dona que terminava de realizar compras no Supermercado Guerra (depois Supermercado Catarinense) que existia no cruzamento das ruas do Rosário com Prudente de Moraes. Pantera foi ativa, brincalhona.  

Se for para contar meus anos de vida, prefiro contar pelos anos dos cães que passaram por ela. Cada década ou fase me remonta a alegria e o companheirismo de todos que tivemos. Ouvi dizer que o cão há mais de 10 mil anos vive dos restos do ser humano. Se colocarmos um deles numa ilha eles morrem. Não têm o dom de caçar, de preparar sua comida, de escolher o que é certo (lembre-se do número de envenenamento que as estatísticas mostram). 

O homem tem o poder de se redimir diante de seus erros e por isso ficamos um pequeno período sem esse fiel companheiro. Em 1999 adquirimos a daschound Tara que nos presenteou com quatro filhotes, dos quais apenas a Pretinha permaneceu com a mãe. E assim a renovação se fez presente em nossas vidas.

Morte – “É uma foquinha !” – Disse Myrian Vendemiatti ao retirar do veterinário outra cadela importante em minha vida, de nome Julica. Em setembro de 2003 foi vitimada por uma virose e depois por uma hemorragia. Foi triste ver o corpo daquela cachorrinha sem raça, branca com manchas pretas, em uma caixa de papelão sem vida com o nariz sangrando. Ia-se ali mais uns anos de minha vida. Foi-se com ela aquela companheira dos churrascos, seu jeito “pidão” de fazer massagem nas costas. Mas, quando fui retira-la do veterinário, tive uma lição de vida. O mesmo tinha cerca de dez cães e gatos abandonados. Dois cegos que pareciam saudáveis, um sem uma das patas, um verdadeiro asilo de animais domésticos mostrando antes de tudo que a eles não existem intempéries, e que isso é coisa de humano !

A vida de Julica terminou no Cemitério dos Animais, situado no Bairro São Jorge, num trabalho exemplar feito por Myriam Vendemiatti e sua filha. Animais de todos os tipos são ali enterrados com honras e orações. Gatos, cães, roedores, aves … Tudo ! Cada um em sua cova com nome. Cães da Polícia Militar enterrados por terem sido baleados por criminosos. Parei. Refleti sobre a vida. Relembrei de meu primeiro contato com um animal. Recordei o que um grande colega outro dia me disse : “o homem é seu passado, é sua recordação”. Tive a certeza disso, Cecílio … Meu passado é cheio de recordações. Amargas ou boas. Mas o hoje é ação do que fiz ontem.

Agora que me lembrei : desde o enterro de Julica nunca mais fui visitá-la. Quão tolos somos. Mas, a vida prossegue …


quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Gastronomia se põe à mesa

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Extensa é a história da gastronomia de Piracicaba. Isso ajuda a cometer falhas ou trazer lapsos na memória quando se quer garimpar o assunto. Mas, a intenção neste texto, é trazer do passado, pessoas, locais e fatos que marcaram o setor de bares e restaurantes, não tendo por objetivo ser um dicionário com todos os verbetes de referência.

Pode ser que a intenção seja movimentar a “massa cinzenta” de um passado muito recente no qual os cinquentões de hoje se lembrarão da vida gastronômica, por exemplo, dos anos 1980, década que trouxe novidades a Piracicaba como o primeiro restaurante self service por quilo, o Ponto 71 que funcionou nas esquinas das ruas do Rosário com a Moraes Barros. Ou o Cachorrão, no Shopping Center Piracicaba, na lembrança de ser a primeira lanchonete self service especializada em hot dogs. Tivemos também o “McDonald’s” piracicabano: o Daytona, na confluência da Moraes Barros com a praça José Bonifácio, ousado na época por ter o americanizado hamburger como atração principal, além da réplica de um carro de fórmula 1 pendurado na parede. Podemos lembrar também do Restaurante Bijeto (anos 1970) ou o Jardin’s que em muitas noites congestionou o trânsito na esquina da rua Benjamin Constant com a Moraes Barros.

Alimentar-se é uma necessidade de primeiro grau. Comer com sofisticação é desejo. Assim, a intenção de sempre bem atender o glutão é histórica. Afinal são 256 anos servindo à mesa o piracicabano.

São efemérides históricas e nostálgicas. Em 17 de fevereiro de 1883, é inaugurado o Hotel do Marques, de José Gomes Marques. Em seguida, no dia primeiro de agosto do mesmo ano ele inaugura o Hotel Marques. Nas horas vagas, atuava como guarda-livros da Fábrica de Tecidos Santa Francisca.

Casos como o de João Lucci, proprietário, na virada do século retrasado, de um restaurante situado à rua da Glória n° 6. A mesma rua abrigou restaurante de Luiz Maranho. Giovanni (João) e José Folvenço, ambos da família Moretti, também serviram à mesa com o Hotel e Restaurante Moretti (rua do Glória n° 6, o primeiro a sair da Estação da Ythuana/Sorocabana). A Glória é a atual rua Benjamin Constant.

Muitos destes anunciaram nos tradicionais almanaques da cidade, como o de Camargo (1900) e Capri (1914). Pedro Monteran também teve seus serviços de gastronomia colocados a disposição na atual praça Tibiriçá, ao lado de onde está hoje o Colégio Moraes Barros, na época, sede do legislativo municipal. Paulino José de Miranda era dono de um bilhar e restaurante no final do século 19 situado à rua São José n° 39. Salvador Oranges servia em seu restaurante na rua Boa Morte e comercializava itens em seu armazém situado no mesmo endereço.

Camargo no Almanak mapeou os estabelecimentos gastronômicos da cidade, chegando a ter 27 deles nos anos de 1899 e 1900. Indicou inclusive onde alguns situavam: cinco na rua Benjamin, quatro na Vila Rezende, três na XV de novembro, e três na praça José Bonifácio.  

Cuscuz, peixe no tambor, churrascarias ... Muitas áreas formaram o imaginário coletivo nas décadas passadas quando se fala sobre o bem servir. Orientais também contribuíram para a vida alimentar na cidade. Não apenas em pastelarias. Cabe registrar a importância dos irmãos Miazaki que mantiveram o Líder Bar na Governador com a São José. Eram oriundos do Japão e vieram para cá nas levas de imigração do início do século passado. Kazuo, conhecido por Mário Japonês, deixou vários relatos da xenofobia local principalmente em períodos como a Segunda Guerra Mundial.

Além da boa comida, restaurantes também exportaram estrelas. Foi o caso de Francisco (Ferreira) Milani (1936/2005) conhecido por suas participações na Rede Globo em especial os humorísticos “Casseta e Planeta” e “Escolinha do Professor Raimundo”.  Sua família tinha um bar e restaurante no andar térreo do Clube Coronel Barbosa. Foi sonoplasta da Rádio Difusora e fez sucesso no rádio carioca. Fama também se põe à mesa.


quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Inventores e invenções

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

O Brasil também foi um celeiro de inventores, tal qual os Estados Unidos cujos criadores quase sempre saíam aos sopapos para registrar suas patentes. Alguns destes eram Ford, Edison, Westinghouse, Tesla e tantos outros. O segundo, aliás, tinha uma fábrica de cientistas com os quais trabalhou para criar e produzir tecnologia a partir da energia elétrica.

Alguns destes registraram suas invenções no Brasil. Henry Ford, criador da linha de produção de veículos, fez registro de patentes no Brasil. Assim como Nikola Tesla que patenteou por aqui, em 1910, uma máquina que gerava energia através de líquidos.

Invenções e seus inventores são colocados à apresentação pública através do INPI – Instituto Nacional de Propriedade Intelectual, órgão do governo federal que está completando 53 anos de atividades. O projeto “Memória da Propriedade Intelectual – Patentes Históricas” digitalizou mais de 3.200 patentes depositadas no Brasil de 1895 a 1920, demonstrando que o país já chamava a atenção das grandes empresas americanas pelo avanço tecnológico que aqui prosperava. Cabe lembrar que estávamos saindo do regime monárquico, entrando na República que avançava na política do “café com leite”.

O acervo pode ser acessado de forma gratuita. É curioso ver algumas invenções como baldes com patins para andar em rios ou o soro antipeçonhento patenteado, em 1917, por Vital Brazil e doado ao governo de São Paulo para aplicação gratuita na população.

Não por acaso, encontramos a cidade de Piracicaba citada duas vezes no acervo até agora disponibilizado. Pois é, tivemos nosso “Professor Pardal”, para usar um termo que apenas os mais antigos conhecem. Uma das invenções era o Aero Moto Eterno (Guilherme Góri), motor para relógio no qual o vento é utilizado como força motriz. O inventor era o barbeiro Guilherme Góri, italiano de nascimento, morador de Piracicaba. Sua patente está registrada sob o número 13.238, com autorização do presidente Wenceslau Bráz em 1917. O registro foi endossado por Oscar Costa, no Rio de Janeiro, procurador do inventor. O documento de registro é ricamente detalhista, em duas páginas datilografadas ocupando toda a extensão de ambas. A invenção utilizaria o vento para dar corda em relógios de parede. Cabe lembrar que os relógios de antigamente, aqueles com pêndulo, precisavam de “corda”, a qual era dada com uma espécie de chave, a exemplo do que anos mais tarde tivemos com os despertadores colocados no criado-mudo. Eixos, molas, discos ... A patente é extensa numa união da engenharia com a física, exigindo colocação de cata-vento que deveria ficar acima do telhado da residência. O texto dá noção que o cata-vento também poderia ser colocado em navios e “carros de estradas de ferro”.

Outro inventor residente em Piracicaba foi João Baptista de Paula Ferraz em que 14 de junho de 1916, sob o depósito 13.522, patenteou “uma caixa dupla de descarga para latrinas”. Ele foi representado por Moura & Wilson, residentes na capital federal (Rio de Janeiro), “procuradores e agentes de privilégios”. O registro também foi assinado pelo presidente Wenceslau Bráz. João Baptista, diz o documento, era industrial em nossa cidade.

O pedido de patente também estava datilografado e trazia a perspectiva ilustrada da invenção. São cerca de duas páginas. A caixa de descarga pretendia dispensar válvula e sifão, ter precisão na descarga sem molhar o chão da “casinha”, e nem tirar a pressão de outras torneiras da casa. Seria o princípio da atual caixa acoplada, porém, assentada no alto.

Este resgate do INPI serve para mostrar o quanto foi importante a colaboração tecnológica dos brasileiros, dos estrangeiros e também destes dois piracicabanos. Foram úteis em seus tempos. E, como revelou o “tio” Cecílio Elias Netto, o bom é brindar com uma caipirinha já que a mesma também foi inventada em nossa terra.

Clique abaixo e leia as patentes requeridas

MOTOR PARA RELÓGIO

CAIXA DUPLA PARA DESCARGA DE LATRINAS

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 24 de janeiro de 2024)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

De volta ao passado

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Dias atrás, num bate-papo com os comunicadores Rosiley Lourenço e Antonio Carlos Bonassi, na Educativa F.M., conversamos sobre artigos publicados nesta página. Bonassi elogiou alguns artigos recentes, em especial aquele no qual viajamos para a Piracicaba de 200 anos atrás.

Hoje, vamos para quase um século e meio atrás, mais precisamente o ano de 1883, período em que a cidade teve certa efervescência histórica. Atas da Câmara Municipal deixaram um legado rico de atividades no município, como a construção da nova cadeia pela empresa Fischer & Bossashard a qual, inicialmente, pedia para retirar pedras do largo do Gavião a fim de edificar tal prédio. Em 17 de janeiro, funda-se a Scuola Italiana Umberto I, com direção de Guglielmo Togneri.

No dia 18 de fevereiro, um edital conclamava serviços de obras públicas, dando a chance de empresas participarem da concorrência na realização de uma planta topográfica de Piracicaba e arredores. O objetivo era construir uma rede de esgoto que no futuro atendesse às necessidades sanitárias da cidade. O serviço teria sido executado por Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, engenheiro.

Logo no início de março, a Câmara recebe autorização para que fossem compradas pedras em Itu para arruamento e criação das sarjetas. Segundo o documento, com “as lages, o serviço marcha com mais rapidez e torna-se mais elegante” as ruas. Leandro Guerrini lembra que na época as guias eram feitas de tijolos em pé, num serviço lento.

Foi em 11 de abril de 1883 que surge aquele que pode ser considerado o primeiro jornal diário da cidade. “Jornal do Povo” era dirigido pelo barão de Rezende e defendia os ideais monarquistas num período em que este tipo de regime já apresentava ares anacrônicos.

Ainda em abril, a Fábrica Santa Francisca, que décadas mais tarde se tornaria a Boyes, é incorporada à Companhia de Cultura de Tecidos de Algodão S/A, cuja sede situava-se no Rio de Janeiro. O empreendimento estava em voga há duas décadas sob a batuta de Luiz de Queiroz. Foi incorporada “com todos os seus maquinismos, tinturaria, maquinário e caldeiraria”.

Já que falamos de Queiróz, em 20 de abril daquele ano, o jornal “O Commercio de São Paulo” publica editorial dizendo que Piracicaba não merecia ter uma escola agrícola (o embrião da ESALQ/USP, na atualidade). A opinião do veículo de comunicação condena a cidade por ser um produtor de baixo índice, sendo preferida a capital paulista para tal instalação ou Ribeirão Preto, cujo poderio agrícola já era notório. Três dias depois, com os cotovelos doendo, piracicabanos reagem à tal editorial. Na “Gazeta de Piracicaba”, as autoridades competentes mostravam que a cidade merecia ter sua escola agrícola, como bem mostrou a história. Em seguida, no dia 10 de agosto, a “Gazeta” noticiava a doação por Queiroz ao estado provincial da Fazenda São João da Montanha, área hoje ocupada pela ESALQ. Manifestação do jornal diz que o estado recebeu tal doação com total desdém.

O dia 4 de junho foi de festividade na cidade, pois a Estrada de Ferro Ituana inaugura o ramal de trem para São Pedro. Às 15h30 partiu o trem inaugural. O ramal ligava Charqueada a São Pedro e saía de nosso município.

Se hoje temos um celular na mão, que além de tudo funciona também como telefone, em 22 de junho, a Empresa Telefônica local estava preocupada com a instalação de linhas telefônicas. A mesma possuía mesa com 50 aparelhos para ligações, muitos dos quais estavam vagos, sem assinantes. Haja marketing !

Aquilo que conhecemos hoje por Escola Industrial rugiu em 25 de junho de 1883, data em que foi inaugurado o prédio da Sociedade Beneficente Instrutora, sob discurso de Prudente de Morais. O local, que passou por diversas modificações, abrigou a Escola Complementar do município. Em 25 de agosto, o prédio passa a acolhe o Colégio Rosa.

Em 2 de agosto a cidade passa a ter vida noturna. Na época, a partir do entardecer, a iluminação era feita com velas ou lampiões com querosene. Nesta data, depois de oito meses de espera pela liberação de material retido no porto de Santos, proveniente de Nova Iorque. Luiz de Queiroz ilumina parte do jardim público (praça José Bonifácio) e ruas adjacentes como a Prudente, São José, Alferes e Governador. A população sai de casa e volta para ver o pioneirismo. Claro que, com escuridão no meio do caminho ... Em setembro, passa-se a ser oferecido o fornecimento de energia às residências.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 14 de janeiro de 2024 e na Tribuna Piracicabana de 20 de janeiro de 2024)

domingo, 7 de janeiro de 2024

Ainda 200 anos atrás

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

O ano de 2024 está aí. Estamos em seus primeiros dias. Daqui a pouco nem lembraremos das promessas feitas no final de semana passado e continuaremos a vida como ela quer, numa eterna rotina. Mas o tempo é de renovar. Ou de olhar para trás como veremos nas próximas linhas.

Duzentos anos atrás, a cidade de Piracicaba tinha rotinas diferentes. Poucos são os registros das obras aqui construídas, dos anseios individuais, da vida social, das atividades culturais e recreativas. Era só trabalhar, comer e dormir ? Claro que não. Alguns pontos históricos registrados encontram-se em atas das Câmara de Vereadores, almanaques anuais e publicações nem tão recentes deixadas por Mário Neme, Leandro Guerrini, João Chiarini e outros estudiosos que propagaram a vida local nestes 256 anos de Piracicaba.

A imprensa local sequer era constituída. Leandro Guerrini diz que Jair Toledo Veiga descobriu um jornal escrito a mão e distribuído aos leitores, no qual o senador Vergueiro publicava críticas sobre a rotina local. Isso no início dos anos 1800. O jornal era feito a mão.

Em 1824, Piracicaba, então Vila da Nova Constituição, respirava a monarquia instituída em 1822 sob a regência de dom Pedro I, independente dos mandos e desmandos do reino de Portugal. Sua força motriz ainda era à base do escravagismo. A onda imigratória dos alemães, italianos e outros ocorre várias décadas depois. Dois séculos atrás, a cidade ainda formava sua geografia urbana. As famílias deixavam aos poucos a rua do Porto. Miravam para o Centro e expandiam para as terras anteriores à Paulista – lugar afastado – e se acomodavam em torno do ribeirão do Itapeva (hoje avenida Armando de Salles Oliveira). Ruas – hoje denominadas São José, Prudente de Moraes, XV de Novembro, Benjamin Constant, Boa Morte, Governador Pedro de Toledo, e outras – já estavam alinhadas, como queria a edilidade por orientação do governo provincial. No meio de 1824, precisamente em 9 de junho, a Câmara local realiza inspeção para alinhar a rua do Conselho, colocando “estacas em cada hum dos cantos dos quarteiroins”. As atas dizem que o desalinhamento era uma “tortura” para as vistas. A base do alinhamento se daria a partir do Rio (talvez o Itapeva). Ficou reta ? Basta ter em mente que esta rua se trata daquela que hoje é denominada Regente Feijó. Foram responsáveis por esta demarcação os arruadores e demarcadores Piloto Feliz Leme e Antonio do Espírito Santo (este, assinava com uma cruz, devido ao seu nome).

Duzentos anos atrás surge aquilo que hoje conhecemos por município de Rio Claro, em área de Piracicaba. A fundação ocorre durante inauguração da igreja à margem do Ribeirão Claro. Autoridades locais, entre elas o Barão de Piracicaba (António Pais de Barros), foram à capela em 24 de junho, dia de São João, santo do dia, para a inauguração. A área próxima à Capela receberia casas ao longo dos anos seguintes. A região passou a ser denominada São João do Rio Claro.

Em 28 de junho, documento assinado por dom Pedro I (conhecida por “carta-patente”) confirmava os nomes para capitão da Companhia das Ordenanças – as forças políticas e sociais – a Miguel António Gonçalvez e Manuel de Toledo da Silva.

Vereadores saíram às ruas em 10 de julho para “chamar a atenção” de Manuel Joaquim Pinto de Arruda (juiz ordinário, equivalente a presidente da Câmara) por estar num serviço de “roçada” causando “prejuízo por distruir as madeiras e sipós para construção de cazas e quintaes”.

Por política também se duelou, já que armas de fogo eram incomuns, proibidas e restritas. No pátio da Matriz, um carpinteiro desferiu 15 golpes de espada na cabeça e nos braços de um opositor. Os golpes só pararam quando lhe tomaram e quebraram a espada. A vítima alegou que a ação ocorria por o agressor não concordar com as normas de arruamento da cidade, através das quais perderia terras.

Em outubro, pelo nascimento de uma princesa imperial, a Câmara pede que os moradores iluminem suas casas para bem recebe-la. Deveriam colocar lampiões, lamparinas ou velas nas janelas. O ritual previa ainda fogueira no largo da matriz. A Vila ficou iluminada por três dias.

O ano de 1824 termina como começou. A preocupação com a distribuição de terrenos. E assim foi a vida em Piracicaba 200 anos atrás. Os documentos mostram a preocupação dos poderes constituídos com a delimitação das ruas, dos quarteirões e das habitações.

Já em 11 de dezembro, é pedida a demarcação de quatro paredes em uma praça para a nova Matriz da cidade. Citação meio difícil de localizar: ficaria entre as ruas Formosa e Alegria e passaria pela rua São Benedito que atravessa a praça. Cabe lembrar que o arruamento ocorria pela melhor distribuição em linhas retas dos terrenos nos quais seriam construídas casas. O trânsito ainda era feito com tração animal: cavalos ou mulas que levavam em sua cela as pessoas em ou carroças para transportar número maior de piracicabanos.

Finalizando, em 18 de dezembro, os vereadores pedem matança dos porcos, pois eles viviam pelas ruas, como os cães e gatos que vemos hoje. E assim, Piracicaba cresceu como conhecemos hoje.

Publicado no Jornal de Piracicaba de 07 de janeiro de 2024