Edson Rontani Júnior
Jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba
Não
estou nesta fase, mas preservo as amizades com septuagenários e octogenários.
Essas amizades surgiram 30 ... 40 anos atrás. Talvez mais, talvez menos. Eu
também era mais jovem. Não faço qualquer diferença. Pelo contrário, mais ouço
que falo pois sei que da mente destas pessoas sai muita vivência, história de
um longo passado gostoso de ouvir pois confio em tudo e saboreio cada palavra
dita.
Henrique
Conceza, escritor e professor na Unimep, escreveu certa feita um livro com o
título “Antes que eu me esqueça”, se não me engano, no início dos anos 1990.
Sábio título. Sábio pois o ser humano por sua natureza tem o dom de esquecer.
Memorizamos apenas aquilo que repetimos sempre. Concenza colocou no papel
passagens de sua vida as quais tinha medo de esquecer com o passar o tempo. Ele
faleceu, mas sua palavra e seu pensamento permanecem. Eu próprio, quando pego
meus textos de 15 ... 20 anos atrás, estranho algumas passagens. Não me lembro
delas. E fico boquiaberto pensando: “fui eu mesmo quem escreveu isso?” ...
Leandro
Karnal dias atrás publicou na imprensa um imenso artigo de reflexões voltadas
para a sua própria velhice. Mensagens escritas no hoje para ele mesmo daqui 20
anos. O ser humano é mutável, seu pensamento é perecível. É curioso compararmos
o hoje em outros tempos. É como ver um caderno escrito por nós mesmos no
passado. A gente estranha.
Desta
forma, ficam algumas dicas para todos nós seja daqui dez ou 20 anos. Vamos à
elas ?
-
Espero que eu e você em 2045 tenhamos controlado o tempo. Quando jovens temos
tempo, mas falta tudo à nossa volta, desde uma casa, um carro ou o dinheiro.
Queremos comer uma pizza com a namorada mas falta a bufunfa. Quando estamos
ativamente na vida, o tempo nos come tornando os dias curtos achando chato
festas, aniversários, pizzarias, enquanto podíamos estar encolhidos em casa
para tirar o atraso do sono ou daquele “não fazer nada” aos finais de semana.
Devemos ser sábios em domar o tempo e não deixa-lo nos dominar, assim como
devemos aprender com o dinheiro. Não sejamos escravo dele. Tomara que no
futuro, tudo isso aqui faça sentido !
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Seja sociável. Com o passar do tempo, trocamos o olhar no olho pela revista,
pelo álbum de fotografia, pela televisão e agora pela internet. Mesmo em rodas
de conversa, é comum ver as pessoas sentadas ao nosso lado remexendo o
Instagram num nocivo stalkear para saber o que fulano está fazendo, o que sicrano
está comendo, e assim vai. Isso tem nome, chama-se FOMO, uma síndrome já
tratada como doença. Gostoso mesmo, é jogar baralho, um jogo de tabuleiro,
independente de fazer calor ou chover lá fora. Importante é sentir pessoas ao
seu lado que um dia nos deixarão e, muitas vezes, sem dizer um “te amo” ou um
“tchau”. Espero que entendamos isso no futuro.
-
Não seja teimoso ! Sim. Você e eu não devemos ser teimosos com o passar o
tempo. Parece que isso anda de mão dada na velhice. Semanas atrás estava eu numa
farmácia na rua Governador esperando ser atendido. Repentinamente um barulhão.
Olho para a entrada, um homem caído ao chão. Celular para cá, documentos para
lá e ele estendido no chão com a cara espatifada. Caiu sabe-se lá como. O
erguemos, colocamos numa cadeira e o mesmo começou a reclamar que doía sua
face, a qual começou apresentar sinais de sangramento. Aparentava ser octogenário.
“O senhor quer que avise alguém da família?”, disse minha esposa. A resposta:
“eles não ligam para mim, estão passeando e de nada adianta ligar”. Para mim,
pura teimosia. Sentimos dó, mas notamos um vazio na vida do mesmo num momento
em que quatro ou cinco estranhos o socorreram e o mesmo negava ajuda de pessoas
“sangue do seu sangue”, os familiares que estavam passeando.
Fórmula
boa e fácil não existe. Talvez daqui uma semana eu leia isso tudo e pense que
escrevi a maior besteira. Não sei, talvez leia tudo isso em 2045. Sem pressa,
aliás.
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