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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Ao mestre, com carinho

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

A memória ainda me permite lembrar. “Este é o Maurício”, disse-me minha mãe Ivete referindo-se então para uma criança de sete anos. É quase certeza que a cena ocorre em 1974 e eu retornava à minha residência pelas mãos de meu avô Humberto após um passeio com os netos. Dos meus 1,15 de altura olho para cima e vejo uma figura que meu pai Edson constantemente citava em casa. O rosto da pessoa era um sorriso de orelha a orelha, e, engaçado, quando ria, os olhos se fechavam como se fosse um oriental. Tal pessoa, sempre simpática, era Maurício de Sousa, sim, o pai da Turma da Mônica.

Não sei se foi a única vez que esteve em nossa residência, mas era motivo de ligações e correspondência junto ao meu pai, desenhista profissional desde os anos 1950. A ideia era levar Rontani pai para a Bidulândia, depois Maurício de Sousa Produções. O “namoro” foi intenso e longo, mas não rendeu frutos. Rontani pai tinha receio em deixar Piracicaba onde constituiu família e batalhava como funcionário público inicialmente pela ESALQ e depois pelo CATI da Secretaria Estadual de Agricultura.

Várias cartas demonstravam o carinho deste ícone do quadrinismo nacional e revolucionário do merchandising com sua turma que ia desde o Jotalhão, passando pelo Bidu, Piteco e, claro, os mais populares como Mônica, Cebolinha e Cascão. Em muitas destas cartas fazia referência à Caninha Tatuzinho, por aqui produzida.

Estas memórias me tomaram conta ao assistir a “Maurício de Sousa: O Filme”, 2025, produzido pela Star e disponível na Disney+ após curta temporada nos cinemas. Não caiu no gosto público, mas é uma viagem para quem conhece o trajeto da história em quadrinhos no brasil e da luta de Maurício em sobreviver com desenhos, tornando-se um ícone da arquitetura artística. Ele recebeu um sonoro não quando estava no Grupo Folha, sendo que lhe falaram que ninguém iria viver fazendo desenhos. Ledo engano!

Maurício não teve vida fácil para alcançar o sucesso com o bico de pena. Foi persistente. Tinha um dom natural para esta arte. Sabia fazer negócios. Surgiu na época certa, com padrinhos do porte de Jayme Cortez, Ziraldo e outros. Os Mesquita lhe estenderam o longo caminho da fama quando na primeira metade dos anos 1960 criaram um suplemento educacional para crianças intitulado “Folhinha”, ainda hoje impresso na Folha de São Paulo. Foi lá que o Rontani pai desfilou uma capa, em 1965, mostrando uma pessoa pescando num lago numa ingênua piada de salão ! Pudera ! Ele pescou uma botina ou algo assim. Começava assim a amizade entre Rontani e Sousa, sendo o primeiro anteriormente flertado por Adolfo e Naumin Aizen, proprietários da EBAL, que por décadas foi a licenciadora no Brasil dos heróis da Marvel e da DC Comics.

O filme tem uma ótima interpretação de Mauro Sousa, filho natural do homenageado. Claro que toda sua composição é pura poesia, como vemos nos momentos em que a musa inspiradora surge para a criação de seus personagens. Impossível crer que ele ou qualquer humano se concentre para criar isso ou aquilo. É aí que as ideias correm e não se concretizam. As ideias surgem de ideais que por sua vez, surgem do improviso, da distração e principalmente dos erros.

Não há por dizer que Maurício tenha sido original de uma fórmula utilizada desde os anos 1950 nos quadrinhos norte-americanos. Lembra da quadrinista Marge que nos anos 1935 criou Luluzinha e com ela trouxe Bolinha e seu clube só de meninos? Ou de Charles Schulz na turma do Minduim com Charlie Brown, Woodstock, Marcie, Paty Pimentinha e até o sujinho personagem que lembrava o Cascão ?

Cinema é escapismo, dirão uns. Cinema é a personificação do alterego, dirão outros. Porém, a indústria cinematográfica consegue atingir em cheio uma catarse necessária para nós humanos.

Me lembro como se fosse hoje de outro prazer trazido por Maurício de Sousa: a revista Pelezinho, da Editora Abril. Enfim, um herói com raízes brasileiras. Quantas vezes não esperei chegar um novo exemplar na banca situada no largo do Mercado Municipal.

Uma das últimas, senão a última, visitas a Piracicaba de nosso mestre ocorreu em 2017, quase dez anos atrás, quando veio a Engenho Central participar do Salão de Humor de Piracicaba. Muitas raízes Sousa deixou fincadas em nossa terra.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 22 de fevereiro de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 28 de fevereiro de 2026)

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Imagem estática

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Fez-se a luz. Com isso, saímos da escuridão. Passamos a enxergar melhor. O ser humano percebeu que um dos seus prazeres era a felicidade. Seja ela simples, sofisticada, inesperada ... “Como seria legal eternizar esse momento de felicidade”, pensou alguém. Talvez tenha sido o homem das cavernas quem disse isso. Sei lá. Mas nas imagens rupestres é possível ver desenhos de homens caçando ... o que é aquilo? Um bisão? Bom, não vamos entrar neste detalhe. Ela eterniza uma cena que deveria demonstrar o poderio social de então. Ou apenas a sobrevivência humana. Sei lá.

Com o tempo surgem as ilustrações, as telas a óleo que propagaram a realeza, a elite. Surgem os desenhos que retrataram na ponta do pincel o Brasil e suas belezas tropicais. Mas, tudo mudou 200 anos atrás, quando um processo químico consegue fixar no vidro ou num metal uma imagem real, não aquela adaptada pela mão humana. Ora, pois. Estava toda embaçada e precisava-se passar horas para tentar interpretá-la. Mas, foi esse o primeiro passo.

Foi em um dia qualquer de 1826 que, na França, Joseph Nicéphore Niépce consegue fixar uma imagem em uma placa de estanho, depois de horas de exposição. Ele usou muitos produtos químicos. Errou diversas vezes. Seguiu uma linha de pensamento que já vinha da China por vários séculos, podendo dizer que a fotografia é obra conjunta de diversos autores, até chegar no atual formato digital. Vieram outros depois, como Louis Daguerre que diminuiu para minutos a exposição de sua câmera utilizando chapas de cobre e vapor de mercúrio. Houve muita química. Houve muitos danos. Lembram da invenção do raio-x, em 1895? Wilhelm Conrad Röntgen usou a esposa Ana como cobaia, expondo-a a raios perigosos, sem saber disso.

A partir daí, pôde-se eternizar momentos de alegria como aniversários e casamentos; tristes como mortes; jornalísticos; aventureiros ... enfim, uma diversidade de opções. Tudo feito na terceira pessoa e o fotógrafo, o clássico lambe-lambe, sempre esquecido, colocado na berlinda. A selfie surge em 2013 quando os celulares passaram a ter câmeras frontais.

Com as imagens estáticas, criou-se a imagem em movimento, ou seja, 24 imagens por segundo dando noção ao olho humano que a imagem se movimentava. Pronto ! Estava criado o cinema que em dezembro completou 130 anos, através de outros franceses, os irmãos Lumière (Auguste e Louis). Quem viveu a era do super-8 ou 16 milímetros ou foi ao cinema e sentir as luzes se apagando, hoje vive de saudade. Nostalgia gostosa para ver como a fotografia e o cinema se tornaram indústrias poderosas e sensoriais. Uma fotografia de formatura ou de casamento sempre foi um sonho de consumo. Eterniza momentos ou pessoas que se foram. Tempos atrás era comum enviar uma foto sua mesma, assinada, para familiares. Quando surgiram as revelações automáticas, como a Polaroid, a sensação de imediatismo passou a fazer parte de nossa rotina.

E, em nossa Piracicaba ? Em menos de um ano após a apresentação oficial do cinema em Paris, nossa cidade recebeu uma exibição a qual todos ficaram maravilhados. Fotografia era algo caro, inacessível. Jornais como a Gazeta de Piracicaba, que circulou a partir de 1882, não traziam fotos. Um dos motivos eram os linotipos e clicherias que funcionavam como grandes carimbos quem prensavam a tinta no papel. O custo da reprodução de uma foto era inacessível para o maquinário da época. As fotografias começam a surgir na imprensa local nos anos 1900, com maior ênfase nos anos 1950.

Mas as fotos circulavam de mão em mão. Em papel fotográfico mesmo. Muitos deles guardados até hoje pelas famílias. Marc Ferrez, mecenato de Dom Pedro II, esteve em nossas terras retratando paisagens naturais como o seco salto do rio Piracicaba numa das estiagens durante a virada do século retrasado para o século passado. Cozzo foi outro fotógrafo que viveu das paisagens e da sociedade piracicabanas. Foi o inovador na cidade com sua Foto Rápida Cozzo que prometia revelações em alguns poucos dias.

Da luz, fez-se a imagem e dela eternizou-se no papel (hoje, no digital) tudo o que o ser humano realizou de bom ou ruim na Terra. Sorria !

(Publicado no Jornal de Piraciaba de 1º de fevereiro de 2026)