Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba
- Morreu de que ?
-
Morreu de covid.
-
Ué ? Mas ainda se morre de covid ?
-
Sim.
Tive
esta conversa com um amigo mês passado, fevereiro de 2026. Isso ocorreu seis
anos depois do primeiro caso da covid 19 ser registrada em Piracicaba. Passou
tanto tempo que deu até para esquecer que ainda estamos na pandemia provocada
pelo sars cov 2. Talvez tenhamos nos tornados mais resistentes, ou o vírus tenha
enfraquecido.
Segundo
a Organização Mundial da Saúde, foram 48 mil novos casos de covid no Mundo nos
28 dias iniciados em 15 de janeiro passado. O Brasil lidera o ranking de países
afetados, com 18 mil casos. No mesmo período, foram 1,6 milhão de mortes,
liderados pelos Estados Unidos com 1,4 milhão. O Brasil reportou à OMS que em
28 dias, faleceram 33 pessoas pelo vírus.
Talvez
o período pandêmico seja algo que todos querem se esquecer. Primeiro por termos
vivido tal período. Segundo por ser algo muito recente, ainda em curso. Em
dezembro de 2019 víamos os noticiários das mortes desenfreadas na China. Depois
víamos carros de bombeiro levando caixões e mais caixões pela Europa. E
pensávamos o que ? “Está longe. Nunca chegará até nós”. E chegou. Veio à nossa
vizinhança e à nossa família. Chegou a atingir nós mesmos !
Me
trouxe um sentimento de impotência ao ver dias desses, banners imensos da Festa
de São José que retorna à Estação da Paulista, onde ocorreu por um final de
semana em março de 2020. Inicialmente estava programada para dois finais de
semana. Mas as normas sanitárias impediam a circulação e aglomeração. Parecia
ser impossível, mas o Shopping Piracicaba anunciara semanas antes que fecharia
suas portas por tempo indeterminado.
O
início da pandemia foi algo conflituante. Tudo para, tudo fechado. Nada de
festa, nada de balada, nada de pizzaria. Nem aniversário adiantava fazer, pois
os convidados não apareciam. O medo se instalou em todas as camadas sociais. E
a vacina contra este vilão vem ou não vem ? Mas vem de qual país ? Qual é mais
eficiente ? Surgem as lives na televisão, no streaming, aumentam as vendas de
alimentos e entregas pelos aplicativos de celulares. Jogos, novelas, programas
de televisão são cancelados. E voltam as reprises. Mas assistir à final da Copa
do Mundo de 20 anos atrás, num domingo a tarde, era para afundar ainda mais o
tédio ou coçar a depressão.
Daí
voltamos ao ponto de partida. Ninguém mais passa álcool gel com a intenção de
desinfectar-se. Alguns o usam como forma de limpeza, esquecendo que ele é
apenas um paliativo para quando não se tem sabonete e água corrente. Espirramos
ou tossimos sem a preocupação com o próximo ou ainda de irmos ao lavabo assear
as mãos. Até as maçanetas pegamos como antes, sem lembrar que elas são grandes
propagadores de determinadas doenças. Lembra quando deixávamos o jornal no sol
para matar o vírus, ou aquela pessoa que o esquentava com um ferro de passar
roupa ? Se a covid não morrer por bem, morrerá pelo calor. Havia também quem
chegasse do supermercado e em casa lavasse cada item, esfregando nele uma
esponja como a mãe que tira a sujeira atrás da orelha da criança. Fizemos
apenas um modismo ou ainda hoje praticamos isso?
O
certo é que, neste sexto ano, aprendemos e desaprendemos muitas coisas. Algumas
delas essenciais para nossa sobrevivência, pela manutenção da vida dos nossos
semelhantes. Será que aprendemos ? Ou já esquecemos que ainda se morre pela
Covid?
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