Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba
Esta semana, “a casa mais vigiada do Brasil” perdeu a liderança do Ibope. Tomou seu lugar o zoológico mais vigiado do planeta, aquele onde está o macaquinho Punch. O macaco-japonês nasceu em julho passado, e é alvo do interesse das pessoas no Zoológico de Ichikawa, no Japão.
A
imagem deste macaco bebê dentro de um cubo de concreto, mobilizou os olhares
piedosos de muita gente. Pela internet, pudemos acompanhar e cair aos prantos
pela rejeição feita por sua mãe, que o jogou à berlinda do grupo de macacos que
ocupa uma grande cela.
Até
aí, nada de novo. Desde que o ser humano se reconhece por ser humano, a
rejeição faz parte de sua linearidade na Terra. O que não existiu ao longo dos
milênios foi o processo midiático do qual Punch pode ser considerado uma vítima.
Aliás, vítima do que? De um voyeurismo que não dará em nada na sua aceitação
diante do seu grupo social? Ou da emoção do ser humano como se estivesse
assistindo à um novelão mexicano a la SBT?
A
rejeição das pessoas é histórica. A exclusão social está explícita em muitos
livros. Servem de base para uma discussão ao menos forjada numa mesa de bar. O
instinto coletivo nos permeia com críticas vorazes ao que um grupo de jovens
supostamente teria feito ao cão Orelha. Ou ainda, num microcosmo mais próximos
de nós mesmos, à capivara que cresceu com uma argola em seu peito. Onde estaria
ela? Podemos ajudar? Vamos montar armadilhas para pegá-la e cortar aquele
infortúnio que lhe reduz as condições respiratórias e musculares. Aliás, tal
capivara também foi abandonada pelo grupo, num instinto de que poderia colocar
em risco seu bando. E quem chorou por esta capivara tão próxima de nós ? Mas
muitos derramaram lágrimas pelo Punch que está do outro lado do Mundo.
O
universo midiático tem disso. Só sentimos compaixão por aquilo que vemos, seja
uma residência desabando em Goiás, seja por um assalto registrado por câmeras
de segurança na rua, seja por alguém chutando um cão comunitário... Confesso
que ultimamente tenho sentido medo, pois jogo grãos de arroz para pombas que
passeiam pelos restaurantes os quais frequento.
Existem
condições psicológicas, psicodramáticas e psíquicas nas quais não quero entrar
em detalhes aqui. Até porque sou um mero jornalista, dono de um “parpite” que
pode não coincidir com seu pensamento. Por que dar atenção a um macaquinho
desprezado pela mãe se na sua esquina uma criança sofre nas mãos de seus pais?
Existe algo que podemos colocar com ponto de discussão que é a sensação de
“sozinho na multidão”, ou o pensar diferente, sair da “caixinha” comum. Quem
pensa diferente é o “estranho”, é o “biruta”, é o “que vive no mundo da lua”.
Então, viver o dia todo abraçado num orangotango criado por uma grife da moda,
a Ikea, é valer-se do merchandising, e ter seus “dez minutos de fama”, como
diria Andy Warhol. De forma inconsciente, claro. Daqui uns dias, “a casa mais
vigiada do Brasil” volta a ser a mais vigiada. O macaco-japonês num estalar dos
dedos vira adulto e ninguém mais se lembra dele. De coitadinho passa a praticar
o mesmo bullying com outros bebês macacos.
Mas,
convenhamos. Esse processo midiático está colocando a situação na frente de
nossos narizes. Ou melhor, na ponta de nossos dedos, através dos smartphones.
Houve
um episódio de um seriado de TV em que, durante a “Guerra Fria”, um ser humano
é lançado em órbita. Chega a um planeta desconhecido e é bem recebido. Lhe dão
uma casa com uma TV imensa, uma cozinha com os melhores equipamentos, uma
lareira na sala... Até que, em certo momento, ele tenta abrir uma porta e uma
janela. Não consegue. Em poucos segundos, uma barreira abre e todos estão
contemplando uma jaula com ... um “terráqueo”. Zoológico interplanetário. Um
ser humano preso. Afinal, símiles sumos símios...

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