Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba
Muito
terrível. Nos dias em que se lembrou o 9 de julho deste ano, chega a informação
de que foi subtraída uma peça no Mausoléu ao Soldado Constitucionalista do
Cemitério da Saudade. Uma situação que mexe com o luto das famílias que
perderam seus entes 94 anos atrás. A peça subtraída era uma espada
representando a infantaria dos “voluntários de Piracicaba” que partiram para os
fronts de batalha em busca de um ideal: a democracia.
A
peça foi feita em bronze, assim como outros ornamentos que compõem o jazigo onde
repousam na eternidade piracicabanos que perderam suas vidas por uma causa
nobre. Mexe em muito com o âmago de pessoas como eu, que tive um tio-avô
colhido em vida pela causa constitucionalista. Natal Meira Barros, faleceu na
segunda quinzena de agosto de 1932, em Registro, no Hospital do Sangue da
cidade, três dias após levar um tiro de raspão que lhe rompeu a jugular. Com o
sangramento, perde tudo ... circulação sanguínea, esperança e a vida ! Com
apenas 17 anos, fugindo de casa para se alistar como “voluntário piracicabano”
está no Mausoléu. Hoje, furtaram sua dignidade, seu repouso eterno, sua
esperança de um Brasil melhor.
Natal serviu o 2°
Batalhão de Funcionários Públicos que dominara a cidade de Pinheiros. Viveu
entrincheirado por dias. Os restos mortais do jovem Natal chegam em caixão na
Estação da Paulista. Os irmãos, na casa dos 6 aos 12 anos, não sabiam ao certo
o que havia ocorrido. A casa dos Meira Barros entristeceu por muito tempo.
Tempo este que não apaga a dor. Judith e sua irmã Julieta por décadas
mantiveram o ideal de Natal, com visitas ao Mausoléu, participando das
atividades do 9 de julho e jurando viver até o fim de seus dias propagando o
ideal do jovem de 17 anos que abandonou carreira e família para ter seu nome na
lembrança de 1932. Jaz no Cemitério da Saudade e tem seu nome estampado em
Travessa situada no bairro Higienópolis, em Piracicaba, e em rua no Jardim
Aricanduva em São Paulo.
Uma
peça de metal já não mais faz parte do Mausoléu na Saudade. Sabe-se lá para
onde foi. Apenas, supõe-se. Porém, sabe-se que tal peça foi furtada durante a
madrugada e, cremos, deverá ser vendida para que fundida tome outras formas.
São quase 100 anos de contemplação num projeto arquitetônico construído no
próprio ano de 1932 e que anualmente havia motivado peregrinações de
familiares. Uma dessas pessoas que chorou diante do jazigo foi Yvone Meira
Barros, irmã de Natal, que também morreu em tenra juventude por depressão ao
perder o jovem irmão. A questão: “como dormirão os responsáveis pelo sumiço de
uma peça que compôs uma espada empunhada para cutucar e matar as forças
federais de Getúlio Vargas em 32, como tivesse o papel de uma baioneta?”. Será
que dormirão tranquilos? Creio que sim, por história não faz parte do intelecto
de alguém que afronta a história.
O
Mausoléu dos Voluntários de Piracicaba tem pouca história conhecida, apesar de
sua veneração. A Gazeta de Piracicaba, 30 de outubro de 1932, cita uma romaria
aos túmulos dos voluntários piracicabanos, dizendo: “Os abaixo assignados,
componentes do Batalhão Piracicabano vêm, por este meio, convidar a todos os
seus companheiros de lucta e demais voluntarios para, incorporados, prestarem
uma homenagem á memoria dos bravos piracicabanos que tombaram no campo de
batalha, em defesa da causa sagrada que S. Paulo esposou.
Essa
homenagem constará de uma romaria ao Cemiterio Municipal, no proximo dia 2 de
novembro (Finados).
Para
esse fim, todos os que tomaram parte na campanha deverão reunir-se ás 9 horas
no Largo da Matriz. Este convite se extende tambem ás associações exittentes
(sic) na cidade e ao povo em geral.
(aa) Dr. Jacob Diehl Neto, Prof. Benedicto Rodrigues de Moraes, Lauro
Alves Catulé de Almeida, Thomaz Whately, Ary Machado de Britto, Rubens Pereira
Lima
E,
assim, mais uma vez, a história caminha para seu esquecimento.


