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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Omnes similes sumus

Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

O título me lembra uma aula que tive nos anos 1980 na Escola Estadual Dr. Jorge Coury. O professor era Franscislídio Beduschi que também lecionava no ensino particular. Ele foi responsável pelas matérias – extintas com o tempo – “Organização social e política do Brasil” e “Educação moral e cívica”. Num destes encontros vespertino com os alunos ele, no mais profundo de seu conhecimento, dispara:

- “Quem sabe o que está escrito no frontispício do Cemitério da Saudade?”

Grande maioria dos alunos ficou pensando o que seria frontispício, que em muito rimava com hospício e daí os risos na sala de aula. Frontispício, disse ele, na área de arquitetura, é a entrada decorada de um edifício e na Saudade está a inscrição “Omnes similes sumus”, ou “somos todos iguais”, numa tradução para lembrar que na morte não há distinção. Todos, somos iguais.

Muito menos dolorido que em Paraibuna, São Paulo, cujo cemitério traz em sua entrada a inscrição “Nós que aqui estamos por vós esperamos”. Dizem que a frase veio de padres europeus no contexto de que “nós que aqui estamos, esperamos por vossas orações”.

Mas, tradições e lendas à parte. Em breve, o IHGP republicará um trabalho importante dos autores Maurício Beraldo e Paulo Tot Pinto, dupla que possui talento e vocação para falar sobre o mais que centenário Cemitério da Saudade. São dois estudiosos que merecem aplausos da sociedade piracicabana. E o IHGP com esta republicação espera estar preenchendo uma lacuna sobre este local que atrai curiosidade por seu contexto arquitetônico e também pelas personalidades nele sepultadas, além, claro, de ser ponto de devoção por aqueles que já partiram deste mundo.

Piracicaba tem cemitérios centenários, reconhecidos ou não. O Cemitério da Saudade tem mais de 150 anos. Continua sendo motivo de devoção, de casa para felinos domésticos, de visitas dos “amigos do alheio” e também de ponto de visitação pela arte cemiterial que proporciona. Nele estão sepultadas personalidades importantes que trabalharam para a construção da sociedade local. Nele estão monumentos considerados verdadeiras obras de arte, as quais merecem nossa admiração e estudo. Não é à toa, que anos atrás foi encenada em plena meia-noite a peça “Vozes do Comurba” com grande sucesso. Hoje são sucesso as visitas noturnas ao cemitério, tornando claro que não se deve ter medo com os mortos e sim com os vivos. Essas visitas noturnas unem o inesperado com o temido e, em especial, com o assombroso, o qual é dominado em conjunto pelas dezenas de pessoas que visitam suas ruas com lanternas e sempre na expectativa do que virão pela frente.

Confesso que anos atrás via grupos se formarem para conhecer e discutirem tal arte cemiterial. Tinha pavor. Com o tempo passei a nota que muitos jazigos trazem uma história rica sobre a pessoa ali sepultada. Tomemos por base o mausoléu de Almeida Júnior, pintor sediado em Itu, morto em Piracicaba pelo marido de sua prima em frente ao Hotel Central, na praça José Bonifácio. Seu contexto arquitetônico é magnífico, rendendo momentos de reflexão e contemplação. Esse é apenas um dos vários exemplos. Temos também a quadra das vítimas do Comurba. Temos um presidente da República aqui sepultado. Temos prefeitos. Enfim, é uma história viva sobre os mortos. Pessoas que deram muito de si para termos essa Piracicaba fortalecida na qual vivemos.

“Somos todos iguais” que em breve será colocado a disposição do leitor nos ajuda nestas reflexões. É um roteiro das principais personalidades sepultadas na Saudade.

Que seja a todos um ótimo livro de cabeceira para conhecer histórias, lendas e tradições locais.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 14 de junho de 2026)

 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Memórias recentes - 2

Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Na coluna anterior, relembrei três fatos que vivi nos anos 1990. Talvez, todos desconhecidos da grande população. Foram poucas as pessoas que estiveram ao meu lado durante o ocorrido e, involuntariamente, servi como testemunha ocular dos fatos. Vamos para mais alguns.

Ordem ao coronel - Falecido dia 17 de fevereiro do ano passado, Carlos Miranda notabilizou-se como o “Vigilante Rodoviário” na série televisiva dos anos 1960. Em 1993, esteve em Piracicaba a pedido da Polícia Rodoviária do Estado, base local. A intenção era dele, enquanto coronel da Polícia Militar Rodoviária Estadual, abrir uma exposição sobre acidentes nas rodovias, realizado no Shopping Center Piracicaba onde está hoje a praça de alimentação. E lá veio, de Itanhaém, onde residia. Foi recebido pelo policial Guedes (Luiz Antônio Guedes de Moura), que estudava jornalismo na Unimep e exercia a função de assessor de comunicação de uma base na região. 

Miranda posou com muitas pessoas ao lado do seu veículo Simca Chambord, similar ao do seriado. Repentinamente, começa a queixar-se dos coturnos que lhe matavam os pés. Tira um imenso canivete e começa a recortar as botinas. Romualdo José Briganti, professor Babi, renomado no ensino e cinéfilo adorador do personagem, solta um berro que parou o Shopping: “por favor, senhor Vigilante ! Não faça isso !!!”. Miranda queixa-se do calçado que lhe aperta os pés, tira as duas botinas e entrega a Babi. Este, esboça um sorriso tremendo por ter sua memorábilia os coturnos de seu ídolo televisivo. Sai abraçado ao par de pisantes. E o coronel, outrora vigilante das rodovias ao lado do fiel cão Lobo, parte pelo Shopping caminhando pelos corredores com sua indumentária de policial rodoviário da TV apenas de meias...

Maravilha - Foi numa sexta feira que antecedeu o Carnaval de Piracicaba. Deve ter sido em 1991 ou 1992. O cenário era o saguão do Beira Rio Palace Hotel, por volta das 18 horas. Havia na ocasião uma coletiva de imprensa para falar sobre o Carnaval daquele ano. 

No sofá, toda colorida e simpática estava a atriz Elke Maravilha, contratada pela Prefeitura para animar a folia daquele ano. Apresentação daqui, falatório dali, Elke passa a dar atenção aos representantes das mídias de forma individual. 

Eis que o repórter da Rádio Alvorada lhe pergunta como ela via Piracicaba sem Carnaval de rua naquele ano. Ela, na maravilha que lhe tornou peculiar na TV, solta um alto e estrondoso: “Como não vamos ter Carnaval ??? O que vim fazer aqui, então???”.

Silêncio no salão, até que um assessor vem e acalma a jurada do Cassino do Chacrinha: “não teremos Carnaval de rua, mas teremos blocos carnavalescos e bailes noturnos que se concentrarão em determinados locais da cidade”. E assim Piracicaba maravilhou-se com Elke naquele ano.

Encontros – Como jornalista e profissional da Rádio Difusora e Rádio Alvorada, participei de vários encontros com os artistas de grande renome dos anos 1980 e 1990. Alguns deles foram Edwin Louise (da novela “Princesa Isabel”), os membros do grupo Casseta e Planeta entre outros. Um dos casos mais “saia justa” ocorre nos estúdios da Rádio Alvorada AM, cuja frequência é hoje ocupada pela Jovem Pan News. Na ocasião, estava em Piracicaba Mário Lago, ator de renome nas novelas da TV Globo e musicista – foi ele quem compôs “Amélia” (...aquilo sim que era mulher de verdade...). Lago aparece no estúdio da emissora acompanhado de assessores da Secretaria de Cultura. O locutor de plantão, sem saber o que abordar, no meio do bate-papo diz: “como o senhor tem conhecimento...”. Lago diz de uma forma bem ríspida: “meu jovem, eu com mais de 60 anos de atuação e 80 anos de vida se não souber como as coisas são não estaria aqui onde estou”. Eis que repentinamente, uma lágrima escorre do locutor, que tem a boca seca e exclama: “nossos comerciais, por favor”. Quem souber outra, que conte !