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quinta-feira, 19 de setembro de 2024

De raspão

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Houve uma semana, no início dos anos 1990, em que os cinemas do Shopping Piracicaba – denominados de Cine Center – apresentaram um filme por dia. Foi uma sequência de obras esquecidas comercialmente. Estes filmes foram apresentados em várias partes do país como propaganda para o mercado do VHS que estava em alta. Os cinemas estavam situados na área de brinquedos, ao lado da praça da alimentação, depois substituído por um bingo.

Um dos cinemas do Shopping apresentou esta sequência cujo lançamento eu acompanhava pelos jornais locais. Eis que me deparo com um dos filmes de Frank Sinatra, rodado em preto e branco, que seria apresentado naquela semana. Se não me falha a tarde, foi apresentado numa quarta-feira às 14 horas. Lá fui eu ao Shopping. Era amigo do gerente, seu Silvio, pessoa boníssima, que na cidade representava o Grupo Paris Filmes, coordenado por Márcio Fraccaroli. Como eu escrevia críticas sobre lançamentos do cinema em um extinto jornal, tinha bilheteria liberada. Cinéfilo desde criança, era um êxtase ver um filme preto e branco na telona, coisa rara naquele período. Os filmes antigos estavam sendo colorizados e exibidos na TNT ou vendidos em VHS na intenção de introduzir antigos clássicos de boa bilheteria ao gosto do público jovem. Não deu certo.

Muito bem. Na plateia, eu mais um casalzinho apaixonado que não botou os olhos na tela, em momento algum. Eu delirava ao ver Sinatra em close numa telona.

Não foi um dos melhores filmes de Sinatra. Ele sequer cantava. Mas a história de “Sob o domínio do mal”, rodado em 1962 pelo diretor John Frankenheimer – autor dos principais thrillers dos anos 60 e 70 –, é no mínimo curiosa. A obra foi tirada de circulação por cerca de 30 anos. Motivo: ele, como veterano da Guerra da Coreia, tinha a missão – inconsciente – de matar um senador. Meses depois, a trama se tornou real com o assassinato de John Kennedy, em novembro de 1963. Para evitar que o filme inspirasse atitudes similares ou fosse acusado de ter sido o motivador do crime contra o presidente dos Estados Unidos, resolve-se tirá-lo das projeções. Ostracismo. Voltou, como relatei anteriormente, como um pseudoclássico, já sem seu sucesso inicial.

Sinatra era um soldado norte-americano na Coreia que foi capturado e nele fizeram tamanha lavagem cerebral ele agia como um robô programado, agindo como um doce com amigos e animais, mas com intenção de cometer uma série de más ações.

Em 2011, o mote volta à tona, desta vez na televisão com o seriado “Homeland”, com oito temporadas. Porém, na primeira, um oficial da CIA é capturado no Iraque e retorna aos EUA como herói. Porém, ele teve a missão para que, numa das homenagens que ele receberia, entraria num bunker com o presidente norte-americano e deveria acionar um explosivo que levava ao corpo. Não detonou – desculpem o spoiler – tanto que o seriado levou oito longos anos para ser concluído.

Por que todo este relato ? Por recentemente ter ocupado as manchetes o tiro de raspão na orelha levado durante comício do candidato Trump. Os alvos sempre são políticos e muitas vezes presidentes.

Como curiosidade, assisti recentemente “O dia de Chacal”, 1973, de Fred Zinnemann, tendo desta vez como alvo o general Charles de Gaulle, presidente da França nos anos 1960. A trama é idêntica: uma pisada no pé na colonização da Argélia, motiva um grupo a tirar o líder governamental da presidência francesa.

Na vida real tivemos casos semelhantes como a morte do arquiduque Francisco Fernando, sucessor do império Austro-Húngaro, eclodindo a Primeira Grande Guerra. No Brasil, João Pessoa, governador da Paraíba, também foi alvo de homicídio enquanto cumpria seu mandato. Trouxe alvoroço na sociedade brasileira, estopim da Revolução de 1930. Na vizinha Argentina, Cristina Kirchner foi salva por um estopim que falhou, um ano atrás. A mesma sorte não teve o primeiro ministro japonês, Shinzo Abe, assassinado por uma arma caseira – armamentos são proibidos no país – alvo de atentado durante aparição pública.

Entre a realidade e a ficção, fiquemos com o filme de Sinatra. Menos dolorido.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Setembro repleto

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

A história de Piracicaba é cheia de surpresas e curiosidades. Com setembro chegando, fomos aos velhos alfarrábios saber o que ocorreu nos últimos séculos aqui na Noiva da Colina. Na verdade, não chegamos um tanto longe destes 257 anos, até porque a história vivida foi registrada apenas em atas manuscritas pela Câmara de Vereadores. Livros, diários, revistas ... eram raridades no século retrasado. Fotos, então, nem se pensar.

Mas vamos a alguns acontecimentos que hoje soam como curiosos, bebendo na fonte de pessoas como Leandro Guerrini, Samuel Pfromm Neto e almanaques de época.

Aliás, setembro fez com que Piracicaba tivesse referências importantes, muitas delas vindas após o centenário da Independência, ocorrido em setembro de 1922. Segundo cartas escritas por alunas da atual escola Sud Menucci, na cápsula aberta dois anos atrás, após ficar enclausurada por 100 anos, Piracicaba seria Shangri-la nos dias atuais. Triste ilusão ... dura realidade ... Uma das cartas diz que Piracicaba deveria ter dezenas de aviões voando pelo seu céu durante a abertura desta cápsula do tempo. Isso era esperado porque, em 1º de maio de 1922, pousou o primeiro avião em nossas terras. Coisa de outro mundo ! A cidade parou para receber tal aeroplano em área considerada como o primeiro aeroporto situada onde hoje encontra-se o campo do Ginásio da Esalq e a Igreja São Judas Tadeu. Na época, a carta, ainda trazia referência aos jornais da cidade. “Quem sabe daqui 100 anos existam muitos mais jornais que hoje para informar a cidade”, dizia – mais ou menos assim – uma das missivas. Triste realidade. No meio do caminho não tinha uma pedra, mas sim um Facebook, um Instagram, um What’s app ... E os jornais ... Bom. Próximo assunto !

Setembro também nos fez esquecer a praça 7 de Setembro, situada em parte de onde está hoje a praça José Bonifácio, que até os anos 40 era dividida em duas. Era o trecho onde situava-se o Teatro Santo Estêvão. Jogamos a mesma para o esquecimento. Mas a cidade deve à setembro sua mais extensa avenida (acho eu), a Independência, que começa na Governador e finda-se na rodovia Luiz de Queiroz. Tem também o Jardim Monumento, com praça e monumento ao centenário da Independência.

Ainda sobre a praça, lembramos do italiano Lélio Colucini, que, em 7 de setembro de 1938 teve inaugurado o seu Monumento ao Soldado Constitucionalista, hoje em área próxima ao seu local original após ser desmontado, removido e montado na praça em frente ao Cemitério da Saudade. Foi ele quem projetou e fez o monumento, bancado financeiramente pela população em homenagem aos piracicabanos que tombaram na Revolução de 1932. A placa de bronze com os falecidos foi furtada ano passado.

O mês também motivou a criação do “Circolo Meridional XX de Setembro”, em 1898, reunindo imigrantes europeus em especial italianos, cujas reuniões ocorriam no Hotel do Lago, também na praça 7 de setembro. Teve entre seus fundadores o jornalista Felipe Angelis, idealizador, em 1906, do jornal “Il popolo”, inteiramente escrito em italiano, exaltando o papel e as atividades destes italopiracicabanos. O Circolo, em 1905, uniu-se à Società Italiana di Mútuo Soccorso.

Também em setembro, no ano de 1950 temos a notícia do falecimento de Antónia Martins de Macedo, conhecida por Madre Cecília, a qual nasceu em 1852. Ingressou como irmã na igreja em 1895, quando tornou-se viúva, mãe de três filhos. Três anos depois fundou o Lar Escola Coração de Maria, inicialmente um asilo de órfãs. O processo de canonização da madre teve início em 1992.

Também foi em setembro, no dia 6, que fez-se a luz ! Aqui em Piracicaba, a energia elétrica torna-se novidade, com maquinário e lâmpadas importadas de Nova Iorque por Luiz de Queiroz. A iluminação não era pública e sim particular, até porque não existiam normas para isso. Isso ocorreu em 1893 quando Queiroz implantou postes nas proximidades de sua fábrica de tecidos, onde situou-se a Boyes na atual avenida Beira Rio. Era atração da população ver postes iluminando a noite neste trecho, retornando depois para casa na escuridão ou em trechos abastecidos por postes com lamparinas.

Leandro Guerrini lembra que “foram iluminadas as ruas Prudente de Morais, São José, Alferes José Caetano, Direita (Morais Barros), do Comércio (Governador Pedro de Toledo), da Glória, (Benjamin Constant), 13 de Maio e Santo Antonio - o bloco central das vias públicas da terra, circundando o Jardim Público”. Algumas lâmpadas foram quebradas por estilingadas, patrocinadas por opositores de Queiróz. Mas, aí, já é outra história. E viva setembro !

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Rico folclore

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Vertentes que expuseram o folclore no país seguem pensamentos de origens nacional e local. Muitas destas lendas, crendices, “causos” e contos migraram de tradições seculares provenientes dos povos indígenas e até de outros continentes. Um dos que aproveitou comercialmente o folclore brasileiro e ajudou na propagação de seu contexto foi Ziraldo, artista plástico falecido em abril passado. Em 1959, através da editora O Cruzeiro, criou a HQ “Pererê”, numa obra solo de suas tiras anteriormente publicadas na revista semanal que levava o mesmo nome da editora. Pererê era o saci, um apaziguador da natureza e dos amigos da floresta. Unia a fauna e flora tendo o meio-ambiente como pano de fundo.

Muito antes, também comercialmente, porém em texto e não nos quadrinhos como Ziraldo, Monteiro Lobato fez de personagens, como Jeca Tatu e os membros do seu Sítio, uma larga escala de referência na memória coletiva brasileira. Também bebeu na fonte do exterior. Sua Cuca, é uma feiticeira com cabeça de jacaré, que tomou contornos físicos na série da Rede Globo na segunda metade dos anos 1970. Mas, na verdade era uma variação do dragão combatido por São Jorge na lua, a Coca, personagem do folclore português utilizado nas seculares apresentações de Corpus Christis e “importada” pelos colonizadores para a cultura brasileira. Coca – cabeça ou cuca – também é referência na tradição folclórica da Espanha e no Halloween norte-americano: é aquele espantalho com cabeça de abóbora !

Entre os expoentes locais, aqueles considerados por “raiz”, tivemos vários nomes, que infelizmente estão sendo esquecidos ou substituídos por tradições de outras regiões do país ou até pelos estrangeiros que hoje ajudam a povoar Piracicaba que, com seu crescimento industrial, está recebendo culturas europeias, norte-americanas e asiáticas. Hoje é comum ver adereços de halloween nas residências, nos condomínios, no comércio ... algo incomum até a virada do século passado.

Por aqui, debruçaram sua sapiência para catalogar e expor estas tradições folclóricas pessoas como João Chiarini, Thales Castanho de Andrade, Alceu Maynard, Hugo Pedro Carradore ... e tantos outros. Piracicaba chegou a ter seu Centro do Folclore em imóvel situado à rua Boa Morte que, tombado, possui apenas sua frente restaurada e ao fundo ... um estacionamento. Mas nada de saci ou cuca. O Centro era responsável pela preservação e difusão de expressões como o cururu, a moda de viola, a congada...

No início do século passado, tivemos como um dos principais expoentes Francisco Damante (1895-1927) que, ao longo de três décadas vida, publicou seus estudos sobre as tradições no “Estadão”, “Tico-Tico”, “A Cigarra” e “Vida Moderna”. Costumes, festas e tradições também renderam livros próprios que necessitam de uma releitura e ou republicação.

Piracicaba tem o dever de cultuar e colocar em seus panteões duas personalidades: Alceu Maynard de Araújo e Waldemar Iglesias Fernandes. Viveram outra época: aquela da imaginação, naquela habilidade que Spielberg e Hitchcock levaram ao cinema: assustar sem mostrar o motivo do susto. Nos escritos de Lobato imaginava-se a Cuca. Na TV, ela tomou forma. Iglésias, é, inconteste em minha opinião, o pai dos estudiosos em folclore. Tem livros que precisam não de releitura e sim serem relidos, tamanha sua contribuição para nossa cultura.

Alceu Maynard também é um ilustre piracicabano que teve longa obra sobre o folclore desde livros até filmes, alguns sendo restaurados pela Fundação Itau e Cinemateca Brasileira.   

Muitos nomes surgiram no século passado. Basta olhar o sempre atual “Dicionário de Piracicabanos” (Editora IHGP), de Samuel Pfromm Neto. Não se pode dizer que há unanimidade nos nomes. O certo é que cada qual estudou costumes e tradições de uma forma. Forma esta que, assim como Saci, a Cuca e outros, não assustam mais a molecada que está acostumada a dormir assistindo Chucky e variações como “Um lugar silencioso”. A internet expôs medos de uma forma tão aberta que ele não provoca mais arrepio.

 


quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Efemérides de agosto

Edson Rontani Júnior, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Foram muitas as idas, lá nos anos 1970, à Farmácia do Povo, à Agência de Revista Cury e Agência Gianetti buscar os famosos almanaques anuais. As três empresas aliás, ficavam próximas uma da outra, num raio máximo de 300 metros, perto ou na própria praça José Bonifácio. Essas idas hoje vivem presas ao passado.

Mas isso era motivo de uma incansável busca para matar a curiosidade ao estilo de conhecimentos gerais, diferente do que temos hoje com o buscador Google que nos traz tudo mastigado, sem esforço para que coloquemos a “massa cinzenta” para trabalhar, motivando à época um raciocínio aprofundado que hoje é jogado à berlinda.

Os almanaques de farmácia traziam as fases da lua, a época cerca de pescar, o que plantar em determinado mês, dias propícios para cortar cabelo e muitas anedotas. Santa ingenuidade ! Algo que hoje não faria arrepiar nem os pelinhos do braço de uma criança. Mas os mais vividos terão, com certeza, um ar de nostalgia ao lembrar do cheio da tinta destes almanaques. Digamos assim, era uma cultura inútil, mas gostosa de se cultivar.

Com o passar do tempo, o chiclete passou a perder o sabor, o cheiro de pastel nos enjoa, o saudosismo passa a ser uma folha do diário a cada amanhecer, as dores começam a aparecer e as idas à farmácia são mais constantes. Deixo claro aqui que estas idas são para comprar remédio, pois nem mais existem os almanaques que aqui relato. Aliás, muita gente era envolvida em sua confecção. Desde grandes pensadores como Sérgio Porto até Aurélio Buarque de Hollanda, entre outros. “O Guia dos Curiosos”, de Marcelo Duarte, reviveu isso nos anos 1990. Teve reedições e até site para aprimorar o antigo conhecimento analógico ao mundo digital.

Muitas destas curiosidades foram estampadas nas páginas deste JP de 1989 a 1997 e depois de 2002 a 2008 com a curiosa página “Você Sabia?” veiculada no suplemento infantil “Jornalzinho”. Esta memória ainda hoje permanece viva para muitas pessoas.

Piracicaba, em seus 257 anos, também teve curiosos que registraram efemérides, fatos ocorridos diariamente numa vida individual ou social. Curioso é ver como no passado nos relacionávamos e como fatos chulos mereciam ser registrados.

Com agosto iniciado, consegui separar alguns desses fatos antigos registrados neste mês e por alguém anotados num caderno. Vamos a eles.

1º de agosto de 1861 - Pronto o matadouro municipal. Se localizava no começo da rua do Rosário, à margem do ltapeva, e ali ficou até 1911, mais ou menos, quando foi inaugurado o atual matadouro municipal, fora do perímetro urbano.

2 de agosto de 1784 - Termina o serviço de delineamento da povoação de Piracicaba. O terreno em que se delineou e estabeleceu a povoação foi doado pelo capitão povoador Antonio Correia Barbosa, e abrangia as terras desde a barra do ltapeva até sua cabeceira.

10 de agosto de 1842 - Por exposição do escrivão serventuário do tabelião vitalício de Sorocaba, sabe-se que a população da Piracicaba (Vila da Constituição na época), era de 10.291 habitantes.

12 de agosto de 1858 - Nasce nesta cidade o dr. Adolfo Afonso da Silva Gordo, talvez o político de maior projeção que Piracicaba deu ao país, no seu tempo. Formado em direito, foi deputado provincial. Proclamada a República, foi nomeado governador republicano do Rio Grande do Norte. Foi depois deputado federal e senador por São Paulo. Faleceu no Rio de Janeiro a 29 de julho de 1929.

15 de agosto de 1810 - Nasce em Itu o pintor Miguel Arcanjo Benício de Assunção Dutra. Cedo transferiu sua residência para Piracicaba, revelando seus preciosos dotes de ourives, organista, pintor, decorador, compositor e projetista. Tem seu nome ligado às igrejas da Boa Morte, de Santo Antonio, de São Benedito, ao teatro Santo Estêvão e à Santa Casa. Faleceu nesta cidade em 22 de abril de 1875.

19 de agosto de 1840 - Nasce no Rio de Janeiro o dr. Estêvão de Souza Rezende, Barão de Rezende. Cedo se radicou em Piracicaba e aqui deixou traços marcantes de sua operosidade e iniciativa. No Engenho Central, na Santa Casa de Misericórdia, na navegação fluvial, na câmara municipal, no jornalismo, muito batalhou pelo progresso de nossa terra. Como vereador, foi notável. Faleceu nesta cidade a 11 de agosto de 1909.

22 de agosto de 1876 - Nasce em Luca, Itália, o comendador Pedro Morganti, elemento de alta projeção no cenário industrial do Estado e figura intimamente ligada ao progresso de nossa terra. Era presidente da Refinadora Paulista S.A., proprietária dos engenhos de Monte Alegre. Morreu no Rio de Janeiro, em 22 de agosto de 1941.

E assim por diante. “Bora” escrever a história no dia de hoje ?!?

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 11 de agosto de 2024 e na Tribuna Piracicabana de 17 de agosto de 2024)

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Retratando os retratistas

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Dias destes passei horas – deliciosas horas – catalogando fotografias em papel. “Retratos” doados por famílias, empresas, entidades. Muitas me fizeram recordar do passado como o acervo doado pelo Marcelo Batuíra, diretor deste matutino, resgatando a memória dos anos 70, 80, 90 ... Grande maioria está passando por catalogação e digitalização para posterior compartilhamento nos meios digitais do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

Outro acervo que chamou minha atenção foi uma sequência de fotos dos anos 80 de autoria de Diógenes Banzatto, que trabalhou no extinto “O Diário”. São registros de nossa Piracicaba, em especial a enchente de 1983, ainda hoje lembrada como uma das mais temíveis para o comércio e moradores da rua do Porto e adjacências. Não por coincidência, uma destas fotografias, que media o equivalente a meia folha de sulfite, na condição preto e branca como era comum na época, mostra uma casa tomada pela água até seu forro. Um telhado ainda não submerso e um cão. Sim ! Um cão no telhado. Logo veio-me à memória o cavalo que também ficou num telhado no sul do pais na recente cheia que atingiu o Rio Grande do Sul.

O que demonstra isso ? A história se repete. Um eterno repetir. E o que mais ? Não aprendemos nada com esta repetição. Caímos nos mesmos erros do passado. Fácil é colocar o dedo no nariz dos outros. Mas, Banzatto teve a sensibilidade de registrar aquele momento, talvez a bordo de um barco, mas o registro é ímpar e, 40 anos atrás se assemelha aquilo que hoje ganhou destaque nos noticiários internacionais.

Este é o papel do fotógrafo profissional. Ter a vista aguçada para aquilo que deve e pode interessar às grandes massas. Hoje, maioria tem uma câmera na mão, acoplada ao smartphone. Mas poucos sabem utilizá-la. Não usá-la com filtros de aplicativos ou sobrepondo emojis, mas tendo foco no interesse.

A fotografia está completando 200 anos de criação em breve. Na verdade, a data de 1826 é o marco da criação (ou primeiro registro histórico) feita pelo francês Joseph Nicéphore Niépce. Foi ele quem conseguiu fixar com produtos químicos uma cena num papel fotográfico. Outros tentaram. Conseguiram meio intento. Revelavam a foto mas ela não se fixava no vidro, no chumbo, no papel ... Foi uma criação coletiva. Depois movimentou indústrias desde fábricas de máquinas, filmes, ou dos “retratos” em estantes, álbuns de casamento ou de aniversário. Memórias registradas para a posteridade.

Aí me socorro do saudoso Samuel Pfromm Neto em seu “Dicionário de Piracicabanos”, meu livro de cabeceira, para conhecer um pouco mais destes retratistas locais. Aqui nestas páginas já falamos de João Cozzo, o “nosso Marc Ferrez”. Este último, descendente francês que na época do Império registrou cenas de norte a sul do país, passando inclusive por Piracicaba fotografando nosso salto. Cozzo fez o mesmo em nossa cidade. É autor das principais imagens registradas em nossa história do início do século passado. Mostrou o meio-ambiente nas margens do rio Piracicaba assim como registrou o urbanismo crescente com o desenvolvimento populacional.

Tivemos também a família Bischof que até os anos 1980 manteve loja no Centro com produtos fotográficos e revelações. José, Isabel, Rodolfo, Oswaldo, Oscar, Frida, Leonor e Elza formavam sua família, no amor pelos registros fotográficos. Administravam loja de produtos elétricos além de ateliê fotográfico. Representações comerciais tivemos com os Fuji, Outsubo, Cantarelli, Caprecci, Filetti e outros. Foi mais uma segmentação do comércio levada ao ostracismo pela evolução do computador ... dos celulares ...

Jornais do passado nos apresentam curiosidades como uma loja especializada em brinquedos para crianças. Publicidades destes matutinos ancestrais, lá por volta de 1894, são estampadas anunciando que a Fotografia Pompe, que atendia num sobrado onde hoje é a rua Moraes Barros, vendia produtos para datas religiosas como Natal e dia de Reis, além de fotos, claro.

Registradores de fatos em fotos de papel dos anos 80 e 90 ainda povoam Piracicaba, em longevas amizades. Perdemos o citado Banzatto, assim como Henrique Spavieri. Mas ainda nos encontramos nas ruas com Pauléo Tibério, Davi Negri, Marcelo Germano, Alessandro Mascchio, Matheus Medeiros e tantos outros que prosseguem com este ofício bicentenário.

Li não sei onde que nossa memória se vai quando nosso retrato é tirado de uma estante. Acaba-se tudo. Finda-se uma vida e uma memória perpetuada atrás de um papel revelado por produtos químicos.


quinta-feira, 4 de julho de 2024

O canto do uirapuru

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Vermelho, preto e amarelo. Uma conjunção de cores berrantes. Um canto incomparável. Assim tomou forma um índio que se apaixonou por uma bela jovem de cabelos negros, pele avermelhada, lábios contidos. Para que não sofresse pelo amor não correspondido, o deus Tupã o transformou nesta pequena ave. Toda vez que via sua amada, como num choro eterno, cantava para ela, atraindo sua atenção sem que a mesma soubesse que ele a admirava.

Assim é a lenda de Quaraçá e Anahi, numa espécie de Romeu e Julieta tupiniquim. É uma lenda forte no norte brasileiro, contada em verso e prosa do amor não correspondido. Outra vertente diz que aquele que ouve o canto do pássaro tem sorte, felicidade, vida eterna ou realiza seu desejo mais profundo. O pássaro é o uirapuru da variação irapurá, ou seja, o pássaro que não é pássaro.

Mas, raios ! Onde encontrar este animalzinho que se esconde fortuitamente por entre a floresta ? Foi o que fez John Dalgas Frisch nos anos 1960 quando passou várias temporadas gravando o cantar de pássaros nas mais diversas áreas deste Brasil. Tudo foi compilado em LPs ouvidos exaustivamente por amantes de pássaros presos em gaiolas. Aí que surge a cultura de colocar o disco para o canário ou o curió, estimulando o enjaulado animalzinho a seguir a sinfonia amazônica gravada em forma fonográfica por Dalgas e outros seguidores.

John Dalgas Frich faleceu dia 22 de junho passado. Houve repercussão de sua morte e seu trabalho pela internet. Foi um pioneiro na fauna brasileira. Não teve quem o igualasse no registro de sons da natureza. Não deixou herdeiros à altura.

Respeitado no exterior, Dalgas foi exemplo do observador da natureza, numa inspiração que teve de seu pai Svend Frisch, consagrado pintor das aves e fauna brasileiras. No início dos anos 1960 lançou seu primeiro disco trazendo para a cidade os sons da selva, num mercado comercial que se tornou interessante, levando o LP a ficar várias temporadas entre os mais vendidos. Publicou livros e outras extensões culturais de seu conhecimento. Perseguiu como um doido o uirapuru, até que o encontrou logo próximo às 7 horas da manhã do dia 9 de novembro de 1962, no Acre, quando caminhava pelo seringal Bagaço em Rio Branco. Nem a respiração de Dalgas era possível ser ouvida na gravação feita com colossais microfones que lembravam os alto falantes Delta tão usuais então ou na atualidade igual às pequenas parabólicas. O LP intitulado “Vozes da Amazônia” mostra ao mundo todo o raro uirapuru, apresentando oito cantos diferentes.

Dalgas escreveu livros (alguns com seu pai, amigo de Picasso), gravou sons reproduzidos atualmente em forma sintetizada. Criou um nicho de atenção histórica e cultural nunca antes explorado no Brasil. Foi “sui generis” ou um autodidata em toda a produção feita ao longo de seus 94 anos de vida.

Foi um observador único da natureza alegando em entrevistas que recebeu um dom divino de ajudar a preservar a vida animal. Quando tinha oito anos, numa área rural em que vivia, um colega pega uma espingarda de pressão e atira na primeira ave que vê. O animalzinho cai sangrando ao chão. A sua companheira começa a gritar ao presenciar a cena. Isso lhe marcou até o final da vida. Naquele momento notou que tinha uma sina importante diante deste mundo terreno.

Lançou em 1974 um compacto curioso voltado às festas natalinas com Noite Feliz e Jingle Bells executados por uma composição de sons de pássaros. Existe até relógios cujas horas são executadas com sons das aves que ele coletou Brasil afora.

Nesta linha, Piracicaba foi seguidora deste ícone. Sua fauna aparece em duas publicações acadêmicas. Uma é “Aves do campus Luiz de Queiróz”, coletânea de autores com 200 espécies de aves no campus USP de Piracicaba. “Aves do campus Unicamp”, também coletânea, registra 170 espécies que vivem no dia a dia da Universidade. Um viva a Dalgas que inspirou todo esse universo !


domingo, 30 de junho de 2024

Olha o passarinho !

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Confesso que fiquei maravilhado. Era lá por volta de 1981 ... 82 ... Não me recordo ao certo. Num álbum comemorativo que vi na casa de minha avó Julieta deparei com um Nhô Quim em carne em osso. Era um álbum de família de uma comemoração esportiva. Então, uma criança com 12 anos, fiquei boquiaberto. Por vários anos só conhecia o Nhô Quim pelos desenhos de meu pai publicados neste JP.

Ver as fotos, era algo que nos fazia viajar pela imaginação, como o que ocorrera nesta mesma época em que Robin Williams personificou Popeye no cinema. Oras ! Como pode criar vida um personagem criado no bico da pena de nanquim ? No papel é fácil caricaturar (que vem de carregare, em italiano) em detalhes como as bochechas, o bíceps de Popeye e o jeito tresloucado quando come o espinafre enlatado. Mas na vida real, não é nada comum.

Foi assim que notei que o Nhô Quim era igualzinho ao do papel. Bigode, chapéu de palha, calça “pula brejo” e botina, entre outros detalhes. Sim, muito antes do termo existir, o avatar era vivido por Cícero Correa dos Santos, fotógrafo que deixou sua marca na imprensa local no século passado. Nasceu em Rio Claro em 1915 e faleceu em Piracicaba no ano de 1994. Carnavalesco, fã e diretor do XV de Novembro, recebeu o nome da praça onde está a Sapucaia ao lado do Estádio Barão da Serra Negra além de nominar o Centro Poliesportivo das piscinas do Clube Cristóvão Colombo, entre tantas outras homenagens.

Todo este enunciado foi para lembrar um dos retratistas mais queridos da cidade. Pessoa ímpar que fez centenas de amizades e registrou a vida social de Piracicaba.

Outros registros feitos na cidade, aqueles iniciais de nossa história, remontam o ano de 1895. Estes, não fotográficos e sim fonográficos. Adelardo de Aguiar e Souza possui seu nome nos anais de Piracicaba como sendo o proprietário de um – se não o – dos primeiros fonógrafos da cidade. O aparelho era novidade no final do século retrasado. Executava músicas. Era um trambolho mas também gravava sons em cilindros de cera que mais apresentava ruídos e chiados. As pessoas eram felizes mesmo assim, com tamanha tecnologia inovadora. Um destes exemplos, moderno para a época e gravado na década de 1910 pode ser conferido no site da Biblioteca Nacional, na condução de Fabiano Lozano, em meros 30 segundos de zunidos .... ops ... de reprodução. Em setembro de 1895, Adelardo resolveu apresentar sua fantástica novidade tecnológica gravando discursos de Joaquim Morais Sampaio (intendente municipal) e Antonio de Melo Cotrim (professor). Uma curiosidade que era noticiada nos jornais locais !

Voltando à arte fotográfica, a imagem do salto do rio Piracicaba foi impressa, em 1897 (!!!) num poster de 1,20 metro por 30 cm de largura, como presente para o jornal Gazeta de Piracicaba. A obra foi de Arthur Lobenwein, um dos primeiros fotógrafos da cidade. Natural da Áustria, criou em Piracicaba a Fotografia Vienna situada num trecho onde hoje está a rua Governador Pedro de Piracicaba sem maiores referências. Foram de sua inspiração e cessão as fotografias que compuseram o Almanak de Piracicaba para 1900, talvez uma das referências históricas mais importantes da cidade, de forma graciosa, compondo 10 cenas que envolvem a Catedral de Santo Antonio e o Engenho Central.

Assim é o cenário fotográfico de Piracicaba explorado dias atrás nestas páginas e que remontaram curiosidades e manifestações pelas mídias sociais.

A fotografia foi uma arte hoje legada a banalidade pelos smartphones e mídias sociais que expões fatos fulos à nossa rotina numa sequência de informações que nos bombardeiam entre o irreal e o banal. Democratiza e torna acessível uma ferramenta restrita a poucos, anos atrás, mas nos joga num caos de informações que passam por nosso feed como se não tivesse importância alguma.

Aos pioneiros, nossa homenagem !

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Morrer pela bala, não pela fome

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Nascido em Mineiros do Tietê, interior de São Paulo, cidade próxima a Barra Bonita e Jaú, Leônidas Andrade Fogaça veio a Piracicaba na adolescência. Segundo seu filho, Eduval Morales Fogaça, em 1932, quando houve o início do recrutamento dos voluntários na cidade de Piracicaba para a Revolução Constitucionalista, Leônidas e seu amigo Oscarlino Assis se alistaram. Pensando que seus pais teriam orgulho, foi para casa contar o feitio. Sua mãe chorou. O pai, friamente, comento que ele “nada mais havia feito que sua obrigação”.

Embarcou de trem na Estação da Paulista, sobre os prantos do pai. Chegou a Estação da Luz em São Paulo de lá marcharam por 350 quilômetros até Queluz, leste paulista, região de Guaratinguetá. 

Uma das memórias passada ao filho demonstrou uma situação temorosa: “quando precisei usar o fuzil pela primeira vez a arma falhou, não disparou ! A bala ficou presa no cano e tive que desmontá-la para que pudesse ser útil na próxima investida”.

Edu Fogaça comenta que o pai falava sempre da escassez durante o conflito, principalmente de comida. Muitas vezes o que os voluntários dispunham era a xepa, a comida não consumida anteriormente, requentada. Leônidas e Oscarlino se voluntariaram para transportar a comida em um local próximo. Leônidas tinha um irmão que era militar graduado à época, Eliziario de Andrade Fogaça. O capitão do regimento que lhe passou a ordem de transporte salientou do perigo no trajeto, respondendo bravamente: “vim disposto a morrer por bala, não de fome”. “Meu pai fez este trabalho durante determinado tempo, o que lhe valeu uma promoção no campo de luta a tenente, por ato de bravura”, disse Edu.

“Só soube disso muitos anos depois da Revolução. Certa vez passei a notar que ele recebia pelo Correio o Diário Oficial, em cuja etiqueta vinha seu nome escrito tenente. O questionei se não havia erro pois seu irmão é quem tinha esta patente militar. Foi aí que ele me contou a história que relatei. Naquela época os ‘velhos’ eram bem mais discretos”, diz Edu Fogaça.

“Com o tempo ele passou a me dedicar atenção diante de sua experiência na Revolução de 1932. Havia dias em que o fogo da artilharia inimiga era muito intenso. Meu pai e companheiros precisavam ficar deitados no mato por um longo tempo. Certo dia, quando as rajadas pararam, meu pai disse aos amigos que aquele não seria o dia de morte de todos bravamente afirmando: ‘olhem onde eu me deitei !  Estava sem querer em cima de uma medalhinha de Nossa Senhora Aparecida... perdida... inexplicavelmente, no meio do mato”. A razão : ele era devoto de Nossa Senhora.

Leônidas, em pleno campo de batalha recebeu a informação de que sua mãe, Amélia Ferreira Fogaça (casada com João de Andrade) estava gravemente enferma. Ele dirigiu-se ao comandante solicitando autorização para viajar e visitar sua mãe. O pedido foi negado. Foi conversar com o capitão amigo do irmão, o qual lhe disse que seria difícil o comandante voltar atrás na sua decisão.

“Me alistei para matar inimigos. Mas, até agora não vi nenhum na minha frente. Quem me impedir de ver minha mãe, será meu inimigo”, disse. Depois de muita relutância, conseguiu o visto com esforço deste capitão. Como era inverno, o capitão cedeu a Leônidas seu agasalho. Até a Estação da Luz, em São Paulo, ele pensava em como chegar a Piracicaba sem um centavo no bolso. Na plataforma de embarque, um soldado lhe bateu continência. Mais para frente, outros fizeram a mesma reverência. Chega um grupo de soldados quem param à sua frente, batem continência e perguntam se poderiam lhe ajudar. Ele conta a história, recebeu uma refeição e conseguiu passagem a Piracicaba. Muito tempo depois percebeu que o agasalho que lhe fora dado em Queluz era de um capitão, com as divisas militares e ele estava, então, sendo confundido com um militar graduado. Dias depois sua mãe melhorou e ele retornou a Queluz. Contou a situação ao real capitão e riram. O oficial lhe falou que ficava feliz, pela recuperação da mãe, de protegê-lo do frio e ter contribuído para chegar a Piracicaba. Leônidas casou-se com Anna Moraes Fogaça.