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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O fim chegou

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

“Bugou?”. “Não. Não bugou”. E assim começamos um novo século temendo o bug do milênio o qual previa caos com a mudança numeral de 1999 para 2000. Os Estados Unidos e outros países, à nossa frente com sistemas já informatizados, temiam um descontrole nas transações bancárias, no abastecimento de combustíveis e nos voos intercontinentais. Nada aconteceu.

“E o Mundo, acabou?”. “Não. Não acabou”. “Mas, Nostradamus previa que o planeta deixaria de ser habitado em 2.000”. Não acabou e nós somos provas vivas disso.

Olhando para o hoje, notamos que já vivemos o primeiro um quarto do século atual. Os primeiros 25 anos do século XXI se encerram nesta quarta-feira, 31 de dezembro de 2025. O fim chegou. E como foi chegarmos aqui? Não quero filosofar sobre o que deu certo ou errado, mas resgatar algumas passagens às quais vivemos e acabam caindo no esquecimento. Algumas memórias são agradáveis.

Iniciando o novo século o Brasil parou para comemorar seus 500 anos de descobrimento. Foi a última vez que o 22 de abril foi feriado nacional. O meio milênio de história foi lembrado na Inglaterra, Espanha, França, Holanda, Portugal e outros países que tentaram colonizar as terras descobertas por Pedro Álvares de Cabral. Piracicaba teve atividades comemorativas. O Engenho Central foi palco de uma grande exposição.

Nestas duas décadas e meia, a cidade cresceu culturalmente. A Festa das Nações e a Paixão de Cristo do Guarantã se consolidam com estrondosos sucessos. Foram atividades que movimentaram o antigo Engenho Central, à beira do rio Piracicaba. A cidade ganhou um novo teatro construído pelo poder público, o Erotides de Campos, assim como uma ponte estaiada dr. Aninoel Dias Pacheco e outra ponte próxima ao salto do rio, denominada de arquiteto Caio Tabajara Esteves de Lima.

O comércio também cresceu. Conheceu novos empreendedores com a criação da lei das MEIs. Conheceu o avanço tecnológico em que robôs compartilham a linha de produção com o ser humano no fabrico de veículos automotores e elétricos. A tecnologia da Coreia do Sul desponta em um novo bairro, trazendo diversos fornecedores. E pensar que até o início dos anos 1980 Piracicaba era referência como cidade vizinha a Rio Claro, onde se construía o Gurgel, ou de Santa Bárbara d’Oeste com sua Romi-Isetta.

O atual século mostrou que não temos domínio sobre nossas ações. No final de 2019, começam a ecoar as notícias sobre o vírus SARS CoV 2, a Covid-19, tão devastadora que colocou o planeta em alerta mundial dizimando milhões de pessoas. Culparam os coitados dos bichinhos civeta e pangolim como os propagadores. Teorias da conspiração tendem para o descontrole de vírus de laboratório em Wuhan. Mas, aí já é outra história.

Chegamos a 2025 impressionados com a inteligência artificial que desde os anos 1950 povoavam teses acadêmicas, seriados de tv, filmes de cinema e principalmente livros. A IA é mais que remodelar uma foto transformando-a em filme. É a chave condutora para veículos autômatos na Europa e na América do Norte. É o drone teleguiado que atira bombas e granadas na Ucrânia ou dispara fuzis sem a presença física do ser humano com exatidão no alvo. É algo que nos assusta.

O espaço é pequeno para discorrer sobre o ataque às torres gêmeas do World Trade Center ou a Primavera Árabe. Mas olhemos para nosso microcosmo chamado Piracicaba, onde vivemos nossa vida. Tínhamos 329 mil habitantes no primeiro ano do século, somando hoje, segundo determinadas fontes, 420 mil pessoas. A gastronomia cresceu de forma exponencial para satisfação dos comensais. Nas mídias sociais, ouvimos o clamor por um ou mais de um novo shopping center. O atual remonta o final dos anos 1980. Dois outros foram prometidos, à margem do rio Piracicaba e outro no Taquaral. Ficaram apenas na promessa. Mas, mesmo com estas solicitações, o piracicabano ainda frequenta avidamente este centro comercial.

Os desafios estão aí. Iniciativas públicas e sociais se reúnem para enfrentar o crescimento urbano da cidade. Pensar na Piracicaba 35 já é um desafio em prática. E tenhamos um ótimo início do segundo um quarto de século. Bom ano novo !


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

O retorno do caipira a Piracicaba

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Foi um nome que colocava respeito. Afinal, ministro chefe da Casa Civil da República não era título para qualquer um. Me recordo que, lá por meados dos anos 1990, noticiava eu, pelas ondas da Rádio Alvorada AM, na extinta frequência dos 910 kilohertz, fatos de um governo que prometia esperança para o país. Havíamos passado pela abertura democrática em 1984, tivemos eleição de Tancredo Neves, a posse de seu vice José Sarney e em seguida foi empossado o “caçador de marajás”, Collor de Mello. Era um período de transição na qual o brasileiro buscava sua identidade.

Foi uma época de falta de esperança. A inflação atingiu astronômicos 80% ao mês. Era como receber 1 mil reais no início do mês e ele valer apenas 20%. O poder de compra caiu drasticamente. Em 1994 surge o Plano Real, equiparando o real ao dólar norte-americano. Ou, seja 1 real vale 1 dólar. A prática mostrou ser pura utopia, pois logo em seguida a crise na Argentina fez a moeda brasileira perder por 2 a 1, ou seja, o dólar valorizou 100% em poucos meses. Mas de lá para cá aprendemos a controlar a moeda, evitando, nestes 31 anos, de cortar os zeros comidos pela inflação galopante ou mudar a denominação de nossa moeda.

Pode não ter sido o “ovo de colombo” na economia ou na política. Mas ajudou na identidade do brasileiro.

Isso tudo foi contado no livro “O caipira e o príncipe”, produção independentes do autro, lançado em Piracicaba na segunda semana de novembro por um dos personagens que participou destas ações em Brasília junto ao governo FHC, o “quase” piracicabano Xico Graziano. Nascido na vizinha Araras, Xico tem os pés em Piracicaba por ter estudado no Colégio Sud Menucci e ter se graduado na ESALQ. Foi o caipira representando Piracicaba no governo federal nos anos 1990, em conjunção com outro piracicabano, Barjas Negri, o qual atuou como Secretário do Ministério da Saúde, assumindo em seguida a pasta quando o titular José Serra se candidatou a presidente da República. Xico disse, no lançamento, que pretendia publicar o livro “O caipira e o príncipe” apenas depois do falecimento do ator principal do enredo, Fernando Henrique Cardoso. Mas sua veia de escritor aguçou a necessidade de colocar no papel todo bastidor vivido em Brasília na segunda metade dos anos 1990. Triste é saber que, conforme anunciado no lançamento do livro, FHC está em estado delicado de saúde, sem reconhecer as pessoas, relembrar os fatos, ou conforme disse Xico, “esperando a vida apagar-se aos poucos” ...

A obra pode não ser vista como uma elegia ao tucanato do PSDB mas coloca em evidência nomes esquecidos pelo brasileiro como o ministro das comunicação Sérgio Motta, o governador Mário Covas, o ministro da saúde José Serra e outros vistos como personagens que moldaram o Brasil anos após a redemocratização. São bastidores necessários para se conhecer porque o país é assim hoje. Assim, como Laurentino Gomes fez com a história pré República ou Elio Gaspari discorreu na coleção sobre a ditadura iniciada em 1964.

Nada de endeusar partido esse ou aquele, principalmente em época de polarização política. Mas curioso é ver, através do livro como um caipira tão próximo a nós viu, vivenciou e esteve tão perto do poder que regulou a política, a economia e a sociedade por cerca de uma década.

Piracicaba teve vários caipiras no poder. Isso pode ser visto nos livros locais desde a época da independência, passando por Prudente de Moraes (piracicabano não nato, mas de fato). Agora, triste é ver que toda essa dedicação ao poder caia no esquecimento em época de internet, com total desinteresse da geração atual. Faz parte do ciclo natural da vida ...