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domingo, 18 de outubro de 2026

Primeira exibição


Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 

Dez meses depois. Sim! Foi um tempo muito curto para que Piracicaba recebesse a primeira exibição de um cinema no formato que conhecemos. A proeza ocorreu em outubro de 1896 num barracão de terra situado à rua Moraes Barros próximo ao Hotel Central em área onde hoje está o estacionamento do prédio que por muitos anos abrigou o Banespa e mais recentemente o Santander, entre a praça José Bonifácio e a rua Governador Pedro de Toledo.

A magia da sétima arte havia sido apresentada para todo o Mundo durante exibição em Paris, na França, no dia 28 de dezembro de 1895 por Auguste e Louis, os irmãos Lumière, num café bastante frequentado. O cinematógrafo viajou de navio e veio da Europa para o Brasil, aportando em Piracicaba. Não que seja o mesmo, mas um dos que foram fabricados em larga escala como novidade para os olhos humanos. Eram filmetes curtos mostrando pessoas passeando pela calçada, um navio partindo para o alto-mar, um animal circulando e outras coisas que chegavam ao nosso conhecimento apenas através dos livros ou dos teatros. Então, imagine o que seria ver pela primeira vez um elefante descrito em “Viagem ao Mundo em 80 dias”. Agora imagine o que seria vê-lo em movimento. Hoje é banal, mas na época era revolução.

O cinema já existia. Mas não no formato que conhecemos hoje. Não era exibido na tela para um coletivo de pessoas. Era visto através dos cinetoscópios criados em 1888 por Thomas Alva Edison – o inventor da lâmpada. Consistia-se numa grande caixa de madeira onde a pessoa colocava um dos olhos e via um curto filme de celuloide que se movimentava. Para se ter noção, um dos primeiros filmes mostrava um assistente de Edison espirrando. Quanto dura um espirro? Eram estes poucos segundo que entretiam as plateias das duas últimas décadas do século retrasado. E as pessoas pagavam para isso. Como dito, algo banal hoje, mas que revolucionou nosso modo de pensar e criou uma das maiores indústrias da atualidade: a do entretenimento.

Klene e Mewe trazem a cidade o cinematógrafo, o “espectro cinematográfico”, que apresentaria um mundo nunca imaginado. Era algo de outro mundo conforme anunciado pela Gazeta de Piracicaba nas primeiras semanas de outubro de 1896. Nada de ar condicionado, nada de cadeiras, nada de som. E nada de cor. Todos em pé, com receio pelo que poderia ocorrer no escuro e no chão batido. Assim foi a primeira exibição do cinema em nossas terras.

Em seu “Dicionário de Piracicabanos” (IHGP), Samuel Pfromm Neto relata que Klene e H. Mewe apresentaram em Piracicaba o primeiro “cinematógrafo”, projetando “vistas naturais animadas” em cinco horários sucessivos, com entradas ao preço de um mil réis.

Tempos depois, na esquina de baixo, onde se encontra hoje o Torra Torra existia um restaurante e nele uma sala de audição. Na sala, um gramofone que tocava música para que as pessoas ouvissem as gravações em disco de acetato. Som ardido. Sem qualidade, mas que também espantava os piracicabanos. Também se pagava por isso. Era a Confeitaria Progredior que em 1901 tornaria uma das primeiras salas de exibição na cidade com filmes mudou no projetor Lumière.

Em seguida, os teatros locais viram cine-teatros com palco e plateia disponíveis confrontando com telões. A história mostra que o primeiro cinema permanente existiu no antigo Teatro Santo Estevão, com a denominação “Cinematógrafo Cháritas”, a partir de 5 de dezembro de 1908. As rendas do cinema destinavam-se à Santa Casa de Misericórdia, proprietária do aparelho de projeção. Funcionou por pouco tempo, na mesma época, o “Ideal Cinematógrafo”, em um barracão da rua Boa Morte.

E assim Piracicaba ajudou a propagar a Sétima Arte.

(publicado no Jornal de Piracicaba de 18 de outubro de 2026)

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Início, meio e fim

 Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

No início, foi um olhar profundo, daqueles que se conectam entre o emitente e o receptor. “Você me merece” pensou aquela criança carente e cheia de vida mesmo com seus poucos meses de nascimento. Foi uma conexão imediata, e sem perder tempo se embrenhou entre os cabelos longos, colocando seu queixo no ombro de forma muito bem acomodada, presa como se fosse um imã ao mais puro metal. A partir daí, notava-se uma interação que se prolongaria por alguns anos. “Eu te mereço”, pensamos.

Foi um início de júbilo, com muita alegria, conhecimento que serviu para preenchimento da ausência de um membro da família. Curioso é que a ausência se prostrou num dia e no dia seguinte uma nova vida chegou ao nosso lar. Há todo um simbolismo e crença por trás disso. Interessante é ver como aprendemos com uma nova vida no nosso meio. Voltamos a fazer coisas que não fazíamos por muito tempo. Voltamos a ser criança, mesmo com a idade avançada, descobrindo a cada dia desta vida um prazer que ficou no passado.

No meio, foram vários anos de alegria. Preocupação com a alimentação, com a vestimenta, com o ondular do cabelo, com a companhia enquanto dormia. Já teve aquela sensação de acordar a noite e ver se alguém está respirando, tão profundo é o sono e a calma ao seu entregar aos braços de Morfeu? Foram muitas festas acompanhando sua família. Até fotografias motivavam uma expressão de concentração, olhando sempre para a lente, de olhos escuros abertos tomando atitude de um ser humano consciente do que fazia, observando seu foco com avidez.

Toda manhã, um novo despertar com um tremendo sorriso. Não havia tempo feio. Foi uma vida de prazer, emoção e alegria. Uma vida que acompanhava toda viagem, todo evento social, e se comportava como uma verdadeira dama ao acomodar-se na cadeira de qualquer restaurante, observando por debaixo da toalha as crianças que alegravam o ambiente.

No bom humor, na tristeza e na doença também era uma espécie de guardião que nos dava força para enfrentar um dia após o outro. Era uma alma que ajudava, de forma totalmente consciente, a revelar os amigos secretos da família separando o nome de cada um dos outros membros contidos num pequeno pedaço de papel. Motivou todos a para e disputar um bonequinho nas máquinas pega-pelúcia instaladas nos supermercados ou nos shoppings. Qual criança não gosta de um mimo ?

O fim se deu numa manhã quente de inverno. Poderia completar doze anos de vida conjunta nesta semana. Mas, não deu. Os planos do ser humano são diferentes dos planos do destino. Sabemos que a morte vem um dia. Por mais que nos preparemos para ela, de forma sorrateira a mesma vem. E não avisa. Entristece a alma de qualquer um. Nos cala. Nos joga num abismo de sofrimento e dor, ao qual ficam apenas as lembranças.

Conclusão: O francês Anatole France escreveu em 1908 que um monge chegou a uma ilha onde só havia pinguins. Cegado pelo branco da neve confunde-os com homens, evangeliza e os batiza. Ao saber de tamanha heresia, os Céus urdem e os anjos, santos e Deus ouvem, durante a assembleia, a ideia de Santa Catarina: que seja concedida uma pequena alma aos animais.

Assim como Catarina, que sigamos o conselho de Francisco de Assis, cujo dia foi recentemente lembrado, e que sua memória perdure em nossos corações. Queria que tivesse durado um pouco mais, Sophia.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 11 de outubro de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 17 de outubro de 2026)

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

As cartas de setembro

Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 


Noventa e quatro anos atrás Piracicaba recebia tristes notícias. Em setembro de 1932, estava em curso, havia dois meses, a Revolução Constitucionalista. Semanalmente, a cidade chorava pelos seus filhos mortos. A bestialidade humana parava a sociedade que, de longe, assistia o sofrimento de piracicabanos ou membros incluídos no Batalhão Piracicabano que defendia o setor norte do estado de São Paulo, evitando avanço das forças federais de Getúlio Vargas. Estas forças viriam com arrogância tremenda sufocar os “rebeldes” neste que foi o último levante social armado do Brasil.

Foram vitimados piracicabanos e outros representantes do estado de São Paulo. Setembro deixava uma conta amarga: Alexandre Petta, Antenor de Barros César, Claudionor Barbieri, Francisco Honório de Souza, João Sampaio, Lauro de Barros Penteado e Romário de Mello Nery. Foram alguns piracicabanos, outros passaram por Piracicaba para trabalhar ou estudar, e teve também aquele que foi incorporado ao Batalhão que levou o nome de nossa cidade na Revolução de 1932.

A cidade assistia às ações com determinada distância – geográfica, diga-se de passagem. O relato para a cidade era feito em cartas despachadas de distantes cidades, entregues ao Correio Militar MMDC e que viajava de veículo automotor até chegar ao seu destino/destinatário. São Paulo foi o único Estado a ter três serviços do correio: o oficial mantido pelo governo federal, o estadual para civis e o Militar MMDC. Todos passavam por censura. Os que passavam pela mão do correio federal mau chegavam ao seu destino em São Paulo. Era uma forma de evitar passar informações ao inimigo. As demais demoravam semanas para serem entregues.

No início de setembro, Piracicaba recebe carta do 2º. sargento Juvenal Fernandes de Oliveira comandante do pelotão piracicabano destinada ao sr. Luiz Dias Gonzaga, Prefeito Municipal. Ele relata: “Completamos hoje o nosso trigesimo dia de trincheira, no alto da Serra da Mantiqueira, dois quilômetros dentro do territorio mineiro. Por isso, quero justamente elogiar a demonstração de altivez, nobreza de caracter, disciplina, cumprimento fiel do dever, extraordinaria resistencia ao frio, á geada, á chuva, ao tufão, com suas rajadas de gelar o corpo humano, que são os peores inimigos dos meus heroicos comandados: Nelson Nobrega, Cassio Ferraz Sampaio, Celso Barbosa Ferraz, Henrique Nehring, Edgard e Nelson Ferraz Cotrim, Oswaldo Miller, o bravo “mascotte” que é de uma coragem extraordinaria, Joaquim Rodrigues Gaspar, Christovam Bettoni, José Bassan, Dorival Dias de Toledo e Antonio Pacheco, que sabem affrontar a morte sempre com um sorriso nos labios.”.

Outra carta “Do jovem Lazaro, valente voluntario de 16 annos apenas, ao seu pae, sr. Sebastião Figueira Bueno: Barra Grande, 2-9-932, (...) Estive 5 dias com dòr de ouvido, mais (sic) não foi nada; agora estou bem. Resolvi para as trincheiras; não me acostumo a ficar sem meus companheiros, pois com elles a vida passa mais alegremente.”. Foi publicada no jornal O Momento de 7 de setembro de 1932.

Mais uma: “Saudações por mãos do nosso companheiro Antonio Alexandre recebemos os “capuzes” que a vossa bondade patriotica nos enviou. Nesta serra, onde o clima tem qualquer cousa de indomável, a vossa offerta veio completar o nosso aparelhamento de defesa. E, nas noites de geada, tufão ou chuva, na mente das sentinellas que ficam ao relento, vigiando pelos companheiros, são renovados constantemente os nossos agradecimentos. Carta de Nelson Nobrega a Lucila Zanotta.” (Gazeta de Piracicaba, 9 de setembro de 1932).

A imprensa local era o ponto de elevação da moral. A sociedade se guiava pelos informes dos jornais impressos e pelas notícias recebidas pelo rádio de outras cidades. Na cidade não havia TV nem emissora de rádio. A informação era passada de boca a boca ou pelo papel como o jornal ou telegrama.

Havia momento de civismo como escreveu em carta de “Silveiras, 7 de Setembro de 1932. Hoje, mesmo nas trincheiras commemoramos a data de nossa independência. Suspendemos o fogo e, todos reunidos, em formatura, prestamos continencia a Bandeiram que foi hasteada sobre as trincheiras, ao som dos clarins. Depois cantámos o hymno Nacional e voltamos para o nosso posto. QUIZINHO, carta de Joaquim Norberto Junior (O Momento, 10 de setembro de 1932).

Vivia-se uma utopia que não imaginava-se que estava no fim. Semana que vem vamos esclarecer.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 27 de setembro de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 03 de outubro de 2026)

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Pacato cidadão

Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 


Era um dos mais pacatos que conheci. Levantava durante a semana às 8 horas e aos finais de semana estava com os olhos estalados na cama já às 5h30. Tinha suas regras e era conhecido como metódico. Tomava café sempre no mesmo lugar. Cortava o carbelo no mesmo local havia 40 anos. À noite, regava as plantas do seu quintal. Pegava os mesmos trajetos por décadas, conhecendo as ruas melhor que na palma de sua mão. “Opa ! Consertaram o buraco que estava aqui havia meses”, pensou certa feita. “Pintaram esta casa. Nem a percebia mais; porém a tinta a realçou e chamou minha atenção”, pensou, também.

Um dia, ia ao trabalho por uma rua. No outro pegava outra rua. Pensava que, assim, a rotina nunca o entediaria. Ia sempre aos mesmos restaurantes pois já os conhecia e gostava de evitar surpresas desagradáveis. Um cidadão simples, sem muitos anseios, mas de bom gosto, quase um bon vivant, que buscava na vida um sentido. Dizia que a mente vazia não era a casa do diabo e sim da depressão, das neuras e do tédio. Fazia todo dia as palavras cruzadas estampadas no jornal. Sim ! Este cidadão ainda se informava pelos jornais, uma de suas principais paixões.

Nada de “Strangers Things” ou “The Office”, nada de Netflix. Gostava de ler no papel. Ficava horas no quintal de sua casa debulhando os clássicos de Edgard Allan Poe, Nataniel Howthorne, Ray Bradbury e outros. Na TV preferia o que considerava magnífico: Stanley Kubrick, Roger Corman, Frank Capra, George Stevens, Howard Hawks, William Wyler e até Fritz Lang. Via e revia. Não deixava de se atualizar com os lançamentos para mexer a massa cinzenta e não ficar desatualizado. “Afinal, preciso ter assunto para a conversa durante o churrasco no final de semana”, pensou mais uma vez.

Ia no Mercado Municipal sempre. Sempre nos mesmos boxes. Tomava café no mesmo local. Reclamava dos preços. Passava pelas bancas para conferir promoções. Como elas não vinham e era iminente a necessidade de repor os perecíveis, fazia a feira que daria para uns dez dias. “Mas o preço do filhote não baixou ainda; peixe anda caro”, titubeou.

Parou e pensou sobre o sentido da vida. Pensamentos pacatos que nem todo cidadão faz. Ficou triste. Parou e pensou na sociedade rindo dele, uma pessoa simples que segue as regras sem questionar. “Tolo ! Manipulado ! Trouxa ! Guiado”, foram os termos que lhe vieram a mente falados pelos amigos. Sentiu-se enganado por ser honesto.

Era o cara que vivia com o penteado impecável num cabelo liso fora de moda. Usava lenço na calça jeans e o pente Condor do qual muitos caçoavam. Espécie em extinção !

Lembrou de Geraldo Vandré cantando na Rádio Difusora FM lá por 1981 : “caminhando e cantando, seguindo a canção”. E vamos em frente. Veio-lhe à mente outra canção de dez anos antes, criada por Chico Buarque de Hollanda, a velha “Construção”: “amou daquela vez como se fosse a única (...), por me deixar respirar, por me deixar existir”, sabendo que o amanhã poderia não vir.

Lembrou de Gregor Samsa, a barata gigante criada pro Franz Kafka em “Metamorfose”. Embrião de um mundo intransigente diante de um inseto gigante que precisa ser escondido da sociedade por ser asqueroso. Pensamento que se esvai rapidamente como o fechar das cortinas de um teatro. Assim, entra outro ato.

Nosso pacato amigo evitava falar de futebol, religião e política, temas que considerava controversos e que alongariam uma discussão que era para ser rápida.

Conhecia superficialmente sua vizinhança a qual cumprimentava com um seco bom dia ou boa tarde. Não gostava de intimidade. Avaro de gentilezas, era o próprio “bicho grilo” que espelhava a sociedade. Com uma saciedade incontrolável, devorava-se (a si mesmo) como o objeto de admiração ou repulsa. Ego brigando com seu alterego. O certo é que muitos não o entendiam assim como alguns não entenderam esse texto.

Mas, resumindo, assim era o pacato cidadão. Ninguém o conhecia ou o reconhecia. Era o espelho de todos na sociedade.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 20 de setembro de 2026 e na Tribuna de Piracicaba de 27 de setembro de 2026)

domingo, 20 de setembro de 2026

Das salas de aula para o estrelato


Acima, foto do Jornal de Piracicaba, datada de 13 de maio de 1985, com a inscrição atrás "Donizeti - cantor de caloteira"

Por volta de 1980 ou 1981, o pátio da Escola Estadual Dr. Jorge Coury, na divisa do Centro com a Paulista, era palco de um show inusitado. O diretor do estabelecimento de ensino, José Wander Pársia pegava o microfone e pedia a atenção de todos os alunos no período da manhã. 

O lanche da merenda e a cantina tinham seus trabalhos interrompidos. Pársia chamava a atenção dos alunos para apresentar um garoto que despontava para o estrelato. Todos os alunos no pátio ficavam quietos, respeitavam a autoridade do diretor o qual, após a solicitação, colocava o microfone numa mesa e surgia um garoto com vasta cabeleira e passava a cantar uma moda guarânia ao estilo capela, sem qualquer acompanhamento. 

Ele carregava uma palavra que ficava longos segundo entonando-a: “galopeeeeeeeiiiira” ... Era Donizeti Carmargo da Veiga, então com 10 anos de idade, orgulho do “seu” Pársia que parava a escola a cada apresentação do garoto no rádio ou na TV. “Orgulho em ter alguém com este timbre de voz”, confessou ele certa vez. Donizeti na época e Donizeti Camargo na atualidade apresentou-se no programa do Silvio Santos e venceu no México o Concurso Melhor Voz Infantil da América Latina ganhando de Luis Miguel, vencedor de cinco Grammys latinos. 

Nasceu em Conchas e estudou em Piracicaba e recebeu dois Discos de Ouro por ter vendido mais de 100 mil LPs físicos (O menino Boiadeiro de 1981 e Aí, Amor de 1991). 


Acima, foto da Stik's Promoções Artísticas, data de 29 de janeiro de 1985


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Iconografias

 Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba


A memória começa a falhar, mas tenho convicção que em meados de 1996 estava para ir ao Guarujá quando, na espera para pegar a balsa em Santos, um vendedor ambulante nos aborda no veículo e, após ler a placa de Piracicaba, puxa papo dizendo que a cidade era conhecida pela caninha. “Ai, tatu ... tatuzinho ... me abre a garrafa e me dá um pouquinho”, entoa tal pessoa que carregava pencas de banana-ouro, aquelas pequeninas.

Uso este preâmbulo para ilustrar como Piracicaba ainda hoje é conhecida no “mundo exterior”, bem além de nossa província. Citei um caso de 30 anos atrás, mas recentemente um prestador de serviços de Araras me pediu uma “caninha de Piracicaba”. Ideia propagada em especial pela Caninha Tatuzinho, da família D’Abronzo, não negando a iniciativa dos Carmignani com a Cavalinho, e outras famílias que fizeram do destilado da cana de açúcar um aperitivo que levou o nome de Piracicaba para os quatro cantos deste Brasil.

Antes, nos anos 1980, era comum ver a Belina pelas ruas com a “pamonha, o puro creme do milho verde, pamonhas de Piracicaba!”. Achava isso surreal até ver outro dia, nas páginas da Folha de São Paulo, o (a) genial Laerte entoando o mote numa de suas tiras. Mais um ícone que foi exportado.

Cada época sua realidade. Ano passado participei de uma solenidade na Câmara de Vereadores de Piracicaba na qual foi homenageada a professora doutora Tsai Siu Mui, do Centro de Energia Nuclear/USP. No seu discurso de agradecimento ela comentou ter sido a primeira chinesa a cursar a USP. Até aí, tudo bem. Curioso foi ouvir dizer que, quando estudante, ela foi candidata a Miss Peixe, uma tradição em voga na cidade nos anos 1950/60. Era o nosso título de Miss Universo!

Tudo isso para num liquidificador botar caninha, peixe, pamonha e de seu suprassumo tirar um extrato que cada cabeça interpretará do jeito que quiser. Haverá condenação, haverá contestação, bate-boca, assim como haverá quem diga “que bonitinho”. Pintado, onça parda, cobrona ou capivara ... A bola da vez é ela ... Conhecida por “Regina” ou perpetuada nos eventos como a “Mona”, a capivara é fruto de um imaginário coletivo internacional, propagado principalmente pelo “Made In China” que busca o Instagram, o Tik Tok, o Shein, o Shoppee e outros como seus expoentes. A capivara é um representante internacional, como centenas de itens que vendem a rodo. É um animal de estimação como cães de gatos – pelo menos em parte da Ásia. Piracicaba se rendeu no início dos anos 2000 com seus “Os capivaras”, tira assinada por Erasmo Spadotto nas páginas do Jornal de Piracicaba, despontando o animal que circulava pelo rio Piracicaba há séculos. Amigável ao ser humano, foi descrito como antas ou pacas nos registros do início do século 1800. Circulavam em especial na área em frente a Fábrica de Tecidos Santa Francisca de Luiz de Queiróz, embrião para as posteriores Artehusina e Boyes.   

Opa! Mas, peralá! A capivara é o vetor da febre maculosa pois abriga o carrapato estrela. É visto como uma praga urbana! Mas quem veio antes? O ovo ou a galinha? Pronto! Debate aberto. Comente o que quiser na sua mídia social e pau na mula!

O certo é que o roedor é visto com muito carinho por muita gente. Traz simpatia por sua calma enquanto a onça parda mete medo na gente.

Capivara ou pintado? A decisão já foi tomada. É o animal “bola de vez”. Quem vai a Águas de São Pedro traz um imã de geladeira com um quati. Quem chega a Laranjal Paulista vê, numa das entradas uma estranhíssima laranja e na outra brinquedos gigantescos. Ser lembrado pelo passado de produção das laranjas ou pelo presente por uma área fabril que representa mais de 40 empresas produtores de plástico e brinquedos?

Modéstia a parte, e muitos saberão porque: prefiro uma estátua de quatro metros do Nhô Quim. E durma-se com um barulho desses ...

(Publicado no Jornal de Piracicaba der 13 de setembro de 2026b e na Tribuna Piracicabana de 19 de setembro de 2026)

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Liberdade tem seu preço

Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

A liberdade tem seu preço, disse alguém. Daí o jovem pergunta, mas independência não é no 4 de julho? Cria-se uma aberração histórica numa época em que existe uma propagação do deadline, browser, offline e outros anglicanismos que tomaram conta de nossa cultura nos últimos anos. Ninguém mais é estraga prazeres, já que a onda é agora é dar spoiler. É a mesma coisa.

Canta-se o Hino Nacional no dia de nossa independência diante do reino de Portugal? Não deveria, já que a data tem hino apropriado, ou seja, o Hino da Independência, aquele que marotamente entoávamos na escola como sendo “Japonês tem quatro filhos” e cada filho rimava com algo que ia do absurdo até ao mais ingênuo como primeiro que era pasteleiro.

Bom. Até aí acabaram com a letra de Evaristo da Veiga que colocou como coautor Dom Pedro I, imperador do Brasil em 1822 quando ocorre a Independência brasileira. Se tinha dom (no bom sentido) para a música, Pedro I nunca deixou isso evidente. Nem Laurentino Gomes mata esta charada.

Lembro-me, lá pelos idos da primeira metade da década de 1970, que éramos obrigados a ficar em pé e cantar um hino cívico toda sexta-feira, antes da aula começar. Isso ocorria na Escola Estadual Barão do Rio Branco, assim como era praxe em tantas outras escolas. Época em que a cara fechada da inspetora de aluno já nos deixava arrepiados pela bronca que poderia vir. Depois, gostoso foi ir a faculdade, no meu caso Unimep campus Centro, e sair no meio da aula sem dar satisfação ou ter que explicar para um inspetor o que um aluno fazia zanzando pelos corredores. Claro que a ideia era ir na Governador aberta às vésperas de datas como o dia das mães ou dia dos namorados. Mas, como escrito anteriormente, a liberdade tem seu preço.

Preço caro para o inconfidente Tiradentes que queria exatamente o que Pedro I fez: queremos a independência ou então que venha a morte! Joaquim José da Silva Xavier foi o bode expiatório que Maria “A Louca” encontrou para suprimir insurreições e manter Portugal no comando do universo ultramarino, especialmente em terras brasileiras. Terra abundante de ouro e materiais que interessavam à coroa portuguesa. Melhor consumir a famosa bagaceira que a cachaça. Ponha-se, então, na cadeia os fabricantes deste derivado da cana de açúcar que quer concorrer com o vinho português e aquilo que pouco conhecemos denominado de bagaceira, aguardente feita de uva. Confesso que comprei uma garrafa desta bebida em São Pedro. Não consegui consumi-la, sendo que seu conteúdo somente serviu para acender o carvão de uma churrasqueira na qual estava uma suculenta picanha.

Piracicaba deixou pouca história de como se encontrava em 1822. Existem fatos. Existem nomes, assim como muitas e muitas pessoas que caíram no esquecimento. Mesmo com 3 mil habitantes, ainda era um vilarejo tomado pelo mato, onde a sociedade acordava com as galinhas e dormia com o escurecer, sem se preocupar com um relógio que lhe ditasse regras.

Cem anos depois surgem festividades para comemorar o centenário do brado de Pedro I às margens do Ipiranga. Lydia Rezende cria o Monumento da Independência que deu nome ao bairro situado na Vila Rezende. A avenida Independência tem seu desenho feito na topografia de Piracicaba. Deve ser um dos maiores logradouros da cidade, começando na rua Governador e terminando em frente a Esalq. Honorato Faustino enclausura uma cápsula do tempo na escola Sud Menucci com mensagens e memórias que deveriam ser lidas cem anos depois, ou seja, 2022.

Chegamos em 2026 comemorando-se o Dia da Independência numa emenda ao final de semana. Esse é mais um preço da liberdade.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 6 de setembro de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 12 de setembro de 2026) 


quarta-feira, 22 de julho de 2026

Mácula ao luto piracicabano

 Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba





Muito terrível. Nos dias em que se lembrou o 9 de julho deste ano, chega a informação de que foi subtraída uma peça no Mausoléu ao Soldado Constitucionalista do Cemitério da Saudade. Uma situação que mexe com o luto das famílias que perderam seus entes 94 anos atrás. A peça subtraída era uma espada representando a infantaria dos “voluntários de Piracicaba” que partiram para os fronts de batalha em busca de um ideal: a democracia.

A peça foi feita em bronze, assim como outros ornamentos que compõem o jazigo onde repousam na eternidade piracicabanos que perderam suas vidas por uma causa nobre. Mexe em muito com o âmago de pessoas como eu, que tive um tio-avô colhido em vida pela causa constitucionalista. Natal Meira Barros, faleceu na segunda quinzena de agosto de 1932, em Registro, no Hospital do Sangue da cidade, três dias após levar um tiro de raspão que lhe rompeu a jugular. Com o sangramento, perde tudo ... circulação sanguínea, esperança e a vida ! Com apenas 17 anos, fugindo de casa para se alistar como “voluntário piracicabano” está no Mausoléu. Hoje, furtaram sua dignidade, seu repouso eterno, sua esperança de um Brasil melhor.

Natal serviu o 2° Batalhão de Funcionários Públicos que dominara a cidade de Pinheiros. Viveu entrincheirado por dias. Os restos mortais do jovem Natal chegam em caixão na Estação da Paulista. Os irmãos, na casa dos 6 aos 12 anos, não sabiam ao certo o que havia ocorrido. A casa dos Meira Barros entristeceu por muito tempo. Tempo este que não apaga a dor. Judith e sua irmã Julieta por décadas mantiveram o ideal de Natal, com visitas ao Mausoléu, participando das atividades do 9 de julho e jurando viver até o fim de seus dias propagando o ideal do jovem de 17 anos que abandonou carreira e família para ter seu nome na lembrança de 1932. Jaz no Cemitério da Saudade e tem seu nome estampado em Travessa situada no bairro Higienópolis, em Piracicaba, e em rua no Jardim Aricanduva em São Paulo.

Uma peça de metal já não mais faz parte do Mausoléu na Saudade. Sabe-se lá para onde foi. Apenas, supõe-se. Porém, sabe-se que tal peça foi furtada durante a madrugada e, cremos, deverá ser vendida para que fundida tome outras formas. São quase 100 anos de contemplação num projeto arquitetônico construído no próprio ano de 1932 e que anualmente havia motivado peregrinações de familiares. Uma dessas pessoas que chorou diante do jazigo foi Yvone Meira Barros, irmã de Natal, que também morreu em tenra juventude por depressão ao perder o jovem irmão. A questão: “como dormirão os responsáveis pelo sumiço de uma peça que compôs uma espada empunhada para cutucar e matar as forças federais de Getúlio Vargas em 32, como tivesse o papel de uma baioneta?”. Será que dormirão tranquilos? Creio que sim, por história não faz parte do intelecto de alguém que afronta a história.

O Mausoléu dos Voluntários de Piracicaba tem pouca história conhecida, apesar de sua veneração. A Gazeta de Piracicaba, 30 de outubro de 1932, cita uma romaria aos túmulos dos voluntários piracicabanos, dizendo: “Os abaixo assignados, componentes do Batalhão Piracicabano vêm, por este meio, convidar a todos os seus companheiros de lucta e demais voluntarios para, incorporados, prestarem uma homenagem á memoria dos bravos piracicabanos que tombaram no campo de batalha, em defesa da causa sagrada que S. Paulo esposou.

Essa homenagem constará de uma romaria ao Cemiterio Municipal, no proximo dia 2 de novembro (Finados).

Para esse fim, todos os que tomaram parte na campanha deverão reunir-se ás 9 horas no Largo da Matriz. Este convite se extende tambem ás associações exittentes (sic) na cidade e ao povo em geral.

(aa) Dr. Jacob Diehl Neto, Prof. Benedicto Rodrigues de Moraes, Lauro Alves Catulé de Almeida, Thomaz Whately, Ary Machado de Britto, Rubens Pereira Lima 

E, assim, mais uma vez, a história caminha para seu esquecimento.


(Publicado no Jornal de Piracicaba de 19 de julho de 2026)

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Omnes similes sumus

Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

O título me lembra uma aula que tive nos anos 1980 na Escola Estadual Dr. Jorge Coury. O professor era Franscislídio Beduschi que também lecionava no ensino particular. Ele foi responsável pelas matérias – extintas com o tempo – “Organização social e política do Brasil” e “Educação moral e cívica”. Num destes encontros vespertino com os alunos ele, no mais profundo de seu conhecimento, dispara:

- “Quem sabe o que está escrito no frontispício do Cemitério da Saudade?”

Grande maioria dos alunos ficou pensando o que seria frontispício, que em muito rimava com hospício e daí os risos na sala de aula. Frontispício, disse ele, na área de arquitetura, é a entrada decorada de um edifício e na Saudade está a inscrição “Omnes similes sumus”, ou “somos todos iguais”, numa tradução para lembrar que na morte não há distinção. Todos, somos iguais.

Muito menos dolorido que em Paraibuna, São Paulo, cujo cemitério traz em sua entrada a inscrição “Nós que aqui estamos por vós esperamos”. Dizem que a frase veio de padres europeus no contexto de que “nós que aqui estamos, esperamos por vossas orações”.

Mas, tradições e lendas à parte. Em breve, o IHGP republicará um trabalho importante dos autores Maurício Beraldo e Paulo Tot Pinto, dupla que possui talento e vocação para falar sobre o mais que centenário Cemitério da Saudade. São dois estudiosos que merecem aplausos da sociedade piracicabana. E o IHGP com esta republicação espera estar preenchendo uma lacuna sobre este local que atrai curiosidade por seu contexto arquitetônico e também pelas personalidades nele sepultadas, além, claro, de ser ponto de devoção por aqueles que já partiram deste mundo.

Piracicaba tem cemitérios centenários, reconhecidos ou não. O Cemitério da Saudade tem mais de 150 anos. Continua sendo motivo de devoção, de casa para felinos domésticos, de visitas dos “amigos do alheio” e também de ponto de visitação pela arte cemiterial que proporciona. Nele estão sepultadas personalidades importantes que trabalharam para a construção da sociedade local. Nele estão monumentos considerados verdadeiras obras de arte, as quais merecem nossa admiração e estudo. Não é à toa, que anos atrás foi encenada em plena meia-noite a peça “Vozes do Comurba” com grande sucesso. Hoje são sucesso as visitas noturnas ao cemitério, tornando claro que não se deve ter medo com os mortos e sim com os vivos. Essas visitas noturnas unem o inesperado com o temido e, em especial, com o assombroso, o qual é dominado em conjunto pelas dezenas de pessoas que visitam suas ruas com lanternas e sempre na expectativa do que virão pela frente.

Confesso que anos atrás via grupos se formarem para conhecer e discutirem tal arte cemiterial. Tinha pavor. Com o tempo passei a nota que muitos jazigos trazem uma história rica sobre a pessoa ali sepultada. Tomemos por base o mausoléu de Almeida Júnior, pintor sediado em Itu, morto em Piracicaba pelo marido de sua prima em frente ao Hotel Central, na praça José Bonifácio. Seu contexto arquitetônico é magnífico, rendendo momentos de reflexão e contemplação. Esse é apenas um dos vários exemplos. Temos também a quadra das vítimas do Comurba. Temos um presidente da República aqui sepultado. Temos prefeitos. Enfim, é uma história viva sobre os mortos. Pessoas que deram muito de si para termos essa Piracicaba fortalecida na qual vivemos.

“Somos todos iguais” que em breve será colocado a disposição do leitor nos ajuda nestas reflexões. É um roteiro das principais personalidades sepultadas na Saudade.

Que seja a todos um ótimo livro de cabeceira para conhecer histórias, lendas e tradições locais.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 14 de junho de 2026)

 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Memórias recentes - 2

Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Na coluna anterior, relembrei três fatos que vivi nos anos 1990. Talvez, todos desconhecidos da grande população. Foram poucas as pessoas que estiveram ao meu lado durante o ocorrido e, involuntariamente, servi como testemunha ocular dos fatos. Vamos para mais alguns.

Ordem ao coronel - Falecido dia 17 de fevereiro do ano passado, Carlos Miranda notabilizou-se como o “Vigilante Rodoviário” na série televisiva dos anos 1960. Em 1993, esteve em Piracicaba a pedido da Polícia Rodoviária do Estado, base local. A intenção era dele, enquanto coronel da Polícia Militar Rodoviária Estadual, abrir uma exposição sobre acidentes nas rodovias, realizado no Shopping Center Piracicaba onde está hoje a praça de alimentação. E lá veio, de Itanhaém, onde residia. Foi recebido pelo policial Guedes (Luiz Antônio Guedes de Moura), que estudava jornalismo na Unimep e exercia a função de assessor de comunicação de uma base na região. 

Miranda posou com muitas pessoas ao lado do seu veículo Simca Chambord, similar ao do seriado. Repentinamente, começa a queixar-se dos coturnos que lhe matavam os pés. Tira um imenso canivete e começa a recortar as botinas. Romualdo José Briganti, professor Babi, renomado no ensino e cinéfilo adorador do personagem, solta um berro que parou o Shopping: “por favor, senhor Vigilante ! Não faça isso !!!”. Miranda queixa-se do calçado que lhe aperta os pés, tira as duas botinas e entrega a Babi. Este, esboça um sorriso tremendo por ter sua memorábilia os coturnos de seu ídolo televisivo. Sai abraçado ao par de pisantes. E o coronel, outrora vigilante das rodovias ao lado do fiel cão Lobo, parte pelo Shopping caminhando pelos corredores com sua indumentária de policial rodoviário da TV apenas de meias...

Maravilha - Foi numa sexta feira que antecedeu o Carnaval de Piracicaba. Deve ter sido em 1991 ou 1992. O cenário era o saguão do Beira Rio Palace Hotel, por volta das 18 horas. Havia na ocasião uma coletiva de imprensa para falar sobre o Carnaval daquele ano. 

No sofá, toda colorida e simpática estava a atriz Elke Maravilha, contratada pela Prefeitura para animar a folia daquele ano. Apresentação daqui, falatório dali, Elke passa a dar atenção aos representantes das mídias de forma individual. 

Eis que o repórter da Rádio Alvorada lhe pergunta como ela via Piracicaba sem Carnaval de rua naquele ano. Ela, na maravilha que lhe tornou peculiar na TV, solta um alto e estrondoso: “Como não vamos ter Carnaval ??? O que vim fazer aqui, então???”.

Silêncio no salão, até que um assessor vem e acalma a jurada do Cassino do Chacrinha: “não teremos Carnaval de rua, mas teremos blocos carnavalescos e bailes noturnos que se concentrarão em determinados locais da cidade”. E assim Piracicaba maravilhou-se com Elke naquele ano.

Encontros – Como jornalista e profissional da Rádio Difusora e Rádio Alvorada, participei de vários encontros com os artistas de grande renome dos anos 1980 e 1990. Alguns deles foram Edwin Louise (da novela “Princesa Isabel”), os membros do grupo Casseta e Planeta entre outros. Um dos casos mais “saia justa” ocorre nos estúdios da Rádio Alvorada AM, cuja frequência é hoje ocupada pela Jovem Pan News. Na ocasião, estava em Piracicaba Mário Lago, ator de renome nas novelas da TV Globo e musicista – foi ele quem compôs “Amélia” (...aquilo sim que era mulher de verdade...). Lago aparece no estúdio da emissora acompanhado de assessores da Secretaria de Cultura. O locutor de plantão, sem saber o que abordar, no meio do bate-papo diz: “como o senhor tem conhecimento...”. Lago diz de uma forma bem ríspida: “meu jovem, eu com mais de 60 anos de atuação e 80 anos de vida se não souber como as coisas são não estaria aqui onde estou”. Eis que repentinamente, uma lágrima escorre do locutor, que tem a boca seca e exclama: “nossos comerciais, por favor”. Quem souber outra, que conte !



 

domingo, 24 de maio de 2026

Memórias recentes

Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 


A vida é feita de memórias. Muitas vezes, é melhor colocar essas memórias no papel para evitar lapsos ou esquecimentos. Algumas delas são curiosas e engraçadas, valendo compartilha-las.

Vista longa - A memória pode falhar, mas talvez em 1994, um famoso político veio a Piracicaba apoiar candidatos que concorriam a vagas para deputado estadual e deputado federal. Foi recebido pela comitiva no estacionamento do Zilliat Shopping Center, onde hoje é o estacionamento do Supermercado Jau Serve. Passaria pelo interior do Shopping e na sequência percorreria o Mercado Municipal para se expor diante dos comerciantes e consumidores.

Isso tudo acabou ocorrendo. O fato é: quando chegou ao estacionamento, possivelmente num Comodoro cor preta, a comitiva não soube onde enfiar a cara. Estava em construção o Edifício Central Parque vizinho de parede com o Zilliat.

A obra tinha diversos trabalhadores que davam a forma final do prédio. Eis que lá do alto, ouve-se um uníssono “LADRÃO”!!! Um simples trabalhador da construção civil reconheceu o político e soltou esta pérola. Membros da comitiva se contiveram seriamente para não estragar a recepção. Mas que depois foi motivo de discussão nas rodinhas, isso ninguém pode negar.

Discussão – Novembro de 1996. O local era a escadaria do Ginásio Municipal de Esportes Waldemar Blatkauskas, ao lado do Estádio Barão da Serra Negra. Horário: por volta das 18h40. Ocorria a apuração das eleições municipais que demorava dias para ser finalizada. Emissoras de rádio marcavam presença destinando sua programação para a apuração. A contagem dos votos era manual e muitas vezes exigia uma revisão para referendar tal urna ou seção de votação.

A equipe da Rádio Alvorada estava a postos até que chega um senhor e pergunta: “Quem é o responsável por isso aqui? Aquele indivíduo – apontando o locutor de plantão – está acabando publicamente com minha imagem”. O locutor que estava ao vivo e percebendo a intenção, talvez por serem desafetos, desliga o microfone e começa a bradar: “falo mesmo sobre você com toda categoria que lhe é pertinente”. Ambos chegam próximos e passam a discutir até que o primeiro arranca da mão do locutor um microfone pesado, dobrável, estilo “boca de jacaré”, e atira-o na cabeça do locutor. Este, que usava brilhantina sofre o impacto e, por mais irônico que pareça, parte de seu cabelo vem à frente como uma ave ouriçada tipo cacatua quando busca briga. Ao jogar o microfone, o ofendido o desligou do cabeamento de transmissão deixando a emissora num silêncio sepulcral.

De longe, via-se cerca de seis policiais militares em célere caminhar direcionando-se à balbúrdia. Quase todos foram para a delegacia explicar o ocorrido. Os dois senhores do embate viram-se um de costa para o outro seguem sua vida. Minutos após a emissora retorna ao ar com “A Voz do Brasil”.

Fim da surpresa - Era a Festa das Nações por volta de 1993 ou 1994. O evento ocorria em dois finais de semana e apresentava mega shows que atraiam multidões. Numa destas noites iria se apresentar Fábio Jr., renomado ator e músico, consagrado com milhares de discos vendidos.

A multidão de fãs se aglomerava próximo ao camarim do palco que ficava à esquerda da plateia. Era o único caminho para entrar no palco e realizar sua apresentação. Tietes aos montes.

Eis que chegam duas viaturas da Polícia Militar. A primeira estaciona e saem seus ocupantes. Na segunda, uma pessoa acenando as mãos chama a atenção das fãs que gritam “é o Fábio ... lindo, bonito, gostosão, nós viemos aqui para te ver”.

A viatura para, sai um homem coberto por um paletó. Ao tirar o paletó, um policial militar. Fábio Júnior estava no primeiro carro e entrou na surdina. Frustação total ... Todos tiveram que se contentar em vê-lo apenas no palco acima da plateia.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 24 de maio de 2026)

terça-feira, 19 de maio de 2026

Ad perpetuam memoriam rei

Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Cena principal: A banda musical se prepara, toda de branco, com seus quepes brancos, esperando o sinal do maestro para começar o repertório musical. Ninguém aguentava o calor que fazia em Piracicaba. No meio do público, aglomeração generalizada, alguém solta: “será que terá boca-livre?”.

Bom. É imaginação. Mas, a cena pode ter ocorrido durante a inauguração de uma placa de bronze, de um monumento ou talvez uma inauguração qualquer. Pode ser sido recentemente ou, provavelmente, muitos e muitos anos atrás.

Pode ter ocorrido durante inauguração, no final dos anos 1950, quando Luciano Guidotti foi homenageado com placa que ainda hoje existe no Mercado Municipal com a inscrição “Ad perpetuam memoriam rei”, ao prefeito que dedicou-se à canalização do Ribeirão do Itapeva.

Confesso que a última inauguração de um monumento da qual participei foi a pouco mais de oito anos atrás, quando Piracicaba completou 250 anos e, no Engenho Central, foi inaugurado o Marco Zero de Piracicaba, ou algo assim. Uma pedra referenciando o ponto de partida de onde surgiu nosso querido município.

Monumentos, coretos, obeliscos, jazigos ... Muitos deles estão instalados em nossa cidade. Em todos os bairros. O próprio Jornal de Piracicaba os catalogou em 2017 numa coluna chamada “Memória e História Esculpida” explicando o que é aquela mãe com duas crianças na entrada do Mirante ou quem fez o pórtico colorido da ESALQ representado por trabalhadores rurais. Um trabalho necessário para que a história e seus autores não caiam no esquecimento. Assim como o próprio JP fez com nossa pinacoteca a céu aberto: as paredes do Cemitério da Saudade, publicando livro com obras na parede assinadas por vários autores.

O avançar da sociedade, já no final dos anos 1970, clamava por modernidade. “Então, vamos tirar todos os monumentos da praça José Bonifácio, a praça central da cidade, levando um ar mais novo para o calçadão planejado”, pensou alguém. Lá foram alguns monumentos. Alguns ficaram e ainda estão lá, como o que homenageia Luiz de Queiroz. Mas saíram o monumento a Mário Dedini (hoje em frente a Igreja Imaculada Conceição da Vila Rezende) ou o monumento ao Soldado Constitucionalista. Este, uma obra do italiano Lélio Coluccini, foi erigido com doações do povo que se cotizou para manter viva a memória dos piracicabanos que faleceram na Revolução Constitucionalista de 1932. Sua inauguração ocorreu em 7 de setembro de 1938. Ele foi desmontado e peça por peça foi levado e montado na praça situada em frente ao Cemitério da Saudade. Ego ferido, muitos piracicabanos não se contentaram com a iniciativa. “Imagina ! Mexer com o luto de muitas famílias que perderam seus entes queridos que partiram defronte do Teatro Santo Estêvão, local onde estava o Monumento!”, pensou alguém. Até que em 1988, por decisão do Supremo Tribunal Federal, tal Monumento retorna a praça José Bonifácio. Transporte difícil, pedra por pedra, pedaço de bronze por pedaço, e com ele, o intangível: a alma dos piracicabanos que tombaram pela democracia a qual ainda hoje respiramos.

Monumentos, obeliscos, edifícios ... Há uma áurea especial em preservá-los principalmente por sua arquitetura que representa uma nostalgia ou um trabalho com afinco que enche nossos olhos quando, por exemplo, vemos as gárgulas existentes na Escola Estadual Barão do Rio Branco, no Centro. Ou pensar em dois monumentos que sumiram com o tempo: o Obelisco dos anos 1950 instalado em frente ao Ginásio Waldemar Blatkauskas durante os Jogos do Obelisco ou o Monumento aos 200 anos de Piracicaba erigido em frente a Casa do Povoador. Mistérios que ainda sondam nossa cidade ....

Aí chegamos no ponto mais nevrálgico possível. Triste ponto. A quem compete a preservação disso tudo? Se uma lixeira é colocada pelo poder público para que não joguemos lixo na rua, trabalha-se com a educação. Porém, houve investimento financeiro para sua compra. Quem financia o poder público? O cidadão com seus impostos. Não precisa ser falado mais nada. Preservar um bem público é papel do cidadão. Pirâmides no Egito, Corcovado no Rio de Janeiro ou Torre Eiffel em Paris. São fontes de renda para o turismo? São, sim! Se não preservarmos não temos este turismo e com ele a economia não gira.

Resumindo, que tal cada um cuidar do seu monumento, do seu obelisco, do seu coreto? A história e a sociedade agradecem!

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 17 de junho de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 23 de maio de 2026)

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Passado preservado

 Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Foram muitas as ideias e as promessas. Lembro-me que, quando entrei no Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, ouvi a promessa de digitalizar o acervo deste importante centro cultural. A promessa veio do poder público. Ao lembrar que ouvi isso em abril de 2010, noto que a ideia ficou apenas no papel. Já faz muito tempo.

No dia 28 de março, o IHGP em conjunto com a iniciativa privada, disponibilizou mais de 8 mil imagens do jornal “Gazeta de Piracicaba”, periódico trissemanal que circulou de 1882 a 1938. A coleção não está completa, mas tem quase sua totalidade. E o material disponível ecoa a história de Piracicaba na época do Império até a segunda Constituição Federal promulgada por Getúlio Vargas. Claro que ela passa por décadas e mais décadas de registros do que ocorreu em nossa cidade. Estas imagens podem ser lidas, consultadas e baixadas a partir do site do IHGP. Tudo de forma gratuita.

A “Gazeta” foi importante centro de informação de uma Piracicaba provinciana. Foi consultada por dezenas de jornalistas, professores, estudiosos, pesquisadores, historiadores ... Praticamente os principais acontecimentos foram nela estampados. O jornal foi por muito tempo o único veículo de comunicação de Piracicaba.

Em suas páginas é possível conferir como a cidade recebeu a notícia do assassinato de Almeida Júnior, contemplado pelo mecenato de Dom Pedro 2º e autor das principais telas a óleo do país, com reconhecimento internacional. Almeida foi morto por golpes de adaga na praça José Bonifácio em frente ao Hotel Central quando o marido de sua prima descobriu uma traição conjugal.

Brasílio Machado também conseguiu destaque através das páginas deste jornal com seu poema “Piracicaba”, dando a Piracicaba o epíteto de “Noiva da Colina”. Inicialmente ele havia publicado o poema em um livro, “Madresilvas”, edição portuguesa de 1876, mas foi na “Gazeta” que ele conseguiu repercussão maior. Não há de se negar que tenha dado certo.

O jornal é fonte importante do mercado publicitário. Passaram por suas páginas as principais empresas locais. Curioso é ver os restaurantes e hotéis oferecendo seus serviços e sua gastronomia. “Suculentos bifes com deliciosas batatas em qualquer horário do dia”, dizia um. “Hotel no Centro com bebedouro para cavalos na praça do entorno”, dizia outro. Pelas artes publicitárias é curioso conhecer um mercado distante com empresas que não mais existem ou deixaram sua marca como o Hotel Lago, de Manoel do Lago, tio de Mário Lago – ator da Globo e autor de “Ai que saudade de Amélia”.

Foi neste matutino que se soube que Piracicaba recebeu o primeiro filme de cinema 130 anos atrás – a serem lembrados em outubro próximo. Isso ocorre dez meses após a apresentação do novo equipamento em Paris por Auguste e Louis Loumière. Um barracão improvisado próximo a Matriz na hoje rua Moraes Barros, possivelmente no estacionamento do extinto Banco Santander. Klene e Mewe trazem a cidade o cinematógrafo, o espectro cinematográfico, que apresentaria um mundo nunca imaginado pelas pessoas. Filmetes curtos de animais correndo, trem chegando a estação e assim por diante fizeram a primeira sessão numa magnífica avant-premiére.

No acervo disponível é possível ver a trajetória de Martha Watts, Prudente de Moraes e outros personagens que moldaram a sociedade local. É possível acompanhar como foi a instalação da iluminação elétrica nas ruas da cidade. Claro que o jornalismo não era o que mesmo que conhecemos atualmente ou de tempos mais recentes. As informações eram bem rasas e cheias de adjetivos. Poucos nomes eram citados. Mas o conteúdo serve de base para muito conhecimento. E que, com o acervo digitalizado e disponibilizado, possa-se reescrever e descobrir histórias de Piracicaba.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Ano seis

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

- Morreu de que ?

- Morreu de covid.

- Ué ? Mas ainda se morre de covid ?

- Sim.

Tive esta conversa com um amigo mês passado, fevereiro de 2026. Isso ocorreu seis anos depois do primeiro caso da covid 19 ser registrada em Piracicaba. Passou tanto tempo que deu até para esquecer que ainda estamos na pandemia provocada pelo sars cov 2. Talvez tenhamos nos tornados mais resistentes, ou o vírus tenha enfraquecido.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, foram 48 mil novos casos de covid no Mundo nos 28 dias iniciados em 15 de janeiro passado. O Brasil lidera o ranking de países afetados, com 18 mil casos. No mesmo período, foram 1,6 milhão de mortes, liderados pelos Estados Unidos com 1,4 milhão. O Brasil reportou à OMS que em 28 dias, faleceram 33 pessoas pelo vírus.

Talvez o período pandêmico seja algo que todos querem se esquecer. Primeiro por termos vivido tal período. Segundo por ser algo muito recente, ainda em curso. Em dezembro de 2019 víamos os noticiários das mortes desenfreadas na China. Depois víamos carros de bombeiro levando caixões e mais caixões pela Europa. E pensávamos o que ? “Está longe. Nunca chegará até nós”. E chegou. Veio à nossa vizinhança e à nossa família. Chegou a atingir nós mesmos !

Me trouxe um sentimento de impotência ao ver dias desses, banners imensos da Festa de São José que retorna à Estação da Paulista, onde ocorreu por um final de semana em março de 2020. Inicialmente estava programada para dois finais de semana. Mas as normas sanitárias impediam a circulação e aglomeração. Parecia ser impossível, mas o Shopping Piracicaba anunciara semanas antes que fecharia suas portas por tempo indeterminado.

O início da pandemia foi algo conflituante. Tudo para, tudo fechado. Nada de festa, nada de balada, nada de pizzaria. Nem aniversário adiantava fazer, pois os convidados não apareciam. O medo se instalou em todas as camadas sociais. E a vacina contra este vilão vem ou não vem ? Mas vem de qual país ? Qual é mais eficiente ? Surgem as lives na televisão, no streaming, aumentam as vendas de alimentos e entregas pelos aplicativos de celulares. Jogos, novelas, programas de televisão são cancelados. E voltam as reprises. Mas assistir à final da Copa do Mundo de 20 anos atrás, num domingo a tarde, era para afundar ainda mais o tédio ou coçar a depressão.

Daí voltamos ao ponto de partida. Ninguém mais passa álcool gel com a intenção de desinfectar-se. Alguns o usam como forma de limpeza, esquecendo que ele é apenas um paliativo para quando não se tem sabonete e água corrente. Espirramos ou tossimos sem a preocupação com o próximo ou ainda de irmos ao lavabo assear as mãos. Até as maçanetas pegamos como antes, sem lembrar que elas são grandes propagadores de determinadas doenças. Lembra quando deixávamos o jornal no sol para matar o vírus, ou aquela pessoa que o esquentava com um ferro de passar roupa ? Se a covid não morrer por bem, morrerá pelo calor. Havia também quem chegasse do supermercado e em casa lavasse cada item, esfregando nele uma esponja como a mãe que tira a sujeira atrás da orelha da criança. Fizemos apenas um modismo ou ainda hoje praticamos isso?

O certo é que, neste sexto ano, aprendemos e desaprendemos muitas coisas. Algumas delas essenciais para nossa sobrevivência, pela manutenção da vida dos nossos semelhantes. Será que aprendemos ? Ou já esquecemos que ainda se morre pela Covid?

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 08 de março de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 14 de março de 2026)

domingo, 1 de março de 2026

Similes sumos símios

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 


Esta semana, “a casa mais vigiada do Brasil” perdeu a liderança do Ibope. Tomou seu lugar o zoológico mais vigiado do planeta, aquele onde está o macaquinho Punch. O macaco-japonês nasceu em julho passado, e é alvo do interesse das pessoas no Zoológico de Ichikawa, no Japão.

A imagem deste macaco bebê dentro de um cubo de concreto, mobilizou os olhares piedosos de muita gente. Pela internet, pudemos acompanhar e cair aos prantos pela rejeição feita por sua mãe, que o jogou à berlinda do grupo de macacos que ocupa uma grande cela.

Até aí, nada de novo. Desde que o ser humano se reconhece por ser humano, a rejeição faz parte de sua linearidade na Terra. O que não existiu ao longo dos milênios foi o processo midiático do qual Punch pode ser considerado uma vítima. Aliás, vítima do que? De um voyeurismo que não dará em nada na sua aceitação diante do seu grupo social? Ou da emoção do ser humano como se estivesse assistindo à um novelão mexicano a la SBT?

A rejeição das pessoas é histórica. A exclusão social está explícita em muitos livros. Servem de base para uma discussão ao menos forjada numa mesa de bar. O instinto coletivo nos permeia com críticas vorazes ao que um grupo de jovens supostamente teria feito ao cão Orelha. Ou ainda, num microcosmo mais próximos de nós mesmos, à capivara que cresceu com uma argola em seu peito. Onde estaria ela? Podemos ajudar? Vamos montar armadilhas para pegá-la e cortar aquele infortúnio que lhe reduz as condições respiratórias e musculares. Aliás, tal capivara também foi abandonada pelo grupo, num instinto de que poderia colocar em risco seu bando. E quem chorou por esta capivara tão próxima de nós ? Mas muitos derramaram lágrimas pelo Punch que está do outro lado do Mundo.

O universo midiático tem disso. Só sentimos compaixão por aquilo que vemos, seja uma residência desabando em Goiás, seja por um assalto registrado por câmeras de segurança na rua, seja por alguém chutando um cão comunitário... Confesso que ultimamente tenho sentido medo, pois jogo grãos de arroz para pombas que passeiam pelos restaurantes os quais frequento.

Existem condições psicológicas, psicodramáticas e psíquicas nas quais não quero entrar em detalhes aqui. Até porque sou um mero jornalista, dono de um “parpite” que pode não coincidir com seu pensamento. Por que dar atenção a um macaquinho desprezado pela mãe se na sua esquina uma criança sofre nas mãos de seus pais? Existe algo que podemos colocar com ponto de discussão que é a sensação de “sozinho na multidão”, ou o pensar diferente, sair da “caixinha” comum. Quem pensa diferente é o “estranho”, é o “biruta”, é o “que vive no mundo da lua”. Então, viver o dia todo abraçado num orangotango criado por uma grife da moda, a Ikea, é valer-se do merchandising, e ter seus “dez minutos de fama”, como diria Andy Warhol. De forma inconsciente, claro. Daqui uns dias, “a casa mais vigiada do Brasil” volta a ser a mais vigiada. O macaco-japonês num estalar dos dedos vira adulto e ninguém mais se lembra dele. De coitadinho passa a praticar o mesmo bullying com outros bebês macacos.

Mas, convenhamos. Esse processo midiático está colocando a situação na frente de nossos narizes. Ou melhor, na ponta de nossos dedos, através dos smartphones.  

Houve um episódio de um seriado de TV em que, durante a “Guerra Fria”, um ser humano é lançado em órbita. Chega a um planeta desconhecido e é bem recebido. Lhe dão uma casa com uma TV imensa, uma cozinha com os melhores equipamentos, uma lareira na sala... Até que, em certo momento, ele tenta abrir uma porta e uma janela. Não consegue. Em poucos segundos, uma barreira abre e todos estão contemplando uma jaula com ... um “terráqueo”. Zoológico interplanetário. Um ser humano preso. Afinal, símiles sumos símios...

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 01 de março de 2026)

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Ao mestre, com carinho

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

A memória ainda me permite lembrar. “Este é o Maurício”, disse-me minha mãe Ivete referindo-se então para uma criança de sete anos. É quase certeza que a cena ocorre em 1974 e eu retornava à minha residência pelas mãos de meu avô Humberto após um passeio com os netos. Dos meus 1,15 de altura olho para cima e vejo uma figura que meu pai Edson constantemente citava em casa. O rosto da pessoa era um sorriso de orelha a orelha, e, engaçado, quando ria, os olhos se fechavam como se fosse um oriental. Tal pessoa, sempre simpática, era Maurício de Sousa, sim, o pai da Turma da Mônica.

Não sei se foi a única vez que esteve em nossa residência, mas era motivo de ligações e correspondência junto ao meu pai, desenhista profissional desde os anos 1950. A ideia era levar Rontani pai para a Bidulândia, depois Maurício de Sousa Produções. O “namoro” foi intenso e longo, mas não rendeu frutos. Rontani pai tinha receio em deixar Piracicaba onde constituiu família e batalhava como funcionário público inicialmente pela ESALQ e depois pelo CATI da Secretaria Estadual de Agricultura.

Várias cartas demonstravam o carinho deste ícone do quadrinismo nacional e revolucionário do merchandising com sua turma que ia desde o Jotalhão, passando pelo Bidu, Piteco e, claro, os mais populares como Mônica, Cebolinha e Cascão. Em muitas destas cartas fazia referência à Caninha Tatuzinho, por aqui produzida.

Estas memórias me tomaram conta ao assistir a “Maurício de Sousa: O Filme”, 2025, produzido pela Star e disponível na Disney+ após curta temporada nos cinemas. Não caiu no gosto público, mas é uma viagem para quem conhece o trajeto da história em quadrinhos no brasil e da luta de Maurício em sobreviver com desenhos, tornando-se um ícone da arquitetura artística. Ele recebeu um sonoro não quando estava no Grupo Folha, sendo que lhe falaram que ninguém iria viver fazendo desenhos. Ledo engano!

Maurício não teve vida fácil para alcançar o sucesso com o bico de pena. Foi persistente. Tinha um dom natural para esta arte. Sabia fazer negócios. Surgiu na época certa, com padrinhos do porte de Jayme Cortez, Ziraldo e outros. Os Mesquita lhe estenderam o longo caminho da fama quando na primeira metade dos anos 1960 criaram um suplemento educacional para crianças intitulado “Folhinha”, ainda hoje impresso na Folha de São Paulo. Foi lá que o Rontani pai desfilou uma capa, em 1965, mostrando uma pessoa pescando num lago numa ingênua piada de salão ! Pudera ! Ele pescou uma botina ou algo assim. Começava assim a amizade entre Rontani e Sousa, sendo o primeiro anteriormente flertado por Adolfo e Naumin Aizen, proprietários da EBAL, que por décadas foi a licenciadora no Brasil dos heróis da Marvel e da DC Comics.

O filme tem uma ótima interpretação de Mauro Sousa, filho natural do homenageado. Claro que toda sua composição é pura poesia, como vemos nos momentos em que a musa inspiradora surge para a criação de seus personagens. Impossível crer que ele ou qualquer humano se concentre para criar isso ou aquilo. É aí que as ideias correm e não se concretizam. As ideias surgem de ideais que por sua vez, surgem do improviso, da distração e principalmente dos erros.

Não há por dizer que Maurício tenha sido original de uma fórmula utilizada desde os anos 1950 nos quadrinhos norte-americanos. Lembra da quadrinista Marge que nos anos 1935 criou Luluzinha e com ela trouxe Bolinha e seu clube só de meninos? Ou de Charles Schulz na turma do Minduim com Charlie Brown, Woodstock, Marcie, Paty Pimentinha e até o sujinho personagem que lembrava o Cascão ?

Cinema é escapismo, dirão uns. Cinema é a personificação do alterego, dirão outros. Porém, a indústria cinematográfica consegue atingir em cheio uma catarse necessária para nós humanos.

Me lembro como se fosse hoje de outro prazer trazido por Maurício de Sousa: a revista Pelezinho, da Editora Abril. Enfim, um herói com raízes brasileiras. Quantas vezes não esperei chegar um novo exemplar na banca situada no largo do Mercado Municipal.

Uma das últimas, senão a última, visitas a Piracicaba de nosso mestre ocorreu em 2017, quase dez anos atrás, quando veio a Engenho Central participar do Salão de Humor de Piracicaba. Muitas raízes Sousa deixou fincadas em nossa terra.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 22 de fevereiro de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 28 de fevereiro de 2026)

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Imagem estática

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Fez-se a luz. Com isso, saímos da escuridão. Passamos a enxergar melhor. O ser humano percebeu que um dos seus prazeres era a felicidade. Seja ela simples, sofisticada, inesperada ... “Como seria legal eternizar esse momento de felicidade”, pensou alguém. Talvez tenha sido o homem das cavernas quem disse isso. Sei lá. Mas nas imagens rupestres é possível ver desenhos de homens caçando ... o que é aquilo? Um bisão? Bom, não vamos entrar neste detalhe. Ela eterniza uma cena que deveria demonstrar o poderio social de então. Ou apenas a sobrevivência humana. Sei lá.

Com o tempo surgem as ilustrações, as telas a óleo que propagaram a realeza, a elite. Surgem os desenhos que retrataram na ponta do pincel o Brasil e suas belezas tropicais. Mas, tudo mudou 200 anos atrás, quando um processo químico consegue fixar no vidro ou num metal uma imagem real, não aquela adaptada pela mão humana. Ora, pois. Estava toda embaçada e precisava-se passar horas para tentar interpretá-la. Mas, foi esse o primeiro passo.

Foi em um dia qualquer de 1826 que, na França, Joseph Nicéphore Niépce consegue fixar uma imagem em uma placa de estanho, depois de horas de exposição. Ele usou muitos produtos químicos. Errou diversas vezes. Seguiu uma linha de pensamento que já vinha da China por vários séculos, podendo dizer que a fotografia é obra conjunta de diversos autores, até chegar no atual formato digital. Vieram outros depois, como Louis Daguerre que diminuiu para minutos a exposição de sua câmera utilizando chapas de cobre e vapor de mercúrio. Houve muita química. Houve muitos danos. Lembram da invenção do raio-x, em 1895? Wilhelm Conrad Röntgen usou a esposa Ana como cobaia, expondo-a a raios perigosos, sem saber disso.

A partir daí, pôde-se eternizar momentos de alegria como aniversários e casamentos; tristes como mortes; jornalísticos; aventureiros ... enfim, uma diversidade de opções. Tudo feito na terceira pessoa e o fotógrafo, o clássico lambe-lambe, sempre esquecido, colocado na berlinda. A selfie surge em 2013 quando os celulares passaram a ter câmeras frontais.

Com as imagens estáticas, criou-se a imagem em movimento, ou seja, 24 imagens por segundo dando noção ao olho humano que a imagem se movimentava. Pronto ! Estava criado o cinema que em dezembro completou 130 anos, através de outros franceses, os irmãos Lumière (Auguste e Louis). Quem viveu a era do super-8 ou 16 milímetros ou foi ao cinema e sentir as luzes se apagando, hoje vive de saudade. Nostalgia gostosa para ver como a fotografia e o cinema se tornaram indústrias poderosas e sensoriais. Uma fotografia de formatura ou de casamento sempre foi um sonho de consumo. Eterniza momentos ou pessoas que se foram. Tempos atrás era comum enviar uma foto sua mesma, assinada, para familiares. Quando surgiram as revelações automáticas, como a Polaroid, a sensação de imediatismo passou a fazer parte de nossa rotina.

E, em nossa Piracicaba ? Em menos de um ano após a apresentação oficial do cinema em Paris, nossa cidade recebeu uma exibição a qual todos ficaram maravilhados. Fotografia era algo caro, inacessível. Jornais como a Gazeta de Piracicaba, que circulou a partir de 1882, não traziam fotos. Um dos motivos eram os linotipos e clicherias que funcionavam como grandes carimbos quem prensavam a tinta no papel. O custo da reprodução de uma foto era inacessível para o maquinário da época. As fotografias começam a surgir na imprensa local nos anos 1900, com maior ênfase nos anos 1950.

Mas as fotos circulavam de mão em mão. Em papel fotográfico mesmo. Muitos deles guardados até hoje pelas famílias. Marc Ferrez, mecenato de Dom Pedro II, esteve em nossas terras retratando paisagens naturais como o seco salto do rio Piracicaba numa das estiagens durante a virada do século retrasado para o século passado. Cozzo foi outro fotógrafo que viveu das paisagens e da sociedade piracicabanas. Foi o inovador na cidade com sua Foto Rápida Cozzo que prometia revelações em alguns poucos dias.

Da luz, fez-se a imagem e dela eternizou-se no papel (hoje, no digital) tudo o que o ser humano realizou de bom ou ruim na Terra. Sorria !

(Publicado no Jornal de Piraciaba de 1º de fevereiro de 2026)

domingo, 25 de janeiro de 2026

Imagem em movimento

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Magia, escapismo, indústria... Afinal, o que é o cinema? É empolgação quando vemos “O Agente Secreto” ser finalista ao Oscar 2026? É tristeza ver os minutos finais de “Titanic”? É recordação de um tempo que não volta mais, nos fazendo regredir para o passado e, com isso, lembrar de alguém que já esteve ao nosso lado e hoje não mais está? A resposta é simples, todos estes conceitos fizeram do cinema uma das maiores indústrias do entretenimento, assim como são os games, os jogos de futebol ou basquete, entre tantos outros que se criaram ao longo do século passado.

O cinema completou 130 anos de vida. Foi em 28 de dezembro de 1895 que a França nos brindou com a imagem em movimento. Um filmete de quase um minuto mostrava a saída de funcionários de uma fábrica. Nada de roteiro. Nada de música. Nada de estrelas de renome. Era uma fotografia que se movimentava. Isso era retido em celuloide e podia ser exibido diversas vezes em vários lugares.

A imagem em movimento já era realizada há séculos com a lanterna mágica chinesa. Thomas Alva Edison proporcionou ver estas imagens com seu kinetoscópio, também apresentando poucos segundos de imagens em movimento. Porém, era um prazer solitário (no bom sentido), em que as pessoas colocavam suas vistas em um aparelho individual e viam algo se mover. Sensacional para a época, irrelevante na atualidade.

Auguste e Louis Lumière fizeram o contrário. A exibição era para várias pessoas ao mesmo tempo, numa tela bem menor que aquela que conhecemos hoje. Exigia sala escura, sem som e com todas as pessoas em pé. Nada de poltronas, assentos ou cadeiras, pois os filmetes eram curtos. Muita gente assistia e ficava maravilhada sem saber ao certo o que viu. Mas, surgia a curiosidade e com esta novidade todos queriam tomar contato. No filme que mostrava a chegada de um trem a uma estação francesa, muitos saíram correndo pensando que a locomotiva fosse atropelá-los.

Com o tempo, o ser humano passou a dominar esta técnica. Colocou roteiro, fez do fantástico algo que povoou a tela, inseriu música, fez dublagens, até chegar ao contexto que conhecemos hoje.

Muitos iam ao cinema ver adaptações clássicas de livros, de passagens da Bíblia, desenhos animados, da ilusão que nos alimenta neste um século e três décadas.

Em menos de um ano de sua primeira apresentação na França, o cinema aportou em Piracicaba, com sala exibidora improvisada. Na época, nada de telefone, rádio, internet, televisão ... A cultura corria “à boca solta”. Claro que tínhamos jornais, livros, teatro ... e o que mais? As sociedades se completavam com idas aos teatros, não para ver peças e sim para se socializar, participar de palestras, festas, assembleias e se aprofundar num conhecimento necessário para as pessoas. O cinema era uma extensão do livro, do teatro e do circo! Sim, o circo! A ilusão agora era transformada em celuloide e viajava o mundo. Os Lumieres eram ilusionistas, viajavam vários países com suas apresentações e o que fizeram no cinema? Viagem a lua, viagem ao fundo do oceano ... Ilusão pura que se tornou convencionalismo.

Piracicaba recebe a sétima arte em um barracão próximo a Matriz situada onde hoje está a praça José Bonifácio, na hoje rua Moraes Barros, com chão de terra batido, com ruas já delineadas e muita curiosidade. Klene e Mewe trazem a cidade o cinematógrafo, o espectro cinematográfico, que apresentaria um mundo nunca imaginado pelas pessoas. Na leitura de um livro, cada qual interpreta uma passagem do jeito que sua imaginação manda. O cavaleiro preto e capa pode não ser o Zorro como nos vem à mente. Então, exibição de trens em movimento, animais andando, cidades europeias causam alvoroço entre nossos cidadãos, ou seja, “há vida além de Piracicaba”!

O primeiro filme apresentado em terras caipiras era de vistas naturais, mas elas eram “animadas”. Assim fez-se a luz! Ou melhor, assim se apagou a luz para ver a primeira exibição de cinema na cidade. Em outubro, completa-se 130 anos de feito histórico. Merece um Oscar!


(Publicado no Jornal de Piracicaba de 25 de janeiro de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 31 de janeiro de 2026)