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domingo, 25 de janeiro de 2026

Imagem em movimento

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Magia, escapismo, indústria... Afinal, o que é o cinema? É empolgação quando vemos “O Agente Secreto” ser finalista ao Oscar 2026? É tristeza ver os minutos finais de “Titanic”? É recordação de um tempo que não volta mais, nos fazendo regredir para o passado e, com isso, lembrar de alguém que já esteve ao nosso lado e hoje não mais está? A resposta é simples, todos estes conceitos fizeram do cinema uma das maiores indústrias do entretenimento, assim como são os games, os jogos de futebol ou basquete, entre tantos outros que se criaram ao longo do século passado.

O cinema completou 130 anos de vida. Foi em 28 de dezembro de 1895 que a França nos brindou com a imagem em movimento. Um filmete de quase um minuto mostrava a saída de funcionários de uma fábrica. Nada de roteiro. Nada de música. Nada de estrelas de renome. Era uma fotografia que se movimentava. Isso era retido em celuloide e podia ser exibido diversas vezes em vários lugares.

A imagem em movimento já era realizada há séculos com a lanterna mágica chinesa. Thomas Alva Edison proporcionou ver estas imagens com seu kinetoscópio, também apresentando poucos segundos de imagens em movimento. Porém, era um prazer solitário (no bom sentido), em que as pessoas colocavam suas vistas em um aparelho individual e viam algo se mover. Sensacional para a época, irrelevante na atualidade.

Auguste e Louis Lumière fizeram o contrário. A exibição era para várias pessoas ao mesmo tempo, numa tela bem menor que aquela que conhecemos hoje. Exigia sala escura, sem som e com todas as pessoas em pé. Nada de poltronas, assentos ou cadeiras, pois os filmetes eram curtos. Muita gente assistia e ficava maravilhada sem saber ao certo o que viu. Mas, surgia a curiosidade e com esta novidade todos queriam tomar contato. No filme que mostrava a chegada de um trem a uma estação francesa, muitos saíram correndo pensando que a locomotiva fosse atropelá-los.

Com o tempo, o ser humano passou a dominar esta técnica. Colocou roteiro, fez do fantástico algo que povoou a tela, inseriu música, fez dublagens, até chegar ao contexto que conhecemos hoje.

Muitos iam ao cinema ver adaptações clássicas de livros, de passagens da Bíblia, desenhos animados, da ilusão que nos alimenta neste um século e três décadas.

Em menos de um ano de sua primeira apresentação na França, o cinema aportou em Piracicaba, com sala exibidora improvisada. Na época, nada de telefone, rádio, internet, televisão ... A cultura corria “à boca solta”. Claro que tínhamos jornais, livros, teatro ... e o que mais? As sociedades se completavam com idas aos teatros, não para ver peças e sim para se socializar, participar de palestras, festas, assembleias e se aprofundar num conhecimento necessário para as pessoas. O cinema era uma extensão do livro, do teatro e do circo! Sim, o circo! A ilusão agora era transformada em celuloide e viajava o mundo. Os Lumieres eram ilusionistas, viajavam vários países com suas apresentações e o que fizeram no cinema? Viagem a lua, viagem ao fundo do oceano ... Ilusão pura que se tornou convencionalismo.

Piracicaba recebe a sétima arte em um barracão próximo a Matriz situada onde hoje está a praça José Bonifácio, na hoje rua Moraes Barros, com chão de terra batido, com ruas já delineadas e muita curiosidade. Klene e Mewe trazem a cidade o cinematógrafo, o espectro cinematográfico, que apresentaria um mundo nunca imaginado pelas pessoas. Na leitura de um livro, cada qual interpreta uma passagem do jeito que sua imaginação manda. O cavaleiro preto e capa pode não ser o Zorro como nos vem à mente. Então, exibição de trens em movimento, animais andando, cidades europeias causam alvoroço entre nossos cidadãos, ou seja, “há vida além de Piracicaba”!

O primeiro filme apresentado em terras caipiras era de vistas naturais, mas elas eram “animadas”. Assim fez-se a luz! Ou melhor, assim se apagou a luz para ver a primeira exibição de cinema na cidade. Em outubro, completa-se 130 anos de feito histórico. Merece um Oscar!


(Publicado no Jornal de Piracicaba de 25 de janeiro de 2026)