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quinta-feira, 12 de março de 2026

Ano seis

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

- Morreu de que ?

- Morreu de covid.

- Ué ? Mas ainda se morre de covid ?

- Sim.

Tive esta conversa com um amigo mês passado, fevereiro de 2026. Isso ocorreu seis anos depois do primeiro caso da covid 19 ser registrada em Piracicaba. Passou tanto tempo que deu até para esquecer que ainda estamos na pandemia provocada pelo sars cov 2. Talvez tenhamos nos tornados mais resistentes, ou o vírus tenha enfraquecido.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, foram 48 mil novos casos de covid no Mundo nos 28 dias iniciados em 15 de janeiro passado. O Brasil lidera o ranking de países afetados, com 18 mil casos. No mesmo período, foram 1,6 milhão de mortes, liderados pelos Estados Unidos com 1,4 milhão. O Brasil reportou à OMS que em 28 dias, faleceram 33 pessoas pelo vírus.

Talvez o período pandêmico seja algo que todos querem se esquecer. Primeiro por termos vivido tal período. Segundo por ser algo muito recente, ainda em curso. Em dezembro de 2019 víamos os noticiários das mortes desenfreadas na China. Depois víamos carros de bombeiro levando caixões e mais caixões pela Europa. E pensávamos o que ? “Está longe. Nunca chegará até nós”. E chegou. Veio à nossa vizinhança e à nossa família. Chegou a atingir nós mesmos !

Me trouxe um sentimento de impotência ao ver dias desses, banners imensos da Festa de São José que retorna à Estação da Paulista, onde ocorreu por um final de semana em março de 2020. Inicialmente estava programada para dois finais de semana. Mas as normas sanitárias impediam a circulação e aglomeração. Parecia ser impossível, mas o Shopping Piracicaba anunciara semanas antes que fecharia suas portas por tempo indeterminado.

O início da pandemia foi algo conflituante. Tudo para, tudo fechado. Nada de festa, nada de balada, nada de pizzaria. Nem aniversário adiantava fazer, pois os convidados não apareciam. O medo se instalou em todas as camadas sociais. E a vacina contra este vilão vem ou não vem ? Mas vem de qual país ? Qual é mais eficiente ? Surgem as lives na televisão, no streaming, aumentam as vendas de alimentos e entregas pelos aplicativos de celulares. Jogos, novelas, programas de televisão são cancelados. E voltam as reprises. Mas assistir à final da Copa do Mundo de 20 anos atrás, num domingo a tarde, era para afundar ainda mais o tédio ou coçar a depressão.

Daí voltamos ao ponto de partida. Ninguém mais passa álcool gel com a intenção de desinfectar-se. Alguns o usam como forma de limpeza, esquecendo que ele é apenas um paliativo para quando não se tem sabonete e água corrente. Espirramos ou tossimos sem a preocupação com o próximo ou ainda de irmos ao lavabo assear as mãos. Até as maçanetas pegamos como antes, sem lembrar que elas são grandes propagadores de determinadas doenças. Lembra quando deixávamos o jornal no sol para matar o vírus, ou aquela pessoa que o esquentava com um ferro de passar roupa ? Se a covid não morrer por bem, morrerá pelo calor. Havia também quem chegasse do supermercado e em casa lavasse cada item, esfregando nele uma esponja como a mãe que tira a sujeira atrás da orelha da criança. Fizemos apenas um modismo ou ainda hoje praticamos isso?

O certo é que, neste sexto ano, aprendemos e desaprendemos muitas coisas. Algumas delas essenciais para nossa sobrevivência, pela manutenção da vida dos nossos semelhantes. Será que aprendemos ? Ou já esquecemos que ainda se morre pela Covid?

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 08 de março de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 14 de março de 2026)

domingo, 1 de março de 2026

Similes sumos símios

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 


Esta semana, “a casa mais vigiada do Brasil” perdeu a liderança do Ibope. Tomou seu lugar o zoológico mais vigiado do planeta, aquele onde está o macaquinho Punch. O macaco-japonês nasceu em julho passado, e é alvo do interesse das pessoas no Zoológico de Ichikawa, no Japão.

A imagem deste macaco bebê dentro de um cubo de concreto, mobilizou os olhares piedosos de muita gente. Pela internet, pudemos acompanhar e cair aos prantos pela rejeição feita por sua mãe, que o jogou à berlinda do grupo de macacos que ocupa uma grande cela.

Até aí, nada de novo. Desde que o ser humano se reconhece por ser humano, a rejeição faz parte de sua linearidade na Terra. O que não existiu ao longo dos milênios foi o processo midiático do qual Punch pode ser considerado uma vítima. Aliás, vítima do que? De um voyeurismo que não dará em nada na sua aceitação diante do seu grupo social? Ou da emoção do ser humano como se estivesse assistindo à um novelão mexicano a la SBT?

A rejeição das pessoas é histórica. A exclusão social está explícita em muitos livros. Servem de base para uma discussão ao menos forjada numa mesa de bar. O instinto coletivo nos permeia com críticas vorazes ao que um grupo de jovens supostamente teria feito ao cão Orelha. Ou ainda, num microcosmo mais próximos de nós mesmos, à capivara que cresceu com uma argola em seu peito. Onde estaria ela? Podemos ajudar? Vamos montar armadilhas para pegá-la e cortar aquele infortúnio que lhe reduz as condições respiratórias e musculares. Aliás, tal capivara também foi abandonada pelo grupo, num instinto de que poderia colocar em risco seu bando. E quem chorou por esta capivara tão próxima de nós ? Mas muitos derramaram lágrimas pelo Punch que está do outro lado do Mundo.

O universo midiático tem disso. Só sentimos compaixão por aquilo que vemos, seja uma residência desabando em Goiás, seja por um assalto registrado por câmeras de segurança na rua, seja por alguém chutando um cão comunitário... Confesso que ultimamente tenho sentido medo, pois jogo grãos de arroz para pombas que passeiam pelos restaurantes os quais frequento.

Existem condições psicológicas, psicodramáticas e psíquicas nas quais não quero entrar em detalhes aqui. Até porque sou um mero jornalista, dono de um “parpite” que pode não coincidir com seu pensamento. Por que dar atenção a um macaquinho desprezado pela mãe se na sua esquina uma criança sofre nas mãos de seus pais? Existe algo que podemos colocar com ponto de discussão que é a sensação de “sozinho na multidão”, ou o pensar diferente, sair da “caixinha” comum. Quem pensa diferente é o “estranho”, é o “biruta”, é o “que vive no mundo da lua”. Então, viver o dia todo abraçado num orangotango criado por uma grife da moda, a Ikea, é valer-se do merchandising, e ter seus “dez minutos de fama”, como diria Andy Warhol. De forma inconsciente, claro. Daqui uns dias, “a casa mais vigiada do Brasil” volta a ser a mais vigiada. O macaco-japonês num estalar dos dedos vira adulto e ninguém mais se lembra dele. De coitadinho passa a praticar o mesmo bullying com outros bebês macacos.

Mas, convenhamos. Esse processo midiático está colocando a situação na frente de nossos narizes. Ou melhor, na ponta de nossos dedos, através dos smartphones.  

Houve um episódio de um seriado de TV em que, durante a “Guerra Fria”, um ser humano é lançado em órbita. Chega a um planeta desconhecido e é bem recebido. Lhe dão uma casa com uma TV imensa, uma cozinha com os melhores equipamentos, uma lareira na sala... Até que, em certo momento, ele tenta abrir uma porta e uma janela. Não consegue. Em poucos segundos, uma barreira abre e todos estão contemplando uma jaula com ... um “terráqueo”. Zoológico interplanetário. Um ser humano preso. Afinal, símiles sumos símios...

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 01 de março de 2026)

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Ao mestre, com carinho

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

A memória ainda me permite lembrar. “Este é o Maurício”, disse-me minha mãe Ivete referindo-se então para uma criança de sete anos. É quase certeza que a cena ocorre em 1974 e eu retornava à minha residência pelas mãos de meu avô Humberto após um passeio com os netos. Dos meus 1,15 de altura olho para cima e vejo uma figura que meu pai Edson constantemente citava em casa. O rosto da pessoa era um sorriso de orelha a orelha, e, engaçado, quando ria, os olhos se fechavam como se fosse um oriental. Tal pessoa, sempre simpática, era Maurício de Sousa, sim, o pai da Turma da Mônica.

Não sei se foi a única vez que esteve em nossa residência, mas era motivo de ligações e correspondência junto ao meu pai, desenhista profissional desde os anos 1950. A ideia era levar Rontani pai para a Bidulândia, depois Maurício de Sousa Produções. O “namoro” foi intenso e longo, mas não rendeu frutos. Rontani pai tinha receio em deixar Piracicaba onde constituiu família e batalhava como funcionário público inicialmente pela ESALQ e depois pelo CATI da Secretaria Estadual de Agricultura.

Várias cartas demonstravam o carinho deste ícone do quadrinismo nacional e revolucionário do merchandising com sua turma que ia desde o Jotalhão, passando pelo Bidu, Piteco e, claro, os mais populares como Mônica, Cebolinha e Cascão. Em muitas destas cartas fazia referência à Caninha Tatuzinho, por aqui produzida.

Estas memórias me tomaram conta ao assistir a “Maurício de Sousa: O Filme”, 2025, produzido pela Star e disponível na Disney+ após curta temporada nos cinemas. Não caiu no gosto público, mas é uma viagem para quem conhece o trajeto da história em quadrinhos no brasil e da luta de Maurício em sobreviver com desenhos, tornando-se um ícone da arquitetura artística. Ele recebeu um sonoro não quando estava no Grupo Folha, sendo que lhe falaram que ninguém iria viver fazendo desenhos. Ledo engano!

Maurício não teve vida fácil para alcançar o sucesso com o bico de pena. Foi persistente. Tinha um dom natural para esta arte. Sabia fazer negócios. Surgiu na época certa, com padrinhos do porte de Jayme Cortez, Ziraldo e outros. Os Mesquita lhe estenderam o longo caminho da fama quando na primeira metade dos anos 1960 criaram um suplemento educacional para crianças intitulado “Folhinha”, ainda hoje impresso na Folha de São Paulo. Foi lá que o Rontani pai desfilou uma capa, em 1965, mostrando uma pessoa pescando num lago numa ingênua piada de salão ! Pudera ! Ele pescou uma botina ou algo assim. Começava assim a amizade entre Rontani e Sousa, sendo o primeiro anteriormente flertado por Adolfo e Naumin Aizen, proprietários da EBAL, que por décadas foi a licenciadora no Brasil dos heróis da Marvel e da DC Comics.

O filme tem uma ótima interpretação de Mauro Sousa, filho natural do homenageado. Claro que toda sua composição é pura poesia, como vemos nos momentos em que a musa inspiradora surge para a criação de seus personagens. Impossível crer que ele ou qualquer humano se concentre para criar isso ou aquilo. É aí que as ideias correm e não se concretizam. As ideias surgem de ideais que por sua vez, surgem do improviso, da distração e principalmente dos erros.

Não há por dizer que Maurício tenha sido original de uma fórmula utilizada desde os anos 1950 nos quadrinhos norte-americanos. Lembra da quadrinista Marge que nos anos 1935 criou Luluzinha e com ela trouxe Bolinha e seu clube só de meninos? Ou de Charles Schulz na turma do Minduim com Charlie Brown, Woodstock, Marcie, Paty Pimentinha e até o sujinho personagem que lembrava o Cascão ?

Cinema é escapismo, dirão uns. Cinema é a personificação do alterego, dirão outros. Porém, a indústria cinematográfica consegue atingir em cheio uma catarse necessária para nós humanos.

Me lembro como se fosse hoje de outro prazer trazido por Maurício de Sousa: a revista Pelezinho, da Editora Abril. Enfim, um herói com raízes brasileiras. Quantas vezes não esperei chegar um novo exemplar na banca situada no largo do Mercado Municipal.

Uma das últimas, senão a última, visitas a Piracicaba de nosso mestre ocorreu em 2017, quase dez anos atrás, quando veio a Engenho Central participar do Salão de Humor de Piracicaba. Muitas raízes Sousa deixou fincadas em nossa terra.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 22 de fevereiro de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 28 de fevereiro de 2026)

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Imagem estática

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Fez-se a luz. Com isso, saímos da escuridão. Passamos a enxergar melhor. O ser humano percebeu que um dos seus prazeres era a felicidade. Seja ela simples, sofisticada, inesperada ... “Como seria legal eternizar esse momento de felicidade”, pensou alguém. Talvez tenha sido o homem das cavernas quem disse isso. Sei lá. Mas nas imagens rupestres é possível ver desenhos de homens caçando ... o que é aquilo? Um bisão? Bom, não vamos entrar neste detalhe. Ela eterniza uma cena que deveria demonstrar o poderio social de então. Ou apenas a sobrevivência humana. Sei lá.

Com o tempo surgem as ilustrações, as telas a óleo que propagaram a realeza, a elite. Surgem os desenhos que retrataram na ponta do pincel o Brasil e suas belezas tropicais. Mas, tudo mudou 200 anos atrás, quando um processo químico consegue fixar no vidro ou num metal uma imagem real, não aquela adaptada pela mão humana. Ora, pois. Estava toda embaçada e precisava-se passar horas para tentar interpretá-la. Mas, foi esse o primeiro passo.

Foi em um dia qualquer de 1826 que, na França, Joseph Nicéphore Niépce consegue fixar uma imagem em uma placa de estanho, depois de horas de exposição. Ele usou muitos produtos químicos. Errou diversas vezes. Seguiu uma linha de pensamento que já vinha da China por vários séculos, podendo dizer que a fotografia é obra conjunta de diversos autores, até chegar no atual formato digital. Vieram outros depois, como Louis Daguerre que diminuiu para minutos a exposição de sua câmera utilizando chapas de cobre e vapor de mercúrio. Houve muita química. Houve muitos danos. Lembram da invenção do raio-x, em 1895? Wilhelm Conrad Röntgen usou a esposa Ana como cobaia, expondo-a a raios perigosos, sem saber disso.

A partir daí, pôde-se eternizar momentos de alegria como aniversários e casamentos; tristes como mortes; jornalísticos; aventureiros ... enfim, uma diversidade de opções. Tudo feito na terceira pessoa e o fotógrafo, o clássico lambe-lambe, sempre esquecido, colocado na berlinda. A selfie surge em 2013 quando os celulares passaram a ter câmeras frontais.

Com as imagens estáticas, criou-se a imagem em movimento, ou seja, 24 imagens por segundo dando noção ao olho humano que a imagem se movimentava. Pronto ! Estava criado o cinema que em dezembro completou 130 anos, através de outros franceses, os irmãos Lumière (Auguste e Louis). Quem viveu a era do super-8 ou 16 milímetros ou foi ao cinema e sentir as luzes se apagando, hoje vive de saudade. Nostalgia gostosa para ver como a fotografia e o cinema se tornaram indústrias poderosas e sensoriais. Uma fotografia de formatura ou de casamento sempre foi um sonho de consumo. Eterniza momentos ou pessoas que se foram. Tempos atrás era comum enviar uma foto sua mesma, assinada, para familiares. Quando surgiram as revelações automáticas, como a Polaroid, a sensação de imediatismo passou a fazer parte de nossa rotina.

E, em nossa Piracicaba ? Em menos de um ano após a apresentação oficial do cinema em Paris, nossa cidade recebeu uma exibição a qual todos ficaram maravilhados. Fotografia era algo caro, inacessível. Jornais como a Gazeta de Piracicaba, que circulou a partir de 1882, não traziam fotos. Um dos motivos eram os linotipos e clicherias que funcionavam como grandes carimbos quem prensavam a tinta no papel. O custo da reprodução de uma foto era inacessível para o maquinário da época. As fotografias começam a surgir na imprensa local nos anos 1900, com maior ênfase nos anos 1950.

Mas as fotos circulavam de mão em mão. Em papel fotográfico mesmo. Muitos deles guardados até hoje pelas famílias. Marc Ferrez, mecenato de Dom Pedro II, esteve em nossas terras retratando paisagens naturais como o seco salto do rio Piracicaba numa das estiagens durante a virada do século retrasado para o século passado. Cozzo foi outro fotógrafo que viveu das paisagens e da sociedade piracicabanas. Foi o inovador na cidade com sua Foto Rápida Cozzo que prometia revelações em alguns poucos dias.

Da luz, fez-se a imagem e dela eternizou-se no papel (hoje, no digital) tudo o que o ser humano realizou de bom ou ruim na Terra. Sorria !

(Publicado no Jornal de Piraciaba de 1º de fevereiro de 2026)

domingo, 25 de janeiro de 2026

Imagem em movimento

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Magia, escapismo, indústria... Afinal, o que é o cinema? É empolgação quando vemos “O Agente Secreto” ser finalista ao Oscar 2026? É tristeza ver os minutos finais de “Titanic”? É recordação de um tempo que não volta mais, nos fazendo regredir para o passado e, com isso, lembrar de alguém que já esteve ao nosso lado e hoje não mais está? A resposta é simples, todos estes conceitos fizeram do cinema uma das maiores indústrias do entretenimento, assim como são os games, os jogos de futebol ou basquete, entre tantos outros que se criaram ao longo do século passado.

O cinema completou 130 anos de vida. Foi em 28 de dezembro de 1895 que a França nos brindou com a imagem em movimento. Um filmete de quase um minuto mostrava a saída de funcionários de uma fábrica. Nada de roteiro. Nada de música. Nada de estrelas de renome. Era uma fotografia que se movimentava. Isso era retido em celuloide e podia ser exibido diversas vezes em vários lugares.

A imagem em movimento já era realizada há séculos com a lanterna mágica chinesa. Thomas Alva Edison proporcionou ver estas imagens com seu kinetoscópio, também apresentando poucos segundos de imagens em movimento. Porém, era um prazer solitário (no bom sentido), em que as pessoas colocavam suas vistas em um aparelho individual e viam algo se mover. Sensacional para a época, irrelevante na atualidade.

Auguste e Louis Lumière fizeram o contrário. A exibição era para várias pessoas ao mesmo tempo, numa tela bem menor que aquela que conhecemos hoje. Exigia sala escura, sem som e com todas as pessoas em pé. Nada de poltronas, assentos ou cadeiras, pois os filmetes eram curtos. Muita gente assistia e ficava maravilhada sem saber ao certo o que viu. Mas, surgia a curiosidade e com esta novidade todos queriam tomar contato. No filme que mostrava a chegada de um trem a uma estação francesa, muitos saíram correndo pensando que a locomotiva fosse atropelá-los.

Com o tempo, o ser humano passou a dominar esta técnica. Colocou roteiro, fez do fantástico algo que povoou a tela, inseriu música, fez dublagens, até chegar ao contexto que conhecemos hoje.

Muitos iam ao cinema ver adaptações clássicas de livros, de passagens da Bíblia, desenhos animados, da ilusão que nos alimenta neste um século e três décadas.

Em menos de um ano de sua primeira apresentação na França, o cinema aportou em Piracicaba, com sala exibidora improvisada. Na época, nada de telefone, rádio, internet, televisão ... A cultura corria “à boca solta”. Claro que tínhamos jornais, livros, teatro ... e o que mais? As sociedades se completavam com idas aos teatros, não para ver peças e sim para se socializar, participar de palestras, festas, assembleias e se aprofundar num conhecimento necessário para as pessoas. O cinema era uma extensão do livro, do teatro e do circo! Sim, o circo! A ilusão agora era transformada em celuloide e viajava o mundo. Os Lumieres eram ilusionistas, viajavam vários países com suas apresentações e o que fizeram no cinema? Viagem a lua, viagem ao fundo do oceano ... Ilusão pura que se tornou convencionalismo.

Piracicaba recebe a sétima arte em um barracão próximo a Matriz situada onde hoje está a praça José Bonifácio, na hoje rua Moraes Barros, com chão de terra batido, com ruas já delineadas e muita curiosidade. Klene e Mewe trazem a cidade o cinematógrafo, o espectro cinematográfico, que apresentaria um mundo nunca imaginado pelas pessoas. Na leitura de um livro, cada qual interpreta uma passagem do jeito que sua imaginação manda. O cavaleiro preto e capa pode não ser o Zorro como nos vem à mente. Então, exibição de trens em movimento, animais andando, cidades europeias causam alvoroço entre nossos cidadãos, ou seja, “há vida além de Piracicaba”!

O primeiro filme apresentado em terras caipiras era de vistas naturais, mas elas eram “animadas”. Assim fez-se a luz! Ou melhor, assim se apagou a luz para ver a primeira exibição de cinema na cidade. Em outubro, completa-se 130 anos de feito histórico. Merece um Oscar!


(Publicado no Jornal de Piracicaba de 25 de janeiro de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 31 de janeiro de 2026)