Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto
Histórico e Geográfico de Piracicaba
O
título me lembra uma aula que tive nos anos 1980 na Escola Estadual Dr. Jorge
Coury. O professor era Franscislídio Beduschi que também lecionava no ensino
particular. Ele foi responsável pelas matérias – extintas com o tempo – “Organização
social e política do Brasil” e “Educação moral e cívica”. Num destes encontros
vespertino com os alunos ele, no mais profundo de seu conhecimento, dispara:
-
“Quem sabe o que está escrito no frontispício do Cemitério da Saudade?”
Grande
maioria dos alunos ficou pensando o que seria frontispício, que em muito rimava
com hospício e daí os risos na sala de aula. Frontispício, disse ele, na área
de arquitetura, é a entrada decorada de um edifício e na Saudade está a
inscrição “Omnes similes sumus”, ou “somos todos iguais”, numa tradução para
lembrar que na morte não há distinção. Todos, somos iguais.
Muito
menos dolorido que em Paraibuna, São Paulo, cujo cemitério traz em sua entrada
a inscrição “Nós que aqui estamos por vós esperamos”. Dizem que a frase veio de
padres europeus no contexto de que “nós que aqui estamos, esperamos por vossas
orações”.
Mas,
tradições e lendas à parte. Em breve, o IHGP republicará um trabalho importante
dos autores Maurício Beraldo e Paulo Tot Pinto, dupla que possui talento e
vocação para falar sobre o mais que centenário Cemitério da Saudade. São dois
estudiosos que merecem aplausos da sociedade piracicabana. E o IHGP com esta
republicação espera estar preenchendo uma lacuna sobre este local que atrai
curiosidade por seu contexto arquitetônico e também pelas personalidades nele
sepultadas, além, claro, de ser ponto de devoção por aqueles que já partiram
deste mundo.
Piracicaba
tem cemitérios centenários, reconhecidos ou não. O Cemitério da Saudade tem
mais de 150 anos. Continua sendo motivo de devoção, de casa para felinos
domésticos, de visitas dos “amigos do alheio” e também de ponto de visitação
pela arte cemiterial que proporciona. Nele estão sepultadas personalidades
importantes que trabalharam para a construção da sociedade local. Nele estão
monumentos considerados verdadeiras obras de arte, as quais merecem nossa
admiração e estudo. Não é à toa, que anos atrás foi encenada em plena
meia-noite a peça “Vozes do Comurba” com grande sucesso. Hoje são sucesso as
visitas noturnas ao cemitério, tornando claro que não se deve ter medo com os
mortos e sim com os vivos. Essas visitas noturnas unem o inesperado com o
temido e, em especial, com o assombroso, o qual é dominado em conjunto pelas
dezenas de pessoas que visitam suas ruas com lanternas e sempre na expectativa
do que virão pela frente.
Confesso
que anos atrás via grupos se formarem para conhecer e discutirem tal arte
cemiterial. Tinha pavor. Com o tempo passei a nota que muitos jazigos trazem
uma história rica sobre a pessoa ali sepultada. Tomemos por base o mausoléu de
Almeida Júnior, pintor sediado em Itu, morto em Piracicaba pelo marido de sua
prima em frente ao Hotel Central, na praça José Bonifácio. Seu contexto
arquitetônico é magnífico, rendendo momentos de reflexão e contemplação. Esse é
apenas um dos vários exemplos. Temos também a quadra das vítimas do Comurba.
Temos um presidente da República aqui sepultado. Temos prefeitos. Enfim, é uma
história viva sobre os mortos. Pessoas que deram muito de si para termos essa
Piracicaba fortalecida na qual vivemos.
“Somos
todos iguais” que em breve será colocado a disposição do leitor nos ajuda
nestas reflexões. É um roteiro das principais personalidades sepultadas na
Saudade.
Que
seja a todos um ótimo livro de cabeceira para conhecer histórias, lendas e
tradições locais.
(Publicado no Jornal de Piracicaba de 14 de junho de 2026)
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