Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba
A
liberdade tem seu preço, disse alguém. Daí o jovem pergunta, mas independência
não é no 4 de julho? Cria-se uma aberração histórica numa época em que existe
uma propagação do deadline, browser, offline e outros anglicanismos que tomaram
conta de nossa cultura nos últimos anos. Ninguém mais é estraga prazeres, já
que a onda é agora é dar spoiler. É a mesma coisa.
Canta-se
o Hino Nacional no dia de nossa independência diante do reino de Portugal? Não
deveria, já que a data tem hino apropriado, ou seja, o Hino da Independência,
aquele que marotamente entoávamos na escola como sendo “Japonês tem quatro
filhos” e cada filho rimava com algo que ia do absurdo até ao mais ingênuo como
primeiro que era pasteleiro.
Bom.
Até aí acabaram com a letra de Evaristo da Veiga que colocou como coautor Dom
Pedro I, imperador do Brasil em 1822 quando ocorre a Independência brasileira.
Se tinha dom (no bom sentido) para a música, Pedro I nunca deixou isso
evidente. Nem Laurentino Gomes mata esta charada.
Lembro-me,
lá pelos idos da primeira metade da década de 1970, que éramos obrigados a ficar
em pé e cantar um hino cívico toda sexta-feira, antes da aula começar. Isso
ocorria na Escola Estadual Barão do Rio Branco, assim como era praxe em tantas
outras escolas. Época em que a cara fechada da inspetora de aluno já nos
deixava arrepiados pela bronca que poderia vir. Depois, gostoso foi ir a faculdade,
no meu caso Unimep campus Centro, e sair no meio da aula sem dar satisfação ou
ter que explicar para um inspetor o que um aluno fazia zanzando pelos
corredores. Claro que a ideia era ir na Governador aberta às vésperas de datas
como o dia das mães ou dia dos namorados. Mas, como escrito anteriormente, a
liberdade tem seu preço.
Preço
caro para o inconfidente Tiradentes que queria exatamente o que Pedro I fez:
queremos a independência ou então que venha a morte! Joaquim José da Silva
Xavier foi o bode expiatório que Maria “A Louca” encontrou para suprimir
insurreições e manter Portugal no comando do universo ultramarino,
especialmente em terras brasileiras. Terra abundante de ouro e materiais que
interessavam à coroa portuguesa. Melhor consumir a famosa bagaceira que a
cachaça. Ponha-se, então, na cadeia os fabricantes deste derivado da cana de
açúcar que quer concorrer com o vinho português e aquilo que pouco conhecemos
denominado de bagaceira, aguardente feita de uva. Confesso que comprei uma garrafa
desta bebida em São Pedro. Não consegui consumi-la, sendo que seu conteúdo somente
serviu para acender o carvão de uma churrasqueira na qual estava uma suculenta
picanha.
Piracicaba
deixou pouca história de como se encontrava em 1822. Existem fatos. Existem
nomes, assim como muitas e muitas pessoas que caíram no esquecimento. Mesmo com
3 mil habitantes, ainda era um vilarejo tomado pelo mato, onde a sociedade
acordava com as galinhas e dormia com o escurecer, sem se preocupar com um
relógio que lhe ditasse regras.
Cem
anos depois surgem festividades para comemorar o centenário do brado de Pedro I
às margens do Ipiranga. Lydia Rezende cria o Monumento da Independência que deu
nome ao bairro situado na Vila Rezende. A avenida Independência tem seu desenho
feito na topografia de Piracicaba. Deve ser um dos maiores logradouros da
cidade, começando na rua Governador e terminando em frente a Esalq. Honorato
Faustino enclausura uma cápsula do tempo na escola Sud Menucci com mensagens e
memórias que deveriam ser lidas cem anos depois, ou seja, 2022.
Chegamos em 2026 comemorando-se o Dia da Independência numa emenda ao final de semana. Esse é mais um preço da liberdade.
(Publicado no Jornal de Piracicaba de 6 de setembro de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 12 de setembro de 2026)