Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba
Era
um dos mais pacatos que conheci. Levantava durante a semana às 8 horas e aos
finais de semana estava com os olhos estalados na cama já às 5h30. Tinha suas
regras e era conhecido como metódico. Tomava café sempre no mesmo lugar. Cortava
o carbelo no mesmo local havia 40 anos. À noite, regava as plantas do seu
quintal. Pegava os mesmos trajetos por décadas, conhecendo as ruas melhor que
na palma de sua mão. “Opa ! Consertaram o buraco que estava aqui havia meses”,
pensou certa feita. “Pintaram esta casa. Nem a percebia mais; porém a tinta a
realçou e chamou minha atenção”, pensou, também.
Um
dia, ia ao trabalho por uma rua. No outro pegava outra rua. Pensava que, assim,
a rotina nunca o entediaria. Ia sempre aos mesmos restaurantes pois já os
conhecia e gostava de evitar surpresas desagradáveis. Um cidadão simples, sem
muitos anseios, mas de bom gosto, quase um bon vivant, que buscava na vida um
sentido. Dizia que a mente vazia não era a casa do diabo e sim da depressão,
das neuras e do tédio. Fazia todo dia as palavras cruzadas estampadas no
jornal. Sim ! Este cidadão ainda se informava pelos jornais, uma de suas
principais paixões.
Nada
de “Strangers Things” ou “The Office”, nada de Netflix. Gostava de ler no
papel. Ficava horas no quintal de sua casa debulhando os clássicos de Edgard
Allan Poe, Nataniel Howthorne, Ray Bradbury e outros. Na TV preferia o que
considerava magnífico: Stanley Kubrick, Roger Corman, Frank Capra, George
Stevens, Howard Hawks, William Wyler e até Fritz Lang. Via e revia. Não deixava
de se atualizar com os lançamentos para mexer a massa cinzenta e não ficar
desatualizado. “Afinal, preciso ter assunto para a conversa durante o churrasco
no final de semana”, pensou mais uma vez.
Ia
no Mercado Municipal sempre. Sempre nos mesmos boxes. Tomava café no mesmo
local. Reclamava dos preços. Passava pelas bancas para conferir promoções. Como
elas não vinham e era iminente a necessidade de repor os perecíveis, fazia a
feira que daria para uns dez dias. “Mas o preço do filhote não baixou ainda;
peixe anda caro”, titubeou.
Parou
e pensou sobre o sentido da vida. Pensamentos pacatos que nem todo cidadão faz.
Ficou triste. Parou e pensou na sociedade rindo dele, uma pessoa simples que
segue as regras sem questionar. “Tolo ! Manipulado ! Trouxa ! Guiado”, foram os
termos que lhe vieram a mente falados pelos amigos. Sentiu-se enganado por ser
honesto.
Era
o cara que vivia com o penteado impecável num cabelo liso fora de moda. Usava
lenço na calça jeans e o pente Condor do qual muitos caçoavam. Espécie em
extinção !
Lembrou
de Geraldo Vandré cantando na Rádio Difusora FM lá por 1981 : “caminhando e
cantando, seguindo a canção”. E vamos em frente. Veio-lhe à mente outra canção
de dez anos antes, criada por Chico Buarque de Hollanda, a velha “Construção”: “amou
daquela vez como se fosse a única (...), por me deixar respirar, por me deixar
existir”, sabendo que o amanhã poderia não vir.
Lembrou
de Gregor Samsa, a barata gigante criada pro Franz Kafka em “Metamorfose”.
Embrião de um mundo intransigente diante de um inseto gigante que precisa ser
escondido da sociedade por ser asqueroso. Pensamento que se esvai rapidamente
como o fechar das cortinas de um teatro. Assim, entra outro ato.
Nosso
pacato amigo evitava falar de futebol, religião e política, temas que
considerava controversos e que alongariam uma discussão que era para ser
rápida.
Conhecia
superficialmente sua vizinhança a qual cumprimentava com um seco bom dia ou boa
tarde. Não gostava de intimidade. Avaro de gentilezas, era o próprio “bicho
grilo” que espelhava a sociedade. Com uma saciedade incontrolável, devorava-se
(a si mesmo) como o objeto de admiração ou repulsa. Ego brigando com seu
alterego. O certo é que muitos não o entendiam assim como alguns não entenderam
esse texto.
Mas,
resumindo, assim era o pacato cidadão. Ninguém o conhecia ou o reconhecia. Era
o espelho de todos na sociedade.
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