Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba
No início, foi um olhar profundo, daqueles que se conectam entre o emitente e o receptor. “Você me merece” pensou aquela criança carente e cheia de vida mesmo com seus poucos meses de nascimento. Foi uma conexão imediata, e sem perder tempo se embrenhou entre os cabelos longos, colocando seu queixo no ombro de forma muito bem acomodada, presa como se fosse um imã ao mais puro metal. A partir daí, notava-se uma interação que se prolongaria por alguns anos. “Eu te mereço”, pensamos.
Foi
um início de júbilo, com muita alegria, conhecimento que serviu para
preenchimento da ausência de um membro da família. Curioso é que a ausência se
prostrou num dia e no dia seguinte uma nova vida chegou ao nosso lar. Há todo
um simbolismo e crença por trás disso. Interessante é ver como aprendemos com
uma nova vida no nosso meio. Voltamos a fazer coisas que não fazíamos por muito
tempo. Voltamos a ser criança, mesmo com a idade avançada, descobrindo a cada
dia desta vida um prazer que ficou no passado.
No
meio, foram vários anos de alegria. Preocupação com a alimentação, com a
vestimenta, com o ondular do cabelo, com a companhia enquanto dormia. Já teve
aquela sensação de acordar a noite e ver se alguém está respirando, tão
profundo é o sono e a calma ao seu entregar aos braços de Morfeu? Foram muitas
festas acompanhando sua família. Até fotografias motivavam uma expressão de
concentração, olhando sempre para a lente, de olhos escuros abertos tomando
atitude de um ser humano consciente do que fazia, observando seu foco com
avidez.
Toda
manhã, um novo despertar com um tremendo sorriso. Não havia tempo feio. Foi uma
vida de prazer, emoção e alegria. Uma vida que acompanhava toda viagem, todo
evento social, e se comportava como uma verdadeira dama ao acomodar-se na
cadeira de qualquer restaurante, observando por debaixo da toalha as crianças
que alegravam o ambiente.
No
bom humor, na tristeza e na doença também era uma espécie de guardião que nos
dava força para enfrentar um dia após o outro. Era uma alma que ajudava, de
forma totalmente consciente, a revelar os amigos secretos da família separando
o nome de cada um dos outros membros contidos num pequeno pedaço de papel.
Motivou todos a para e disputar um bonequinho nas máquinas pega-pelúcia
instaladas nos supermercados ou nos shoppings. Qual criança não gosta de um
mimo ?
O
fim se deu numa manhã quente de inverno. Poderia completar doze anos de vida
conjunta nesta semana. Mas, não deu. Os planos do ser humano são diferentes dos
planos do destino. Sabemos que a morte vem um dia. Por mais que nos preparemos
para ela, de forma sorrateira a mesma vem. E não avisa. Entristece a alma de
qualquer um. Nos cala. Nos joga num abismo de sofrimento e dor, ao qual ficam
apenas as lembranças.
Conclusão:
O francês Anatole France escreveu em 1908 que um monge chegou a uma ilha onde
só havia pinguins. Cegado pelo branco da neve confunde-os com homens,
evangeliza e os batiza. Ao saber de tamanha heresia, os Céus urdem e os anjos,
santos e Deus ouvem, durante a assembleia, a ideia de Santa Catarina: que seja
concedida uma pequena alma aos animais.
Assim
como Catarina, que sigamos o conselho de Francisco de Assis, cujo dia foi
recentemente lembrado, e que sua memória perdure em nossos corações. Queria que
tivesse durado um pouco mais, Sophia.
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