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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Novo teatro de Piracicaba

 


Diário de Piracicaba, 19 de março de 1966

domingo, 16 de agosto de 2020

José de Alencar e seu Til



No governo Itaúna, era ministro da Justiça o Sr. José Martiniano de Alencar, cargo que assumiu em 16 de julho de 1868, no 23º. gabinete, cujo presidente era o visconde de Itaboraí.

Nesse mesmo ano, com o pseudônimo de Senio, publicou A Pata da Gazela e Gaúcho. Em 1871 publicou Tronco de Ipê, e, em 1872, Til, romance este que, em outra fase do "Os Pioneiros", fizemos uma exposição das informações deixadas nesse livro pelo autor, que provam de maneira cabal sua presença na antiga fazenda, onde mais tarde se construiu a Fazenda Carioba.

Apraz-nos dizer aos leitores que estamos nos aprofundando em detalhes para desvendar os acontecimentos que antecederam a fábrica, cuja fundação é anterior a 1884, de acordo com o "Almanaque da Província de São Paulo" desta data. (Obras raras - BN.)

Alencar tinha muitos amigos em São Paulo, onde passava as férias, destacando-se o Dr. Camarim, um dos seis da Colônica Paulistana de estudantes a quem pertenciam, também o conselho Jesuíno Marcondes e o Dr. Luiz Alvares; Dr. Antonio Nunes Aguiar, "meu imediato e êmulo, que foi depois meu amigo e colega de ano em São Paulo, era o "Aguiarzinho", filho do general de mesmo nome"; os colegas de pensão, Dr. Costa Pinto e José Brusque; os colaboradores da revista semanal Ensaios Literários, João Guilherme Whitaker, Almeida Pereira, Dr. José Machado Coelho de Castro Otaviano e Olímpio Machado, redatores da Gazeta Oficial (Como e porque sou romancista - ed. 1893, por José de Alencar).

Há uma afirmação de que o segundo volume de Till foi escrito em partes, isto é, foi enviado ao jornal à medida que o autor foi escrevendo, entre 19 de dezembro e 16 de janeiro de 1872, tempo em que foi publicado em folhetins no jornal do Rio, República.

O primeiro volume foi remetido para a impressora, sem o segundo, em 15 de dezembro, pois, na nota final aposta ao segundo volume de Guerra dos Mascates ele justifica o atraso do segundo numa desculpa truncada e à margem de dúvidas:

"A culpa é do autor e ele confessa contrito.
Poderia alegar em seu favor que logo depois de remetido à tipografia o original, teve necessidade de ir a Baependi fazer uso das águas de Caxambu, que lhe eram aconselhadas. Nem venha o leitor com sua contrariedade, lembrando que nesse decurso escrevi ele o Til para o folhetim da República. É o Till desses livros que se compõem com material próprio, fornecido pela reminiscência, e que portanto se podem escrever e viagem, sobre a perna, ou num canto de mesa de jantar." (obra citada)
Em primeiro lugar, o trecho "se compõem co material próprio, fornecido pela reminiscência", atesta que ele esteve numa fazenda, distante uma légua (6,6 km) abaixo da confluência do rio Atibaia com o Jaguari, no Piracicaba, conforme conta no livro,Til.

Em segunda análise, vamos tentar reconstituir por meio dessas informações e mais as camufladas do livro Till, naturalmente para resguardar da curiosidade pública nomes de pessoas conhecidas como Galvão, Aguiar, etc., o itinerário do autor: em 1870 deixou o Ministério da Justiça e foi a São Paulo, onde em atenção aos colegas começou o romance em apreço. O 1º volume foi publicado entre 21 de novembro a 13 de dezembro de 1871, e, naturalmente, nesta última data foi para a impressora, B. L. Garnier - Rio. Continuou a publicar o segundo volume em folhetins, que saiu em 19 de dezembro e 16 de janeiro de 1872, quando teve a necessidade de ir a Baependi, o que se deu entre aquelas datas do segundo volume, já por ser fim de ano, já por estar em férias. Em viagem pela central até Cruzeiro e dali a valou ou trôlei até Baependi, escreveu, na perna, alguns fascículos e naquela cidade escrevia na mesa de jantar. O terceiro e quarto volume foram publicados no jornal entre 18/1 a 7/2 e 10/2 a 20/03/1872, respectivamente.
 
O primeiro volume teve 19 publicações, o segundo 25, o terceiro 20 e o quarto 38 folhetins. O jornal era publicado todos os dias menos às segundas.

"Ao passar pro Campinas, soube que o bugre fora preso na véspera por gente de Aguiar, e então animou-se a volta à Santa Bárbara." (4º. vol - Til.)

Mas o autor de tantos predicados,o irrepreensível, o literato de muitos adjetivos, como político nem sempre podia oferecer o outro lado da face, assim, pensavam os editores Salvador de Mendonça e Ferreira de Mendonça em seus "retratos políticos".

"José de Alencar - eis um homem original, verdadeira contradição viva e desfazer num dia o que edificou na véspera.

Conspiração perpétua do ato contra a intenção que o concebeu.

J. de Alencar duvida de tudo: só não duvida da fortuna e quer surpreender-lhe os segredos.
A natureza tem caprichos. Há criaturas dualistas, sem perderam a unidade do seu ser.

Tal é o ministro da Justiça. É preciso distinguir o homem-idéia, do home-fato. O segundo não quer saber do primeiro.

Como um célebre personagem de um romance de Alexandre Dumas que se dia reproduzido em uma criatura inteiramente diversa em sentimentos , instintos e caráter, acreditou em dupla natureza: o autor do Guarani e é bom e mau ao mesmo tempo."

Transcrição do livro "Os Pioneiros", 1976, de Irineu Travaglia, Gráfica Portinho Cavalcanti Ltda, Rio de Janeiro

domingo, 2 de agosto de 2020

Um certo capitão ...

Edson Rontani Junior, jornalista



Tudo surgiu muito antes do que se pensa. Mas, como se sabe, a história é contada pelos vencedores. Assim, Piracicaba tem seu marco de fundação como sendo o primeiro de agosto de 1767. É a data oficial em que se fixou moradia por aqui, sendo que a região, desde 1693, era apenas um entreposto para bandeirantes. Era um ponto de passagem.

Em seu “Manual de História Piracicaba”, escrito por Guilherme Vitti e publicado pelo Jornal de Piracicaba durante as comemorações do segundo centenário de Piracicaba, o autor diz que a distribuição da Sesmaria de Piracicaba (primeiro nome de nosso vilarejo), ocorre na década de 1690 sem o propósito de sua ocupação. Quase um século mais tarde é elevada à Povoação, graças a Antonio Correa Barbosa, destinado a ser o povoador da cidade.

Recebemos diversas denominações como Freguesia de Piracicaba, Vila Nova da Constituição (em homenagem à carta magna de Portugal), Cidade da Constituição e, em 1887, é oficialmente denominada de Cidade de Piracicaba. Registros históricos demonstram que em 1693 a sesmaria de Piracicaba foi requerida por Pedro de Morais Cavalcanti, justificando que pretendia povoar a região. Ficou só na intenção ...

Mas, de onde vem seu nome? Bom, cada cabeça tem uma sentença. O mais popular (“lugar onde o peixe para”) teve várias outras interpretações como “peixe que chega”, “lugar onde chega o peixe”, “colheita de peixe”, “lugar onde se ajunta peixe”, “rio por onde sobem os peixes”, ou “lugar em que se apanha o peixe com facilidade”.

O nome veio de uma expressão indígena que, segundo Vitti, era falado como “percicaba”, “piracicava” ou “piracicaba”. A história foi tão ingrata que não se sabe quais índios instituíram o nome de tão bela cidade interiorana. O autor arrisca dizer que podem ter sidos tribos dos barranqueiros, guaianeses, caiapós ou colorados, que sumiram com o tempo após serem acuados por outras tribos mais fortes ou, ainda, serem índios nômades em vias de extinção.

O capitão-mor de Itu, fez o primeiro registro da tradução de seu nome. Disse Vicente de Costa Taques Góes e Aranha, em memórias escritas em próprio punho durante a fundação da cidade, que aqui é “onde o peixe chega” ou “lugar onde chega o peixe”. O resto, é lenda. Ajuda a alimentar a imaginação humana.

Antonio Correa Barbosa veio para mudar a história. De entreposto, ele criou a vila que começaria bem ao lado do rio Piracicaba.  Ocupou parte de onde, quatro décadas antes, havia sido concluída parte da estrada (“picadão”), que levaria os bandeirantes para o Mato Grosso durante a “febre do ouro” brasileira. O local serviria de destino para Cuiabá e tinha a vantagem do rio Piracicaba estar próximo ao rio Tietê, alternativas para navegação rápida ao centro-oeste brasileiro.

Porém, no meio do rio havia piranhas! Ou melhor índios paiaguás e caiapós que lançavam flechas sobre os desbravadores. A história conta que, de uma expedição com cerca de 300 homens brancos, os índios deixarem apenas cinco para que contassem o feitio para a posteridade.

O sertanista Antonio Correa Barbosa aparece neste meio tempo como povoador da junção do rio Piracicaba como Rio Tietê. Lá, ele deveria gerir um depósito de sal, uma fábrica de canoas e cultivar cereais para a colônia Forte de Iguatemi, divisa de onde depois seria criado o Paraguai. O local era pantanoso. Desagradou nossoo povoador. Este, pegou sua comitiva de desbravadores (aproximadamente 40 pessoas) e percorreu o Piracicaba até chegar onde hoje conhecemos como a mata ciliar entre Piracicaba e Limeira. Os desbravadores eram vadios (homem sem local fixo de trabalho), dispersos (homem sem família constituída) e vagabundos (andarilho e sem moradia fixa), termos, segundo Guilherme Vitti, que seguiam as colocações usuais de então. Barbosa tinha 32 anos à época da fundação.

Já por aqui estabelecido, em 1770, o capitão-general da província de São Paulo incumbe Correa Barbosa de reabrir o picadão para o Mato Grosso. Conclui a obra em quatro meses, recebendo em seguida o título de Capitão-Povoador.

Já na década de 1770, Piracicaba passa a atrair a atenção dos moradores de Itu, Porto Feliz e São Carlos (distrito de Piracicaba), que por aqui vem constituir moradia e família. Isso fez com que, de vilarejo, a capitania propusesse a criação de uma povoação, o que ocorreu em 31 de julho de 1784, data em que a cidade se expande além rio Piracicaba. Foi neste dia em que se delimita o primeiro arruamento da cidade. Antonio Correa Barbosa teria de expandir a cidade para um perímetro estipulado entre o rio Piracicaba e ribeirão do Itapeva (hoje avenida Armando de Salles Oliveira) findando-se próximo à área do Terminal Rodoviário Intermunicipal.

Esta seria, num brevíssimo relance, a vida em de Piracicaba há 253 anos atrás. Tudo iniciado por um certo capitão ... 

(Artigo publicado no Jornal de Piracicaba em 29/07/2020 e expandido para esta versão publicada na Tribuna Piracicabana de 01/08/2020)

domingo, 19 de julho de 2020

O Nove de Julho em meio à pandemia

O ideal do 9 de Julho não foi esquecido em Piracicaba, mesmo com a antecipação do feriado para 25 de maio em decorrência da pandemia. Assista à esta entrevista veiculada em 09/07/2020 pela TV Ativa.

terça-feira, 7 de julho de 2020

“Zé do Burro” – de Piracicaba a Cannes

Por Edson Rontani Júnior, jornalista

Pode ter sido setembro. Ou também pode ter sido outubro. O ano é certeza: 1994. O local é o Sesc Piracicaba, quando foi convidado para uma palestra o ator e diretor Anselmo Duarte, dono de extenso currículo no cinema e na televisão. Cheguei a abordá-lo ao final da apresentação para falar sobre cinema, a sétima arte que entretém, inebria e cria cinéfilos como eu. Na mão, um pequeno gravador cassete para registrar tão nobres palavras do nosso maior cineasta premiado lá fora. Anselmo Duarte se envolve com a conversa, pois pergunto e cito seus filmes desde a Atlântida, passando pela Vera Cruz e culminando com o clássico “O Pagador de Promessas” (1962). Nesta conversa bem ao meu lado, de olhos arregalados por minha desenvoltura e conhecimento sobre o cinema, estava o radialista Jamil José Neto, primeiro presidente da rádio Educativa FM e locutor das principais emissoras de rádio da cidade.  

Desta noite primaveril tenho largas recordações: Anselmo Duarte estava ávido em conversar sobre cinema numa época em que as pessoas ainda voltavam aos poucos para o cinema depois de uma larga e brusca queda na bilheteria provocada pelo desaparecimento do público que se confinava em casa pelo home vídeo (o VHS). Não sei se ainda possuo esta conversa gravada.

Sei que ele procurava se esquivar de dar louros ao elenco de “O Pagador”, primeiro filme a ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e único a vencer o Palma de Ouro do Festival de Cannes, na França. Dava a clara impressão que o filme era dele, teve o sucesso que obteve por sua única e total dedicação, num ego inflamado como um galo que empina sua crista no galinheiro. Gloria Menezes, Dionísio Azevedo, Norma Bengell tiveram seus méritos no filme, mas muito pouco Anselmo comentou sobre eles.

Muito menos sobre Leonardo Villar, piracicabano de nascimento, e que interpretou o papel principal do “Pagador”, o Zé do Burro, que morre para pagar uma promessa a qual salvou seu burro Nicolau, e é impedido de entrar na igreja quando o padre Dionísio Azevedo sabe que ela foi feita em terreiro de umbanda.


Leonardo Villar e Glória Menezes


O filme em si é a personificação de Leonardo Villar, é a batuta do diretor Anselmo Duarte, é uma dedicação total do elenco assim, como tornou célebre a história de Dias Gomes adaptada pelo próprio diretor. Villar faleceu na sexta-feira passada, dia 3, e tornou-se um ilustre desconhecido em Piracicaba, onde nasceu em 25 de julho de 1924. Mas, até aí, tudo bem. Uma cidade tão efervescente culturalmente, e o avanço da tecnologia, não merece ser culpada por filhos como Villar, Francisco Milani, Léo Batista, Roberto Cabrini, Gilberto Barros, Caçulinha e muitos outros que conheceram a fama através da TV ou do cinema.

Leonildo Motta, seu nome real, trabalhou como alfaiate em nossa cidade e foi a São Paulo tentar sorte no teatro, partindo para o cinema e terminou a carreira na TV, atuando na Tupi e na Globo. Na Tupi fez a versão brasileiro do show “I love Lucy”, intitulado “Alô, Doçura”, ao lado de Cleyde Yáconis. Apareceu na telinha pela última vez em "Passione” (2010/11, na Globo).

“Pagador” teve uma série de controversas principalmente entre Anselmo e Dias Gomes. O autor da história dava um tom mais político nela. Na adaptação, Anselmo criou um roteiro com apelo cinematográfico. Entrou no meio da discussão o produtor Anibal Massaini e a distribuidora Cinedistri. Leonardo Villar foi considerado tímido demais para o papel principal e chegou a ser cotado para ser substituído por Mazzaropi. O filme deu no que deu. Em Cannes, esteve ao lado de Federico Fellini, Vittorio de Sica, Luis Bruñuel, Sidney Lumet, Agnès Varda e Michelangelo Antonioni. Passou a perna em todos. Foi o auge do cinema brasileiro. Se ganhou a Palma e concorreu ao Oscar, boa parte desta consagração deveu-se a Villar, o piracicabano que com seu burro foi até a Europa.

(Publicado na "Tribuna Piracicabana" e na "Gazeta de Piracicaba" em 07 de julho de 2020)

sábado, 4 de julho de 2020

Tempo suficiente



Edson Rontani Júnior, jornalista

Estamos ainda no período de confinamento, nos escondendo e nos protegendo contra o corona vírus. Para alguns, é uma proteção que garante a vida. Para outros, é um período enfadonho. Para mais alguns, é um período produtivo em que você tem mais tempo para si, para curtir a família, ficar em casa, sair da rotina. Mas traz saudade, sim. Principalmente de ver os parentes, de participar daquela comemoração, de ir ao shopping sem destino algum, ou de ter uma vida social que nos “obriga” com o maior prazer a participar de churrascos, ir a piscina ou mesmo uma roda de amigos num barzinho qualquer.

Mas, foi a busca pelo confinamento que me fez dedilhar estas linhas. A história não é de hoje, mas pode ser atual.


Estamos à beira de uma guerra nuclear. A história envolve um bancário que adora ler. Lê no café da manhã, lê durante o trabalho, lê no momento da folga ... Tem paixão em conhecer aquilo que a sabedoria humana transformou em palavras impressas. Seleciona os principais pensadores e debulha-se sobre as pequenas letras. Num certo dia, o bancário decide ler um livro no cofre do banco em que trabalha, o local mais tranquilo que ele encontrou. Lá dentro, ele sente uma explosão – estamos à beira de uma guerra nuclear, lembra? Ao sair, nota que nada mais existe além de escombros. Foi a hecatombe.

Feliz da vida, não se roga pela perda dos amigos. Não se abala. Fica contente pois tem “tempo suficiente” para ler todos os livros que quiser, sem ser incomodado, já que todos foram dizimados. Corre para a Biblioteca Pública – ela permaneceu em pé ! – e passa a selecionar os livros para amanhã, os livros para depois de amanhã, para a semana que vem ... e assim por diante.

“Ploft!” ... Sem querer, o bancário que era extremamente míope, pisa em seus óculos tipo “fundo de garrafa” quebrando-o. Não enxergava um palmo à frente sem eles ... “Tempo suficiente para o que, agora?”, diz.



A história é um conto escrito em 1953 por Lynn Venable, adaptada por Rod Serling em 1959 para o seriado televisivo “Além da Imaginação”. O bancário era vivido por Burgess Meredith que uma década depois tornou-se o Pinguim no seriado “Batman” e duas décadas depois foi o treinador de Sylvester Stallone em “Rocky” (o primeiro). O episódio se chama “Tempo Suficiente”.

Na época, a televisão tornava-se um dos mais ágeis meios de comunicação. Adentrava aos lares, e competia diretamente com o cinema. O cinema exigia um certo ritual para ser consumido (roupa, horário, transporte, guloseima e ... ingresso!). A televisão chegava de graça. Com a “Guerra Fria” era esperada uma aniquilação imediata da raça humana. Muitas residências americanas possuíam bunkers subterrâneos esperando um ataque nuclear russo.

Mas isso não vem ao caso. Nosso personagem buscava o confinamento para fazer o que mais gostava: ler e aguçar sua imaginação. Hoje, a imaginação está na ponta dos dedos, no smartphone, na smartv ou no computador. Dar uma cutucada na imaginação retomou a preguiça já que tudo está aí, com fácil acesso.

O confinamento e o distanciamento social proporcionado na atualidade deixaria o personagem do episódio numa situação que ele almejava: preso em casa lendo os livros que quisesse.

Sempre é bom lembrar que como países abaixo dos trópicos, onde o calor marca presença inclusive nesse início de inverno, o brasileiro torna-se inquieto e não arreda o pé de ir a rua. Não há por que ficar em casa. Me lembro de uma conversa que tive com Alceu de Marozzi Righetto, secretário municipal da Ação Cultural, há uns 30 anos atrás: europeu e asiático se confinam involuntariamente em casa pois na maioria dos meses a temperatura chega próxima ou abaixo dos 10 graus negativos. Não há por que sair. Tem-se de ficar em casa e esperar a próxima onda de sol. No confinamento surgiram os grandes pensadores universais, intelectuais de renome, expoentes do pensamento universal. No Brasil, confinamento é chato e “bater perna” não trouxe nenhum Nobel para nós.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Sozinho na multidão


Rumo ao estrelado. Fama. Dinheiro. Ascensão profissional. Tudo isso e muito mais... mais e mais! Nunca o que se tem é o suficiente. Assim, pode-se resumir a moral de uma sequência de filmes proporcionados pelo período de confinamento em casa durante a pandemia contra o corona vírus. As emissoras de TV e os serviços de streaming colocam a disposição uma gama de filmes nacionais feitos na década de 2010 mostrando que o cinema brasileiro está seguindo um passo que se iguala à linguagem comercial de Hollywood.


Muitas destas produções foram feitas com recursos públicos, patrocinadas pela Globo Filmes e distribuídas pela Paris Filmes. A Paris aliás manteve em Piracicaba duas salas de cinema no Shopping Center Piracicaba dos anos 1980 aos anos 2000. Foram as primeiras salas exibidoras de um shopping na região. Enfrentou a fuga dos expectadores principalmente na segunda metade dos anos 1980 motivada pela ascensão do home video, ou VHS. Ainda me lembro da gentileza do seu Silvio, gerente do Cine Center, e sua luta para trazer público para produções que se tornaram célebres com o passar dos anos.



Dentre os filmes vistos durante a pandemia, destaco alguns que envolvem artistas como personagens principais. Começando por “Bingo: o rei das manhãs” (2017), narrando a vida do ator pornográfico Arlindo Barreto, filho de Márcia de Windsor, e sua estada como o palhaço “Bozo” no SBT. Bingo foi o nome escolhido para evitar disputas judiciais com os criadores do palhaço norte-americano. Arlindo veio de família abastada mas joga a carreira no ralo por ser usuários de drogas. É uma ótima referência para quem viveu a infância nos anos 80.


Ainda no SBT, a vida de uma das loiras platinadas da tv brasileira foi relatada em “Hebe: a estrela do Brasil” (2019), onde Andréa Beltrão se esforça para tentar (tentar mesmo ...) chegar perto da simpatia de Hebe. A história se passa nos anos 80, quando a apresentadora é despojada pela censura do governo militar, buscando elevar a audiência com várias entrevistas, entre elas, junto à Roberta Close (“a mulher mais bonita do Brasil”) ou quando Dercy Gonçalves mostra seus seios ao vivo dizendo ser mais bonita que o travesti. O filme de afunda na amargura conjugal de Hebe com seu marido Lélio Ravgnani.


Da loira para a pimentinha, “Elis” (2016) é um filme emocionante que mostra o quanto esteve perdida Elis Regina durante toda sua carreira, mesmo amparada pelo caloroso (ao menos no filme) César Camargo Mariano. Andréa Horta consegue convencer, mesmo dublando os originais interpretados por Elis. Bela e emocionante produção.


Na música, de uma forma muito fantasiosa e deixando clara suas mágoas junto a Roberto Carlos, “Minha fama de mau” (2019) torna evidente que Erasmo Carlos quer para si o título de “criador da Jovem Guarda”. Um filme bem feito, bem editado, embora a interpretação das músicas fique a desejar. Mostra o início da vida de Erasmo junto a Roberto e Tim Maia, entre outras situações. Mas, ao final parece uma baita dor de cotovelo.


“Tim Maia” (2014) é um dos melhores filmes nacionais da década de 2010. Vale a pena ser visto. Mostra – também – Tião Maia, Roberto Carlos e Erasmo Carlos na composição inicial dos “Sputniks”, grupo que embalava as noites cariocas em 1957. Depois, cada qual tomou um rumo na vida. Tim vai para os Estados Unidos, acaba preso. Volta ao Brasil e vai de novo para a cadeia. Anos mais tarde alcança o sucesso como o “Rei do soul”. Um filme com muita reviravolta e marcante principalmente pela presença de um convincente Babu Santana interpretando Tim de boca suja, adepto à bebida e às drogas. Angustiante e triste, principalmente numa das cenas mais marcantes: abandonado pelos amigos e drogado, Tim chama a polícia segurando uma metralhadora e pede aos PMs que o levem preso, pois precisa de ajuda e quer se ver livre do vício.



“Chacrinha: o velho guerreiro” (2018) é um ótimo exercício sobre os anos dourados do rádio e da tv. Abelardo Barbosa veio para confundir e não explicar e, claro, distribuir bacalhau. Stepan Nercessian está impecável sob a direção de Andrucha Waddington. Mostra sua longa carreira pelo Rio de Janeiro e São Paulo dos anos 1940 a 1980. É uma obra de arte do cinema nacional. Bem dirigido e com ótimos efeitos que são difíceis de imaginar que o brasileiro vem conseguindo realizar. Mostra entre outros sua relação amorosa com Clara Nunes e Elke Maravilha. Curioso é ver que, no final dos anos 1970, Chacrinha e suas chacretes ficam sem emissora para seus programas. Passam a realizar shows pelo Brasil afora. Foi nesta época que ele visitou Piracicaba na primeira ou segunda AgroFeira, por volta de 1979, na Nova Piracicaba, uma espécie de Festa do Peão para a época. Essa passagem, claro, não é apresentada no filme.

De todas essas produções com artistas brasileiros, algumas lições podemos tomar. Uma delas é Roberto Carlos ter unanimidade como “O Rei”. Ele aparece em todas as obras, com exceção de “Bingo” e “Elis”. Todos os artistas retratados saíram do nada e conseguiram sucesso, dinheiro, diversão. Em todos, a “alegoria” da ascensão e a queda marcam presença no roteiro. Muitos chegam ao “fundo do poço” pelo inebriante desejo de querer mais, seja dinheiro, bebidas ou drogas (lembra como Elis morreu?). Ter tudo o que se deseja como sonho de consumo, fez de todos sozinhos na multidão. Bendita pandemia !

(Publicado na Tribuna Piracicabana e no Jornal de Piracicaba de 22 de setembro de 2019)