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quarta-feira, 9 de março de 2022

O legado de Chiarini

 * Edson Rontani Júnior, jornalista

 

Era uma noite fria. Sala lotada. Local : um dos prédios centenários da Unimep, Centro, hoje Instituto Piracicabano. O ano era 1988. Graduandos em comunicação social se acotovelaram numa sala que se tornou pequena para ouvir os estudos do folclore brasileiro. Era inverno. Era agosto, mês do folclore. A plateia ouvia silenciosamente as palavras de um senhor de estatura mediana, calvo. João Chiarini se apresentava na ocasião para estudantes de jornalismo e publicidade/propaganda. Talvez tenha sido esta uma de suas últimas (ou última) aparições públicas, já que Chiarini faleceu no mês seguinte, em 18 de setembro.

Foi um dos únicos contatos que mantive com tão impoluta personagem de Piracicaba. Irriquieto diriam uns. Controverso diriam outros. Comunista, apregoava ele com muito orgulho. Deixou amigos, deixou desafetos. Gerou admiradores. Plantou uma sementinha que agora gera sombra em seus 50 anos de vida. Esta árvore que traz frutas e sombra é a Academia Piracicaba de Letras, criada em 11 de março de 1972, durante solenidade realizada na Faculdade de Odontologia de Piracicaba, quando esta ainda funcionava na rua Dom Pedro II esquina com a rua Alferes José Caetano. Entre idas e vindas, sem local definido para funcionar, a Academia tinha – e ainda hoje tem – o objetivo de estimular a escrita e a leitura. O desafio hoje é criar leitores para obras que sejam “fast food” como as mídias digitais apregoam mundo afora. No último final de semana, um tradicional jornal da capital paulista, manchetou “TitkTok vira trincheira digital e molda narrativa da guerra”. Difícil é ser erudito numa ferramenta digital em que dedilhamos com os polegares e recebemos informações sem qualquer tipo de filtro criterioso.

A Academia Piracicabana de Letras, ao contrário da Academia Brasileira, não possui imortais. São associados que gostam de prosa, poesia, literatura, história, jornalismo ... Não tomam o chá das cinco, muito menos recebem os jetons propagados durante as recentes posses de Fernanda Montenegro e Gilberto Gil. Seguem a estrutura primordial de propagar a escrita, renovar a leitura, reler para os mais jovens antigos escritos numa linguagem que atinja de crianças a adultos. A literatura mudou. A escrita mudou. Informa-se hoje mais pelo digital que no papel. Mas é bom lembrar que os pensamentos mais aprofundados ainda se encontrem na velha folha branca.

Chiarini sempre buscou ser inconteste. Mas precisava do apoio da sociedade. Partia em busca dos mecenas que patrocinassem as atividades da Academia Piracicabana de Letras. Nos anos 1970 e 80, a entidade chegou a ter cerca de 350 membros, incluindo Jorge Amado (padrinho de casamento de Chiarini) e o ex-presidente JK. Chiarini partiu e o ideal foi seguido por pessoas como Miguel Ciavarelli, Henrique Cocenza, Haldumont Ferraz e Maria Helena Corazza. Foi na gestão do Cocenza, na década de 2000, que a Academia reforma seu estatuto e passa a seguir moldes internacionais como a Academia Francesa de Letras. Estipula 40 cadeiras, com patronos falecidos, ocupadas por 40 membros que dedicam àquilo que se propõe a entidade: leitura e escrita. Os membros não entram por querer. São convidados devido à sua atividade diante da sociedade.

O cinquentenário deveria ser mais longevo. A Academia poderia estar com seus 60 anos de vida. Isso porque a sessão magna de sua criação ocorreu em 1972, mas extra oficialmente ela já existia nos corredores de “O Diário”. A história mostra também que o anseio de cria-la remota os estudos comemorativos ao bicentenário de Piracicaba em 1967, quando surgiram entidades como o Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba e atividades culturais como a EXFINUPI (Exposição Filatélica e Numismática de Piracicaba). Antes mesmo, Chiarini montava grupos literários em sua Livraria Pilão, na Galeria Gianetti. O certo é que a sombra da semente plantada por Chiarini criou ramificações que propagam e perduram o jeito piracicabano de ser.

(publicado no Jornal de Piracicaba de 09/03/22 e na Tribuna Piracicabana de 10/03/2022)

 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Televisão em cores e som estéreo

 Edson Rontani Júnior, jornalista e radialista 

Poucos dão a devida importância à determinados pioneiros e pioneirismos. Digamos que é uma ótima ideia a roda ter sido criada, mas até chegar a ela e descobrir sua funcionalidade, a história é outra. Não é o propósito aqui discorrer sobre quem inventou a roda, mas recordar dois fatos que pouca gente dará sua devida importância nos dias atuais.

A primeira foi a chegada da cor na televisão brasileira ocorrida há 50 anos, em 1972. Uma revolução para um aparelho que dominaria a vida do brasileiro, regeria horários como o jantar ou a reunião familiar. Foram 22 anos de programas monocromáticos desde que ela surgiu com a TV Tupi em 1950. A TV em cores, uma ostentação cara para a época, era vista como algo sem futuro por outras indústrias como o cinema que se valia de inovações como o technicolor, tela widescreen, cinemascope e o som estéreo. O widescreen chegou a ser filmado com várias câmeras ao mesmo tempo, marcando algo próximo a 180 graus da cena, enquanto a televisão possuía um formato que lembra o quadrado. Era comum até anos atrás, assistir na tv em tubo filmes do cinema em que você só enxergava o meio da tela – se dois atores conversavam um a frente do outro, não apareciam na tela. Isso era o widescreen cinematográfico que hoje cabe na palma da mão de um smartphone.

Em Piracicaba, a festa pelo consumo de tv em cores tomou corpo nos anos 1970. Me lembro de ter assistido jogos da Copa do Mundo de 1974 no televisor Philips com madeiramento de pinho, na casa de minha avó. Era um presente de casamento desejado à época. O ruim era o sinal das repetidoras que proporcionava ruído no som, fantasmas e chuviscos na tela, condições desconhecidas da geração atual, assim como o pulo do LP riscado. Não à toa, sintonizávamos a emissora mais potente, no caso, a Globo.

A partir de então, a televisão moldou a vida do brasileiro. Horários da rotina caseira eram por ela regidos. Não existia o salvar e assistir depois. As reprises ocorriam vários anos depois. Almoçar diante da telinha, jantar antes do jornal da noite, silêncio na sala para ver a novela das 20h30 e assim por diante. Tinha de ser naquele dia e naquele horário. Até festas de aniversário eram interrompidas para ver a novela da noite num capítulo que não acrescentava nada à trama.

Em paralelo à TV, o cinema nos anos 1980 criou o dolby sorround, marca registrada que proporcionava uma fidelidade na música, no diálogo e principalmente nos efeitos especiais. O outro ponto que gostaria de discorrer é o som stereo, que perdeu em dezembro, mas só divulgado no início de fevereiro, seu maior estudioso e empreendedor, John C. Koss, também desconhecido de grande maioria das pessoas. Foi ele quem dedicou sua vida para colaborar na apresentação do som ouvido em duas caixas, ao invés do som monofônico que perpetuou até o início dos anos 1970. O som estéreo separa canais e com isso, isola vozes, instrumentos e efeitos. Algo hoje que não damos conta quando nos divertimos com um game ou ouvimos um jogo de futebol. O ouvido humano passou a educar-se com a estereofonia ao perceber que o som andava de um lado para o outro no momento em que um ator no cinema perambulava em cena.

Koss foi o empreendedor do fone de ouvido estéreo, dando a possibilidade de transportar músicas e gravações até então restritas a grandes aparelhos fixos. Com seus fones de ouvido, criou um universo ainda hoje usufruído. Chegou a ser unido à televisão para não atrapalhar o/a companheiro/a que dormia ao lado durante as noites de insônia ou durante o “Corujão” da Globo.

São pioneiros e pioneirismo que nos ensinam a pensar como é que surgiu a roda ...

(Artigo publicado no Jornal de Piracicaba de 16 de fevereiro de 2022)


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Quadrinhos para quadrados

 Edson Rontani Júnior, jornalista, membro do IHGP e da Academia Piracicabana de Letras

 

A memória é única. Olho para cima e cumprimento um jovem com feições quase orientais. “Este é o Maurício, o criador da Mônica”, disse alguém ao me apresentar a Maurício de Souza, na primeira metade dos anos 1970. Não dá para forçar muito a memória, pois tinha eu lá pelos meus seis ... sete anos de vida, e o criador da dentuça dos quadrinhos viera de São Paulo visitar meu pai. Ambos trocavam telefonemas e correspondências, como um cortejar pelos traços do velho Edson Rontani. As cartas trocadas foram muitas. Todas catalogadas e guardadas a sete chaves. As assinaturas de Maurício são verdadeiras obras de arte.

Maurício de Souza veio a Piracicaba por diversas vezes. Estava criando uma produtora própria associada à Editora Abril de Victor Civita, depois de atuar alguns anos na imprensa, em especial na Folha de São Paulo. Uma das visitas era para convidar o velho Rontani a compor sua equipe. Convite recusado. Mesmo caminho tomado anos antes quando, no Rio de Janeiro, fora cotado para ocupar uma cadeira na EBAL – Editora Brasil América Ltda., de Adolfo Aizen, a qual publicava os medalhões que hoje pertencem a Marvel e DC Comics, anteriormente distribuídas pelos Syndicates em todo o mundo. Rontani recusou trocar a “Noiva da Colina” pela “Cidade Maravilhosa”, mas deixou um legado de capas (publicadas ou não) com Namor, Spirit, Batman, Superman e outros.

Maurício, Civita, Aizen, Rontani e tantos outros não devem ser esquecidos no Dia Nacional dos Quadrinhos, lembrado esta semana (30 de janeiro), assim como outros grandes expoentes como Ivan Saidenberg, que povoou o imaginário dos quadrinhos, este, porém, na franquia Disney, com seus derivações do Peninha: Peninha Kid, Morcego Vermelho, Pena da Selva, além dos clássicos Mickey, Pato Donald, Pateta e Zé Carioca. Saidenberg nasceu em Piracicaba e faleceu em Santos, atuando no auge dos quadrinhos nacionais (anos 1960) nas editoras Outubro, Taika, Penteado e La Selva, as quais publicaram obras-primas, cujas edições hoje valem peso de ouro.

O dia nacional dos quadrinhos foi criado para homenagear desbravadores que enfrentam as mídias digitais de uma forma brava e constante. Claro que Piracicaba foi celeiro para muitos desenhistas (Lancast, os irmãos San Juan, Spadotto, Hussar, Edu Grosso, Longo, Douglas Mayer, e muitos outros resgatados por Adolpho Queiroz nas duas edições de “Piracartum”). Tem um salão internacional que premia aqueles que se dedicam às tiras, de onde vieram os principais personagens dos quadrinhos e do cinema.

“Para ler pato Donald” foi um dos primeiros itens teóricos a criar o negacionismo nas HQs. Todo mundo ria com Mickey. Todos riam com Pica-Pau. Mas, houve filósofos que viam nas gags apresentadas uma mensagem subliminar para dominar o coletivo. Ué ... As mídias digitais não ditam estas regras atualmente ?!? A obra questionava a democratização da liberdade. Algo para se reler, rever e repensar, numa época em que antigos pensamentos se atualizam, como Dale Carnegie que ainda aparece entre os mais vendidos com seu “Como fazer amigos e influenciar pessoas” escrito há 86 anos atrás.

Já Marcelo Maiolo e Rafael de Latorre são artistas renomados internacionalmente. Dedicaram muito à DC e à Marvel, com obras publicadas nos EUA, África do Sul e outros países. Trabalham à distância. Facilidade que não tínhamos quando Maurício de Souza veio a Piracicaba nos anos 1970, obrigando o presencial e impedindo o celeiro de criadores crescer. E viva Angelo Agostini, homenageado por este dia nacional dos quadrinhos !

(Artigo publicado no "Jornal de Piracicaba" de 02 de fevereiro de 2022 e na "Tribuna Piracicabana" de 04 de fevereiro de 2022)

sábado, 22 de janeiro de 2022

Piracicaba escrita

 Edson Rontani Júnior, jornalista, vice-presidente do IHGP e tesoureiro da Academia Piracicabana de Letras

 

Foram comuns os almanaques explorados comercialmente em Piracicaba ao longo dos últimos 150 anos. Era livros bem acabados que traziam as curiosidades corriqueiras daquilo que se conhece por almanaque: efemérides, censo populacional, fotos, locais turísticos, negócios e publicidades. Algo muito comum com os almanaques anuais de farmácia, os quais traziam datas para pesca, plantio e fases da lua. Algo sem muito interesse hoje.

Mas, estas publicações deixaram pegadas em Piracicaba. A história da cidade foi escrita por muitas estas obras. Os almanaques podem ter caído em desuso, mas seus verbetes estão sempre em voga nas mídias digitais. Não muito distante foram publicados livros que bebem nesta vertente como “O Guia dos Curiosos” (Marcelo Duarte), “A Casa de Mãe Joana” (Reinaldo Pimenta) ou o espetacular “Como Fazíamos Sem...” (Bárbara Soalheiro). Revistas de renomadas editoras também aproveitaram o nicho, como “Mundo Estranho”, “Galileu”, “Super Interessante” e “Aventuras na História”.

A história escrita de Piracicaba está impressa em almanaques lançados por Roberto Capri ou Mario de Sampaio Ferraz, que na década de 1910, publicaram catálogos curiosos os quais mostraram como nossa cidade vivia no século anterior, chegando a citar, como exemplo, o retorno do padre Galvão, em 3 de agosto de 1868, que havia partido para a capital paulista a fim de providenciar uma dentadura ... Futilidades ? Sei, não ... Conhecimentos gerais são primordiais em qualquer exame escolar como o ENEM ou vestibulares. São utilizados até em provas para concursos públicos.

Quem teve acesso a “Piracicaba e sua Escola Agricola”, de Mario Ferraz, impresso em 1916 pela Typographia Rothschild, fica maravilhado com as fotos impressas em couchê de uma Piracicaba hoje desconhecida, menos urbanizada, mais arborizada e mais curiosa. Nostalgia pura.

Outros exemplos recentes que ajudam a compreender nosso crescimento foi a coleção “Patrimônio Cultural de Piracicaba”, com volumes sobre escolas e igrejas, lançada em 2012, pelo IPPLAP (Instituto de Pesquisas e Planejamento de Piracicaba). Cecílio Elias Netto também deu – e muito ! – sua contribuição para propagar os conhecimentos históricos de Piracicaba em muitas de suas obras. Assim, como João Umberto Nassif dedicou uma incansável luta para falar sobre os moradores do bairro Paulista em seus dois volumes “Paulistenses”, lançados em 2013 pelo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

A mais recente publicação, embora lançada no final de 2020, mas que pode ser considerado como o melhor lançamento de 2021 foi “A Passagem da Cidade”, de Francisco Ferreira. O autor já havia nos brindado com “Noites de Pira – O Sonho da Boemia”, em 2005, mostrando a efervescência cultural e social da cidade nos anos 1960 e 1970, com grandes shows (Johnny Mathis, uma das principais estrelas da CBS, se apresentou no Clube Coronel Barbosa!), agregados por fotos às quais nos deliciam e nos tomam incansáveis minutos olhando cada detalhe delas.

Francisco Ferreira dedicou-se com muito afinco para uma obra que todo piracicabano merece ter. É uma obra primordial para os nostálgicos, para os que não conhecem e devem/querem conhecer nosso passado. Um livro que ficará marcado para o futuro. Repleto de fotos que mostram um passado desconhecido da maioria, na condição de não termos tido contato pessoal com o que em suas páginas são relatados. Uma história que se escreve de forma bem feita e que ficará registrado para a eternidade.

domingo, 26 de dezembro de 2021

Corpo de Vigilantes Noturnos de Piracicaba


 

   "O Corpo de Vigilantes Nocturnos de Piracicaba é uma organização que excellentes serviços vem prestando á cidade. Ainda em sua phase inicial, o Corpo de Vigilantes já conta com um effectivo de 20 homens, rigorosamente uniformizados e bem disciplinados.

   O sr. dr. Corino do Espírito Santo, delegado de Policia, bem auxiliado pelo sr. João Pereira Nobre, chefe dos vigilantes, vem desenvolvendo energicos esforços a fim de tornar o Corpo de Vigilantes Nocturnos uma corporação de plena efficiencia e isenta de falhas, quer disciplinares, quer de serviço, argumentando-lhe o numero de homens e melhorando-o sempre até tornar-se uma organização perfeitamente á altura dessa grande necessidade para Piracicaba.

   Na gravura acima vemos o Corpo de Vigilantes quando, ha dias, contava apenas com 15 homens, e sua directoria, composta dos srs. Angelo Palma, André Ferraz Sampaio, Elias Zaidan Maluf e Esmeraldo Müller. No centro, os srs. Ricardo Ferraz de Arruda Pinto, prefeito municipal e dr. Carino do Espírito Santo, delegado de Policia.

   (Jornal de Piracicaba, 5 de fevereiro de 1939)




quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Jornalistas e jornalismo

 

Edson Rontani Júnior, jornalista, vice-presidente do IHGP e tesoureiro da Academia Piracicabana de Letras

 

Houve um tempo em que o profissional de jornalismo era formado “na marra”. Aquele tipo que Kirk Douglas interpretou no clássico “A montanha dos sete abutres”, de Billy Wilder. Douglas era um repórter que postergava o resgate de uma pessoa soterrada em uma mina. Ele tinha a forma de como tirar tal pessoa de lá. Mas, para que tirá-la se isso dava manchete e vendia jornal? Estamos falando de um filme rodado nos anos 1950. A realidade hoje é diferente, mas lembra em muito como a imprensa explorou o caso dos jogadores mirins presos na caverna da Tailândia, em 2018.

No Brasil, a profissão foi regulamentada e tornou-se uma das poucas da área de comunicação social a exigir diploma para ser exercida. Em 2009, cai a obrigatoriedade de diploma para ser jornalista, dividindo a área entre aqueles que obtiveram o registro profissional por decisão judicial e aqueles que são intitulados jornalista profissional, que possuem diploma de graduação.

Porém, nestas escolas – graduação acadêmica e na escola da vida – formaram-se jornalistas de renome como Roberto Marinho, Adolpho Aizen, Samuel Weiner, Carlos Lacerda, José Hamilton Ribeiro, David Nasser, Joel Silveira, João Saldanha (técnico da Seleção Brasileira campeã em 1970) e tantos outros. Na campo internacional, a sabedoria vai além das cadeiras de graduação quando nos referimos da Gay Talese ou os ganhadores do Nobel da Paz 2021, Maria Ressa e Dmitry Muratov.

Essas linhas servem para reverenciar uma mente importante para nosso jornalismo local, falecido na última sexta-feira. Izidoro Polacow nos deixou aos 100 anos de idade. Não vi sequer uma linha sobre sua partida nas mídias e cabe aqui o registro. Confesso que não o conheci, muito menos seu jornalismo praticado nos anos 1960 e 1970. Mas seu nome era comumente citado em casa por meu pai, colaborador dos jornais locais, dentre os quais estava o “Diário de Piracicaba” onde Polacow trabalhou com outros expoentes da mídia local, que escreviam com um olho na máquina de datilografar e outro olho na tesoura (estávamos em pleno andamento dos Atos Institucionais, dentre eles o AI-5). Fizeram jornalismo com maestria, escrevendo notícias que não podiam ser escritas. Até epidemia de sarampo no interior paulista era alvo dos censores. Polacow é elogiado por muitos que fizeram “escola” com ele.

Tivemos nossos mestres que nos ensinaram além da graduação nas faculdades. Ensinaram “na unha” como ter um perfil crítico, imparcial e com responsabilidade. Sebastião Ferraz, Domarco, “Tuca”, Losso Netto, o “pai” de todos jornalistas Cecílio Elias Netto, dentre outros vieram de escolas dos anos 1950 ou 60 numa época em que a imprensa ainda era vista como o quarto poder constituído no Brasil. Muitos amigos, conhecidos, profissionais passaram por aqui, e, assim como outro jornalista que diariamente se diz “velho e cansado”, às vezes falha minha memória nestes 42 anos dedicados ao jornalismo e a história de Piracicaba. A história antes de mais nada precisa ser revista. Ou melhor ... escrita. As gerações vêm e vão. Se a história não é perpetuada, acabamos caindo no esquecimento e cada qual importância possui neste mundo terreno.

Ou como diria nosso decano, o “tio” Cecílio: “quanto mais velho se fica na profissão, mais se repete, mesmo porque leitores antigos vão morrendo, jovens vão chegando e, na verdade, nada há de novo sob o sol”. Vamos em frente ! Bom Natal !

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Piracicaba fantástica

 

Edson Rontani Júnior, jornalista, vice-presidente do IHGP e diretor da Academia Piracicabana de Letras

 

“Não saia na rua a noite senão o ‘ligera’ vai pegar você”. Muitas crianças se assustavam com essa ameaça paterna ou, principalmente, materna. Tal pessoa era conhecida também como andante, pedinte, mendigo ou “o homem do saco”, que pegava as criancinhas, colocava-as em um saco e seguia não se sabe para onde. Falavam que tal figura devorava as crianças. Nos anos 1970, quando cinquentões como eu curtíamos a infância, era um motivo para não sair de casa.

Eis que Waldemar Iglésias Fernandes publica, numa edição pioneira do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba (IHGP), o livro “Lendas e crendices de Piracicaba e outros estados”, datado de 1975, vendido principalmente em jornaleiros e bancas de revistas da cidade. “Bertico”, o Alberto Thomazi, era autor da capa ilustrando um ritual católico diante da morte, presumindo-se ocorrer na época do escravagismo.

Eis que em sua página 21, apresenta-se a história do turco (!!!) que come criança. Xenofobia pura ou preconceito étnico nos dias de hoje. O popular “politicamente incorreto”. Iglésias mostra estupefação ao dizer que os piracicabanos “não simpatizavam com esses civilizados e cultos orientais, vindos de tão longe com língua tão estranha”. Há registros de muitos anos atrás nos jornais de Piracicaba de queixas à polícia por pais aflitos contra os turcos “antropófagos”. Essa é a Piracicaba fantástica, com suas histórias surpreendentes, algo que a torna única diante de outras regiões.

O autor do livro fez um apanhado de lendas e crendices que viajaram o interior do país, oriundas de uma miscigenação cultural, de culturas estrangeiras e nacionais, como aquelas perpetuadas pelos índios. Lembra da tal “cobrona” que virá no final dos tempos comer os pecadores e está com parte do corpo instalado embaixo da matriz de Santo Antonio ? Existem variantes da mesma situação no Amazonas e no Centro-Oeste. Dizem que esta lenda dominou muitos encontros indígenas diante da fogueira instalada ao lado das ocas.

Iglésias nasceu no Bairro Alto. Foi lá que nos anos 1930 brincou na rua, com terra batida, e ouviu muitas dessas culturas compiladas na publicação. Era comum se reunir embaixo dos postes elétricos para contar estórias ...  Época em que a imaginação pegava carona apenas nos livros de Jules Verne. Quando lançado em 1975, as lendas e crendices ainda fazia arrepiar os petizes. A época era outra. Até King Kong, Drácula e Piranha nos faziam pular dos assentos de cinema. O efeito hoje é o mesmo ? Não entremos neste mérito ... Quando adulto, Iglésias fez um abecedário de todas as lendas, crendices e músicas que ouviu “com o precioso socorro dos irmãos e irmãs”, salienta.

Interessante é ver que desde o lançamento do livro até hoje, alguns conceitos mudaram. Como por exemplo, o “véu da noiva” que é confundido com aquela canalização que percorre o Mirante e deságua próximo a ponte pênsil. Na verdade, o véu é a bruma que cobre o leito do rio Piracicaba de madrugada, em determinadas épocas do ano.

O sono do salto, o rio que seca, o coqueiro assombrado, a matriz sobre um vulcão, Nossa Senhora dos Prazeres X Santo Antonio ... São contos acrescidos de vertentes pessoais que Waldemar Iglésias Fernandes nos presenteia neste livro que tem uma necessidade de ser reeditado, haja visto o interesse e sucesso pela “Coleção Lendas de Piracicaba”, livros lançados por Ivana Maria França de Negri ilustrados por sua neta Ana Clara de Negri Kantovitz. “A Cobrona” lançado recentemente na Biblioteca Municipal e outros espaços tem atraíram o interesse dos petizes que ainda não se iniciaram no mundo digital.

Uma ótima pedida para que lendas e crendices não se afastem de nosso tão rico folclore e, tristemente, um dia virem lenda !