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domingo, 1 de maio de 2022

Dez cruzeiros

 Edson Rontani Júnior, jornalista

 

   - Tome dez cruzeiros. É para investir em você. Não gaste em bobeira. Compre um livro !

   Recebi então os tais dez cruzeiros. O local foi um apartamento na capital paulista. O ano creio que tenha sido 1979. Estava no apartamento de meus tios Franklin e Ivana quando isso ocorreu. Numa das descidas do prédio fui à banca de jornais em busca de um livro. O dono da banca tinha um nome que soava estranho para mim, totalmente ingênuo. Era o “seu” Carolino, algo inconcebível para quem até aquela idade só conhecia Carolinas, uma delas a mãe do Antonio Carlos.

   Devido à proximidade de nossas famílias, conheci um lado muito humano de Antonio Carlos que depois teria apenas o Thame como nome popular. Íamos por diversas vezes à sua residência situada na rua Boa Morte, em frente ao “Piracicabano” como, por exemplo, para ver em sua calçada o Carnaval de 1980 passar pelo Centro da cidade. Ou nas festas de fim de ano, saborear as delícias preparadas por seu cunhado, o professor Ercílio Denny, casado com Valderez e pai e Danielle. Ercílio era dono de uma mão mágica que tornava a gastronomia em algo peculiar. Foi pouco antes que mantive contato com o “seu” Juca, pai de Thame, pessoa sempre bem humorada. De longe a memória me leva a um passado em que o via sentado numa cadeira de rodas, vitimado pelo diabetes. A mesma cadeira de rodas emprestada numa noite fria pelo Antonio Carlos e que abrigou meu pai, Edson Rontani, nos últimos anos de vida, após amputar uma das pernas também motivado pelo diabetes.

   Lá por volta de 1982, Thame sai candidato a prefeito por Piracicaba. Perde para Adilson Maluf. Investe mais em seu nome. Em 1984 volto a cruzar com ele, desta vez de forma profissional. Eu como sonoplasta da Rádio Difusora FM e ele como apresentador e radialista da Rádio Difusora AM tendo ao seu lado como fiel assessor o jornalista César Costa. Foi mais ou menos nesta época que Thame empreende-se num estabelecimento que foi o point na cidade, na década de 1980: Jardin’s, uma moderna lanchonete que anunciava sua especialidade o “capitão”, hamburger com tenra carne e ingredientes que lembram hoje os lanches gourmets... Ficava no cruzamento da Moraes com a Bejamin, antes o Posto de Combustíveis Santo Antonio da família Degaspari.

   Antonio Carlos volta a cruzar meu caminho por diversas vezes na década de 1990, quando coordenei o jornalismo da Rádio Alvorada A. M. Em todas, ele gostava de lembrar – em tom de brincadeira – que o dia 13 de junho não era feriado por ser seu aniversário e sim por ser dia de Santo Antonio, padroeiro de Piracicaba. Aprendi muito com ele. “Entenda que eleitor vota com o coração e não com a razão”, foi uma de suas máximas. Me recordo que nas eleições de 1992, prometeu muitas coisas e as cumpriu: instalar a Casa do Diabético, realizar a integração dos ônibus urbanos com os terminais, ampliar os prontos-socorros, entre outros. Gostaria de não entrar no cenário político. Ter lembranças tão e somente do homem gentil que conheci. Mas não poderia deixar de anotar aqui algo que tem muita razão, tendo proferido nos microfones da Alvorada: “se eu chego segunda-feira de manhã na prefeitura e meus secretários dizem que está tudo bem, alguém está mentindo, pois uma cidade com 200 mil habitantes não ter problemas é impossível”. Em 1996 me proporcionou algo ímpar para a vida de um piracicabano: entrevistar o ex-prefeito Salgot Castilon, cuja compilação ainda devo ter esquecida numa VHS que nem tenho mais onde assistir. Thame me contratou para auxiliar na campanha de seu sucessor, o professor Humberto de Campos, e deu a função à equipe de tv de ouvir o conceituado Salgot. Que honra ser recebido em seu apartamento no edifício Rio Negro, Centro da cidade.

   Thame como pessoa é unanimidade pelo estilo pacífico, dono de uma retórica impecável.

   Sobre os 10 reais do início, foi mais que um presente. Confesso que não comprei um livro. Adquiri na banca de jornais do “seu” Carolino a edição número 1 da revista Cinemin que passava a ser reeditada por Aldofo Aizen em sua EBAL. Tive a coleção completa com mais de 100 edições. Menos de dez anos após ter ganho tal dinheiro, já atuava como jornalista, inclusive como crítico de cinema em “O Diário”, à época comandado por Alfredo Barbara Neto e depois com a volta de Cecílio Elias Neto. Creio, então, que não gastei os dez cruzeiros em bobeira, Antonio Carlos ... 

Artigo publicado na Tribuna Piracicabana de 30/04/2022 e na Gazeta de Piracicaba de 5 de maio de 2022.

domingo, 3 de abril de 2022

A comunicação melhorou

 Edson Rontani Júnior, jornalista 

Interior de São Paulo. Ano de 1932. Estava deflagrada uma guerra civil que se tornou conhecida por Revolução Constitucionalista. O cenário era a cidade de Campinas. O dia 18 de setembro daquele ano. Período da manhã. Uma importante mensagem deveria ser entregue. Seu conteúdo estava anotado em um pedaço de papel. Não se sabe se escrito a mão, por telegrama ou datilografado. A incumbência foi dada a um escoteiro, o estafeta do dia, que deveria percorrer alguns quarteirões para entregar a mensagem a alguém. Eis que no trajeto, um teco-teco sobrevoa os céus campineiros, lança uma granada e estilhaços atingem o mensageiro. Aldo Chioratto (foto abaixo) falece em seus tenros nove anos de idade. Pertencia ao Grupo de Escoteiros que auxiliava na Epopeia Paulista, a qual clamava por uma constituição atualizada e revista. A Constituição de então tinha ares do império.


Uso essa premissa para evocar G. K. Chesterton (foto abaixo), influente intelectual britânico na virada do século retrasado, para demonstrar sua máxima de que “não foi o mundo que piorou; as coberturas jornalísticas é que melhoraram muito”. Então, um questionamento: em época de What’s app ou Telegram, teria sido poupada a vida do pequeno Chioratto ?


Ao longo do tempo, as mensagens caminharam em vários formatos. Mensageiros andaram longas distância a pé, no lombo do cavalo, a bordo de naus ... criando um hiato entre o acontecimento e seu reconhecimento. Tiradentes amargou três anos na cadeia após ser preso e julgado esperando clemência da rainha D. Maria I. Isso porque as mensagens iam e viam cruzando fisicamente o Oceano Atlântico.

Chesterton, portanto, tem razão ao dizer que a cobertura das notícias melhorou. Hoje temos conhecimento quase instantâneo do ocorrido. Algo que, num passado não muito distante apenas rádio e televisão possuíam. Jornais, revistas e cinema tinham a lacuna de dias. Não muito raro era acompanhar o resultado do XV de Piracicaba nas páginas deste jornal dois dias após a partida disputada. A equipe jornalística tinha de acompanhar pessoalmente o jogo, pegar longa estrada, texto a ser escrito, fotografia ser revelada, isso na madrugada ou no dia seguinte da partida normalmente realizada durante a noite.

A cobertura jornalística da Guerra do Golfo (1990/1991) proporcionou imagens ao vivo do Oriente Médio. Porém, os jornalistas não estavam preparados para narrar tais acontecimentos. Pensemos que temos um padrão para a narração de uma partida de futebol. Trinta anos atrás não tínhamos algo assim na CNN ou na Aljazeera no que se tratava de uma guerra.

O atual conflito escolhido pelas mídias envolve Rússia e Ucrânia. Dezenas de outras ações militares ou civis ainda estão em curso (alguém se lembra do Afeganistão ou da Síria?). Tornou-se comum o ucraniano estar em uma live e uma bomba explodir à sua cabeça. E de imediato esse tipo de informação chega ao ocidente ou qualquer outra parte do mundo. A reportagem é completa, com imagem e áudio, feita por pessoas que sequer são profissionais da comunicação. Mas são pessoas que estão no “aqui agora”, real on time. Dias atrás, um tradicional jornal da capital paulista reportou que a guerra da Ucrânia está ditando novas narrativas jornalísticas, citando o aplicativo TikTok como seu fiel mensageiro. Mídias digitais, aliás, foram banidas na Rússia. Isso incomoda o poder. Tempos atrás perseguia-se a pessoa para calá-la fisicamente. Hoje para evitar a propagação de uma mensagem é mais simples: desconecta-se o fio da tomada e ninguém tem conhecimento de um fato.

Tempos atrás tínhamos um deserto de informações. Os acontecimentos ocorriam e não sabíamos. Hoje temos um excesso de informações, que nos chegam de forma caótica. O filtro disso é a cabeça de cada qual. Mas que a maneira de fazer jornalismo, melhorou ... isso é fato. E salve Chesterton !

(publicado no Jornal de Piracicaba de 30 de março de 2022 e na Tribuna Piraciabana de 5 de abril de 2022)

O bicentenário de Piracicaba

quarta-feira, 9 de março de 2022

O legado de Chiarini

 * Edson Rontani Júnior, jornalista

 

Era uma noite fria. Sala lotada. Local : um dos prédios centenários da Unimep, Centro, hoje Instituto Piracicabano. O ano era 1988. Graduandos em comunicação social se acotovelaram numa sala que se tornou pequena para ouvir os estudos do folclore brasileiro. Era inverno. Era agosto, mês do folclore. A plateia ouvia silenciosamente as palavras de um senhor de estatura mediana, calvo. João Chiarini se apresentava na ocasião para estudantes de jornalismo e publicidade/propaganda. Talvez tenha sido esta uma de suas últimas (ou última) aparições públicas, já que Chiarini faleceu no mês seguinte, em 18 de setembro.

Foi um dos únicos contatos que mantive com tão impoluta personagem de Piracicaba. Irriquieto diriam uns. Controverso diriam outros. Comunista, apregoava ele com muito orgulho. Deixou amigos, deixou desafetos. Gerou admiradores. Plantou uma sementinha que agora gera sombra em seus 50 anos de vida. Esta árvore que traz frutas e sombra é a Academia Piracicaba de Letras, criada em 11 de março de 1972, durante solenidade realizada na Faculdade de Odontologia de Piracicaba, quando esta ainda funcionava na rua Dom Pedro II esquina com a rua Alferes José Caetano. Entre idas e vindas, sem local definido para funcionar, a Academia tinha – e ainda hoje tem – o objetivo de estimular a escrita e a leitura. O desafio hoje é criar leitores para obras que sejam “fast food” como as mídias digitais apregoam mundo afora. No último final de semana, um tradicional jornal da capital paulista, manchetou “TitkTok vira trincheira digital e molda narrativa da guerra”. Difícil é ser erudito numa ferramenta digital em que dedilhamos com os polegares e recebemos informações sem qualquer tipo de filtro criterioso.

A Academia Piracicabana de Letras, ao contrário da Academia Brasileira, não possui imortais. São associados que gostam de prosa, poesia, literatura, história, jornalismo ... Não tomam o chá das cinco, muito menos recebem os jetons propagados durante as recentes posses de Fernanda Montenegro e Gilberto Gil. Seguem a estrutura primordial de propagar a escrita, renovar a leitura, reler para os mais jovens antigos escritos numa linguagem que atinja de crianças a adultos. A literatura mudou. A escrita mudou. Informa-se hoje mais pelo digital que no papel. Mas é bom lembrar que os pensamentos mais aprofundados ainda se encontrem na velha folha branca.

Chiarini sempre buscou ser inconteste. Mas precisava do apoio da sociedade. Partia em busca dos mecenas que patrocinassem as atividades da Academia Piracicabana de Letras. Nos anos 1970 e 80, a entidade chegou a ter cerca de 350 membros, incluindo Jorge Amado (padrinho de casamento de Chiarini) e o ex-presidente JK. Chiarini partiu e o ideal foi seguido por pessoas como Miguel Ciavarelli, Henrique Cocenza, Haldumont Ferraz e Maria Helena Corazza. Foi na gestão do Cocenza, na década de 2000, que a Academia reforma seu estatuto e passa a seguir moldes internacionais como a Academia Francesa de Letras. Estipula 40 cadeiras, com patronos falecidos, ocupadas por 40 membros que dedicam àquilo que se propõe a entidade: leitura e escrita. Os membros não entram por querer. São convidados devido à sua atividade diante da sociedade.

O cinquentenário deveria ser mais longevo. A Academia poderia estar com seus 60 anos de vida. Isso porque a sessão magna de sua criação ocorreu em 1972, mas extra oficialmente ela já existia nos corredores de “O Diário”. A história mostra também que o anseio de cria-la remota os estudos comemorativos ao bicentenário de Piracicaba em 1967, quando surgiram entidades como o Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba e atividades culturais como a EXFINUPI (Exposição Filatélica e Numismática de Piracicaba). Antes mesmo, Chiarini montava grupos literários em sua Livraria Pilão, na Galeria Gianetti. O certo é que a sombra da semente plantada por Chiarini criou ramificações que propagam e perduram o jeito piracicabano de ser.

(publicado no Jornal de Piracicaba de 09/03/22 e na Tribuna Piracicabana de 10/03/2022)

 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Televisão em cores e som estéreo

 Edson Rontani Júnior, jornalista e radialista 

Poucos dão a devida importância à determinados pioneiros e pioneirismos. Digamos que é uma ótima ideia a roda ter sido criada, mas até chegar a ela e descobrir sua funcionalidade, a história é outra. Não é o propósito aqui discorrer sobre quem inventou a roda, mas recordar dois fatos que pouca gente dará sua devida importância nos dias atuais.

A primeira foi a chegada da cor na televisão brasileira ocorrida há 50 anos, em 1972. Uma revolução para um aparelho que dominaria a vida do brasileiro, regeria horários como o jantar ou a reunião familiar. Foram 22 anos de programas monocromáticos desde que ela surgiu com a TV Tupi em 1950. A TV em cores, uma ostentação cara para a época, era vista como algo sem futuro por outras indústrias como o cinema que se valia de inovações como o technicolor, tela widescreen, cinemascope e o som estéreo. O widescreen chegou a ser filmado com várias câmeras ao mesmo tempo, marcando algo próximo a 180 graus da cena, enquanto a televisão possuía um formato que lembra o quadrado. Era comum até anos atrás, assistir na tv em tubo filmes do cinema em que você só enxergava o meio da tela – se dois atores conversavam um a frente do outro, não apareciam na tela. Isso era o widescreen cinematográfico que hoje cabe na palma da mão de um smartphone.

Em Piracicaba, a festa pelo consumo de tv em cores tomou corpo nos anos 1970. Me lembro de ter assistido jogos da Copa do Mundo de 1974 no televisor Philips com madeiramento de pinho, na casa de minha avó. Era um presente de casamento desejado à época. O ruim era o sinal das repetidoras que proporcionava ruído no som, fantasmas e chuviscos na tela, condições desconhecidas da geração atual, assim como o pulo do LP riscado. Não à toa, sintonizávamos a emissora mais potente, no caso, a Globo.

A partir de então, a televisão moldou a vida do brasileiro. Horários da rotina caseira eram por ela regidos. Não existia o salvar e assistir depois. As reprises ocorriam vários anos depois. Almoçar diante da telinha, jantar antes do jornal da noite, silêncio na sala para ver a novela das 20h30 e assim por diante. Tinha de ser naquele dia e naquele horário. Até festas de aniversário eram interrompidas para ver a novela da noite num capítulo que não acrescentava nada à trama.

Em paralelo à TV, o cinema nos anos 1980 criou o dolby sorround, marca registrada que proporcionava uma fidelidade na música, no diálogo e principalmente nos efeitos especiais. O outro ponto que gostaria de discorrer é o som stereo, que perdeu em dezembro, mas só divulgado no início de fevereiro, seu maior estudioso e empreendedor, John C. Koss, também desconhecido de grande maioria das pessoas. Foi ele quem dedicou sua vida para colaborar na apresentação do som ouvido em duas caixas, ao invés do som monofônico que perpetuou até o início dos anos 1970. O som estéreo separa canais e com isso, isola vozes, instrumentos e efeitos. Algo hoje que não damos conta quando nos divertimos com um game ou ouvimos um jogo de futebol. O ouvido humano passou a educar-se com a estereofonia ao perceber que o som andava de um lado para o outro no momento em que um ator no cinema perambulava em cena.

Koss foi o empreendedor do fone de ouvido estéreo, dando a possibilidade de transportar músicas e gravações até então restritas a grandes aparelhos fixos. Com seus fones de ouvido, criou um universo ainda hoje usufruído. Chegou a ser unido à televisão para não atrapalhar o/a companheiro/a que dormia ao lado durante as noites de insônia ou durante o “Corujão” da Globo.

São pioneiros e pioneirismo que nos ensinam a pensar como é que surgiu a roda ...

(Artigo publicado no Jornal de Piracicaba de 16 de fevereiro de 2022)


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Quadrinhos para quadrados

 Edson Rontani Júnior, jornalista, membro do IHGP e da Academia Piracicabana de Letras

 

A memória é única. Olho para cima e cumprimento um jovem com feições quase orientais. “Este é o Maurício, o criador da Mônica”, disse alguém ao me apresentar a Maurício de Souza, na primeira metade dos anos 1970. Não dá para forçar muito a memória, pois tinha eu lá pelos meus seis ... sete anos de vida, e o criador da dentuça dos quadrinhos viera de São Paulo visitar meu pai. Ambos trocavam telefonemas e correspondências, como um cortejar pelos traços do velho Edson Rontani. As cartas trocadas foram muitas. Todas catalogadas e guardadas a sete chaves. As assinaturas de Maurício são verdadeiras obras de arte.

Maurício de Souza veio a Piracicaba por diversas vezes. Estava criando uma produtora própria associada à Editora Abril de Victor Civita, depois de atuar alguns anos na imprensa, em especial na Folha de São Paulo. Uma das visitas era para convidar o velho Rontani a compor sua equipe. Convite recusado. Mesmo caminho tomado anos antes quando, no Rio de Janeiro, fora cotado para ocupar uma cadeira na EBAL – Editora Brasil América Ltda., de Adolfo Aizen, a qual publicava os medalhões que hoje pertencem a Marvel e DC Comics, anteriormente distribuídas pelos Syndicates em todo o mundo. Rontani recusou trocar a “Noiva da Colina” pela “Cidade Maravilhosa”, mas deixou um legado de capas (publicadas ou não) com Namor, Spirit, Batman, Superman e outros.

Maurício, Civita, Aizen, Rontani e tantos outros não devem ser esquecidos no Dia Nacional dos Quadrinhos, lembrado esta semana (30 de janeiro), assim como outros grandes expoentes como Ivan Saidenberg, que povoou o imaginário dos quadrinhos, este, porém, na franquia Disney, com seus derivações do Peninha: Peninha Kid, Morcego Vermelho, Pena da Selva, além dos clássicos Mickey, Pato Donald, Pateta e Zé Carioca. Saidenberg nasceu em Piracicaba e faleceu em Santos, atuando no auge dos quadrinhos nacionais (anos 1960) nas editoras Outubro, Taika, Penteado e La Selva, as quais publicaram obras-primas, cujas edições hoje valem peso de ouro.

O dia nacional dos quadrinhos foi criado para homenagear desbravadores que enfrentam as mídias digitais de uma forma brava e constante. Claro que Piracicaba foi celeiro para muitos desenhistas (Lancast, os irmãos San Juan, Spadotto, Hussar, Edu Grosso, Longo, Douglas Mayer, e muitos outros resgatados por Adolpho Queiroz nas duas edições de “Piracartum”). Tem um salão internacional que premia aqueles que se dedicam às tiras, de onde vieram os principais personagens dos quadrinhos e do cinema.

“Para ler pato Donald” foi um dos primeiros itens teóricos a criar o negacionismo nas HQs. Todo mundo ria com Mickey. Todos riam com Pica-Pau. Mas, houve filósofos que viam nas gags apresentadas uma mensagem subliminar para dominar o coletivo. Ué ... As mídias digitais não ditam estas regras atualmente ?!? A obra questionava a democratização da liberdade. Algo para se reler, rever e repensar, numa época em que antigos pensamentos se atualizam, como Dale Carnegie que ainda aparece entre os mais vendidos com seu “Como fazer amigos e influenciar pessoas” escrito há 86 anos atrás.

Já Marcelo Maiolo e Rafael de Latorre são artistas renomados internacionalmente. Dedicaram muito à DC e à Marvel, com obras publicadas nos EUA, África do Sul e outros países. Trabalham à distância. Facilidade que não tínhamos quando Maurício de Souza veio a Piracicaba nos anos 1970, obrigando o presencial e impedindo o celeiro de criadores crescer. E viva Angelo Agostini, homenageado por este dia nacional dos quadrinhos !

(Artigo publicado no "Jornal de Piracicaba" de 02 de fevereiro de 2022 e na "Tribuna Piracicabana" de 04 de fevereiro de 2022)