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domingo, 20 de agosto de 2023

Oppenheimer e Fabelmans

 Edson Rontani Júnior, cinéfilo e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 


O desconcertante som do tragar o charuto de John Ford mexe e instiga com o silêncio que reina. Mexe também com a dúvida de Burt Fabelman. “O que você vê ali ? O horizonte ? Se está acima, o horizonte é interessante, se está abaixo também é interessante”, diz Ford (vivido pelo diretor David Lynch) em “Os Fabelmans”. Conclui que, se o horizonte está no meio, é normal, trivial, comum, sem sentido ... “Chato prá cacete”, diz ele. John Ford foi um dos mais icônicos cineastas norte-americanos numa carreira de quase 70 anos com filmes que vão de “Nos tempos das diligências” a “O homem que matou o facínora”, entre tantos outros.

“Albert Einstein ? Ele era bom no tempo dele, 20 anos atrás ...”, diz Robert Oppenheimer, no filme que relata a vida do criador da bomba atômica que acabou com Nagasaki, Hiroshima e a Segunda Guerra Mundial. “Mas quem soltou a bomba fui eu, ninguém se lembrará de você”, disse a ele o presidente Harry Truman (vivido por Gary Oldman).

O cinema busca com estas duas obras superar a si mesmo. Cem anos atrás, Fritz Lang era “a bola da vez” com filmes como “Metrópolis”. Alfred Hitchcock, depois, virou o “mestre do suspense” sendo um autor “fora da curva”, mas com a retórica de sempre : o homem errado levava a culpa por algo que não cometeu. A premissa está em maioria das suas obras. Depois vieram tantos outros que enxergaram o horizonte acima ou abaixo ou que superaram as ideias de Einstein, Edison ou Tesla. “Com isso estragamos o mundo”, confessa Oppenheimer a Einstein, que sai emburricado.


“Os Fabelmans” e “Oppenheimer” tomam quase seis horas de atenção do expectador, seja na telona ou no streaming. O primeiro é a mais recente obra de Steven Spielberg, depois de um interessante mas apagado “Amor, Sublime Amor”. É um filme para quem entende e gosta de cinema. Basicamente é sua biografia quando criança e adolescente, na qual ele retrata seu amor pelo cinema e as agruras em ser judeu. Seus pais não viam futuro no cinema. Mas, foi realizando filmes em casa, na bitola 8 milímetros que ele enxergou além do horizonte e descobriu a traição da mãe com o melhor amigo do pai. Fez até um filme com estes melhores momentos e o exibiu no escuro do seu closet para uma plateia seleta: sua mãe, protagonista da obra (e da traição). Em pouco mais de duas horas e meia, Spielberg fala do relacionamento humano, do crescimento de um sonho de criança que mexe não apenas com a fantasia através do cinema, e também enxerga além do horizonte. Esse sim é um cara de visão. Ficou milionário, criou linguagens imaginárias com o fantástico (“E.T.” ou “Inteligência Artificial”, por exemplo) e conseguiu calar a boca dos pais que o viam, quando fazia cinema, estar apenas matando o tempo.

Robert Oppenheimer era um desastrado e desatencioso quando jovem. O filme que leva seu nome é uma biografia maçante, utilizando um enredo detalhadíssimo sobre o pai da bomba atômica, durante a Segunda Guerra Mundial. Estranho é Robert Downey Júnior (o Tony Stark / Homem de Ferro) como o ancião almirante Lewis Strauss. Trata-se de uma obra para a qual deve-se entender o que foi a “Guerra Fria” entre Estados Unidos e União Soviética e, antes de mais nada, é preciso compreender o que foi a “Caça às Bruxas” coordenada pelo senador Joseph McCarthy. Se você pensa que verá explosões, nazistas ou ação à lá Marvel, esqueça .... É um filme muito bem pontuado pela trilha e efeitos sonoros, o qual necessita de acompanhamento histórico e esforço cerebral para entender tantas idas e voltas, numa sequência frenética de flash backs. Peca a obra ao final (faltando 20 minutos para acabar – depois de quase 2h40 minutos), quando vemos o próprio Almirante e outros personagens elucidando o caso numa sucessão frenética desnecessária, como se lembrasse o “Sherlock Holmes” (olha aí Robert Downey Jr. de novo) ou que nos remete ao final de “Assassinato no Oriente Express”. Aliás, Kenneth Branagh, diretor mais recente desta obra de Agatha Christie, também está em “Oppenheimer” como Niels Bohr e, como sempre, impecável. Aliás, Christopher Nolah, seu diretor, é uma das mais novas revelações da década atual e impressiona a cada produção desde a trilogia Batman, passando por “Interestelar” e “Dunkirk”.


“Falbemans” e “Oppenheimer” são obras distintas. Uma feita em 2022 e outra estreada há cerca de 15 dias. São para públicos diferentes. Decepcionantes ? Sim e não. Deve-se saber o que esperar quando o objetivo é assistir à um filme biográfico. É preciso conhecer a situação histórica e a(s) personalidade(s) retratada(s). O segundo foi páreo para “Barbie” (sem comentários ...) chegando a superar bilheterias ao redor do mundo. Tirou a luz do novo “Indiana Jones” – que já saiu de cartaz – e era esperado pelos marmanjões que outrora foram aos cinemas e às locadoras de VHS. Mas ambos valem como o despertar de algo que transcende a cada dia : olhar para além do horizonte.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Entrando no cinquentenário

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Com imensa curiosidade iniciei-me na comunicação social ainda muito criança. Com sete anos fazia jornais em mimeógrafo como lição de casa. Em 1965 meu pai, Edson Rontani, criava o primeiro fanzine brasileiro impresso num mimeógrafo a tinta. Isso me espelhou na divulgação do conhecimento e da cultura. Já aos 11 anos, em 1979, comecei profissionalmente como um dos responsáveis pela página infantil de um jornal local, “Jornal do Povo Piracicabano”, que a cidade legou ao esquecimento. Foi lá que conheci personalidades como Emílio Moretti (diagramação), Christiano Diehl Neto (fotografia) e Paulo Markum (diretor de redação), entre outros.

Desde criança acompanhava os passos de meu pai que constantemente visitava o Isidro Polacow e Geraldo Nunes no Jornal de Piracicaba, Cecílio Elias Netto no Diário, e Evaldo Augusto Vicente, na Tribuna Piracicabana. Se não os visitava pessoalmente, deixava nas respectivas redações envelopes com suas charges, cartuns ...

Evaldo é uma pessoa ímpar. É aquele visionário incansável à quem a sociedade deve muito respeito. Pense num clássico do cinema. Lá está o jornalista como Kirk Douglas em “A Montanha dos Sete Abrutes”, ou redator Cary Grant em “Jejum de Amor”. Idealistas que fizeram o jornalismo no século passado como uma arma da comunicação, ou como se dizia até outro tempo, moviam o “quarto poder” no país.

Nascido em Laranjal Paulista, Piracicaba o adotou há várias décadas e aqui nos proporcionou amizades com toda sua família que labutou neste matutino, desde a esposa Astir Valim, e os filhos Evaldinho, Erick e Érica. Confesso que o jornalismo fez ídolos na cidade. Cecílio Elias Neto, querido “tio”, é um exemplo. Inconteste. Evaldo encaixa-se nesta galeria de baluarte da imprensa provinciana.

Quando tomei contato a primeira vez com Evaldo – não canso de repetir isso – foi em agosto de 1974. Tinha eu meus sete anos de idade. Passávamos pela Loja da Lua, no cruzamento da Alferes com Prudente e víamos – boquiabertos – uma pequena vitrina, que estampava os principais desejos de consumo da molecada. Dois quarteirões a frente, estava a redação da Tribuna – hoje é um laboratório de análises clínicas. Foi lá que Evaldo mostrou ao meu genitor, acompanhado de mim, a primeira edição de “A Tribuna”, com notas de falecimento de meu avô Humberto D’Abronzo, que partira meses antes, e do visionário Lélio Ferrari, da Rede Brasileira de Supermercados.

Na mão, um clichê. Um metal pregado a um pedaço de madeira. Coisas do século passado. A clicheria antecipou a fotolitagem posterior e o processo digital que temos hoje. Aí entra Evaldo. Passou da clicheria, do past-up e outras linguagens que não se ensinam mais nas cadeiras de graduação, para o off-set e hoje para programas como Corel Draw, InDesign, Photoshop e tantos outros que não deixam morrer a comunicação social impressa. Cabe ao dia a dia desbravar uma selva de pedra. 

Até então tínhamos pouco mais de 100 habitantes. Hoje – ou daqui a pouco – estaremos na casa do meio milhão de pessoas habitando nossa amada “Noiva da Colina”. O papel deste matutino que completa hoje seus 49 anos – ou como me disse Evaldo pelo What’s no domingo passado – entra nos seu 50º. ano de vida – é superar as mudanças tecnológicas, é criar novidades, é prender o leitor, assim como eu, ainda gosta do papel impresso e atrair leitores que já nasceram com leitores digitais como o Kindle, iPad ou até mesmo pelos aplicativos de conversação através das edições em PDF.

Outro dia, li na Veja que o papel é o meio mais fácil de se propagar a escrita. E o mais fácil de ser preservar e serem estudados. Vejam os documentos do Egito. Não importa o tipo de papel – sulfite, papiro, pele de carneiro... –, o que merece atenção é sua preservação ou conservação de sua escrita. Não apenas a mensagem e também o meio, como aprendemos na faculdade. Assim, vida longa ao papel, a Tribuna e Evaldo. E, claro, grato por todo ensinamento proporcionado a nós jornalistas ... e leitores !

(Artigo publicado na Tribuna Piracicabana de 01/08/2023)



Diz que é de Piracicaba, mas ...

 

Edson Rontani Júnior, piracicabano, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 

Diz que é de Piracicaba, mas nunca andou de elevador panorâmico na ponte arquiteto Caio Tabajara... Diz que é de Piracicaba, mas nunca visitou o Salão de Humor ... Diz que é de Piracicaba, mas nunca foi a Esalq ...

Tiradas como estas povoaram o Facebook anos atrás e, se a memória não atrapalhar, foi antes da pandemia, possivelmente em 2018, perpetuando-se por meses. Era um jogo de adivinhação salutar, com as lembranças sendo expandidas pelos comentários nas postagens. Atrás destes comentários, fazíamos a massa cinzenta cerebral reviver momentos gostosos do passado. Chegamos a mexer em coisas da tempo do Zagaia ! Quem ?!? Ora ! Que adianta dizer que é piracicabano e não conhecer Zagaia ? Aliás, usamos este termo sem saber quem foi distinta pessoa. Eu, confesso, não uso, mas ouço muita gente usar esta frase.

Bom. Este preâmbulo serve para dizer que, com mais de 400 mil habitantes, Piracicaba, acolheu muita gente que encontrou a “terra arada, semeada e com plantação dando frutos”, desconhecendo aqueles que por aqui lutaram, deram suor e sangue. Piracicaba como conhecemos é uma. Piracicaba como ela é realmente, torna-se outra. Os mais antigos e tradicionais a enxergam de uma forma diferente da visão dos “estrangeiros” que por aqui se aportaram.

É a “síndrome da ponta do nariz”. Pois, bem. Por mais que a ponta do nariz esteja diante de nosso olhar, nunca a notamos. Piracicaba é assim. Está na ponta do nariz e muitas vezes não damos valor aos pontos turísticos, à sua gastronomia, à sua riqueza cultural. Saímos do pejorativo “quintal de Campinas” para sermos o jardim de nossa própria cidade. Exemplos disso ? Vejam os motociclistas que, de outras cidades, vem a rua do Porto no final de semana ... Os pontos atrativos e turísticos cheios de pessoas durante as férias de julho, as movimentações em pontos de caminhada como o Parque da Rua do Porto ou a Estação da Paulista. Até outro dia saíamos no Shopping Center lendo as cidades de onde vieram o veículos – agora, com o novo design das placas do Mercosul, sabemos apenas que ele são do ... Brasil. Querer enxergar além da ponta do nariz exige um exercício que nos perpassa o estrabismo ou miopia, com grande ganho cultural.

Até os anos 1980, não tínhamos um centro cultural na Estação da Paulista. Tínhamos trens de carga que impossibilitavam nossa entrada no espaço. Hoje caminhamos, andamos de bicicleta, utilizamos equipamentos (com acessibilidade, inclusive)... O Engenho Central era tão fechado quanto a Chácara Nazareth ou o Casarão de Luiz de Queiroz. Eram pontos particulares. E hoje ? O Salão Internacional de Humor, que entra em agosto na sua 50ª. edição, é um bom exemplo desta ocupação.

Com a criação do calçadão da praça José Bonifácio, no início dos anos 1980, o piracicabano ganhou um moderno centro de lazer, muito além da ESALQ que proporcionava até então piqueniques, passeios de bicicleta ou empinar pipas. Os “Domingões” chamavam as famílias para a praça. Foi lá, aliás, que, com meus quase 10 anos, aprendi a jogar xadrez.

E a gastronomia ? Quem viveu os anos 80 comia o sanduíche churrasquinho do Bar do Décio, o prensadão da avenida Armando de Salles de Oliveira ou a canja ou sopa de cebola do Saravá. Que mais ? Tínhamos de esperar um ano todinho para provar uma esfirra aberta na Festa das Nações que ocorria no Lar Franciscano de Menores. Pastel, então, apenas no Mercado Municipal, consumido somente no horário comercial – impróprio para quem trabalha o dia todo. Churros ? Apenas na Eletroradiobraz (atual Pão de Açúcar da Cidade Alta). E hoje ? Compramos churros e esfirras a qualquer momento e por aplicativo ! Muitas famílias iam para Campinas visitar o Makro, primeiro atacadão da região. E ter a carteirinha desta rede era símbolo de status. “Fui a Campinas e comprei galão ou pacote de tal produto, algo inacessível a você” ... Era o “ó do borogodó” ... Ostentação para poucos. O Makro abriu em Piracicaba fechou suas portas em abril passado e ninguém deu conta ...

Melhorou ou não ? Muitas outras referências tivemos ao longo deste período, claro. Destaco aqui alguns poucos, devido à limitação do espaço.

Vivemos períodos pós pandemia, voltando a circular pelos pontos turísticos. O fato não é conhecer o que já se conhece e sim enxergar além da ponta do nariz. Ver a beleza de pontos como o Aquário Municipal – recentemente reaberto –, os Teatros Municipais, saborear uma boa gastronomia à beira do rio Piracicaba ... Enxergar com amor é acabar com estereótipos e principalmente preconceitos.

Pois, bem. Nos últimos dias, o poder público municipal nos deu a chance de conhecer ou revisitar locais. Um ônibus colocado a disposição, levou as pessoas para subir o elevador ao lado da Ponte do Mirante ! Isso, durante a semana e em horário comercial ! O piracicabano teve a chance de conhecer ou revisitar a história da Estação da Paulista (que já foi um sambódromo na segunda metade da década de 1990 – e ninguém lembra disso !), Estádio Barão da Serra Negra, Cemitério da Saudade, Esalq, Museu da Água, Aquário Municipal, Engenho Central, Ponte Pênsil, Casa do Povoador ... Ufa ! Além disso, pôde ver como é a logística da Polícia Militar no hangar do helicóptero Águia e as obras de Volpi nas paredes da capela do Monte Alegre.

Ou ainda partir para os redutos dos tiroleses em Santana e Santa Olímpia, onde souberam que Olímpia não é santa e sim diaconisa. Existe vida além da cucagna e também da Festa da Polenta. Enxerga quem quiser.

Aliás, confesso que vivi míope por muitos anos. Por 37 anos morei a três quadras da Estação da Paulista e nunca vi um trem na vida. Apenas conheci a Maria Fumaça quando fui para Jaguariúna proporcionar ao meu filho algo que eu nunca tinha visto ou vivido. Também nunca pisei no Barão mesmo sendo neto de um dos presidentes do XV (Humberto D’Abronzo) e filho do criador do Nhô Quim (Edson Rontani). Neste tempo todo, eu devia usar um “fundo de garrafa” e não sabia ...

Finalizo parabenizado a Semdettur pelo projeto Férias – Visite Piracicaba, encerrado sexta-feira passada. Consegui mais uma vez tirar meu estrabismo e minha miopia e enxergar além do nariz, vendo uma Piracicaba tão bela quanto ela é. Parabéns à equipe – Fernanda (coordenadora), Júlia (guia turística) e Reinaldo (motorista), além da Patrícia guia em Santa Olímpia. Que venham mais ações como estas em dezembro/janeiro. Feliz 265 anos, Piracicaba !

(Artigo publicado na Tribuna Piracicabana em 02/08/2023 e, de forma resumida, no Jornal de Piracicaba em 30/07/2023)


quarta-feira, 5 de julho de 2023

Uma das melhores socializações

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 

Piracicaba tem socializações “raízes”, como ir ao Estádio Barão da Serra Negra ver nosso centenário XV de Novembro, dar um “rolê” no Shopping Piracicaba, caminhar pela ESALQ, almoçar na rua do Porto e passear pelo Mercado Municipal. Pois, bem. É este último que está aniversariando esta semana, chegando aos seus 135 anos de fundação.

Segundo a seção “Efemérides” do Almanak de Piracicaba 1900, foi em 5 de julho de 1888 que se inaugurou a praça do Mercado.

Quem nunca passou por este centro de compras? De grande varejão, para um local de uma refeição prazerosa, pela busca de um condimento ou para a mistura da semana. Ponto de encontro para os cafés matinais aos finais de semana, como uma forma imperdível de ver os amigos e colocar a conversa em dia. Ponto de passagem para muitos amigos vistos pela última vez e que partiram sem se despedir durante a atual pandemia.

Floripes Maria D’Avila, dentista e escritora de mão cheia, descreveu muito bem suas recordações no espaço, recebendo o prêmio Santander de Redação, alguns anos atrás, expondo sua infância pelos corredores do Mercado.

O Mercado Municipal surgiu numa época distante. Numa condição social diferente daquela que temos hoje, com supermercados, hipermercados e atacadões por todos os cantos. Era o ponto de venda da safra de hortifrutigranjeiros, num período em que nem tudo era encontrado em prateleiras ou gôndolas. Muito menos vendidos em pacotes ou latas como temos hoje.

Guilherme Vitti que organizou quase toda a história de Piracicaba com o acervo da Câmara de Vereadores, disse que Prudente de Moraes – futuro presidente da nação – foi o responsável por esboçar a função social do Mercado. Em maio de 1887, ele mais o dr. Paulo Pinto, ambos pertencentes à Comissão incumbida de organizar um projeto de lei para regulamentar o funcionamento do Mercado, criam um regimento interno com 32 artigos. Pelo jeito, foram bem exigentes.

Seu primeiro artigo define a finalidade do Mercado: A praça do mercado é destinada a servir de centro à compra e venda de gênero alimentícios destinados ao consumo desta cidade, quer sejam procedentes deste município, quer de outros.

Seu segundo artigo prega a mudança de horário durante duas fases do ano: durante o verão e o inverno. Curioso é ver outros artigos como o 4 que prevê o uso de quartos reservados exclusivamente para os gêneros alimentícios. Assim como os postos de gasolina da atualidade, o artigo 31 determina que o administrador do Mercado afixe em lugar conveniente a tabela de preços.

O Mercado sofreu adaptações. Assim como o seu entorno. O bolsão de estacionamento foi denominado de praça Alfredo Cardoso, médico também homenageado com escola no Bairro Alto, onde localizava-se uma estação de tem da Cia. Ytuana. Nascido em Piracicaba no ano de 1876 faleceu aos 33 num trem na Estação da Sorocabana em Charqueada em 1910. Era médico formado no Rio de janeiro em 1900. Foi diretor clínico da Santa Casa de Piracicaba e atuava no asilo de São Pedro. Foi o primeiro profissional a realizar cirurgia cardíaca na cidade. Teve a primeira motocicleta motorizada da cidade, a qual encontra-se no Museu Prudente de Moraes. Seu consultório situava-se na rua Governador Pedro de Toledo (antes rua do Commércio e rua João Pessoa) em casarão hoje inexistente situado em frente ao Mercado. Operava em sua própria casa.

Pelos corredores do Mercado passaram vários políticos em períodos eleitorais. É um local de nostalgia principalmente por encher os olhos de muitas crianças no nosso eterno “O Cacau” de Basso Rolim, cujo negócio ainda está ativo com seus filhos. Por ali passaram os Spironello e por lá ainda levantam cedinho de segunda a segunda os Usberti, Pandolfe, Cenoura, Libardi, Magro e tantos outros. Vida longa ao nosso “Mercadão”!

(Publicado no Jornal de Piracicaba em 05/07/2023)


segunda-feira, 24 de abril de 2023

Ano três

Edson Rontani Júnior, jornalista

Pego meu celular. Não sei por que cargas d’água resolvi editar meus contatos telefônicos. Logo no início, excluo um número. “Morreu de covid”, lembrei. Mais para frente, outro excluído pelo mesmo motivo. E assim foi. Três ... quatro ... cinco ... Perdi as contas! Amigos que se tornaram estatísticas, meros números no quadro de falecimentos por este temível SARS-CoV 2, cujo estado de alerta mundial completa três anos em março.

Foi em março de 2020 que shoppings centers cerravam suas portas por tempo indeterminado. Jogos de futebol deixaram de ser realizados. Novelas voltaram às reprises sem novas gravações. O #fiqueemcasa foi a hashtag do momento. E a vacina não chegava. Quando chegou, acabou gerando muitas dúvidas. Mas criou aquilo que se chama de imunização de rebanho.

Pelo mundo, as pessoas morriam e eram deixadas na rua para não contaminarem os demais. O serviço funerário atuou como nunca, com sepultamentos à noite e sem direito a velórios ou despedidas dos familiares. Na Índia, o clamor para que os próprios familiares cremassem seus entes pois a estrutura era insuficiente para atender, digamos assim, a “demanda” da ocasião.

Curioso é saber que em 8 de março de 1918 tivemos o início da pandemia anterior, data em que foi registrada a primeira vítima fatal da gripe espanhola, que matou cerca de 50 milhões de pessoas.

No ano três da pandemia, as vacinas começaram a ser aplicadas ... Primeira ... segunda ... terceira ... quarta dose ! Agora, sim ! Imunizados. Mas, para surpresa, a covid bate em meu lar. Uma noite gelada do final de maio, nos obriga a realizar o temível exame do cotonete. Positivo ! Esse foi o veredito após cerca de seis horas de espera no atendimento médico, cujo passar da noite se tornava mais gelada, fria e temerosa pois mais de 100 pessoas se acomodavam no ambiente. “Se não estou com covid, eu pego aqui, de tanta gente tossindo ao meu lado”, balbuciei ... Felizmente saio precavido, negativado, mas um membro da família não teve a mesma sorte. Foram vários dias de repouso e temor por suas consequências.

Chegamos ao meio de 2022 e parece que a doença pandêmica deu uma trégua. Aos poucos, as máscaras são deixadas de lado, o álcool gel demora para ser consumido ... Relaxamos geral processo considerado natural. Tudo reabre. Não há mais obrigatoriedade de máscaras, distanciamentos ... O ritmo retorna ao normal prevendo eleições que se aproximariam, Copa do Mundo que foi programada para novembro/dezembro e os encontros familiares e com amigos naquele restaurante tradicional. A vida volta ao normal.

Mas ainda me pego surpreso de ter perdido amigos e amigas como disse no início. Eram números em minha lista de telefone, tornaram-se números nas divulgações de não curados e falecidos. Foram Antonios e Marias que hoje deixam saudade no seio familiar ou no círculo de amizade. Pessoas a quem desejávamos o bom dia quando os encontrávamos no café nas manhãs de domingo no Mercado Municipal. Muitos deixam saudade e tristeza demonstrando o quão terrível é esta doença conhecida por covid/19 ou coronavírus.

“Todo mundo vai pegar”, disse um amigo. E eu, forte, valente, fugia da doença como quem foge do tempo que nos torna velhos. Quanto mais se foge, pior é. Ouvi muito disso. Eis que no início deste mês, a doença bate novamente na porta de minha residência. “Desta vez não tem jeito, vou ter que abraçar esta ‘tendência’ mundial”, disse sem muita opção. “Tomou vacina ?”, me perguntaram. “Sim ! Quatro ! E antes que muita gente por trabalhar no setor de saúde”, argumentei. Mas de argumento e teorias da conspiração, há muita coisa que nossa vã filosofia possa não entender. E assim, entramos no ano quatro da pandemia que não tem data para terminar.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

E o Titanic submergiu ...

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Li estes dias que “Titanic”, o filme de 1997, retorna às telas esta semana. É a terceira maior bilheteria do cinema, que junto a “Avatar” (2009) e “Avatar – O Caminho das águas” (2022) dão o título a James Cameron como o cineasta que fez três dos quatro filmes mais assistidos e rentáveis de toda a história.

Isso me trouxe à memória as exibições que tivemos em Piracicaba deste filme que, por trás de um romance meloso, mostrava o grande desastre do transatlântico naufragado em 15 de abril de 1912. Quando lançado 25 anos atrás, “Titanic” foi exibido nas salas do Cine Center, no Shopping Piracicaba, coordenado pelo Grupo Paris Filmes. Era de ver o brilho nos olhos de Márcio Fraccaroli, CEO do Grupo Paris, e do “seu” Silvio, gerente das salas, a rotatividade de pessoas que comprava ingressos para apreciar a obra na telona. Cabe ressaltar que nesta época, houve uma debandada muito grande do público diante das salas exibidoras motivada pelo VHS. A fita de vídeo-cassete era a vilã por trás de tudo. Mas, nas semanas em que o longa ficou em exibição, as salas lotaram. Ainda não havia cobrança de estacionamento neste centro de compras.

Meses depois, “Titanic” foi exibido por semanas a fio na Sala Grande Otelo do Cine Arte, no complexo do Teatro Municipal Dr. Losso Netto. Era algo comum na ocasião. Reprises por semanas. Me recordo que, por força do ofício – eu era cinéfilo e comentava sobre cinema num jornal local e numa emissora de rádio –, “Dirty Dancin’ – Ritmo Quente” (1987) ficou em cartaz por oito semanas na Sala Grande Otelo.

Toda esta rememoração nos traz a nostalgia das salas exibidoras da cidade. A rua Benjamin Constant possuía três cinemas, de responsabilidade de Francisco Andia, que nos anos 1960 tinha sua produtora a Águia Filmes. O primeiro era o Cine Colonial. O segundo era o Cine Rivoli, com quase 1 mil assentos, e o último era o Cine Paulistinha, na altura da Paulicéia. Tivemos também o Cine Politeama e o Cine Brodway nas proximidades da praça José Bonifácio. Eles tiveram outras denominações ao longo do tempo, assim como tivemos outros cinemas na cidade. Um deles, nos anos 1920, situava-se na rua Governador Pedro de Toledo, onde foi a Fábrica de Balas Petrin, hoje, filial de um supermercado. Assim, vamos nos ater aos cinemas existentes nos anos 1980 e 1990.

Aliás, pouco antes, entre as décadas de 1970 e 1980, era comum a fila “dobrar a esquina” – ou as esquinas – no Rivoli. Filmes de Mazzaropi e Os Trapalhões faziam a fila iniciar-se na Benjamin, virar a XV de Novembro e finalizar na avenida Armando de Salles Oliveira, bem em frente a saída de emergência do Rivoli. Foi assim, com “King Kong” (1976), “De Volta para o Futuro” (1984), “O Segredo do Abismo” (1989) – olha James Cameron de novo – e tantos outros. Recordo-me que ao assistir “Os Trapalhões no Planeta dos Macacos” (1976) as únicas cadeiras vagas eram aquelas da primeira fileira, nos obrigando a uma ginástica com o pescoço e os olhos para acompanhar o andamento das cenas na telona. Bendito seja quem implantou a venda de cadeiras enumeradas no cinema a exemplo do que ocorre nos ônibus e aviões !

Cabe ressaltar que o Cine Arte tinha este nome por ser uma espécie de cinemateca. Era uma sala pequena. Duas, se não me falha a memória. Foi lá que assisti às reprises dos filmes “O Jovem Frankenstein” (1974) de Mel Brooks, “Metrópolis” (1984) de Fritz Lang restaurado por Giorio Moroder e obras de Alfred Hitchcok, liberadas por sua viúva após mais de 30 anos sem circulação.

O Grande Otelo fechou suas portas não ao acaso. Situava-se no Teatro Losso Neto, na rua Santa Cruz. Local de alagamentos quando chove. Alguns devem se lembrar do Pronto Socorro Central, ali próximo, desativado por conta das inundações. Certa noite, em 1998 ou 99, numa reprise de “Titanic” o público sente os pés molharem ... Não era efeito ... Era a água do toró que caia lá fora adentando no recinto. A inundação chegou a altura dos assentos, obrigando muita gente a sair pelas janelas do banheiro. Que naufrágio ...

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 08 de fevereiro de 2023)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Cultura de gibi


 

Edson Rontani Júnior, jornalista, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Houve tempo em que os medalhões da Marvel e da DC Comics provocavam filas em bancas de jornais e revistas, tal qual motivam hoje os jovens a irem ao cinema para assistir à produções milionárias cujas rendas ultrapassam os bilhões de dólares. Foi numa época em que os astros das duas editoras eram contados nos dedos, os famosos “meia dúzia”, período em que o Capitão Marvel (conhecido pela geração atual como Shazam) era publicado pela mesma editora do Superman, seu mais direto concorrente. A editora era a EBAL de Adolpho Aizen. Muitos personagens sequer chegaram ao Brasil. E olha que universo não faltava. Só os X-Men, surgidos no início dos anos 1960, somavam várias dezenas.

Pois, bem. Foi lá por 1970 que as filas se formavam em locais como a Agência Cury, na Galeria Brasil, Centro, onde hoje situa-se uma agência lotérica, a Livraria Católica e a AM Banca ambas situadas na rua XV de Novembro próximas a rua Governador, ou a Banca Gianetti embaixo da Rádio Difusora e nos anos 1990 no Shopping Piracicaba.

É nada vaga a recordação do ambiente de ostentação da Agência Cury, com capas de revistas que enchiam nossos olhos com os mais mágicos representantes dos quadrinhos. Formatinho, formato americano, tamanho poster ... publicações que nos deleitavam como a famosa capa do Superman enfrentando Mohammad Ali na “luta do século”. Claro que as atuais influências digitais sequer povoavam a imaginação seja de adultos quanto de crianças. Vamos dar um pulo num passado nada distante e lembrar dos cadernos de “catecismo” de Carlos Zéfiro que alimentaram a imaginação masculina.

Bom... por que todo este enunciado ? Outro dia comentei numa mídia social que eu “sou do tempo em que falar ‘cultura de gibi’ era dizer que a pessoa tinha um QI médio para baixo”. “Cultura de gibi” era uma forma até os anos 1980 de dizer que a pessoa tinha limitações de conhecimento. Eis-me que alguém comenta que hoje gibi é coisa de luxo. E realmente é. Quantos gibis desta década, você, nobre leitor, tem em casa ? Há quanto tempo não compra um gibi atual ? E por aí vai ... Claro que o processo natural de evolução fez com que os HQs perdessem a graça para as gerações atuais. Deve ser horrível enfrentar o entretenimento que fica na ponta de nossos dedos com movimentos e sons no smartphone enquanto os quadrinhos são estáticos e exigem leitura e interpretação.

O dia nacional dos quadrinhos – lembrado dia 30 de janeiro – foi criado para homenagear desbravadores que enfrentam as mídias digitais de forma constante. Claro que Piracicaba foi celeiro para muitos desenhistas (Lancast, os irmãos San Juan, Spadotto, Hussar, Edu Grosso, Longo, Douglas Mayer, e muitos outros resgatados por Adolpho Queiroz nas duas edições de “Piracartum”). Tem um salão internacional que premia aqueles que se dedicam às tiras, de onde vieram os principais personagens dos quadrinhos e do cinema.

Já “Para ler pato Donald” foi um dos primeiros itens teóricos a criar o negacionismo nas HQs. Todo mundo ria com Mickey. Todos riam com Pica-Pau. Mas, houve filósofos que viam nas gags apresentadas uma mensagem subliminar para dominar o coletivo. E “A guerra dos gibis”, de Gonçalo Júnior, mostra que a “era de ouro” dos quadrinhos não era apenas um era nostálgica, e sim um veio de ouro com quadrinhos vendendo milhares e milhares de exemplares, algo que hoje é impossível.

São exemplos para reler, rever e repensar, numa época em que antigos pensamentos se atualizam, como Dale Carnegie que ainda aparece entre os mais vendidos com seu “Como fazer amigos e influenciar pessoas” escrito há quase um século atrás.

E viva Angelo Agostini, homenageado por este dia nacional dos quadrinhos !

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 25 de janeiro de 2023 e na Tribuna Piracicabana de 28 de janeiro de 2023)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Câmara Entrevista fala sobre nosso blog

Entrevista com Edson Rontani Júnior no programa Câmara Entrevista da Câmara de Vereadores de Piracicaba, levada ao ar em 22 de julho de 2022.

O bate-papo fala sobre as fotografias antigas de Piracicaba que renderam blog, coluna na Tribuna Piracicabana e perfis no Facebook e no Instagram.