Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do
Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba
Dez
meses depois. Sim! Foi um tempo muito curto para que Piracicaba recebesse a
primeira exibição de um cinema no formato que conhecemos. A proeza ocorreu em
outubro de 1896 num barracão de terra situado à rua Moraes Barros próximo ao
Hotel Central em área onde hoje está o estacionamento do prédio que por muitos
anos abrigou o Banespa e mais recentemente o Santander, entre a praça José
Bonifácio e a rua Governador Pedro de Toledo.
A
magia da sétima arte havia sido apresentada para todo o Mundo durante exibição
em Paris, na França, no dia 28 de dezembro de 1895 por Auguste e Louis, os
irmãos Lumière, num café bastante frequentado. O cinematógrafo viajou de navio
e veio da Europa para o Brasil, aportando em Piracicaba. Não que seja o mesmo,
mas um dos que foram fabricados em larga escala como novidade para os olhos
humanos. Eram filmetes curtos mostrando pessoas passeando pela calçada, um
navio partindo para o alto-mar, um animal circulando e outras coisas que
chegavam ao nosso conhecimento apenas através dos livros ou dos teatros. Então,
imagine o que seria ver pela primeira vez um elefante descrito em “Viagem ao
Mundo em 80 dias”. Agora imagine o que seria vê-lo em movimento. Hoje é banal,
mas na época era revolução.
O
cinema já existia. Mas não no formato que conhecemos hoje. Não era exibido na
tela para um coletivo de pessoas. Era visto através dos cinetoscópios criados
em 1888 por Thomas Alva Edison – o inventor da lâmpada. Consistia-se numa
grande caixa de madeira onde a pessoa colocava um dos olhos e via um curto
filme de celuloide que se movimentava. Para se ter noção, um dos primeiros
filmes mostrava um assistente de Edison espirrando. Quanto dura um espirro?
Eram estes poucos segundo que entretiam as plateias das duas últimas décadas do
século retrasado. E as pessoas pagavam para isso. Como dito, algo banal hoje,
mas que revolucionou nosso modo de pensar e criou uma das maiores indústrias da
atualidade: a do entretenimento.
Klene
e Mewe trazem a cidade o cinematógrafo, o “espectro cinematográfico”, que
apresentaria um mundo nunca imaginado. Era algo de outro mundo conforme
anunciado pela Gazeta de Piracicaba nas primeiras semanas de outubro de 1896.
Nada de ar condicionado, nada de cadeiras, nada de som. E nada de cor. Todos em
pé, com receio pelo que poderia ocorrer no escuro e no chão batido. Assim foi a
primeira exibição do cinema em nossas terras.
Em
seu “Dicionário de Piracicabanos” (IHGP), Samuel Pfromm Neto relata que Klene e
H. Mewe apresentaram em Piracicaba o primeiro “cinematógrafo”, projetando
“vistas naturais animadas” em cinco horários sucessivos, com entradas ao preço
de um mil réis.
Tempos
depois, na esquina de baixo, onde se encontra hoje o Torra Torra existia um
restaurante e nele uma sala de audição. Na sala, um gramofone que tocava música
para que as pessoas ouvissem as gravações em disco de acetato. Som ardido. Sem
qualidade, mas que também espantava os piracicabanos. Também se pagava por
isso. Era a Confeitaria Progredior que em 1901 tornaria uma das primeiras salas
de exibição na cidade com filmes mudou no projetor Lumière.
Em
seguida, os teatros locais viram cine-teatros com palco e plateia disponíveis
confrontando com telões. A história mostra que o primeiro cinema permanente
existiu no antigo Teatro Santo Estevão, com a denominação “Cinematógrafo Cháritas”,
a partir de 5 de dezembro de 1908. As rendas do cinema destinavam-se à Santa
Casa de Misericórdia, proprietária do aparelho de projeção. Funcionou por pouco
tempo, na mesma época, o “Ideal Cinematógrafo”, em um barracão da rua Boa
Morte.
E
assim Piracicaba ajudou a propagar a Sétima Arte.
(publicado no Jornal de Piracicaba de 18 de outubro de 2026)

Nenhum comentário:
Postar um comentário