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quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Diz que é de Piracicaba, mas ...

 

Edson Rontani Júnior, piracicabano, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 

Diz que é de Piracicaba, mas nunca andou de elevador panorâmico na ponte arquiteto Caio Tabajara... Diz que é de Piracicaba, mas nunca visitou o Salão de Humor ... Diz que é de Piracicaba, mas nunca foi a Esalq ...

Tiradas como estas povoaram o Facebook anos atrás e, se a memória não atrapalhar, foi antes da pandemia, possivelmente em 2018, perpetuando-se por meses. Era um jogo de adivinhação salutar, com as lembranças sendo expandidas pelos comentários nas postagens. Atrás destes comentários, fazíamos a massa cinzenta cerebral reviver momentos gostosos do passado. Chegamos a mexer em coisas da tempo do Zagaia ! Quem ?!? Ora ! Que adianta dizer que é piracicabano e não conhecer Zagaia ? Aliás, usamos este termo sem saber quem foi distinta pessoa. Eu, confesso, não uso, mas ouço muita gente usar esta frase.

Bom. Este preâmbulo serve para dizer que, com mais de 400 mil habitantes, Piracicaba, acolheu muita gente que encontrou a “terra arada, semeada e com plantação dando frutos”, desconhecendo aqueles que por aqui lutaram, deram suor e sangue. Piracicaba como conhecemos é uma. Piracicaba como ela é realmente, torna-se outra. Os mais antigos e tradicionais a enxergam de uma forma diferente da visão dos “estrangeiros” que por aqui se aportaram.

É a “síndrome da ponta do nariz”. Pois, bem. Por mais que a ponta do nariz esteja diante de nosso olhar, nunca a notamos. Piracicaba é assim. Está na ponta do nariz e muitas vezes não damos valor aos pontos turísticos, à sua gastronomia, à sua riqueza cultural. Saímos do pejorativo “quintal de Campinas” para sermos o jardim de nossa própria cidade. Exemplos disso ? Vejam os motociclistas que, de outras cidades, vem a rua do Porto no final de semana ... Os pontos atrativos e turísticos cheios de pessoas durante as férias de julho, as movimentações em pontos de caminhada como o Parque da Rua do Porto ou a Estação da Paulista. Até outro dia saíamos no Shopping Center lendo as cidades de onde vieram o veículos – agora, com o novo design das placas do Mercosul, sabemos apenas que ele são do ... Brasil. Querer enxergar além da ponta do nariz exige um exercício que nos perpassa o estrabismo ou miopia, com grande ganho cultural.

Até os anos 1980, não tínhamos um centro cultural na Estação da Paulista. Tínhamos trens de carga que impossibilitavam nossa entrada no espaço. Hoje caminhamos, andamos de bicicleta, utilizamos equipamentos (com acessibilidade, inclusive)... O Engenho Central era tão fechado quanto a Chácara Nazareth ou o Casarão de Luiz de Queiroz. Eram pontos particulares. E hoje ? O Salão Internacional de Humor, que entra em agosto na sua 50ª. edição, é um bom exemplo desta ocupação.

Com a criação do calçadão da praça José Bonifácio, no início dos anos 1980, o piracicabano ganhou um moderno centro de lazer, muito além da ESALQ que proporcionava até então piqueniques, passeios de bicicleta ou empinar pipas. Os “Domingões” chamavam as famílias para a praça. Foi lá, aliás, que, com meus quase 10 anos, aprendi a jogar xadrez.

E a gastronomia ? Quem viveu os anos 80 comia o sanduíche churrasquinho do Bar do Décio, o prensadão da avenida Armando de Salles de Oliveira ou a canja ou sopa de cebola do Saravá. Que mais ? Tínhamos de esperar um ano todinho para provar uma esfirra aberta na Festa das Nações que ocorria no Lar Franciscano de Menores. Pastel, então, apenas no Mercado Municipal, consumido somente no horário comercial – impróprio para quem trabalha o dia todo. Churros ? Apenas na Eletroradiobraz (atual Pão de Açúcar da Cidade Alta). E hoje ? Compramos churros e esfirras a qualquer momento e por aplicativo ! Muitas famílias iam para Campinas visitar o Makro, primeiro atacadão da região. E ter a carteirinha desta rede era símbolo de status. “Fui a Campinas e comprei galão ou pacote de tal produto, algo inacessível a você” ... Era o “ó do borogodó” ... Ostentação para poucos. O Makro abriu em Piracicaba fechou suas portas em abril passado e ninguém deu conta ...

Melhorou ou não ? Muitas outras referências tivemos ao longo deste período, claro. Destaco aqui alguns poucos, devido à limitação do espaço.

Vivemos períodos pós pandemia, voltando a circular pelos pontos turísticos. O fato não é conhecer o que já se conhece e sim enxergar além da ponta do nariz. Ver a beleza de pontos como o Aquário Municipal – recentemente reaberto –, os Teatros Municipais, saborear uma boa gastronomia à beira do rio Piracicaba ... Enxergar com amor é acabar com estereótipos e principalmente preconceitos.

Pois, bem. Nos últimos dias, o poder público municipal nos deu a chance de conhecer ou revisitar locais. Um ônibus colocado a disposição, levou as pessoas para subir o elevador ao lado da Ponte do Mirante ! Isso, durante a semana e em horário comercial ! O piracicabano teve a chance de conhecer ou revisitar a história da Estação da Paulista (que já foi um sambódromo na segunda metade da década de 1990 – e ninguém lembra disso !), Estádio Barão da Serra Negra, Cemitério da Saudade, Esalq, Museu da Água, Aquário Municipal, Engenho Central, Ponte Pênsil, Casa do Povoador ... Ufa ! Além disso, pôde ver como é a logística da Polícia Militar no hangar do helicóptero Águia e as obras de Volpi nas paredes da capela do Monte Alegre.

Ou ainda partir para os redutos dos tiroleses em Santana e Santa Olímpia, onde souberam que Olímpia não é santa e sim diaconisa. Existe vida além da cucagna e também da Festa da Polenta. Enxerga quem quiser.

Aliás, confesso que vivi míope por muitos anos. Por 37 anos morei a três quadras da Estação da Paulista e nunca vi um trem na vida. Apenas conheci a Maria Fumaça quando fui para Jaguariúna proporcionar ao meu filho algo que eu nunca tinha visto ou vivido. Também nunca pisei no Barão mesmo sendo neto de um dos presidentes do XV (Humberto D’Abronzo) e filho do criador do Nhô Quim (Edson Rontani). Neste tempo todo, eu devia usar um “fundo de garrafa” e não sabia ...

Finalizo parabenizado a Semdettur pelo projeto Férias – Visite Piracicaba, encerrado sexta-feira passada. Consegui mais uma vez tirar meu estrabismo e minha miopia e enxergar além do nariz, vendo uma Piracicaba tão bela quanto ela é. Parabéns à equipe – Fernanda (coordenadora), Júlia (guia turística) e Reinaldo (motorista), além da Patrícia guia em Santa Olímpia. Que venham mais ações como estas em dezembro/janeiro. Feliz 265 anos, Piracicaba !

(Artigo publicado na Tribuna Piracicabana em 02/08/2023 e, de forma resumida, no Jornal de Piracicaba em 30/07/2023)


quarta-feira, 5 de julho de 2023

Uma das melhores socializações

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 

Piracicaba tem socializações “raízes”, como ir ao Estádio Barão da Serra Negra ver nosso centenário XV de Novembro, dar um “rolê” no Shopping Piracicaba, caminhar pela ESALQ, almoçar na rua do Porto e passear pelo Mercado Municipal. Pois, bem. É este último que está aniversariando esta semana, chegando aos seus 135 anos de fundação.

Segundo a seção “Efemérides” do Almanak de Piracicaba 1900, foi em 5 de julho de 1888 que se inaugurou a praça do Mercado.

Quem nunca passou por este centro de compras? De grande varejão, para um local de uma refeição prazerosa, pela busca de um condimento ou para a mistura da semana. Ponto de encontro para os cafés matinais aos finais de semana, como uma forma imperdível de ver os amigos e colocar a conversa em dia. Ponto de passagem para muitos amigos vistos pela última vez e que partiram sem se despedir durante a atual pandemia.

Floripes Maria D’Avila, dentista e escritora de mão cheia, descreveu muito bem suas recordações no espaço, recebendo o prêmio Santander de Redação, alguns anos atrás, expondo sua infância pelos corredores do Mercado.

O Mercado Municipal surgiu numa época distante. Numa condição social diferente daquela que temos hoje, com supermercados, hipermercados e atacadões por todos os cantos. Era o ponto de venda da safra de hortifrutigranjeiros, num período em que nem tudo era encontrado em prateleiras ou gôndolas. Muito menos vendidos em pacotes ou latas como temos hoje.

Guilherme Vitti que organizou quase toda a história de Piracicaba com o acervo da Câmara de Vereadores, disse que Prudente de Moraes – futuro presidente da nação – foi o responsável por esboçar a função social do Mercado. Em maio de 1887, ele mais o dr. Paulo Pinto, ambos pertencentes à Comissão incumbida de organizar um projeto de lei para regulamentar o funcionamento do Mercado, criam um regimento interno com 32 artigos. Pelo jeito, foram bem exigentes.

Seu primeiro artigo define a finalidade do Mercado: A praça do mercado é destinada a servir de centro à compra e venda de gênero alimentícios destinados ao consumo desta cidade, quer sejam procedentes deste município, quer de outros.

Seu segundo artigo prega a mudança de horário durante duas fases do ano: durante o verão e o inverno. Curioso é ver outros artigos como o 4 que prevê o uso de quartos reservados exclusivamente para os gêneros alimentícios. Assim como os postos de gasolina da atualidade, o artigo 31 determina que o administrador do Mercado afixe em lugar conveniente a tabela de preços.

O Mercado sofreu adaptações. Assim como o seu entorno. O bolsão de estacionamento foi denominado de praça Alfredo Cardoso, médico também homenageado com escola no Bairro Alto, onde localizava-se uma estação de tem da Cia. Ytuana. Nascido em Piracicaba no ano de 1876 faleceu aos 33 num trem na Estação da Sorocabana em Charqueada em 1910. Era médico formado no Rio de janeiro em 1900. Foi diretor clínico da Santa Casa de Piracicaba e atuava no asilo de São Pedro. Foi o primeiro profissional a realizar cirurgia cardíaca na cidade. Teve a primeira motocicleta motorizada da cidade, a qual encontra-se no Museu Prudente de Moraes. Seu consultório situava-se na rua Governador Pedro de Toledo (antes rua do Commércio e rua João Pessoa) em casarão hoje inexistente situado em frente ao Mercado. Operava em sua própria casa.

Pelos corredores do Mercado passaram vários políticos em períodos eleitorais. É um local de nostalgia principalmente por encher os olhos de muitas crianças no nosso eterno “O Cacau” de Basso Rolim, cujo negócio ainda está ativo com seus filhos. Por ali passaram os Spironello e por lá ainda levantam cedinho de segunda a segunda os Usberti, Pandolfe, Cenoura, Libardi, Magro e tantos outros. Vida longa ao nosso “Mercadão”!

(Publicado no Jornal de Piracicaba em 05/07/2023)


segunda-feira, 24 de abril de 2023

Ano três

Edson Rontani Júnior, jornalista

Pego meu celular. Não sei por que cargas d’água resolvi editar meus contatos telefônicos. Logo no início, excluo um número. “Morreu de covid”, lembrei. Mais para frente, outro excluído pelo mesmo motivo. E assim foi. Três ... quatro ... cinco ... Perdi as contas! Amigos que se tornaram estatísticas, meros números no quadro de falecimentos por este temível SARS-CoV 2, cujo estado de alerta mundial completa três anos em março.

Foi em março de 2020 que shoppings centers cerravam suas portas por tempo indeterminado. Jogos de futebol deixaram de ser realizados. Novelas voltaram às reprises sem novas gravações. O #fiqueemcasa foi a hashtag do momento. E a vacina não chegava. Quando chegou, acabou gerando muitas dúvidas. Mas criou aquilo que se chama de imunização de rebanho.

Pelo mundo, as pessoas morriam e eram deixadas na rua para não contaminarem os demais. O serviço funerário atuou como nunca, com sepultamentos à noite e sem direito a velórios ou despedidas dos familiares. Na Índia, o clamor para que os próprios familiares cremassem seus entes pois a estrutura era insuficiente para atender, digamos assim, a “demanda” da ocasião.

Curioso é saber que em 8 de março de 1918 tivemos o início da pandemia anterior, data em que foi registrada a primeira vítima fatal da gripe espanhola, que matou cerca de 50 milhões de pessoas.

No ano três da pandemia, as vacinas começaram a ser aplicadas ... Primeira ... segunda ... terceira ... quarta dose ! Agora, sim ! Imunizados. Mas, para surpresa, a covid bate em meu lar. Uma noite gelada do final de maio, nos obriga a realizar o temível exame do cotonete. Positivo ! Esse foi o veredito após cerca de seis horas de espera no atendimento médico, cujo passar da noite se tornava mais gelada, fria e temerosa pois mais de 100 pessoas se acomodavam no ambiente. “Se não estou com covid, eu pego aqui, de tanta gente tossindo ao meu lado”, balbuciei ... Felizmente saio precavido, negativado, mas um membro da família não teve a mesma sorte. Foram vários dias de repouso e temor por suas consequências.

Chegamos ao meio de 2022 e parece que a doença pandêmica deu uma trégua. Aos poucos, as máscaras são deixadas de lado, o álcool gel demora para ser consumido ... Relaxamos geral processo considerado natural. Tudo reabre. Não há mais obrigatoriedade de máscaras, distanciamentos ... O ritmo retorna ao normal prevendo eleições que se aproximariam, Copa do Mundo que foi programada para novembro/dezembro e os encontros familiares e com amigos naquele restaurante tradicional. A vida volta ao normal.

Mas ainda me pego surpreso de ter perdido amigos e amigas como disse no início. Eram números em minha lista de telefone, tornaram-se números nas divulgações de não curados e falecidos. Foram Antonios e Marias que hoje deixam saudade no seio familiar ou no círculo de amizade. Pessoas a quem desejávamos o bom dia quando os encontrávamos no café nas manhãs de domingo no Mercado Municipal. Muitos deixam saudade e tristeza demonstrando o quão terrível é esta doença conhecida por covid/19 ou coronavírus.

“Todo mundo vai pegar”, disse um amigo. E eu, forte, valente, fugia da doença como quem foge do tempo que nos torna velhos. Quanto mais se foge, pior é. Ouvi muito disso. Eis que no início deste mês, a doença bate novamente na porta de minha residência. “Desta vez não tem jeito, vou ter que abraçar esta ‘tendência’ mundial”, disse sem muita opção. “Tomou vacina ?”, me perguntaram. “Sim ! Quatro ! E antes que muita gente por trabalhar no setor de saúde”, argumentei. Mas de argumento e teorias da conspiração, há muita coisa que nossa vã filosofia possa não entender. E assim, entramos no ano quatro da pandemia que não tem data para terminar.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

E o Titanic submergiu ...

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Li estes dias que “Titanic”, o filme de 1997, retorna às telas esta semana. É a terceira maior bilheteria do cinema, que junto a “Avatar” (2009) e “Avatar – O Caminho das águas” (2022) dão o título a James Cameron como o cineasta que fez três dos quatro filmes mais assistidos e rentáveis de toda a história.

Isso me trouxe à memória as exibições que tivemos em Piracicaba deste filme que, por trás de um romance meloso, mostrava o grande desastre do transatlântico naufragado em 15 de abril de 1912. Quando lançado 25 anos atrás, “Titanic” foi exibido nas salas do Cine Center, no Shopping Piracicaba, coordenado pelo Grupo Paris Filmes. Era de ver o brilho nos olhos de Márcio Fraccaroli, CEO do Grupo Paris, e do “seu” Silvio, gerente das salas, a rotatividade de pessoas que comprava ingressos para apreciar a obra na telona. Cabe ressaltar que nesta época, houve uma debandada muito grande do público diante das salas exibidoras motivada pelo VHS. A fita de vídeo-cassete era a vilã por trás de tudo. Mas, nas semanas em que o longa ficou em exibição, as salas lotaram. Ainda não havia cobrança de estacionamento neste centro de compras.

Meses depois, “Titanic” foi exibido por semanas a fio na Sala Grande Otelo do Cine Arte, no complexo do Teatro Municipal Dr. Losso Netto. Era algo comum na ocasião. Reprises por semanas. Me recordo que, por força do ofício – eu era cinéfilo e comentava sobre cinema num jornal local e numa emissora de rádio –, “Dirty Dancin’ – Ritmo Quente” (1987) ficou em cartaz por oito semanas na Sala Grande Otelo.

Toda esta rememoração nos traz a nostalgia das salas exibidoras da cidade. A rua Benjamin Constant possuía três cinemas, de responsabilidade de Francisco Andia, que nos anos 1960 tinha sua produtora a Águia Filmes. O primeiro era o Cine Colonial. O segundo era o Cine Rivoli, com quase 1 mil assentos, e o último era o Cine Paulistinha, na altura da Paulicéia. Tivemos também o Cine Politeama e o Cine Brodway nas proximidades da praça José Bonifácio. Eles tiveram outras denominações ao longo do tempo, assim como tivemos outros cinemas na cidade. Um deles, nos anos 1920, situava-se na rua Governador Pedro de Toledo, onde foi a Fábrica de Balas Petrin, hoje, filial de um supermercado. Assim, vamos nos ater aos cinemas existentes nos anos 1980 e 1990.

Aliás, pouco antes, entre as décadas de 1970 e 1980, era comum a fila “dobrar a esquina” – ou as esquinas – no Rivoli. Filmes de Mazzaropi e Os Trapalhões faziam a fila iniciar-se na Benjamin, virar a XV de Novembro e finalizar na avenida Armando de Salles Oliveira, bem em frente a saída de emergência do Rivoli. Foi assim, com “King Kong” (1976), “De Volta para o Futuro” (1984), “O Segredo do Abismo” (1989) – olha James Cameron de novo – e tantos outros. Recordo-me que ao assistir “Os Trapalhões no Planeta dos Macacos” (1976) as únicas cadeiras vagas eram aquelas da primeira fileira, nos obrigando a uma ginástica com o pescoço e os olhos para acompanhar o andamento das cenas na telona. Bendito seja quem implantou a venda de cadeiras enumeradas no cinema a exemplo do que ocorre nos ônibus e aviões !

Cabe ressaltar que o Cine Arte tinha este nome por ser uma espécie de cinemateca. Era uma sala pequena. Duas, se não me falha a memória. Foi lá que assisti às reprises dos filmes “O Jovem Frankenstein” (1974) de Mel Brooks, “Metrópolis” (1984) de Fritz Lang restaurado por Giorio Moroder e obras de Alfred Hitchcok, liberadas por sua viúva após mais de 30 anos sem circulação.

O Grande Otelo fechou suas portas não ao acaso. Situava-se no Teatro Losso Neto, na rua Santa Cruz. Local de alagamentos quando chove. Alguns devem se lembrar do Pronto Socorro Central, ali próximo, desativado por conta das inundações. Certa noite, em 1998 ou 99, numa reprise de “Titanic” o público sente os pés molharem ... Não era efeito ... Era a água do toró que caia lá fora adentando no recinto. A inundação chegou a altura dos assentos, obrigando muita gente a sair pelas janelas do banheiro. Que naufrágio ...

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 08 de fevereiro de 2023)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Cultura de gibi


 

Edson Rontani Júnior, jornalista, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Houve tempo em que os medalhões da Marvel e da DC Comics provocavam filas em bancas de jornais e revistas, tal qual motivam hoje os jovens a irem ao cinema para assistir à produções milionárias cujas rendas ultrapassam os bilhões de dólares. Foi numa época em que os astros das duas editoras eram contados nos dedos, os famosos “meia dúzia”, período em que o Capitão Marvel (conhecido pela geração atual como Shazam) era publicado pela mesma editora do Superman, seu mais direto concorrente. A editora era a EBAL de Adolpho Aizen. Muitos personagens sequer chegaram ao Brasil. E olha que universo não faltava. Só os X-Men, surgidos no início dos anos 1960, somavam várias dezenas.

Pois, bem. Foi lá por 1970 que as filas se formavam em locais como a Agência Cury, na Galeria Brasil, Centro, onde hoje situa-se uma agência lotérica, a Livraria Católica e a AM Banca ambas situadas na rua XV de Novembro próximas a rua Governador, ou a Banca Gianetti embaixo da Rádio Difusora e nos anos 1990 no Shopping Piracicaba.

É nada vaga a recordação do ambiente de ostentação da Agência Cury, com capas de revistas que enchiam nossos olhos com os mais mágicos representantes dos quadrinhos. Formatinho, formato americano, tamanho poster ... publicações que nos deleitavam como a famosa capa do Superman enfrentando Mohammad Ali na “luta do século”. Claro que as atuais influências digitais sequer povoavam a imaginação seja de adultos quanto de crianças. Vamos dar um pulo num passado nada distante e lembrar dos cadernos de “catecismo” de Carlos Zéfiro que alimentaram a imaginação masculina.

Bom... por que todo este enunciado ? Outro dia comentei numa mídia social que eu “sou do tempo em que falar ‘cultura de gibi’ era dizer que a pessoa tinha um QI médio para baixo”. “Cultura de gibi” era uma forma até os anos 1980 de dizer que a pessoa tinha limitações de conhecimento. Eis-me que alguém comenta que hoje gibi é coisa de luxo. E realmente é. Quantos gibis desta década, você, nobre leitor, tem em casa ? Há quanto tempo não compra um gibi atual ? E por aí vai ... Claro que o processo natural de evolução fez com que os HQs perdessem a graça para as gerações atuais. Deve ser horrível enfrentar o entretenimento que fica na ponta de nossos dedos com movimentos e sons no smartphone enquanto os quadrinhos são estáticos e exigem leitura e interpretação.

O dia nacional dos quadrinhos – lembrado dia 30 de janeiro – foi criado para homenagear desbravadores que enfrentam as mídias digitais de forma constante. Claro que Piracicaba foi celeiro para muitos desenhistas (Lancast, os irmãos San Juan, Spadotto, Hussar, Edu Grosso, Longo, Douglas Mayer, e muitos outros resgatados por Adolpho Queiroz nas duas edições de “Piracartum”). Tem um salão internacional que premia aqueles que se dedicam às tiras, de onde vieram os principais personagens dos quadrinhos e do cinema.

Já “Para ler pato Donald” foi um dos primeiros itens teóricos a criar o negacionismo nas HQs. Todo mundo ria com Mickey. Todos riam com Pica-Pau. Mas, houve filósofos que viam nas gags apresentadas uma mensagem subliminar para dominar o coletivo. E “A guerra dos gibis”, de Gonçalo Júnior, mostra que a “era de ouro” dos quadrinhos não era apenas um era nostálgica, e sim um veio de ouro com quadrinhos vendendo milhares e milhares de exemplares, algo que hoje é impossível.

São exemplos para reler, rever e repensar, numa época em que antigos pensamentos se atualizam, como Dale Carnegie que ainda aparece entre os mais vendidos com seu “Como fazer amigos e influenciar pessoas” escrito há quase um século atrás.

E viva Angelo Agostini, homenageado por este dia nacional dos quadrinhos !

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 25 de janeiro de 2023 e na Tribuna Piracicabana de 28 de janeiro de 2023)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Câmara Entrevista fala sobre nosso blog

Entrevista com Edson Rontani Júnior no programa Câmara Entrevista da Câmara de Vereadores de Piracicaba, levada ao ar em 22 de julho de 2022.

O bate-papo fala sobre as fotografias antigas de Piracicaba que renderam blog, coluna na Tribuna Piracicabana e perfis no Facebook e no Instagram.


sábado, 31 de dezembro de 2022

A Piracicaba de 2022

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Olhar para o passado. É nisso que este artigo se propõe. No passado podíamos tentar enxergar o presente. Pelo menos é o que se propôs o professor Honorato Faustino, quando, em 1922, teve a ideia de criar uma cápsula do tempo. Instalada no centenário da independência brasileira e acoplada à parede da hoje Escola Estadual Sud Mennucci, ela manteve-se intacta – uma caixa de cobre – por cem anos.

Seu teor foi revelado em 15 de novembro passado, no auditório do Museu Prudente de Moraes, embora ela tivesse sido retirada do local depositado no feriado anterior, 7 de setembro. Na revelação, os presentes acompanharam momentos preciosos como as palavras de Roberto Faustino, bisneto de Honorato, que emocionou a todos ao contar que sua alfabetização começou antes dele frequentar as cadeiras escolares, lendo e decorando um livro que seu bisavô fez com o alfabeto e imagens, para as crianças assimilarem cada vogal e cada consoante. Outros se deleitaram com o violino de Luis Fernando Fischer Dutra que executou pela primeira vez uma composição de seu bisavô Benedito Dutra Teixeira enclausurada por 100 anos na cápsula. Ocorreram outros momentos, como a fala de Carlos Beltrame sobre a carta de seu avô, professor da então Escola Complementar, ou algumas leituras feitas pelo historiador Maurício Beraldo, sendo muitos relatos pessoais de alunos, professores e membros da comunidade piracicabana de 1922.

Piracicaba respirava ares pós Primeira Guerra Mundial e saía aos poucos da pandemia da gripe espanhola. Aliás, nesta convulsão sanitária, cabe ressaltar que a Escola Sud Menucci serviu de hospital de campana para as dezenas de pessoas afetadas pelo vírus influenza entre 1918 e 19.

Foram mais de 600 documentos colocados na cápsula. Isso mostra a força que possui o papel. Dentre tantos outros meios é o que mais resiste com o tempo, seja em décadas, séculos ou milênios. Boa parte já foi catalogada e está sendo gradualmente divulgada pelo setor de Gestão e Documentação e Arquivo da Câmara de Vereadores de Piracicaba, através das mídias sociais.

Dentre as cartas lidas por Beraldo uma me chamou a atenção. Uma pequena jovem dizia que a cidade estava em polvorosa com a vinda de aeroplanos (o primeiro avião que aqui pousou veio em 1º de maio de 1922) e a inauguração da Estação da E. F. Paulista. Ela mandava seu recado esperando que em 2022 a cidade tivesse muito mais aviões pelos céus, bondes e trens pelas ruas e que os jornais pudessem ter uma circulação de 90 mil exemplares para informar a cidade. Piracicaba contava com cerca de 30 mil habitantes na ocasião. Os desejos acabaram não atendidos com o passar do tempo ...

A cápsula tenha receita do dr. Honorato – além de professor, ele era médico – para acalmar os nervosos. Também foram deixadas fotografias inéditas até novembro passado. Muitas delas curiosas. Uma das cartas escritas pela jovem Aracy de Almeida comenta sobre a moda do piracicabano que, a exemplo do resto do país, tinha forte influência da França (o inglês só teve sua participação cotidiana no Brasil após a Segunda Guerra Mundial), na qual predominavam vestido longo para mulheres e ternos para os homens enfrentarem o calor que por aqui ultrapassa aos 35 graus em pleno verão !

Raridade foi encontrar um original de Archimedes Dutra na cápsula, em papel timbrado da escola com o esboço do perfil de um crânio. Como deve ter se deliciado os historiadores ao abrirem esta caixa !!!

Piracicaba respirava ares cosmopolitas em 1922, equiparando-se a Nova Iorque ou Rio de Janeiro. Pelo menos é o que diz carta de Alzira de Souza Gabbi (4º ano), endereçada ao atual prefeito da cidade, encerrando com uma interrogação: “conterrâneos de 2022! A fantasia idealizada pela minha imaginação ter-se á realizado? Oxalá que sim!”.

O presente está aí. Que tal comparar com o que era esperado cem anos atrás ? Boas festas de virada de ano !  

Artigo publicado no Jornal de Piracicaba de 28 de dezembro de 2022

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Fantasmas do passado e do presente

* Edson Rontani Júnior

Acordo assustado com o primeiro badalar da madrugada do sino da Catedral de Santo Antonio. Ensonado, abro os olhos. Vejo uma presença estranha em meu quarto. “Que faço?”, pensei. Será que eu continuava dormindo ou isso fazia parte real do meu sonho?

“Olá ! Sou o espírito do Natal passado”, me disse numa voz lânguida. Pronto ! Estava eu viajando nas páginas do clássico de Charles Dickens quando, de forma nada sorrateira, o Natal passado me leva lá por volta de 1690. “Aqui é a cidade que vocês no futuro chamarão de Piracicaba”. Estranho tudo. Era só matagal. Sesmaria dada a Pedro de Morais Cavalvanti que nunca ocupou a região. Passeamos pelo lado direito de um rio. A natureza em sua mais bela exuberância. Animais e mato. Sem a presença do ser humano. Por décadas a região ficou assim, ora servindo de entreposto por aqueles que buscam destinos como Itu ou as minas de ouro de Cuiabá, entre outros.

Num grande salto, o fantasma passado me leva para quase 50 anos depois. Era 1767. Encontro-me com um certo capitão denominado de povoador. Homem ranzinza, bravo e autoritário. Estava em briga com os religiosos. Tentava habitar uma vila.

Evidente que ninguém podia nos ver. Nem eu nem o fantasma do passado. Me senti como se fosse o próprio Ebenezer Scrooge, quando a nossa frente passa Antonio Pacheco da Silva, sargento-mor de Itu, com uma lista feita a mão, talvez escrita com bico de pena, com aquelas tintas que borram com o simples passar dos braços suados. Foi aí que descobri para o que servia o “mata-borrão”... Pacheco se aproxima e conversa com o capitão, um tal de Antonio Correia Barbosa: vos lhe apresento o censo de Piracicaba: “crianças do sexo masculino desde a primeira idade até 7 anos = 37; crianças do sexo feminino da mesma idade = 26; rapazes desde 7 anos até 15 = 21; raparigas desde 7 até 14 = 17; homens desde 15 a 60 = 61; mulheres de 14 até 50 anos = 61; velhos de 60 anos para cima = 3; velhas de 50 anos para cima = 5. Total - 231 habitantes. Fogos (casas) – 45”.

Rapidamente, voamos por décadas mais tarde e vemos a cidade receber a denominação de Vila Nova da Constituição. Justa – na época – homenagem à Coroa Portuguesa que elaborava nova Constituição para o país ibérico. Como o tempo e o espaço eram curtos naquela noite, o fantasma do passado me apresenta uma série de fatos e pessoas as quais não conheci fisicamente mas ouvi muito falar e cujas histórias li em algum lugar ... Luiz Dias Gonzaga, Honorato Faustino, Mario Dedini, Luciano Guidotti, Mazzola, Alberto Vollet Sachs, Caetano Rosa, Castro  Mendes, os Dutra, os Chiarini, os Gurerrini, alguns barões ... Me apresentou até o primeiro prefeito da cidade, um tal de José Machado, que não tem nada a ver com aquele que você está pensando .... Tanta gente que fez parte da cidade, semeou um campo fértil do qual muitos hoje desfrutam.

Bléim, bléim ... Acordo assustado novamente. O segundo badalar da madrugada me assusta. Pensei que tudo tivesse sido um sonho. Viro o rosto para o criado-mudo e vejo uma figura, tipo bonachão sentada. Pensei ser o fantasma da Natal presente. “Sou o fantasma do Natal presente”, disse. Eita madrugada longa ! Cadê aquele matagal no entorno do rio ? Cadê aquela vastidão verde que vi com o fantasma passado? “O ser humano ... Mais de 90% daquela mata foi consumida pelo ser humano nestes 255 anos”. Me calo. A consciência dói. Talvez por isso que faz tanto calor na cidade, como bem atestamos no dia a dia. Dos 231 habitantes vamos para quase 420 mil pessoas na cidade. Outras coisas me foram apresentadas pelo fantasma do presente. Prefiro ficar quieto, pois ainda estava ensonado e não sabia se aquilo era realidade ou estava eu em devaneios pelos braços de Morfeu...

Caio no sono de novo. Terceiro badalar do sino da Catedral. “Pronto ! Lá vem o fantasma do futuro”, pensei. Enfio a cabeça embaixo do travesseiro e me recuso a levantar. Afinal, futuro a gente constrói ... ou foge dele ...

Publicado no Jornal de Piracicaba em 14 de dezembro de 2022 e na Tribuna Piracicabana de 24 de dezembro de 2022