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sábado, 23 de setembro de 2023

Hotéis e concierges de Piracicaba

 Edson Rontani Júnior – jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 

Almeida Júnior, pintor que viveu do mecenato de Dom Pedro II, foi morto em frente a um hotel. Na região, o Grande Hotel de Águas de São Pedro funcionou como cassino. Dom Bertrand de Orléans e Bragança se hospedou no Hotel Beira-Rio em 2021. Estes são alguns fatos que nos remetem a hotéis da região de Piracicaba. Mesmo em época de hostess, moradas em containers e Airbnb, os hotéis ainda são sinônimos de luxo, não apenas em Piracicaba, mas mundo afora.

Isso tudo teve seu ponto de partida ao comentar dias destes com o amigo cirurgião-dentista Waldemar Romano sobre a arquitetura do Hotel Paulista. Uma foto que estampava o Teatro Santo Estêvão trazia à uma de suas laterais – onde se encontra hoje o Poupatempo Estadual – referida acomodação, numa arquitetura de dois pavimentos, com portas e varandas altíssimas, como aqueles casarões dos anos 1700 e 1800 que vemos em cidades com Tietê e Itú. Segundo Romano, ao lado deste, também sitou-se o Hotel do Lago, da família do compositor e ator Mário Lago, naquilo que era conhecido como o Largo do Teatro, na então praça 7 de Setembro (hoje, praça José Bonifácio). Não muito distante tivemos também o Hotel Central e décadas depois o Grande Hotel, próximo ao Mercado Municipal.


Estas rememorações surgem pois foram várias as contribuições destes hotéis para a cidade. Não apenas pela arquitetura de dois séculos atrás retidas apenas em pouquíssimas fotos como também para a vida social e a vida profissional da cidade. Um dos exemplos foi Aurora Conceição que por aqui clinicou como médica, formada pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, atendendo moléstias de senhoras e perturbações digestivas. Chegou a residir no Hotel Central de 1929 a 1931. Outra situação, desta vez de movimentação social: o Hotel do Lago, aliás, era ponto de partida dos troles que funcionavam com tração animal – atuavam como transporte coletivo na época – saindo pontualmente às cinco horas da manhã, isso em 1900.

A dimensão de alguns fica por conta da imaginação do leitor. Poderiam ter sido albergues, pensões, ou redutos de romeiros e retirantes. Samuel Pfromm Neto no seu “Dicionário de Piracicabanos” (Editora IHGP) lembra do “Hotel Europa”, situado na rua Governador, pertencente aos pais de Ida Schalch (o pai era engenheiro suíço e a mãe era alemã), uma das primeiras missionárias brasileiras educadas por metodistas.

Cartões postais nem tanto, mas os almanaques que povoaram Piracicaba no século passado traziam divulgações (textos e publicidades) de hotéis locais. Aliás, este era o papel dos almanaques, realizar a divulgação da cidade para o “estrangeiro nacional”.

Luciano Guidotti foi um cultuado “mestre de obras”. Criou a Pinacoteca, canalizou o Ribeirão do Itapeva, finalizou em seu segundo mandato o Estádio Barão da Serra Negra e tinha por intenção criar o Hotel Municipal. Este estava situado no parque ecológico de Luiz de Queiroz, pouco antes da Ponte dos Irmãos Rebouças, sentido Centro-Vila Rezende. O local também foi denominado de Parques Sachs em homenagem a André Sachs, onde, na segunda metade do século 1800, a sociedade piracicabana desfilava. Era o espaço onde ocorriam os piqueniques, apresentações de bandas em coreto edificado, e disputas de “partidas hamburguesas” ou boliche. O Hotel Municipal começou a ser erguido na década de 1960. Foi passado para iniciativa privada e arrematado anos atrás pela família que administra o Beira-Rio Palace Hotel.


Os hotéis locais também eram ponto de referência para a gastronomia. Anúncio em jornal de 1882 deixava claro que o Hotel Piracicabano, sr. Vicente Russo, disponibilizava a partir das 8 horas bifes a 400 réis com batatas ou ovos. Vicente comprou o hotel de Modesto Antonio Corrêa Lemos e este situava-se, lá por 1880, no Largo do Teatro. “O Piracicaba”, jornal da época o definiu como antigo e acreditado hotel, com cômodo e comida todas as horas e serventes para promover o giro do estabelecimento, além de veículos de tração animais para passeios, viagens e transporte para as estações da Paulista e Ituana.


Referência na cidade, o “Hotel dela Giardineira” situava-se onde próximo de encontra-se hoje a rede Oyo, rua XV de Novembro esquina com a Benjamin Constant. Era propriedade dos irmãos italianos – Paulo e Ricardo Pucci – e Archile Ghiara. Tinha quartos também para solteiros com gastronomia italiana. Para uma viagem ao tempo como esta, não se paga passagem ...

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 20 de setembro de 2023)

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Criadores e conteúdos

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba


É oco por dentro. Mas dentro tem água. Um coco alimenta tanto pelo seu líquido quanto por sua polpa. Mas não deixa de ser oco. Curioso é ver que muitos conteúdos são ocos, mas não tão nutritivos quanto o coco que nos beneficia pelo sabor, pelos nutriente etc etc etc ...

O caos proporcionado pela informação nos joga num mundo sem lei tal qual o bandido que saca a arma para duelar com o xerife no velho oeste americano. Daí é que surge o caos da informação, do entretenimento e do conteúdo. Mas ... que raios ?!?! Onde chegar com esta conversa ? Simples ... estamos sendo bombardeados por conteúdos ocos todos os dias, fazendo com que isso seja uma necessidade, criada pelo incrível poder midiático, e, assim mesmo nos extasiamos, de tanta banalidade. Ué ! Você já notou algo enriquecedor intelectualmente no Tik Tok ? Ou já se deu conta do modismo que vemos nesta plataforma – e não tão somente nela – fazendo com que a sociedade mude conceitos e comportamentos ? Isso me faz lembrar aquela máxima : não é porque todo mundo está fazendo que está certo; e não é porque apenas uma pessoa está fazendo que está errado. O errado é errado mesmo que todos o estejam fazendo. Mas, a quem compete julgar ? Complicado, não ?

Nosso papel como escritores não é lançar conceitos e ponto final. A intenção é movimentar a “massa cinzenta” e botar os neurônios a funcionar. Dizem que a leitura abre portas para o mundo, elucida pré-conceitos, leva-nos a novos caminhos. Tudo bem, até aí.

Mas algo me instigou nesta semana que se passou. Nosso ilustre diretor do JP, Marcelo Batuíra, esteve presente na sessão de posse da Academia Piracicabana de Letras, realizada na última quarta-feira na Câmara de Vereadores, na qual inclusive tal nobre advogado e representante da imprensa local assumiu a cadeira de Archimedes Dutra. Em seu pronunciamento, Batuíra foi muito feliz ao citar que escritores, jornalistas, poetas e outros são “criadores de conteúdo”, embora ele, com certa ironia, disse nem saber do que se trata isso.

O embate está em seu primeiro round, numa interminável disputa. Está começando e não se sabe onde vai parar. Filosofias elucidativas, longas páginas de livros, conteúdo intelectual de primeira e outras manifestações aprofundadas se afastam do conhecimento humano pelos três parágrafos cada qual com três linhas que os estudiosos apontam como caminho para a mente humana se prender e entender determinado assunto quando algo é postado no Instagram.

Isso me lembra a teoria do canadense Marshall McLhuan que previa o encurtar as barreiras e termos uma globalização interminável, criando a denominada “aldeia global”. Ótima visão do futuro quando ele teorizou isso. Misto a isso nos vem a memória do Grande Irmão (o Big Brother) criado por George Orwell em 1949 que também anteviu um mundo controlado pela tecnologia, porém com poder de inibir qualquer pensamento ou sentimento. Posso citar teorias de Eric Hobsbawn ou Gay Talese, entre outros papas da comunicação, os quais previram tudo o que estou comentando: a informação como meio de entreter, informar (ou desinformar ?!?), comercializar e fazer o meio mais importante que a mensagem. As fake news são prova disso.

Intelectuais, propagadores da mensagem – com credibilidade por carreiras bem pontuadas – jornalistas, escritores, historiadores e outros profissionais da comunicação são legados a um segundo plano quando, não os criadores de conteúdo, e sim os influenciadores digitais berram baboseiras em nossos ouvidos na telinha do smartphone ou na TV de 56 polegadas. O filtro, me disse certa vez o radialista Djalma de Lima ao lado do professor Alceu Marozzi de Righetto, é o profissional como o jornalista que tem o senso de escolher o que vai falar e levar a mensagem para seu público. Hoje todos tem o poder de ser comunicador – de forma errada ou certa – propagando via mídia social o que bem entender. Como dito anteriormente, não é papel aqui julgar e sim estimular o pensamento para novos conceitos.

A denominação de criador de conteúdo nos remete ao desktopistas do jornalismo na primeira metade do século passado. Era o profissional que ia a campo, sondava uma situação, chegava na redação e ditava a jornalista o que viu. Este segundo profissional é quem fazia a matéria jornalística. Algo do tipo “ghost writer” ainda hoje em voga, situação na qual um profissional faz um texto e outro alguém é quem o assina, como vemos em discursos, artigos ou livros de políticos, por exemplo. Até outro dia, as redações tinham seus revisores de texto, trampolim na profissão para muitos jornalistas e que amargavam o ingrato horário do final da noite, quando o jornal estava prestes a ser impresso. Haviam filtros.

A internet possibilitou que todos sejam criadores de conteúdo, alguns, sem qualquer ironia, mais ocos que o conteúdo do coco citado logo no início. E durma-se com um barulho destes ! 

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 3 de setembro de 2023)

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Desfiles da vida

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 

- “É com orgulho”. Então que vá com orgulho !

Há 50 anos (pode ter sido 49 anos também ...), fomos desfilar pela Independência do Brasil. O local era a rua Gomes Carneiro em frente a Escola Assunção. A conversa foi traçada entre minha pessoa, a amiga Ana Giuliani e o primo Humberto D’Abronzo Gil. Quem puxava o “orgulho” eram minha mãe Ivete e sua irmã (minha tia) Ivone. Lá fomos desfilar pelas imediações da escola em memória ao mérito de Dom Pedro I, que, com um grito, tornou o Brasil independente de Portugal. Dizem que foi assim, não sei ...

Deveria ter sido uma manhã fria, pois estávamos uniformizados. Shorts azul escuro igual ao agasalho de linho que cobria uma camisa branca com gola. Assim era o uniforme deste centro de ensino que acaba de completar 130 anos. A memória pode falhar, uma vez que tudo isso tentei alcançar com a única foto que possuo e a qual representa o tão ímpar desfile de 7 de setembro que participei ao longo destes últimos 50 anos.

- “É medo”. “Não. É vergonha!”. Então que fosse com medo e vergonha. Batalha que travei comigo mesmo anos depois no ginásio. Após o Colégio Assunção passei pelo Grupo Barão do Rio Branco e pelo Jorge Coury. O medo me consumia no caso de errar o passo no desfile, ficar desatento com a banda, ou tentar medir a reação do público que então se prostraria por uma das ruas centrais de Piracicaba. Era “o medo de fazer o feio”. Acreditava que para tocar na banda, segurar bandeira ou fazer as acrobacias então destinadas às alunas, exigia estudo ... dedicação ... honra ! Mas muitos daqueles que disso participavam, fazia por “curtição”. “Deixa prá lá a vergonha ... Isso não me incomoda”, ouvia dos amigos.

Salvo pelo congo ! Professores em greve no final de agosto. Que ótimo ! Me cobria pela vergonha de expor nas ruas aos olhares atentos de pais, vizinhos e amigos da sala de aula. Assim foi um 7 de setembro ... depois foi outro ... mais um e eu nunca desfilei. Greve após greve.

Desfilei sim pelas cadeiras de ensino da Escola Estadual Dr. Jorge Coury, moderna para aquilo que eram os anos 1970. Por ali, tive sábias aulas com o professor Franscílideo Beduschi e a “dona” Miquelina que me deram os primeiros passos de cidadania e civismo. Dona Conceição Brasil nos ensinava a cantar o Hino Nacional Brasileiro por obrigação como uma professora de matemática nos ensina aritmética. “Seis de seis são 36 !”. “Conseguimos conquistar com braço forte e não braços fortes !!! Quantas vezes vou ter que repetir?”. As palavras da professora ainda ecoam pela minha cabeça. Unem-se ao imaginário destas mais de cinco décadas de vida. Além de professores, eles foram líderes que nos ensinaram o respeito e a educação através de disciplinas implantadas pelo regime militar. Organização Social para o Trabalho (OSBP) e Educação Moral e Cívica (EMC) ensinavam antes de tudo o respeito, a dignidade e conhecer que o seu limite vai até onde começa o limite do outro.

“Coragem e orgulho. Mas ... e o medo ? Que medo ?!?”. Novamente o conflito com meu ego toma corpo. “Às favas”. Lá fui vestido de farda militar com o ombreira escrita monitor do Tiro de Guerra desfilar nos Jogos Regionais do Interior de 1986, no Estádio Barão da Serra Negra. Uma única volta nas laterais do campo. Foi a apoteose. Segurava uma das bandeiras, a qual creio que tenha sido a do município. E teve, confesso, o olhar incansável de uma atleta vinda de outra cidade que a todo momento me fitava dando intenção de um certo paquerar. Sabe-se quem lá era. A timidez falou mais alto que o medo ou a vergonha. E assim foi ... De centro de atenção para público.

Nos últimos anos acompanhei diversos desfiles sejam eles realizados sob sol ou chuva, pela Governador Pedro de Toledo ou Boa Morte. Muitos amigos desfilaram por esta vida e hoje além de estarem apenas na memória, ausentes deste mundo terreno, mostraram um pouco de como é este palco chamado de vida.

 (Publicado no Jornal de Piracicaba em 6 de setembro de 2023 e na Tribuna Piracicabana de 16 de setembro de 2023)

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

De um tempo que não volta ...

 Edson Rontani Júnior – jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Semana passada veiculamos nas mídias sociais do IHGP um vídeo conseguido no Tik Tok. Durava pouco mais de dois minutos. Originalmente foi gravado em VHS e mostrava o passeio de alguém nas ruas e avenidas de Piracicaba nos anos 1980. Como provocação, o título foi “Assim era o Google Street View nos anos 80”.

Parece ser algo banal, mas este vídeo ajudou a remexer a massa cinzenta de muita gente que hoje beira os 50 anos de idade e que viveu a década de 1980 com sua efervescência cultural. Falar que a vida era mais difícil financeiramente para esta geração ninguém, falou. E era, embora muitos fossem ainda jovens e sequer tinham a preocupação de sustentar um lar, numa época na qual a inflação chegava aos 80% ao mês (!!!).

Mas muitos lembraram como era acolhedora nossa “terrinha”. O vídeo apresentava um passeio rápido pela Governador Pedro de Toledo e muitos se lembraram da Lobrás, a Lojas Brasileiras, umas das primeiras lojas de departamento, verdadeiro shopping center para a época. Tal loja, situada entre a Dom Pedro II e a Rangel Pestana, meio da Governador no lado direito, tinha de tudo: roupas, revistas, LPs, alimentos, presentes e até uma lanchonete no fundo onde era possível sentar-se logo no balcão e comer um x-salada ou um bauru ... nada mais. Eram os hamburgers da época. A Lobrás era a loja do tipo em que você dizia à vendedora : “só vim dar uma olhadinha” e ela a seguia por todos os corredores. Daí você ia na seção de balas e pegava uns 100 gramas Chita hortelã e saia desconcertado.

O mais criativo foram os comentários sobre o vídeo. Uns lembraram da Portalarga, tradicional loja do comércio local, da família Maluf que vestiu por quase um século o piracicabano. Outros lembraram do Kraide Magazine situado embaixo do Clube Coronel Barbosa na praça José Bonifácio. O vídeo teve até a última quinta-feira 180 mil interações (orgânicas).

Estes pensamentos nos levaram a viajar no tempo e lembrar do Shopping Center Ziliat, da família Petrin. Como era gostoso, antes da aula noturna, parar e comer um prato executivo, ver a fonte instalada no centro deste “mallzinho” e sentir-se feliz por a cidade possuir um shopping mesmo que ele fosse uma pequena galeria. O local abrigou nos anos 1930 um cinema, depois foi a fábrica de Balas Atlante e mais recentemente uma papelaria e um supermercado.

O vídeo também lembrou de lojas como A Musical da família Pousa, a Brasserie dos Lescovar, o Shopping Cidade Alta, O Cacau do Basso Rolim, da Galeria Brasil quando ainda era um atrativo noturno aos finais de semana... Os mais antigos ainda irão se lembrar do seu Balacini na Banca Gianetti bravo com as pessoas que folheavam jornais e revistas e saiam sem comprar nada. Ou ainda os potes que enchiam os olhos dos petizes do seu Passarela na loja situada ao lado esquerdo do Cine Politeama.

Mas, o vídeo referido no início do texto nos remete à uma mudança cultural provocada pela TV que então despontava como sucesso a Xuxa, “Rainha dos Baixinhos”, num período pré “Amigos” em que três duplas sertanejas criaram um rumo para a cultura musical tomando uma cerveja que hoje é jogada ao ostracismo por todos. Aliás, os anos 80 trouxeram consigo a formação de um gênero conhecido por “new wave” na música, com expoentes como Gang 90 e as Absurdetes, João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, Léo Jaime, Lulu Santos, Kid Abelha e Seus Abóboras Selvagens, Ira !, Barão Vermelho, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso etc etc etc ...

As imagens são nostálgicas. Mostram locais que se foram. Espaços mágicos nos quais vivemos, os quais nos trazem à memória pessoas que já partiram. Períodos especiais de nossa vida. Saudade ... de um tempo que não volta mais ...

Visualize o vídeo clicando aqui

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 30 de agosto de 2023 e na Tribuna Piracicabana de 09 de setembro de 2023)

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

O rei não está nu. Está com roupa de gala

Edson Rontani Júnior – jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

A idade chega. A coluna começa a reclamar. A necessidade de inovação se torna um desafio. Mas, o riso ... este nunca esmorece. E nosso ícone nacional chega à sua edição de número 50, em ritmo de festa, pois o Salão Internacional de Humor merece louros e elogios por ser um dos mais longevos deste país, passando por décadas nas quais tivemos mudanças e convulsões sociais, políticas, econômicas ... enfim, situações vistas coo prato cheio para aqueles que através do traço desenham o avançar da vida, seja no país ou no globo.

Sua história é notória e não me compete aqui relembrar de relance tudo o que ocorreu no passado, mas cito que convivi e conheci alguns dos criadores deste ícone, como Alceu Marozzi de Righetto, Adolpho Françoso Queiroz, Cerinha, Fausto Longo, Fagundinho e tantos outros. Fui pupilo de Adolpho na graduação em comunicação social quando este coordenava a área de jornalismo na Unimep. Sempre estive ao lado de Righetto nas décadas de 1980 e 90 por força profissional e pessoal. Uma pessoa irrequieta, contestadora, que muito me ensinou sobre o lado crítico da vida. Citar nomes é uma forma de cometer lapsos. Sabemos que o time de criadores, defensores ou expositores do humor é grande, mas a lembrança muitas vezes nos prega peças.

Assim como compete lembrar da geração atual que, quando o Salão brotava, nem nascida era ou ainda estava na tenra infância, como Baptistão, Spadotto, Grosso, Paffaro, Hussar, Boligan etc etc etc ... De novo, cometo a falta de ética de citar nomes de extensas listas. Teve também o pessoal dos bastidores, aqueles que “carregam o piano” ou abrem e fecham as cortinas. Afinal, meio século de vida merece muito mais que uma determinada quantidade de toques neste matutino.

O Salão de Piracicaba buscava ser uma forma de escapismo à mordaça da censura existente na época. O Brasil vinha de Atos Institucionais que tiraram a voz da população, reprimenda que deixou manchada de sangue nossa história. Se buscarmos o humor na segunda meta dos anos 1960, tínhamos nas bancas de jornais, reproduções de charges norte-americanas, as chamadas “piadas de salão” ou “piadas de papagaio”, algo chato para os dias de hoje com humor lusófonos ou contados da boca de um papagaio. Surge “O Pasquim” como porta-voz de muitos brasileiros, inclusive os piracicabanos que por aqui fizeram uma versão pamonhesca chamada de “Aldeia”, nome para relatar aquilo que passava por nossa “tribo”. O que não era possível se falar através de artigos ou matérias jornalísticas era retratado através dos traços com dúbias interpretações. Me lembro que charge mostrava um pássaro ressabiado numa gaiola com a porta aberta. Estava chegando o fim a censura. Mas, o pássaro relutava em sair da gaiola. O que o esperava lá fora ? Interpretações a parte ... Oras ! Era apenas um pássaro numa gaiola que agora tinha liberdade. Ou, convenhamos... quando Chico Buarque de Hollanda cantava o seu “Cálice, de vinho tinto de sangue” ele estava segurando uma taça na mão ou afastando uma mordaça que na boca o impedia de falar ?!?

O Salão de Humor passou por vários locais até que o Teatro Municipal foi aberto e lá reuniu gente dentro e fora de seu hall. As noites de abertura eram concorridas. Expandiu-se para outras paredes com suas exposições paralelas. Umas das exposições que visitei ocorreram na Pinacoteca Municipal. Sim no espaço de exposições da alta classe como a Arte Contemporânea e Belas Artes, salões também tradicionais da cidade.

Em 11 de agosto de 1974, “O Estadão” trouxe artigo de meia página escrito e ilustrada por Zélio Alves Pinto, fazendo um paralelo da primeira caricatura publicada no Brasil, num livro editado em 1837 e a criação do Salão de Piracicaba.


Quem viveu os anos 1970 tem em mente outra publicação alternativa chamada MAD, inicialmente publicada pela Vecchi Editora. Entre vários expoentes de então, Sergio Aragones era um nome forte tanto na MAD americana quanto nacional. Ei-lo em Piracicaba em 21 de agosto de 1976, noticiado também pelo “Estadão”. O mexicano que completava 12 anos de atuação nos desenhos desembarcava em terras piracicabanas para dar um ar internacional no Salão. Aliás, Internacional nosso salão só viraria em 1979 quando a edição daquele ano foi realizada de 18 de agosto a 3 de setembro no Teatro Municipal. Cem trabalhos de 800 inscritos fariam a primeira retrospectiva dos seus cinco primeiros anos de vida.

O acervo do “Estadão” é rico quando o assunto é Salão de Humor. Tanto que em sua edição de 24 de agosto de 1978, o general João Figueiredo, cotado para ser o próximo presidente da República (Ernesto Geisel era o mandante então), comenta em entrevista, o pronunciamento feito por Henfil durante o Salão de Piracicaba sobre uma possível exposição pública de sua personalidade como forma de tornar sustentável a abertura política no jargão entoado na época pelos brasileiro : “ampla, geral e irrestrita” ...

Assim sendo, a exemplo de uma das mais clássicas artes expostas neste Salão Internacional, feita por Laerte parodiando conto de Hans Christian Andersen, o rei não está nu. Está em traje de gala para comemorar este meio centenário de vida.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 27 de agosto de 2023 e na Tribuna Piracicabana de 02 de setembro de 2023)

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

O peso de 256 anos

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

“Melhor lavar as mãos. Estão acinzentadas de tanto folhear jornais”, pensei. Quando me dei conta, passaram horas folheando jornais impressos de décadas passadas... Opa ! Décadas, não. Vamos ser sinceros. Séculos passados... “A rinite atacou ? Deveria ter usado uma máscara...”. E assim a história foi se desenrolando dias destes quando adentrei ao acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, em sua sede situada no Jaraguá, perto da Praça Takaki, onde a vizinhança tradicional permanece e nos acolhe como amigos da região, tais quais os irmãos Abdalla (Jorginho e Marcos), entre outros que ajudam o comércio a florescer. Agora a região tem até uma grande rede supermercadista para o café da manhã e a prosa com os amigos.

Mas de história e memória vive o homem. Alguns o denominam de “guardião da história de Piracicaba”. O Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, ao completar seus 56 anos de fundação, neste mês de agosto, carrega nas costas a função essencial de cuidar de tudo o que Piracicaba foi no passado e divulgar para as gerações atuais todo este conteúdo que soma quase uma tonelada de materiais, entre livros, jornais, disquetes, filmes em celuloide, peças físicas e itens audiovisuais, entre tantos outros. É um peso imenso pois nesta quase uma tonelada estão vidas, dedicação e amor pela “Noiva da Colina”.

O jornal ao qual me referi no primeiro parágrafo é “A Gazeta de Piracicaba”, matutino que circulou de janeiro de 1881 a julho de 1938. Uma das primeiras edições que o acervo possui é de 1883, a qual necessita de total cuidado para ser manuseada tamanha a fragilidade que o papel jornal sofreu com a ação do tempo nestes 140 anos. “Ora, por que guardar papel velho?”, dirão alguns. Nestas páginas está a real história da cidade. Nada inventado. Sem “fake news”. São os relatos de uma sociedade, de uma economia, de uma política ... de pessoas que fizeram esta cidade a qual hoje usufruímos. Mais que base para estudos sociais e acadêmicos, são obras para conhecer o passado e – aí uso um jargão desgastado – evitar que venhamos a cair em erros já vividos pela humanidade.

Como escrevi, o peso deste acervo é intangível. Mais que representam os quilos e quilos de papel ou outro material que relega ao futuro o seu conteúdo. Peguemos por exemplo, o acervo deste Jornal de Piracicaba. Em seus 123 anos de circulação, quantos nomes não passaram por eles? Quantas alegrias proporcionaram às famílias piracicabanas? Quanta surpresa nos trouxeram? Quantas tristezas foram motivadas pelas notícias policiais ou pela necrologia? Quem não esperou pelo resumo da novela da semana ou pelas cruzadas para passar o tempo? O jornalismo se torna mágico na informação, no entretenimento e no conhecimento. Esta memória viva não foi construída sozinha. Precisou da mão e do pensamento do ser humano, para o bem ou para o mal. Mas aí, a história é outra.

O Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba foi idealizado na primeira metade dos anos 1960, a exemplo de outros institutos históricos que eram criados no país. Muito se teorizou. Mas, às luzes dos 200 anos de Piracicaba, no ano de seu bicentenário, 1967, o sonho se concretizou. Não à toa a data de primeiro de agosto foi escolhida para sua fundação. Aniversário da cidade...

José Edmar Kihel, que viveu por longos 100 anos, foi nosso primeiro mentor a presidir a entidade. O professor Kiehl era um exemplo de dedicação à vida. Engenheiro agrônomo – assim como os primeiros presidentes e diretores da entidade, todos provenientes da ESALQ – e adorava magia se apresentando em espaços como o Grande Hotel de Águas de São Pedro. Idealizou o “Paraíso da Criança“ e dirigiu por uma década o Zoológico de Piracicaba. Há que diga que travava os animais de lá como crianças ... ou mais, como seres humanos, tamanha a bondade de seu coração.

Deram sequência a este sonho diversas outras personalidades. Muitos com notoriedade na sociedade como Nélio Ferraz de Arruda, radialista e prefeito da cidade. O IHGP entrou neste século atual com desafios, caminhando para o mundo digital numa era pré Orkut (já extinto) e antes mesmo dos smartphones, mídias sociais ou aplicativos de comunicação. Fizeram parte de “cabo de guerra” com os avanços tecnológicos pessoas como Haldumont Nobre Ferraz, Pedro Caldari, Vitor Pires Vencovsky, Valdiza Maria Capranico e Pedro Vicente Ometto Maurano.

O IHGP possui em suas mãos a história local. E visa passar este conhecimento para outras mãos. Afinal, não adianta guardar conhecimento na gaveta ou no armário pois cupim e traça não sabem ler, apenas devorar o papel. O desafio hoje é a propagação deste material, aliando-se à tecnologia digital cuja história vem sendo escrita. Para tanto, vários canais foram criados na última década para que todo este bem material e imaterial seja disseminado como informação, para estudo e conhecimento. Os livros desta entidade propagam conhecimento e, na sua maioria, desconhecida pelo piracicabano. Uma preocupação que universidades “estrangeiras” querem guardar para si como a de Harvard e do Congresso Norte-Americano, que possuem em suas respectivas galerias sobre a história da América Latina nossas publicações.

Mas as gerações vão e vem. É preciso surtir o interesse pela história e criar novas lideranças para carregar estes fardos tanto físicos como de conhecimento intelectual. Vamos pensar nisso ?

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Livro "A Foto e a História - Piracicaba Antiga"


O livro "A Foto e a História - Piracicaba Antiga" foi lançado em 21 de julho de 2022 no Museu Prudente de Moraes, com casa lotada. Esgotou na noite de lançamento. A publicação foi realizada pelo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba e contempla cerca de uma centena de fotos antigas de Piracicaba publicadas desde 2006 nas páginas de A Tribuna Piracicabana (aos sábados) e neste blog, além dos perfis no Facebook e Instagram.

No início de 2023 o IHGP reimprimiu mais 200 unidades do livro. O próprio Instituto está disponibilizando a edição digital em seu site que pode ser lido e baixado gratuitamente clicando aqui.


domingo, 20 de agosto de 2023

Oppenheimer e Fabelmans

 Edson Rontani Júnior, cinéfilo e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 


O desconcertante som do tragar o charuto de John Ford mexe e instiga com o silêncio que reina. Mexe também com a dúvida de Burt Fabelman. “O que você vê ali ? O horizonte ? Se está acima, o horizonte é interessante, se está abaixo também é interessante”, diz Ford (vivido pelo diretor David Lynch) em “Os Fabelmans”. Conclui que, se o horizonte está no meio, é normal, trivial, comum, sem sentido ... “Chato prá cacete”, diz ele. John Ford foi um dos mais icônicos cineastas norte-americanos numa carreira de quase 70 anos com filmes que vão de “Nos tempos das diligências” a “O homem que matou o facínora”, entre tantos outros.

“Albert Einstein ? Ele era bom no tempo dele, 20 anos atrás ...”, diz Robert Oppenheimer, no filme que relata a vida do criador da bomba atômica que acabou com Nagasaki, Hiroshima e a Segunda Guerra Mundial. “Mas quem soltou a bomba fui eu, ninguém se lembrará de você”, disse a ele o presidente Harry Truman (vivido por Gary Oldman).

O cinema busca com estas duas obras superar a si mesmo. Cem anos atrás, Fritz Lang era “a bola da vez” com filmes como “Metrópolis”. Alfred Hitchcock, depois, virou o “mestre do suspense” sendo um autor “fora da curva”, mas com a retórica de sempre : o homem errado levava a culpa por algo que não cometeu. A premissa está em maioria das suas obras. Depois vieram tantos outros que enxergaram o horizonte acima ou abaixo ou que superaram as ideias de Einstein, Edison ou Tesla. “Com isso estragamos o mundo”, confessa Oppenheimer a Einstein, que sai emburricado.


“Os Fabelmans” e “Oppenheimer” tomam quase seis horas de atenção do expectador, seja na telona ou no streaming. O primeiro é a mais recente obra de Steven Spielberg, depois de um interessante mas apagado “Amor, Sublime Amor”. É um filme para quem entende e gosta de cinema. Basicamente é sua biografia quando criança e adolescente, na qual ele retrata seu amor pelo cinema e as agruras em ser judeu. Seus pais não viam futuro no cinema. Mas, foi realizando filmes em casa, na bitola 8 milímetros que ele enxergou além do horizonte e descobriu a traição da mãe com o melhor amigo do pai. Fez até um filme com estes melhores momentos e o exibiu no escuro do seu closet para uma plateia seleta: sua mãe, protagonista da obra (e da traição). Em pouco mais de duas horas e meia, Spielberg fala do relacionamento humano, do crescimento de um sonho de criança que mexe não apenas com a fantasia através do cinema, e também enxerga além do horizonte. Esse sim é um cara de visão. Ficou milionário, criou linguagens imaginárias com o fantástico (“E.T.” ou “Inteligência Artificial”, por exemplo) e conseguiu calar a boca dos pais que o viam, quando fazia cinema, estar apenas matando o tempo.

Robert Oppenheimer era um desastrado e desatencioso quando jovem. O filme que leva seu nome é uma biografia maçante, utilizando um enredo detalhadíssimo sobre o pai da bomba atômica, durante a Segunda Guerra Mundial. Estranho é Robert Downey Júnior (o Tony Stark / Homem de Ferro) como o ancião almirante Lewis Strauss. Trata-se de uma obra para a qual deve-se entender o que foi a “Guerra Fria” entre Estados Unidos e União Soviética e, antes de mais nada, é preciso compreender o que foi a “Caça às Bruxas” coordenada pelo senador Joseph McCarthy. Se você pensa que verá explosões, nazistas ou ação à lá Marvel, esqueça .... É um filme muito bem pontuado pela trilha e efeitos sonoros, o qual necessita de acompanhamento histórico e esforço cerebral para entender tantas idas e voltas, numa sequência frenética de flash backs. Peca a obra ao final (faltando 20 minutos para acabar – depois de quase 2h40 minutos), quando vemos o próprio Almirante e outros personagens elucidando o caso numa sucessão frenética desnecessária, como se lembrasse o “Sherlock Holmes” (olha aí Robert Downey Jr. de novo) ou que nos remete ao final de “Assassinato no Oriente Express”. Aliás, Kenneth Branagh, diretor mais recente desta obra de Agatha Christie, também está em “Oppenheimer” como Niels Bohr e, como sempre, impecável. Aliás, Christopher Nolah, seu diretor, é uma das mais novas revelações da década atual e impressiona a cada produção desde a trilogia Batman, passando por “Interestelar” e “Dunkirk”.


“Falbemans” e “Oppenheimer” são obras distintas. Uma feita em 2022 e outra estreada há cerca de 15 dias. São para públicos diferentes. Decepcionantes ? Sim e não. Deve-se saber o que esperar quando o objetivo é assistir à um filme biográfico. É preciso conhecer a situação histórica e a(s) personalidade(s) retratada(s). O segundo foi páreo para “Barbie” (sem comentários ...) chegando a superar bilheterias ao redor do mundo. Tirou a luz do novo “Indiana Jones” – que já saiu de cartaz – e era esperado pelos marmanjões que outrora foram aos cinemas e às locadoras de VHS. Mas ambos valem como o despertar de algo que transcende a cada dia : olhar para além do horizonte.