Edson
Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de
Piracicaba
Afinal, quem foi
Boyes? É um nome pronunciado à exaustão na atualidade. Muitos sabem o que é a
Boyes, o complexo industrial criado à margem esquerda do rio Piracicaba para
suprir o mercado nacional de tecidos, oriundo da Fábrica de Tecidos Santa
Francisca, projetada por Luiz de Queiroz e que existiu por cerca de 20 anos,
sendo negociada em troca de dívidas. No início do século passado, fábrica virou
Arethusina e depois foi denominada Cia. Industrial e Agrícola Boyes. Para
muitos, simplesmente Boyes.
Luiz de Queiróz, passou
mais de uma década e meia estudando na Europa. Percorreu vários países.
Retornou ao Brasil para reclamar a herança deixada pelo pai, o barão de
Limeira. No Velho Mundo, ouviu falar muito de um inglês com ideias inovadoras
na engenharia que chegou a realizar projetos na Bélgica. Eis que o convida a
vir para Piracicaba. Arthur Dryden Sterry veio para dirigir a fábrica. Nasceu
em 1854 e viveu pouco: 42 anos, falecendo na capital paulista em 13 de abril de
1897. Aliás, foi em São Paulo que conheceu sua esposa, Ambrosina Bernardes
Sterry.
O casal teve seis
filhos, entre eles Elvira Sterry, nascida em Piracicaba no dia 13 de maio de
1886. Ela foi casada com Herbert James Singleton Boyes, assumindo assim o nome
Elvira Sterry Boyes. Começa aí a saga da denominação que conhecemos hoje.
Herbert James
nasceu em 16 de outubro de 1881 (Swinton, Inglaterra), falecendo aos 65 anos em
29 de setembro de 1947. Está sepultado no Cemitério dos Protestantes, na
capital paulista. Atuou como gerente da Cia. Industrial de São Paulo e foi sócio,
com seu irmão, das fábricas São Simão e São Bernardo. Era um empreendedor que
conseguiu sucesso em terras tupiniquins.
Sua esposa Elvira
foi a responsável por influenciar o esposo e o cunhado para comprarem a fábrica
de tecidos. A alegação é das boas lembranças do passado que deveriam ser
perpetuadas. Herbert e Alfred Simenon Boyes constituíram, assim a Boyes Irmãos
& Cia. Em 11 de março de 1918, ambos adquirem a fábrica de tecidos criada
por Luiz de Queiroz, então denominada Arethusina. Era a mesma situada ao lado
do rio Piracicaba, onde hoje está a avenida Beira Rio. Sofreu transformações ao
longo da gestão dos Boyes ampliando sua estrutura e contratando mais mão de
obra.
A fábrica e o
palacete situado ao lado foram comprados pelos Boyes das mãos de Rodolfo
Nogueira da Costa Miranda, dono das propriedades, desde 1902. A residência era
– e ainda hoje é – invejável e imponente, com jardim climático e produção caseira
de algodão. Embora o piracicabano pense que a mesma está aberta para
visitações, a residência é particular e conserva ares do século XIX. Ocupa as
então denominadas ruas dos Pescadores (Prudente de Moraes), entre Vergueiro e
Flores (Treze de Maio), perto do salto do rio Piracicaba. Foi nestas
proximidades que Luiz de Queiroz criou uma espécie de cais onde escoava em
barcos a produção de tecidos de sua fábrica. Antes, nas duas décadas finais dos
anos 1800, o transporte era feito por tração animal e por trens.
Herbert e Elvira
impulsionaram as filhas para o negócio. Kathleen Mary (falecida em 7 de outubro
de 1991) foi diretora-presidente da Boyes, assim como Dóris, em conjunto com o marido,
Norman, também dirigiu a fábrica.
Segundo a
historiadora e professora Marly Therezinha Germano Perecin, em seu livro
“Síntese Urbana” (IHGP, 2009, 2ª. edição), Piracicaba possuía, no período da
aquisição da fábrica de tecidos pelos Boyes, em 1918, grandes empregadores como
o Engenho Central (da Societé de Sucrérie Brésilienne), Engenho Central Monte
Alegre (do comendador Puglisi), Fábrica de Tecidos Arethusina e a Casa Krahenbühl
(de Frederico Krahenbühl), empresas de peso com força motriz para mover uma
cidade com cerca de 18 mil habitantes. Foi o início de um processo evolutivo
industrial e comercial que tomou franca expansão apenas nos anos 1970 com a
criação de incentivos fiscais e elaboração de distritos industriais moldados
pela municipalidade. Pioneirismo existiu, não apenas com estas empresas, mas
também com o comércio que vivia outra realidade. Uma destas situações é a
matéria prima da Boyes. Se inicialmente Luiz de Queiroz fazia tecidos para
roupas, os Boyes diversificaram sua linha de produção, encerrando sua jornada
com a produção de sacarias para arroz, café e outros itens similares.
Cabe lembrar que
Herbert James trouxe a Piracicaba um colega que conheceu na Europa e que deixou
marcas na cidade: Louis Clement, engenheiro têxtil e administrador de empresas,
ocupando o cargo de diretor da Boyes, um dos corações mais bondosos que a
cidade teve, auxiliando na construção de várias entidades assistenciais.
Samuel Pfromm
Neto lembra a além do complexo industrial, a Vila Boyes foi tradicional em
Piracicaba e no bairro São Dimas, além de denominar de Vila Boyes o estádio da
Associação Atlética Vila Boyes. Há uma rua Elvira Boyes no Jardim Morumbi,
junto à av. Dois Córregos.
Publicado no Jornal de Piracicaba de 3 de dezembro de 2023 e na Tribuna Piracicabana de 9 de dezembro de 2023
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