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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Passado preservado

 Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Foram muitas as ideias e as promessas. Lembro-me que, quando entrei no Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, ouvi a promessa de digitalizar o acervo deste importante centro cultural. A promessa veio do poder público. Ao lembrar que ouvi isso em abril de 2010, noto que a ideia ficou apenas no papel. Já faz muito tempo.

No dia 28 de março, o IHGP em conjunto com a iniciativa privada, disponibilizou mais de 8 mil imagens do jornal “Gazeta de Piracicaba”, periódico trissemanal que circulou de 1882 a 1938. A coleção não está completa, mas tem quase sua totalidade. E o material disponível ecoa a história de Piracicaba na época do Império até a segunda Constituição Federal promulgada por Getúlio Vargas. Claro que ela passa por décadas e mais décadas de registros do que ocorreu em nossa cidade. Estas imagens podem ser lidas, consultadas e baixadas a partir do site do IHGP. Tudo de forma gratuita.

A “Gazeta” foi importante centro de informação de uma Piracicaba provinciana. Foi consultada por dezenas de jornalistas, professores, estudiosos, pesquisadores, historiadores ... Praticamente os principais acontecimentos foram nela estampados. O jornal foi por muito tempo o único veículo de comunicação de Piracicaba.

Em suas páginas é possível conferir como a cidade recebeu a notícia do assassinato de Almeida Júnior, contemplado pelo mecenato de Dom Pedro 2º e autor das principais telas a óleo do país, com reconhecimento internacional. Almeida foi morto por golpes de adaga na praça José Bonifácio em frente ao Hotel Central quando o marido de sua prima descobriu uma traição conjugal.

Brasílio Machado também conseguiu destaque através das páginas deste jornal com seu poema “Piracicaba”, dando a Piracicaba o epíteto de “Noiva da Colina”. Inicialmente ele havia publicado o poema em um livro, “Madresilvas”, edição portuguesa de 1876, mas foi na “Gazeta” que ele conseguiu repercussão maior. Não há de se negar que tenha dado certo.

O jornal é fonte importante do mercado publicitário. Passaram por suas páginas as principais empresas locais. Curioso é ver os restaurantes e hotéis oferecendo seus serviços e sua gastronomia. “Suculentos bifes com deliciosas batatas em qualquer horário do dia”, dizia um. “Hotel no Centro com bebedouro para cavalos na praça do entorno”, dizia outro. Pelas artes publicitárias é curioso conhecer um mercado distante com empresas que não mais existem ou deixaram sua marca como o Hotel Lago, de Manoel do Lago, tio de Mário Lago – ator da Globo e autor de “Ai que saudade de Amélia”.

Foi neste matutino que se soube que Piracicaba recebeu o primeiro filme de cinema 130 anos atrás – a serem lembrados em outubro próximo. Isso ocorre dez meses após a apresentação do novo equipamento em Paris por Auguste e Louis Loumière. Um barracão improvisado próximo a Matriz na hoje rua Moraes Barros, possivelmente no estacionamento do extinto Banco Santander. Klene e Mewe trazem a cidade o cinematógrafo, o espectro cinematográfico, que apresentaria um mundo nunca imaginado pelas pessoas. Filmetes curtos de animais correndo, trem chegando a estação e assim por diante fizeram a primeira sessão numa magnífica avant-premiére.

No acervo disponível é possível ver a trajetória de Martha Watts, Prudente de Moraes e outros personagens que moldaram a sociedade local. É possível acompanhar como foi a instalação da iluminação elétrica nas ruas da cidade. Claro que o jornalismo não era o que mesmo que conhecemos atualmente ou de tempos mais recentes. As informações eram bem rasas e cheias de adjetivos. Poucos nomes eram citados. Mas o conteúdo serve de base para muito conhecimento. E que, com o acervo digitalizado e disponibilizado, possa-se reescrever e descobrir histórias de Piracicaba.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Ano seis

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

- Morreu de que ?

- Morreu de covid.

- Ué ? Mas ainda se morre de covid ?

- Sim.

Tive esta conversa com um amigo mês passado, fevereiro de 2026. Isso ocorreu seis anos depois do primeiro caso da covid 19 ser registrada em Piracicaba. Passou tanto tempo que deu até para esquecer que ainda estamos na pandemia provocada pelo sars cov 2. Talvez tenhamos nos tornados mais resistentes, ou o vírus tenha enfraquecido.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, foram 48 mil novos casos de covid no Mundo nos 28 dias iniciados em 15 de janeiro passado. O Brasil lidera o ranking de países afetados, com 18 mil casos. No mesmo período, foram 1,6 milhão de mortes, liderados pelos Estados Unidos com 1,4 milhão. O Brasil reportou à OMS que em 28 dias, faleceram 33 pessoas pelo vírus.

Talvez o período pandêmico seja algo que todos querem se esquecer. Primeiro por termos vivido tal período. Segundo por ser algo muito recente, ainda em curso. Em dezembro de 2019 víamos os noticiários das mortes desenfreadas na China. Depois víamos carros de bombeiro levando caixões e mais caixões pela Europa. E pensávamos o que ? “Está longe. Nunca chegará até nós”. E chegou. Veio à nossa vizinhança e à nossa família. Chegou a atingir nós mesmos !

Me trouxe um sentimento de impotência ao ver dias desses, banners imensos da Festa de São José que retorna à Estação da Paulista, onde ocorreu por um final de semana em março de 2020. Inicialmente estava programada para dois finais de semana. Mas as normas sanitárias impediam a circulação e aglomeração. Parecia ser impossível, mas o Shopping Piracicaba anunciara semanas antes que fecharia suas portas por tempo indeterminado.

O início da pandemia foi algo conflituante. Tudo para, tudo fechado. Nada de festa, nada de balada, nada de pizzaria. Nem aniversário adiantava fazer, pois os convidados não apareciam. O medo se instalou em todas as camadas sociais. E a vacina contra este vilão vem ou não vem ? Mas vem de qual país ? Qual é mais eficiente ? Surgem as lives na televisão, no streaming, aumentam as vendas de alimentos e entregas pelos aplicativos de celulares. Jogos, novelas, programas de televisão são cancelados. E voltam as reprises. Mas assistir à final da Copa do Mundo de 20 anos atrás, num domingo a tarde, era para afundar ainda mais o tédio ou coçar a depressão.

Daí voltamos ao ponto de partida. Ninguém mais passa álcool gel com a intenção de desinfectar-se. Alguns o usam como forma de limpeza, esquecendo que ele é apenas um paliativo para quando não se tem sabonete e água corrente. Espirramos ou tossimos sem a preocupação com o próximo ou ainda de irmos ao lavabo assear as mãos. Até as maçanetas pegamos como antes, sem lembrar que elas são grandes propagadores de determinadas doenças. Lembra quando deixávamos o jornal no sol para matar o vírus, ou aquela pessoa que o esquentava com um ferro de passar roupa ? Se a covid não morrer por bem, morrerá pelo calor. Havia também quem chegasse do supermercado e em casa lavasse cada item, esfregando nele uma esponja como a mãe que tira a sujeira atrás da orelha da criança. Fizemos apenas um modismo ou ainda hoje praticamos isso?

O certo é que, neste sexto ano, aprendemos e desaprendemos muitas coisas. Algumas delas essenciais para nossa sobrevivência, pela manutenção da vida dos nossos semelhantes. Será que aprendemos ? Ou já esquecemos que ainda se morre pela Covid?

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 08 de março de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 14 de março de 2026)

domingo, 1 de março de 2026

Similes sumos símios

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 


Esta semana, “a casa mais vigiada do Brasil” perdeu a liderança do Ibope. Tomou seu lugar o zoológico mais vigiado do planeta, aquele onde está o macaquinho Punch. O macaco-japonês nasceu em julho passado, e é alvo do interesse das pessoas no Zoológico de Ichikawa, no Japão.

A imagem deste macaco bebê dentro de um cubo de concreto, mobilizou os olhares piedosos de muita gente. Pela internet, pudemos acompanhar e cair aos prantos pela rejeição feita por sua mãe, que o jogou à berlinda do grupo de macacos que ocupa uma grande cela.

Até aí, nada de novo. Desde que o ser humano se reconhece por ser humano, a rejeição faz parte de sua linearidade na Terra. O que não existiu ao longo dos milênios foi o processo midiático do qual Punch pode ser considerado uma vítima. Aliás, vítima do que? De um voyeurismo que não dará em nada na sua aceitação diante do seu grupo social? Ou da emoção do ser humano como se estivesse assistindo à um novelão mexicano a la SBT?

A rejeição das pessoas é histórica. A exclusão social está explícita em muitos livros. Servem de base para uma discussão ao menos forjada numa mesa de bar. O instinto coletivo nos permeia com críticas vorazes ao que um grupo de jovens supostamente teria feito ao cão Orelha. Ou ainda, num microcosmo mais próximos de nós mesmos, à capivara que cresceu com uma argola em seu peito. Onde estaria ela? Podemos ajudar? Vamos montar armadilhas para pegá-la e cortar aquele infortúnio que lhe reduz as condições respiratórias e musculares. Aliás, tal capivara também foi abandonada pelo grupo, num instinto de que poderia colocar em risco seu bando. E quem chorou por esta capivara tão próxima de nós ? Mas muitos derramaram lágrimas pelo Punch que está do outro lado do Mundo.

O universo midiático tem disso. Só sentimos compaixão por aquilo que vemos, seja uma residência desabando em Goiás, seja por um assalto registrado por câmeras de segurança na rua, seja por alguém chutando um cão comunitário... Confesso que ultimamente tenho sentido medo, pois jogo grãos de arroz para pombas que passeiam pelos restaurantes os quais frequento.

Existem condições psicológicas, psicodramáticas e psíquicas nas quais não quero entrar em detalhes aqui. Até porque sou um mero jornalista, dono de um “parpite” que pode não coincidir com seu pensamento. Por que dar atenção a um macaquinho desprezado pela mãe se na sua esquina uma criança sofre nas mãos de seus pais? Existe algo que podemos colocar com ponto de discussão que é a sensação de “sozinho na multidão”, ou o pensar diferente, sair da “caixinha” comum. Quem pensa diferente é o “estranho”, é o “biruta”, é o “que vive no mundo da lua”. Então, viver o dia todo abraçado num orangotango criado por uma grife da moda, a Ikea, é valer-se do merchandising, e ter seus “dez minutos de fama”, como diria Andy Warhol. De forma inconsciente, claro. Daqui uns dias, “a casa mais vigiada do Brasil” volta a ser a mais vigiada. O macaco-japonês num estalar dos dedos vira adulto e ninguém mais se lembra dele. De coitadinho passa a praticar o mesmo bullying com outros bebês macacos.

Mas, convenhamos. Esse processo midiático está colocando a situação na frente de nossos narizes. Ou melhor, na ponta de nossos dedos, através dos smartphones.  

Houve um episódio de um seriado de TV em que, durante a “Guerra Fria”, um ser humano é lançado em órbita. Chega a um planeta desconhecido e é bem recebido. Lhe dão uma casa com uma TV imensa, uma cozinha com os melhores equipamentos, uma lareira na sala... Até que, em certo momento, ele tenta abrir uma porta e uma janela. Não consegue. Em poucos segundos, uma barreira abre e todos estão contemplando uma jaula com ... um “terráqueo”. Zoológico interplanetário. Um ser humano preso. Afinal, símiles sumos símios...

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 01 de março de 2026)

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Ao mestre, com carinho

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

A memória ainda me permite lembrar. “Este é o Maurício”, disse-me minha mãe Ivete referindo-se então para uma criança de sete anos. É quase certeza que a cena ocorre em 1974 e eu retornava à minha residência pelas mãos de meu avô Humberto após um passeio com os netos. Dos meus 1,15 de altura olho para cima e vejo uma figura que meu pai Edson constantemente citava em casa. O rosto da pessoa era um sorriso de orelha a orelha, e, engaçado, quando ria, os olhos se fechavam como se fosse um oriental. Tal pessoa, sempre simpática, era Maurício de Sousa, sim, o pai da Turma da Mônica.

Não sei se foi a única vez que esteve em nossa residência, mas era motivo de ligações e correspondência junto ao meu pai, desenhista profissional desde os anos 1950. A ideia era levar Rontani pai para a Bidulândia, depois Maurício de Sousa Produções. O “namoro” foi intenso e longo, mas não rendeu frutos. Rontani pai tinha receio em deixar Piracicaba onde constituiu família e batalhava como funcionário público inicialmente pela ESALQ e depois pelo CATI da Secretaria Estadual de Agricultura.

Várias cartas demonstravam o carinho deste ícone do quadrinismo nacional e revolucionário do merchandising com sua turma que ia desde o Jotalhão, passando pelo Bidu, Piteco e, claro, os mais populares como Mônica, Cebolinha e Cascão. Em muitas destas cartas fazia referência à Caninha Tatuzinho, por aqui produzida.

Estas memórias me tomaram conta ao assistir a “Maurício de Sousa: O Filme”, 2025, produzido pela Star e disponível na Disney+ após curta temporada nos cinemas. Não caiu no gosto público, mas é uma viagem para quem conhece o trajeto da história em quadrinhos no brasil e da luta de Maurício em sobreviver com desenhos, tornando-se um ícone da arquitetura artística. Ele recebeu um sonoro não quando estava no Grupo Folha, sendo que lhe falaram que ninguém iria viver fazendo desenhos. Ledo engano!

Maurício não teve vida fácil para alcançar o sucesso com o bico de pena. Foi persistente. Tinha um dom natural para esta arte. Sabia fazer negócios. Surgiu na época certa, com padrinhos do porte de Jayme Cortez, Ziraldo e outros. Os Mesquita lhe estenderam o longo caminho da fama quando na primeira metade dos anos 1960 criaram um suplemento educacional para crianças intitulado “Folhinha”, ainda hoje impresso na Folha de São Paulo. Foi lá que o Rontani pai desfilou uma capa, em 1965, mostrando uma pessoa pescando num lago numa ingênua piada de salão ! Pudera ! Ele pescou uma botina ou algo assim. Começava assim a amizade entre Rontani e Sousa, sendo o primeiro anteriormente flertado por Adolfo e Naumin Aizen, proprietários da EBAL, que por décadas foi a licenciadora no Brasil dos heróis da Marvel e da DC Comics.

O filme tem uma ótima interpretação de Mauro Sousa, filho natural do homenageado. Claro que toda sua composição é pura poesia, como vemos nos momentos em que a musa inspiradora surge para a criação de seus personagens. Impossível crer que ele ou qualquer humano se concentre para criar isso ou aquilo. É aí que as ideias correm e não se concretizam. As ideias surgem de ideais que por sua vez, surgem do improviso, da distração e principalmente dos erros.

Não há por dizer que Maurício tenha sido original de uma fórmula utilizada desde os anos 1950 nos quadrinhos norte-americanos. Lembra da quadrinista Marge que nos anos 1935 criou Luluzinha e com ela trouxe Bolinha e seu clube só de meninos? Ou de Charles Schulz na turma do Minduim com Charlie Brown, Woodstock, Marcie, Paty Pimentinha e até o sujinho personagem que lembrava o Cascão ?

Cinema é escapismo, dirão uns. Cinema é a personificação do alterego, dirão outros. Porém, a indústria cinematográfica consegue atingir em cheio uma catarse necessária para nós humanos.

Me lembro como se fosse hoje de outro prazer trazido por Maurício de Sousa: a revista Pelezinho, da Editora Abril. Enfim, um herói com raízes brasileiras. Quantas vezes não esperei chegar um novo exemplar na banca situada no largo do Mercado Municipal.

Uma das últimas, senão a última, visitas a Piracicaba de nosso mestre ocorreu em 2017, quase dez anos atrás, quando veio a Engenho Central participar do Salão de Humor de Piracicaba. Muitas raízes Sousa deixou fincadas em nossa terra.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 22 de fevereiro de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 28 de fevereiro de 2026)

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Imagem estática

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Fez-se a luz. Com isso, saímos da escuridão. Passamos a enxergar melhor. O ser humano percebeu que um dos seus prazeres era a felicidade. Seja ela simples, sofisticada, inesperada ... “Como seria legal eternizar esse momento de felicidade”, pensou alguém. Talvez tenha sido o homem das cavernas quem disse isso. Sei lá. Mas nas imagens rupestres é possível ver desenhos de homens caçando ... o que é aquilo? Um bisão? Bom, não vamos entrar neste detalhe. Ela eterniza uma cena que deveria demonstrar o poderio social de então. Ou apenas a sobrevivência humana. Sei lá.

Com o tempo surgem as ilustrações, as telas a óleo que propagaram a realeza, a elite. Surgem os desenhos que retrataram na ponta do pincel o Brasil e suas belezas tropicais. Mas, tudo mudou 200 anos atrás, quando um processo químico consegue fixar no vidro ou num metal uma imagem real, não aquela adaptada pela mão humana. Ora, pois. Estava toda embaçada e precisava-se passar horas para tentar interpretá-la. Mas, foi esse o primeiro passo.

Foi em um dia qualquer de 1826 que, na França, Joseph Nicéphore Niépce consegue fixar uma imagem em uma placa de estanho, depois de horas de exposição. Ele usou muitos produtos químicos. Errou diversas vezes. Seguiu uma linha de pensamento que já vinha da China por vários séculos, podendo dizer que a fotografia é obra conjunta de diversos autores, até chegar no atual formato digital. Vieram outros depois, como Louis Daguerre que diminuiu para minutos a exposição de sua câmera utilizando chapas de cobre e vapor de mercúrio. Houve muita química. Houve muitos danos. Lembram da invenção do raio-x, em 1895? Wilhelm Conrad Röntgen usou a esposa Ana como cobaia, expondo-a a raios perigosos, sem saber disso.

A partir daí, pôde-se eternizar momentos de alegria como aniversários e casamentos; tristes como mortes; jornalísticos; aventureiros ... enfim, uma diversidade de opções. Tudo feito na terceira pessoa e o fotógrafo, o clássico lambe-lambe, sempre esquecido, colocado na berlinda. A selfie surge em 2013 quando os celulares passaram a ter câmeras frontais.

Com as imagens estáticas, criou-se a imagem em movimento, ou seja, 24 imagens por segundo dando noção ao olho humano que a imagem se movimentava. Pronto ! Estava criado o cinema que em dezembro completou 130 anos, através de outros franceses, os irmãos Lumière (Auguste e Louis). Quem viveu a era do super-8 ou 16 milímetros ou foi ao cinema e sentir as luzes se apagando, hoje vive de saudade. Nostalgia gostosa para ver como a fotografia e o cinema se tornaram indústrias poderosas e sensoriais. Uma fotografia de formatura ou de casamento sempre foi um sonho de consumo. Eterniza momentos ou pessoas que se foram. Tempos atrás era comum enviar uma foto sua mesma, assinada, para familiares. Quando surgiram as revelações automáticas, como a Polaroid, a sensação de imediatismo passou a fazer parte de nossa rotina.

E, em nossa Piracicaba ? Em menos de um ano após a apresentação oficial do cinema em Paris, nossa cidade recebeu uma exibição a qual todos ficaram maravilhados. Fotografia era algo caro, inacessível. Jornais como a Gazeta de Piracicaba, que circulou a partir de 1882, não traziam fotos. Um dos motivos eram os linotipos e clicherias que funcionavam como grandes carimbos quem prensavam a tinta no papel. O custo da reprodução de uma foto era inacessível para o maquinário da época. As fotografias começam a surgir na imprensa local nos anos 1900, com maior ênfase nos anos 1950.

Mas as fotos circulavam de mão em mão. Em papel fotográfico mesmo. Muitos deles guardados até hoje pelas famílias. Marc Ferrez, mecenato de Dom Pedro II, esteve em nossas terras retratando paisagens naturais como o seco salto do rio Piracicaba numa das estiagens durante a virada do século retrasado para o século passado. Cozzo foi outro fotógrafo que viveu das paisagens e da sociedade piracicabanas. Foi o inovador na cidade com sua Foto Rápida Cozzo que prometia revelações em alguns poucos dias.

Da luz, fez-se a imagem e dela eternizou-se no papel (hoje, no digital) tudo o que o ser humano realizou de bom ou ruim na Terra. Sorria !

(Publicado no Jornal de Piraciaba de 1º de fevereiro de 2026)

domingo, 25 de janeiro de 2026

Imagem em movimento

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Magia, escapismo, indústria... Afinal, o que é o cinema? É empolgação quando vemos “O Agente Secreto” ser finalista ao Oscar 2026? É tristeza ver os minutos finais de “Titanic”? É recordação de um tempo que não volta mais, nos fazendo regredir para o passado e, com isso, lembrar de alguém que já esteve ao nosso lado e hoje não mais está? A resposta é simples, todos estes conceitos fizeram do cinema uma das maiores indústrias do entretenimento, assim como são os games, os jogos de futebol ou basquete, entre tantos outros que se criaram ao longo do século passado.

O cinema completou 130 anos de vida. Foi em 28 de dezembro de 1895 que a França nos brindou com a imagem em movimento. Um filmete de quase um minuto mostrava a saída de funcionários de uma fábrica. Nada de roteiro. Nada de música. Nada de estrelas de renome. Era uma fotografia que se movimentava. Isso era retido em celuloide e podia ser exibido diversas vezes em vários lugares.

A imagem em movimento já era realizada há séculos com a lanterna mágica chinesa. Thomas Alva Edison proporcionou ver estas imagens com seu kinetoscópio, também apresentando poucos segundos de imagens em movimento. Porém, era um prazer solitário (no bom sentido), em que as pessoas colocavam suas vistas em um aparelho individual e viam algo se mover. Sensacional para a época, irrelevante na atualidade.

Auguste e Louis Lumière fizeram o contrário. A exibição era para várias pessoas ao mesmo tempo, numa tela bem menor que aquela que conhecemos hoje. Exigia sala escura, sem som e com todas as pessoas em pé. Nada de poltronas, assentos ou cadeiras, pois os filmetes eram curtos. Muita gente assistia e ficava maravilhada sem saber ao certo o que viu. Mas, surgia a curiosidade e com esta novidade todos queriam tomar contato. No filme que mostrava a chegada de um trem a uma estação francesa, muitos saíram correndo pensando que a locomotiva fosse atropelá-los.

Com o tempo, o ser humano passou a dominar esta técnica. Colocou roteiro, fez do fantástico algo que povoou a tela, inseriu música, fez dublagens, até chegar ao contexto que conhecemos hoje.

Muitos iam ao cinema ver adaptações clássicas de livros, de passagens da Bíblia, desenhos animados, da ilusão que nos alimenta neste um século e três décadas.

Em menos de um ano de sua primeira apresentação na França, o cinema aportou em Piracicaba, com sala exibidora improvisada. Na época, nada de telefone, rádio, internet, televisão ... A cultura corria “à boca solta”. Claro que tínhamos jornais, livros, teatro ... e o que mais? As sociedades se completavam com idas aos teatros, não para ver peças e sim para se socializar, participar de palestras, festas, assembleias e se aprofundar num conhecimento necessário para as pessoas. O cinema era uma extensão do livro, do teatro e do circo! Sim, o circo! A ilusão agora era transformada em celuloide e viajava o mundo. Os Lumieres eram ilusionistas, viajavam vários países com suas apresentações e o que fizeram no cinema? Viagem a lua, viagem ao fundo do oceano ... Ilusão pura que se tornou convencionalismo.

Piracicaba recebe a sétima arte em um barracão próximo a Matriz situada onde hoje está a praça José Bonifácio, na hoje rua Moraes Barros, com chão de terra batido, com ruas já delineadas e muita curiosidade. Klene e Mewe trazem a cidade o cinematógrafo, o espectro cinematográfico, que apresentaria um mundo nunca imaginado pelas pessoas. Na leitura de um livro, cada qual interpreta uma passagem do jeito que sua imaginação manda. O cavaleiro preto e capa pode não ser o Zorro como nos vem à mente. Então, exibição de trens em movimento, animais andando, cidades europeias causam alvoroço entre nossos cidadãos, ou seja, “há vida além de Piracicaba”!

O primeiro filme apresentado em terras caipiras era de vistas naturais, mas elas eram “animadas”. Assim fez-se a luz! Ou melhor, assim se apagou a luz para ver a primeira exibição de cinema na cidade. Em outubro, completa-se 130 anos de feito histórico. Merece um Oscar!


(Publicado no Jornal de Piracicaba de 25 de janeiro de 2026 e na Tribuna Piracicabana de 31 de janeiro de 2026)

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O fim chegou

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

“Bugou?”. “Não. Não bugou”. E assim começamos um novo século temendo o bug do milênio o qual previa caos com a mudança numeral de 1999 para 2000. Os Estados Unidos e outros países, à nossa frente com sistemas já informatizados, temiam um descontrole nas transações bancárias, no abastecimento de combustíveis e nos voos intercontinentais. Nada aconteceu.

“E o Mundo, acabou?”. “Não. Não acabou”. “Mas, Nostradamus previa que o planeta deixaria de ser habitado em 2.000”. Não acabou e nós somos provas vivas disso.

Olhando para o hoje, notamos que já vivemos o primeiro um quarto do século atual. Os primeiros 25 anos do século XXI se encerram nesta quarta-feira, 31 de dezembro de 2025. O fim chegou. E como foi chegarmos aqui? Não quero filosofar sobre o que deu certo ou errado, mas resgatar algumas passagens às quais vivemos e acabam caindo no esquecimento. Algumas memórias são agradáveis.

Iniciando o novo século o Brasil parou para comemorar seus 500 anos de descobrimento. Foi a última vez que o 22 de abril foi feriado nacional. O meio milênio de história foi lembrado na Inglaterra, Espanha, França, Holanda, Portugal e outros países que tentaram colonizar as terras descobertas por Pedro Álvares de Cabral. Piracicaba teve atividades comemorativas. O Engenho Central foi palco de uma grande exposição.

Nestas duas décadas e meia, a cidade cresceu culturalmente. A Festa das Nações e a Paixão de Cristo do Guarantã se consolidam com estrondosos sucessos. Foram atividades que movimentaram o antigo Engenho Central, à beira do rio Piracicaba. A cidade ganhou um novo teatro construído pelo poder público, o Erotides de Campos, assim como uma ponte estaiada dr. Aninoel Dias Pacheco e outra ponte próxima ao salto do rio, denominada de arquiteto Caio Tabajara Esteves de Lima.

O comércio também cresceu. Conheceu novos empreendedores com a criação da lei das MEIs. Conheceu o avanço tecnológico em que robôs compartilham a linha de produção com o ser humano no fabrico de veículos automotores e elétricos. A tecnologia da Coreia do Sul desponta em um novo bairro, trazendo diversos fornecedores. E pensar que até o início dos anos 1980 Piracicaba era referência como cidade vizinha a Rio Claro, onde se construía o Gurgel, ou de Santa Bárbara d’Oeste com sua Romi-Isetta.

O atual século mostrou que não temos domínio sobre nossas ações. No final de 2019, começam a ecoar as notícias sobre o vírus SARS CoV 2, a Covid-19, tão devastadora que colocou o planeta em alerta mundial dizimando milhões de pessoas. Culparam os coitados dos bichinhos civeta e pangolim como os propagadores. Teorias da conspiração tendem para o descontrole de vírus de laboratório em Wuhan. Mas, aí já é outra história.

Chegamos a 2025 impressionados com a inteligência artificial que desde os anos 1950 povoavam teses acadêmicas, seriados de tv, filmes de cinema e principalmente livros. A IA é mais que remodelar uma foto transformando-a em filme. É a chave condutora para veículos autômatos na Europa e na América do Norte. É o drone teleguiado que atira bombas e granadas na Ucrânia ou dispara fuzis sem a presença física do ser humano com exatidão no alvo. É algo que nos assusta.

O espaço é pequeno para discorrer sobre o ataque às torres gêmeas do World Trade Center ou a Primavera Árabe. Mas olhemos para nosso microcosmo chamado Piracicaba, onde vivemos nossa vida. Tínhamos 329 mil habitantes no primeiro ano do século, somando hoje, segundo determinadas fontes, 420 mil pessoas. A gastronomia cresceu de forma exponencial para satisfação dos comensais. Nas mídias sociais, ouvimos o clamor por um ou mais de um novo shopping center. O atual remonta o final dos anos 1980. Dois outros foram prometidos, à margem do rio Piracicaba e outro no Taquaral. Ficaram apenas na promessa. Mas, mesmo com estas solicitações, o piracicabano ainda frequenta avidamente este centro comercial.

Os desafios estão aí. Iniciativas públicas e sociais se reúnem para enfrentar o crescimento urbano da cidade. Pensar na Piracicaba 35 já é um desafio em prática. E tenhamos um ótimo início do segundo um quarto de século. Bom ano novo !


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

O retorno do caipira a Piracicaba

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Foi um nome que colocava respeito. Afinal, ministro chefe da Casa Civil da República não era título para qualquer um. Me recordo que, lá por meados dos anos 1990, noticiava eu, pelas ondas da Rádio Alvorada AM, na extinta frequência dos 910 kilohertz, fatos de um governo que prometia esperança para o país. Havíamos passado pela abertura democrática em 1984, tivemos eleição de Tancredo Neves, a posse de seu vice José Sarney e em seguida foi empossado o “caçador de marajás”, Collor de Mello. Era um período de transição na qual o brasileiro buscava sua identidade.

Foi uma época de falta de esperança. A inflação atingiu astronômicos 80% ao mês. Era como receber 1 mil reais no início do mês e ele valer apenas 20%. O poder de compra caiu drasticamente. Em 1994 surge o Plano Real, equiparando o real ao dólar norte-americano. Ou, seja 1 real vale 1 dólar. A prática mostrou ser pura utopia, pois logo em seguida a crise na Argentina fez a moeda brasileira perder por 2 a 1, ou seja, o dólar valorizou 100% em poucos meses. Mas de lá para cá aprendemos a controlar a moeda, evitando, nestes 31 anos, de cortar os zeros comidos pela inflação galopante ou mudar a denominação de nossa moeda.

Pode não ter sido o “ovo de colombo” na economia ou na política. Mas ajudou na identidade do brasileiro.

Isso tudo foi contado no livro “O caipira e o príncipe”, produção independentes do autro, lançado em Piracicaba na segunda semana de novembro por um dos personagens que participou destas ações em Brasília junto ao governo FHC, o “quase” piracicabano Xico Graziano. Nascido na vizinha Araras, Xico tem os pés em Piracicaba por ter estudado no Colégio Sud Menucci e ter se graduado na ESALQ. Foi o caipira representando Piracicaba no governo federal nos anos 1990, em conjunção com outro piracicabano, Barjas Negri, o qual atuou como Secretário do Ministério da Saúde, assumindo em seguida a pasta quando o titular José Serra se candidatou a presidente da República. Xico disse, no lançamento, que pretendia publicar o livro “O caipira e o príncipe” apenas depois do falecimento do ator principal do enredo, Fernando Henrique Cardoso. Mas sua veia de escritor aguçou a necessidade de colocar no papel todo bastidor vivido em Brasília na segunda metade dos anos 1990. Triste é saber que, conforme anunciado no lançamento do livro, FHC está em estado delicado de saúde, sem reconhecer as pessoas, relembrar os fatos, ou conforme disse Xico, “esperando a vida apagar-se aos poucos” ...

A obra pode não ser vista como uma elegia ao tucanato do PSDB mas coloca em evidência nomes esquecidos pelo brasileiro como o ministro das comunicação Sérgio Motta, o governador Mário Covas, o ministro da saúde José Serra e outros vistos como personagens que moldaram o Brasil anos após a redemocratização. São bastidores necessários para se conhecer porque o país é assim hoje. Assim, como Laurentino Gomes fez com a história pré República ou Elio Gaspari discorreu na coleção sobre a ditadura iniciada em 1964.

Nada de endeusar partido esse ou aquele, principalmente em época de polarização política. Mas curioso é ver, através do livro como um caipira tão próximo a nós viu, vivenciou e esteve tão perto do poder que regulou a política, a economia e a sociedade por cerca de uma década.

Piracicaba teve vários caipiras no poder. Isso pode ser visto nos livros locais desde a época da independência, passando por Prudente de Moraes (piracicabano não nato, mas de fato). Agora, triste é ver que toda essa dedicação ao poder caia no esquecimento em época de internet, com total desinteresse da geração atual. Faz parte do ciclo natural da vida ...


domingo, 12 de outubro de 2025

Rua sem saída

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Na última quarta-feira (8 de outubro de 2025), a história de Piracicaba foi reescrita. Mais uma vez reescrita. E desta vez sua história foi resgatada à oito mãos, sendo dedilhada por Barjas Negri, Miromar Rosa, Kátia Mesquita e Fábio Bragança. Com a publicação do livro “1001 Ruas”, produção independente dos autores, resgata-se não apenas uma lista de endereços e sim personalidades homenageadas em logradouros como ruas, avenidas, vielas, travessas, viadutos e afins.

Para quem não tem destino, qualquer caminho serve, já dizia um velho ditado. Porém, as ruas são referência para nossa rotina diária. Imagine como eram as referências no passado: pegue a rua direita (que partia do rio Piracicaba), siga até o bairro alto (no alto da colina esquerda do rio) e próximo você encontra o bairro dos alemães (em homenagem à colônia germânica aqui estabelecida). São pequenos exemplos que nos norteiam na direção a ser tomada.

Passear pelas ruas é um conhecimento curioso e gostoso. Afinal, vamos à Governador visitar as lojas sem muitas vezes estudar quem foi Pedro de Toledo, interventor federal em São Paulo no início dos anos 1930, deportado para Portugal por ter colaborado com os paulistas na Revolução Constitucionalista. Aliás, existem poucas referências – apenas em anúncios em jornais – sobre a rua João Pessoa, anteriormente denominada de rua do Commércio e posteriormente Pedro de Toledo. A mudança de nome de qualquer logradouro hoje demanda não apenas da mudança das placas em cada esquina e sim na mudança cartorial e suas avenças financeiras.

Temos bairros com ruas que homenageiam a Segunda Guerra Mundial (Monte Castelo e Pistóia, no bairro Verde), assim como cantores (Francisco Alves e Ataulfo Alves, também no bairro Verde), países, aves, flores e outros. Mas “1001 Ruas” busca homenagear as pessoas que fizeram e construíram Piracicaba, num abecedário com diversas verbetes. Não são biografias extensas, mas referência necessária para saber quem é o nome estampado nas esquinas quando se coloca o pé na calçada ou no asfalto.

Também é uma forma de viajarmos no tempo com nossa memória que às vezes fica empoeirada. Talvez poucos se lembrem dos carros batidos, amassados e recolhidos pela Ciretran em sua sede ao lado da praça da Boyes, na rua Luiz de Queiroz onde hoje serve-se uma das melhores gastronomias locais. Ou de um tempo de antanho quando a rua do Porto era aquela conhecida hoje por rua Moraes Barros, já que ela é quem dava destino ao porto no rio Piracicaba. A própria rua do Porto, ao lado da avenida Alidor Pecorari era uma zona residencial até os anos 1980. Nos dias atuais é um centro comercial movido pela gastronomia servida à mesa.

Andar pelas ruas de qualquer cidade é possível ver belezas (como as grafites no Largo dos Pescadores) e as “feiuras” como lixo ou a má conservação das calçadas, entre outros.

O livro evoca memórias e esclarece algumas pessoas que não fazem ligação que alferes era a atual patente de tenente no Exército Português. E que José Caetano (Rosa) foi vereador, dono de usina e escravocrata. Além disso, foi um dos principais arruadores da cidade, numa era em que tudo era feito nos “zóio”, sem GPS nem nada.

Aliás, já que abordamos localizadores, alguns deverão se lembrar de como era difícil viajar para São Paulo, Campinas e Santos sem o Mapa Rodoviário 4 Rodas, publicado pela revista da Editora Abril. Dirigir sem ela era difícil. Mas dirigir com ela era pior já que o mesmo ocupava quase todo o painel dos veículos.

Neste interim surgiu o GPS. Tínhamos de pagar para suas atualizações. Não era como hoje no celular. Semáforos, radares, ruas sofriam alterações... dá-lhe atualização! E pagava-se por ela. Hoje, você viaja com o celular que lhe dá conselhos sobre policiamento a frente, ou veículo parado mais adiante ou objeto no meio da estrada. Ficou mais fácil. Ou, seja: o Waze é meu pastor e ele me guiará...

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 12 de outubro de 2025)

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Saci teve um pé em Piracicaba

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Saci teve um pé em Piracicaba. Aliás, teve seu único pé em Piracicaba. E não é ironia. Vamos usar uma história para descrever o porque disso. Há 100 anos atrás, as pessoas liam uma obra de Bram Stocker intitulada “Drácula” e, cada cabeça imaginava um jeito como deveria ser o Vlade Tapes, mais conhecido como o vampiro que se alimentava de sangue humano e vagava como um intrépido insone, fugindo do sol. Porém, foi Tod Browing em conjunto com Carl Laemmle Jr. que deu a imagem que conhecemos hoje, longe dos livros. Um sujeito de cara fechada, vestido de roupa negra e uma longa capa. Pronto ! Estava feito o estereótipo do vampiro noturno !

Pouco mais de 100 anos atrás, sem televisão, cinema e internet, a imaginação corria à solta. A conversação arrepiava as pessoas. Foi daí que se propagaram lendas urbanas e rurais, dentre elas o saci.

Coitado do nosso Pererê... Teve de caminhar a duras penas para que no imaginário popular tivesse a composição de uma pessoa de meia idade, segurando um cachimbo, vestido apenas de shorts e um gorro na cabeça. Sabia-se que ele era terrível para com todos, que dava assobios ensurdecedores, aparecia em redemoinhos os quais surgiam do nada ! Mas, como se elaborou esta aparência ?

Pois, bem. Monteiro Lobato, lá por volta de meados da década de 1910, utilizava as páginas do jornal “O Estado de São Paulo”, para fazer seus inquéritos. Foi aí que ele criou, em crônicas, seus pensamentos sobre o homem interiorano, depois reunidos no livro “Urupês”. Surge o Jeca Tatu, típico caipira, desleixado que vive no campo, pita um cigarro, e espera a vida acontecer. Foi neste Jeca que surgiu o nosso Jeca, o “Nhô Quim”, mascote do Esporte Clube XV de Novembro de Piracicaba. Uma história puxa a outra.

Foi nestes inquéritos do Estadão que Lobato questionou o vanguardismo da Semana da Arte Moderna, hoje inconteste revolução artística. Na época, ele considerava os trabalhos de Anita Mafalti como aberrações em forma de telas. O tempo foi cruel com Lobato, mostrando-lhe que os rabiscos de Anita criaram fama e alcançaram milhares de dólares quando postos a venda nos leilões.

“Inquérito sobre o sacy-pêrêrê” foi uma das suas articulações para que, em conjunto com os leitores pude criar a “cara” desta lenda contada em todo o Brasil. “Mythologia brasílica” era o nome da coluna. Aí é que Saci coloca o pé – com perdão para a expressão – na cidade de Piracicaba. Em 1º de março de 1917, o Estadão publica carta de Sebastião Nogueira de Lima ajudando a compor esta face do negrinho que aprontava suas estripulias, seguindo tradições indígenas e africanas que povoaram por muitos séculos as tradições orais.

Nogueira – que foi vereador, delegado e interventor federal em São Paulo – lançava curiosidades interessantes sobre o Pererê, criando inclusive uma música (também publicada naquela edição) sobre como deveria ser o assobio do perneta, lembrando o seu forte silvo.

Nogueira conta uma face admirada por Lobato: o saci sentimental. Aliás, não é o saci e sim vários sacis, todos com feições iguais, mas com sexos diferentes e idades também diferentes. Ele mesmo cita que, quando criança, ficou ensurdecido com o silvo de um saci chamando sua amada, num solfejo a la “rhtymo de polka”, conforme descrito naquela edição.

“Inquerito sobre o Sacy” virou um livro escrito por Monteiro Lobato. O depoimento de Sebastião Nogueira consta nele. Não dá para dizer, então, que Saci Pererê não seja piracicabano. E viva nosso cidade !




(Publicado na Tribuna Piracicabana de 11 de outubro de 2025)

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

História acessível

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Um acervo acessível. Não naquilo que se trata de acessibilidade com rampas. Mas, sim, acessível onde a pessoa estiver. É para isso que o Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba tem trabalhado nos últimos anos. Pois, com a pandemia aprendemos muito. Surgiram aplicativos e plataformas de consulta a distância sem a necessidade de presença para pesquisar no material físico. Empresas aprenderam com o home office ou o modelo híbrido. Dias atrás foi destaque a demissão de 1 mil funcionários que estavam nestas condições num banco de renome no país.

Recentemente, folheando um jornal de 50 anos atrás notei que deveria tomar total cuidado pois ao virar de forma rápida o mesmo tenderia a rasgar. Não era este meu propósito. Se estou folheando um veículo da imprensa local lançado meio século atrás, quem seria eu nesta ordem? Não queria ser a ferramenta que impediria de tê-lo conservado por mais e mais anos.

Isso nos ensina muito. Institutos locais e centros de documentação estão cada vez mais restritivos com relação às consultas pessoais. Por conta destas condições e também por ações consideradas como vandalismos, as quais posso enunciar algumas aqui: o surrupiar de um bem; o recorte de parte da página; ou rasgar a página toda de um livro, um caderno etc.

Há receio de abrir documentos originais por vários motivos. Um foi enunciado acima. Outro é sua conservação. Três pastas encontradas recentemente em nosso acervo destaca a vida de Antonio Pádua Dutra, tudo muito bem conservado, com seus telegramas enquanto em terras europeias, assim como suas correspondências manuscritas um século atrás. Separadas em papel manteiga, estavam fotos da época. Tudo daria um livro. Se não for inventariado, não pode ser aberto à população.

Pois, bem. Há mais de dez anos nas gestões de Pedro Caldari e Vitor Pires Vencovsky, o IHGP tem se lançado ao mundo digital como forma de facilitar a propagação da história de Piracicaba. Para isso tem na plataforma Flickr mais de 13 mil registros fotográficos. O acervo de fotos do Jornal de Piracicaba dos anos 1980 a 2000 aos poucos está sendo disponibilizado. Importante salientar é que todo o acervo pode ser visto e baixado gratuitamente, em resoluções que vão da versão web até para a confecção de imensos painéis, como pode ser visto em redes supermercadistas locais.

Há o que ser feito. Há muito a ser feito, diga-se. O IHGP tem vídeos e palestras em plataformas de streaming. Está lançando agora em setembro seu podcast no Spotify. Em breve terá uma sequência entrevistas no seu videocast. Tudo para registrar a atualidade para o futuro e resgatar o passado com gente que possui muito conhecimento.

A história de Piracicaba remonta 258 anos de vida. Até mais, se formos levar em conta as expedições que por aqui se aportaram, mas não fincaram raízes, ou as monções discutidas mas nunca efetivadas pelos povoadores. Não temos toda esta história. Algumas delas só é possível em consulta presencial em Portugal, para onde eram enviadas cartas e deliberações em geral para escrutínio da coroa real.

Assim, criamos vários públicos que se interessam por um passado longínquo e curioso. Outro que viveram meados do século passado e lembram muito mais do que nós, porque conviveram com outras pessoas naquele período. E a geração que vive a expansão de Piracicaba com, por exemplo, as boates, os parques industriais, os shoppings centers e aquela memória mais afetiva que ainda povoa nossa lembrança, sejam elas dos anos 70, 80 ou 90... Ao estarmos no primeiro um quarto do atual século, cabe lembrar que os anos 2000 já têm uma carga histórica de passado. Uma carga preciosa a ser preservada e divulgada.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 21 de setembro de 2025 e na Tribuna Piracicabana de 27 de setembro de 2025)

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Tadinho do “seu” Vitório ...

Nelson Gonçalves e Cobrinha

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba


Numa saudade que punge e mata, nos esquecemos do “seu” Vitório. Cancioneiro daqueles que não existem mais, cujos olhos vibravam enquanto entoava seu violão, que fazia serestas para doces mulheres que se prostravam nas sacadas das residências. Sacadas hoje nem existem! Ou estão cercadas por concertinas ou tiveram instaladas grades.

Vitório Angelo Cobra foi um resgate que o Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba fez na sessão comemorativa de seus 58 anos de fundação no último dia 26 de agosto, na Câmara de Vereadores. Fizemos questão que o Hino de Piracicaba fosse executado por uma antiga gravação conseguida por um LP de 1974. Eis que na ocasião, a Miss Bicentenário Maria Graziela Victorino França veio e me confessou: “nos 200 anos de Piracicaba, a Câmara não tinha uma sede e a solenidade de aniversário ocorreu no palco do Teatro São José; enquanto estava eu para receber o título de Miss, ao nosso lado estava o ‘seu Cobrinha’ para tocar este hino”. Foi emocionante para ela na ocasião e foi emocionante ver no telão da Câmara a voz do “seu” Vitório Angelo estalar seu gogó em letras marcantes quando se refere a Piracicaba como “cheia de flores, cheia de encantos”. Por mais que seja uma gravação simples acompanhada de um violão e um teclado, foi importante este resgate. Isso porque na atualidade, Cobrinha vem sendo legado ao ostracismo, provocado por plataformas digitais de músicas, por mídias digitais que sequer pensaram em digitalizar obras locais como do próprio e referido Vitório Angelo, Pedro Alexandrino, Parafuso e outros seresteiros. Tal Hino de Piracicaba hoje é acessível e fácil de ser conferido nas vozes de Craveiro e Cravinho ou Aninha Barros. Novas versões, novas roupagens. Mas, nada tira o brilho de nosso cancioneiro mor acompanhado muitas vezes no teclado por Caçulinha. Quem nasceu em 1967 foi presenteado pelo poder público municipal com um compacto composto por quatro músicas cuja performance foi de Cobrinha, incluindo tal hino.

Me lembro nos anos 1990, quando funcionário da Rádio Alvorada AM, ter visitado Cobrinha em sua residência no Bairro Alto. Titio Luiz, ou Luiz Antonio Cópoli, não deixava escapar uma. “Pega o carro, vai na casa do Cobrinha e faz uma entrevista com ele pelo telefone”, dizia. Seu Vitório já estava cansado. Mas nunca disse não. Faleceu em 1995. Deixou um legado necessariamente a ser resgatado. Aos 15 anos de idade começou a dedilhar o violão ao lado dos irmãos Pedro, Salvador, João e Antonio, que formavam o grupo “Choro Cobra”. Foi pioneiro, pois tal “Piracicaba” chegou a ser gravada por ele e Mariano 93 anos atrás, em 1932, nos Estúdios da Columbia, em São Paulo, naqueles pesados discos de 78 rotações. No auge da carreira, foi membro de bandas nas quais estavam, entre outros, Leandro Guerrini e Francisco Lagreca. Dividiu o microfone com pesos pesados como Francisco Alves, Silvio Caldas, Orlando Silva e Vicente Celestino. Só feras!

Em agosto, numa das idas ao Cemitério da Saudade, parei no bolsão de estacionamento em frente e fitei por alguns minutos o busto de Cobrinha empunhando um violão na praça Vitório Angelo Cobra, Cobrinha. No local, de 1981 a 1988 ficou instalado o Monumento ao Soldado Constitucionalista, que retornou ao seu local de origem na praça José Bonifácio após acórdão com o Supremo Tribunal Federal. Na praça, lá está Cobrinha no alto do monumento olhando para o Cemitério e dedilhando para aqueles que hoje não mais estão no meio de nós.

Porém, o tempo é cruel. Ele acompanha o esquecimento de mãos dadas. O próprio poder público, que em julho de 1993, instituiu uma Semana em sua homenagem esqueceu desta festividade. Aproveite a vida, pois na morte, todos tomamos o caminho do esquecimento. E salve o “seu” Vitório !


quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Mensagem para nosso futuro

 Edson Rontani Júnior

Jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Não estou nesta fase, mas preservo as amizades com septuagenários e octogenários. Essas amizades surgiram 30 ... 40 anos atrás. Talvez mais, talvez menos. Eu também era mais jovem. Não faço qualquer diferença. Pelo contrário, mais ouço que falo pois sei que da mente destas pessoas sai muita vivência, história de um longo passado gostoso de ouvir pois confio em tudo e saboreio cada palavra dita.

Henrique Cocenza, escritor e professor na Unimep, escreveu certa feita um livro com o título “Antes que eu me esqueça”, se não me engano, no início dos anos 1990. Sábio título. Sábio pois o ser humano por sua natureza tem o dom de esquecer. Memorizamos apenas aquilo que repetimos sempre. Cocenza colocou no papel passagens de sua vida as quais tinha medo de esquecer com o passar o tempo. Ele faleceu, mas sua palavra e seu pensamento permanecem. Eu próprio, quando pego meus textos de 15 ... 20 anos atrás, estranho algumas passagens. Não me lembro delas. E fico boquiaberto pensando: “fui eu mesmo quem escreveu isso?” ...

Leandro Karnal dias atrás publicou na imprensa um imenso artigo de reflexões voltadas para a sua própria velhice. Mensagens escritas no hoje para ele mesmo daqui 20 anos. O ser humano é mutável, seu pensamento é perecível. É curioso compararmos o hoje em outros tempos. É como ver um caderno escrito por nós mesmos no passado. A gente estranha.

Desta forma, ficam algumas dicas para todos nós seja daqui dez ou 20 anos. Vamos à elas ?

- Espero que eu e você em 2045 tenhamos controlado o tempo. Quando jovens temos tempo, mas falta tudo à nossa volta, desde uma casa, um carro ou o dinheiro. Queremos comer uma pizza com a namorada mas falta a bufunfa. Quando estamos ativamente na vida, o tempo nos come tornando os dias curtos achando chato festas, aniversários, pizzarias, enquanto podíamos estar encolhidos em casa para tirar o atraso do sono ou daquele “não fazer nada” aos finais de semana. Devemos ser sábios em domar o tempo e não deixa-lo nos dominar, assim como devemos aprender com o dinheiro. Não sejamos escravo dele. Tomara que no futuro, tudo isso aqui faça sentido !

- Seja sociável. Com o passar do tempo, trocamos o olhar no olho pela revista, pelo álbum de fotografia, pela televisão e agora pela internet. Mesmo em rodas de conversa, é comum ver as pessoas sentadas ao nosso lado remexendo o Instagram num nocivo stalkear para saber o que fulano está fazendo, o que sicrano está comendo, e assim vai. Isso tem nome, chama-se FOMO, uma síndrome já tratada como doença. Gostoso mesmo, é jogar baralho, um jogo de tabuleiro, independente de fazer calor ou chover lá fora. Importante é sentir pessoas ao seu lado que um dia nos deixarão e, muitas vezes, sem dizer um “te amo” ou um “tchau”. Espero que entendamos isso no futuro.

- Não seja teimoso ! Sim. Você e eu não devemos ser teimosos com o passar o tempo. Parece que isso anda de mão dada na velhice. Semanas atrás estava eu numa farmácia na rua Governador esperando ser atendido. Repentinamente um barulhão. Olho para a entrada, um homem caído ao chão. Celular para cá, documentos para lá e ele estendido no chão com a cara espatifada. Caiu sabe-se lá como. O erguemos, colocamos numa cadeira e o mesmo começou a reclamar que doía sua face, a qual começou apresentar sinais de sangramento. Aparentava ser octogenário. “O senhor quer que avise alguém da família?”, disse minha esposa. A resposta: “eles não ligam para mim, estão passeando e de nada adianta ligar”. Para mim, pura teimosia. Sentimos dó, mas notamos um vazio na vida do mesmo num momento em que quatro ou cinco estranhos o socorreram e o mesmo negava ajuda de pessoas “sangue do seu sangue”, os familiares que estavam passeando.

Fórmula boa e fácil não existe. Talvez daqui uma semana eu leia isso tudo e pense que escrevi a maior besteira. Não sei, talvez leia tudo isso em 2045. Sem pressa, aliás.  

 

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

A sopa para a mosca pousar

Edson Rontani Júnior, jornalista e cinéfilo 

A teledramaturgia e o cinema parecem estar andando de mãos dadas à qualidade, coerência e na infinitude de ideias. Pouco antes da pandemia surgiram produções biográficas sobre expoentes de nossa música popular brasileira, a famosa MPB, termo que surgiu nos anos 1960 contrapondo à bossa nova. Muitas destas produções superaram expectativas. Podem não ter rendido o esperado na bilheteria, mas se destacam como excelentes peças na telona ou no streaming.

Eis que aparece “Raul Seixas – Eu Sou” lançado em março pela Globoplay e exibido a partir desta semana em sinal aberto pela TV Globo. São oito episódios que relatam a vida deste ícone do rock brasileiro e figura inconteste da sociedade brasileira. Vale destacar que o seriado é mais que Raul, é Ravel Andrade na pele do personagem principal, numa surpreendente interpretação aliada à fantasia como os brainstorms com Paulo Coelho na criação de letras das músicas.

A cada capítulo um espelho crescente como uma opereta maluca na qual sua infância na Bahia nos leva ao Raul criança, sonhador com extraterrestres, iludido com livros com conteúdo fantásticos que reverberam Jules Verne, Alexandre Dumas, Edgard Alan Poe e outros. De terno, gravata e pasta 007, ele perambula pelos escritórios da CBS do Rio de Janeiro mostrando seu desconforto em ser um “cidadão respeitado que devia estar alegre e satisfeito por morar em Ipanema”, como dizia seu hit “Ouro de Tolo”.

O seriado passa de meados dos anos 1960 até 1989 quando o ídolo morreu aos 44 anos de idade. Tem cenas surreais como a do elevador no qual encontra-se com Jesus Cristo e Elvis Presley. São ícones de sua fase grã-cavernista na qual procurava uma sociedade alternativa em plena ditadura militar. Até explicar que esta sociedade era uma religião e não uma ordem social, houve um hiato imenso, pago, aliás, por Paulo Coelho, comunista de carteirinha e autor de mirabolantes letras cantadas pelo mago do rock brasileiro.

É nesta ligação que cito outras obras do cinema nacional como “Tim Maia” (2014), “Elis” (2016), “Minha Fama de Mau” (2019). Todos mostram astros ricos, populares, rodeados de tietes, donos de sucessos musicais, porém presos a drogas e ao álcool. Raul era mais. Seguia o bordão: “drogas, sexo e rock’n’roll”. Vivia de festas até com estranhos. Bebia o dia todo além de atirar-se como corpo e alma no fumo e nas drogas. Mas é inconteste a capacidade de criar música, arranjos e, principalmente, letras em sucesso que lhe renderam shows e discos de ouro na época em que eram conquistados a cada 100 mil LPs vendidos. Subiu rapidamente e caiu rapidamente. Passou a ser contratado com desconfiança de que não terminaria seus shows de forma sóbria.

Era um “maluco beleza” no jeito de se vestir. Teve esposas e mulheres, assim como filhas. “Raul Seixas : Eu Sou” deixa evidente sua necessidade de estar presente no passado, como espelho ideal de sua vida. O pai ausente que esteve compondo, tomando suas “biritas” ou procurando seu ego enrustido numa religiosidade extraorbital. “Carimbador Maluco” foi o início da queda. “Eu gravando uma música para um programa infantil?”, chega a dizer. Rendeu-se à sociedade convencional para não morrer de fome.

A obra merece mais que ser vista e revista. “Raul Seixas: Eu Sou” é uma concepção concreta de que a teledramaturgia já segue os passos dos seriados americanos anos dos anos 2000 e 2010 e dos doramas coreanos da atualidade. Ou seja, estamos em plena sintonia com o streaming mundial ofertando bons produtos, consumidos facilmente, mesmo que Donald Trumpo invente de taxar nosso cinema e nossa televisão.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

A montanha dos abutres

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba


 

Uma pessoa curiosa fica presa numa caverna ao procurar relíquias indígenas. Soterrado, ele tem o auxílio de desconhecidos para se alimentar. Mas as rochas que caíram sobre ele impedem seu resgate. A história ocorre na cidade de Albuquerque, estado do Novo México, Estados Unidos. Um jornalista aproveita a situação para fazer o que se chamou em outras época de “jornalismo marrom”, ou seja, tirar proveito da situação para alcançar leitura e venda do material impresso.

Claro que a época é outra. No caso do curioso a ser resgatado, estamos na virada da década de 1940, quando os jornais tinham milhões de exemplares por dia, em que não existia concorrência da televisão muito menos da internet. As pessoas se informavam com o papel impresso, como este jornal. Um repórter que estava buscando um “furo jornalístico” e, quem sabe, reascender profissionalmente, vê no caso da caverna uma chance de brilhar. Como será feito o resgate? A vítima passa bem? O que ela pensa sobre seu futuro? Tudo era um capítulo atrás do outro, como vemos em novelas ou seriados. O jornalista nota que isso aumenta a venda do jornal impresso e eleva seu faturamento publicitário.

Porém, ele pensa: quando acabar, tudo volta ao normal. Minha reputação retorna à estaca zero. Meu ganho financeiro, também. Por que, então, nos postergar o resgate? Assim, ele começa a impedir o avançar da retirada do indivíduo do buraco.

Este é o filme “A montanha dos sete abutres”, de 1951, estrelado por Kirk Douglas como o inescrupuloso jornalista, dirigido pela batuta do polonês Billy Wilder. Ele foi um dos melhores diretores norte-americanos do cinema. Toda sua carreira é permeada por sucessos comerciais e filmes que colocam nossa mente em parafuso.

Bom, de 1951 para 2025 são 74 anos de distância. A sociedade mudou. O jornal impresso mudou. O engajamento em mídias digitais é algo contemporâneo que alterou o meio que vinha numa boa cadência desde os anos 1800.

Dias passado chegou a nós a informação da publicitária paulistana que caiu na boca de um vulcão na Indonésia, resgatada dias depois sem vida. Alguma similaridade com o filme anteriormente citado? Entre sua queda e seu resgate, foram poucos dias. Mas o engajamento nas mídias sociais mexe com algoritmos que interessam aos processos midiáticos atuais. Tanto que o assunto ainda é pautado, semanas depois. No mesmo final de semana, um balão com mais de 20 pessoas pega fogo, em Praia Grande, Santa Catarina, e eleva os algoritmos digitais.

A curiosidade do ser humano hoje é guiada por altos e baixos do Instagram, Tik Tok e outros. A curiosidade em ver “o circo pegar fogo” com os outros é peculiar do ser humano. Nelson Rodrigues já falava que é mais curioso ver o que ocorre na esquina de casa do que nos Estados Unidos. Não à toa criou seu espetacular “O beijo no asfalto”. George Orwell em “1984” ditou regras que hoje movimentam milhões de dinheiro com a fórmula do “grande irmão”, ou o big brother como conhecemos. Olhamos pelos canais disponíveis o que as pessoas fazem trancafiadas numa casa.

O voyeurismo passou a ser palavra de ordem. Celular na mão e o processo midiático passando na nossa frente. Risada daqui, comoção dali ... alimentos que movem o ser humano.

Submarino russo que submergiu e nunca mais voltou a tona em 2000. Mineiros soterrados no Chile em 2010. O padre que saiu voando com bexigas. Avião que caiu na Índia em junho. Avião com o time do Chapecoense que caiu em 2016. Estes são exemplos de recordações que fixam em nossa mente e nunca mais desgrudam. Precisamos disso?

Assim como a jovem de 25 anos que caiu na boca de um vulcão indonésio, fica a reflexão passada por Amir Klink, durante navegação que ele fez em águas antárticas: o silêncio. Ele é ensurdecedor pois não se ouve nada entre geleiras. E com isso ele olhou para seu interior e descobriu a solidão fazendo desta força uma forma de buscar e garantir a vida.

(Publicado no Jonal de Piracicaba de 29 de junho de 2025 e na Tribuna Piracicabana de 5 de julho de 2025)

quinta-feira, 26 de junho de 2025

“Meu melhor amigo”

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Domingo. Dia de descanso, do almoço demorado, da televisão à toa e do cochilo a tarde. Não sei porque, mas pela manhã me veio à mente um livreto intitulado “Manuscritos do Mar Morto”, publicado por um jornal local na década de 1950. Confesso que já o folheei mas não o li por completo, isso há cerca de 30 anos atrás. Ainda no domingo, mais a tarde, baixa-me a tristeza, a solidão e o silêncio. Quietude. Algo inexplicável que se encaixa posteriormente. Mas, naquele momento, a distância entre a razão e o coração torna-se imensa e não consigo ligar os fatos. Bola para a frente! Eis que no início da noite me vem a informação de que falecera Oswaldo de Andrade. Explica-se aí esta sensibilidade que tenho, já vivida tantas e tantas outras vezes com a partida de parentes como se eles viessem me dar seu adeus e eu, ingenuamente, não conseguia unir as situações.

Oswaldo de Andrade foi uma referência em toda minha vida. Amigo de infância de meu pai, Edson Rontani, fizeram uma parceria como Oliver Hardy e Stan Laurel ou Ginger Rogers e Fred Astaire, para citar aquilo que eles mais gostavam: o entretenimento. Andrade teve sua profissão como advogado, mas colaborou com a imprensa local por diversas vezes. As mais recentes colaborações foram artigos de cultura em O Diário e também no Jornal de Piracicaba. Quem folhear os arquivos de 50 anos atrás encontrará nas páginas destes matutinos a assinatura deste escritor agora saudoso. Partiu no último domingo.

Encontrei-o pela última vez no jantar pelo dia do cirurgião-dentista em outubro passado, ainda recuperando-se do falecimento de sua filha Fernanda. Estava alegre com uma gravata borboleta ao lado de sua amada Zenaide para a homenagem de gala ao seu filho Oswaldo Scopin de Andrade, profissional de reconhecimento internacional na odontologia, que na ocasião seria homenageado como o Dentista do Ano. Haaa ... se eu soubesse que aquele seria nosso último encontro ... A vida é assim. Temos conhecimento que um dia termina. Pensamos ser forte para encarar a morte, mas quando ela chega, desabamos e chão algum segura.

Rontani pai morava na rua Boa Morte, quase esquina da rua Ipiranga. Eram os anos 1940. Ainda guri, estudou com Oswaldo da Andrade que morava a poucas quadras dali, na rua dom Pedro I em frete à Societá Italiana de Mutuo Soccorso. Quando Rontani entrou pela primeira vez na casa de Andrade, ficou maravilhado. O pai de Oswaldo era gerente da Rede Férrea Sorocabana e tinha em sua casa todo aparato necessário para a rotina administrativa, como papel, lápis, borracha, carimbos ... Rontani já tinha paixão por desenho, arte que o tornou conhecido até as gerações atuais, através do personagem Nhô Quim do XV de Novembro, do fanzine ou da coluna Você Sabia? publicada no Jornal de Piracicaba. O que ele não tinha são estes materiais. “Seu pai ficou admirado quando viu em casa tantos recursos que meu pai dispunha”, disse seu Oswaldo certo tempo atrás durante uma ligação telefônica que fiz a ele. Era muita ostentação para quem desenhava em papel de pão com um lápis para poder usar a borracha, apagar tudo o que tinha feito e desenhar de novo.

Andrade também era fã do desenho. Do cinema também. Rontani e Andrade recolhiam de tudo que era vendável – estamos falando aqui de pequenos petizes de 10 ... 12 anos de idade. Pegavam jornal e vidro (sim era reciclável e bem pago devido à escassez provocada pela Segunda Guerra). Juntavam, vendiam no ferro-velho e compravam ingressos para assistir aos seriados no Cine São José. Estes seriados eram lançados pela Republic, Columbia e outras produtoras americanas, tinham duração de 15 a 20 minutos e apresentavam um episódio por semana (situação depois copiada pela TV). Lá desfilavam Nyoka, Flash Gordon, O Sombra, Superman e tantos outros. Era tanta emoção que existia a vontade de eternizar aqueles momentos. Rontani e Oswaldo desenhavam, assim, seus próprios personagens em revistas de quadrinhos, com base no que viam na telona, que depois eram emprestadas aos amigos das escolas. Estes originais ainda hoje existem. Com o tempo, cada um seguiu seu caminho. Lembro do meu Rontani ainda adulto fazendo almanaques de Natal em nosso sítio do Iteperu-Guaçu para presentear Oswaldo. Todo este conhecimento, trouxe a Piracicaba o título de cidade que criou o primeiro fanzine da América Latina. Feito no fundo de quintal de casa, mas deixou história perpetrados nos anais comunicação.

Confesso que uma das heranças recebidas em vida foram as amizades passadas de geração em geração. De pai para filho. Algo intangível de grande valor sentimental. Foi assim com Oswaldo de Andrade, Waldemar Bilia, Arthemio de Lello, Antonio Oswaldo Storel e tantos outros que foram amigos de meu pai e se tornaram meus amigos. Com isso se fez uma amizade de longa data.

O céu receba seu Oswaldo para que junto ao seu melhor amigo possa continuar a dar sequência nessa fascinação pelo fantástico.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 25 de junho de 2025 e na Tribuna Piracicabana de 28 de junho de 2025) 

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Conversa com a intelectualidade

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Chego, abro a porta e acendo a luz. Vejo longinquamente uma cadeira. Ótimo. Uma mesa grande cheia de quinquilharia. Terei de dividir a mesa com coisas que não deveriam estar ali. Mas, estão ! Assim, o espaço se torna restrito. Porém, isso não me afeta. O foco não é este.

Assento-me não muito confortavelmente, pois a tarefa me obriga a constantemente levantar-me, pegar um punhado de papéis velhos e seguir com meu prazer solitário (no bom sentido). A rinite acaba de ser acionada. Corro ao banheiro para assoar as narinas. Talvez usar uma máscara. Mas lembro-me do incômodo que era a máscara facial durante o auge da pandemia da covid. Hoje, parece que ela me sufoca. Tira minha respiração em sua totalidade. Querendo enganar não sei quem, coloco a mesma sobre parte das minhas narinas para que a respiração ocorra na “maior” normalidade, tampando por completo a boca. Mas o foco não era este.

Na sala que abriga o acervo material do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba olho para minha missão: catalogar pastas e mais pastas doadas por pessoas e famílias. Penso: papel velho ? Não ! História ! Nestas sulfites pautadas e escritas de forma datilográfica estão os intelectos de muitos. Estão vidas, alegrias, sofrimentos e muito conhecimento de vida. Além do tangível, os jornais e a papelada velha trazem uma história não mensurável de riquíssimo conteúdo individual ou social.

Um café cairia bem, penso. Mas, me alimento da informação, do anseio em saber como foi a vida de alguém, como num big brother que tem o prazer em espionar e interpretar as linhas de diários, de artigos em jornais, de pensamentos profundos de outrora. Mas, peralá ! Outrora ? Isso foi escrito em 1970 ! Você já parou para pensar que são 50 anos atrás ? Parece que envelhecemos mas nossa cabeça não acompanhou o processo do envelhecimento físico. A cabeça entra em parafuso. Paro com tudo.

Ao parar com pensamentos que me levam à depressão e me colocam em conflito com meu foco, paro com tudo por instantes. Não sei se caio no cochilo. Mas, num piscar de olhos, vejo ou percebo alguém sentado ao meu lado. Eu e esta figura ficamos calados numa simbiose inimaginável. Não é possível. Já vi esta figura em fotografias lá de 1920 assinadas por J. Cozzo, ou como membro de uma banda chamada Jazz Band Mozart Piracicaba. Tocou com Erothides de Campos nos cinemas na época dos filmes mudos. Nem pestanejo, pois tinha certo que o vulto presente era Leandro Guerrini. Como, assim ? Estava sonhando ou colhendo um pouco de sua vida ? Claro ! O vi consultando no passado as folhas da Gazeta de Piracicaba e no curioso Almanak de Piracicaba para 1900. Ele conta sobre a forca em Piracicaba, o pelourinho como fundamento de justiça para uma Piracicaba do século retrasado. Pirei, pensei. Vendo vultos que nem conheci mas que admiro pelas leituras que tenho. Uma espécie de dejá-vu se apossa de mim. Dou uma chacoalhada na face tentando acordar, num sentimento de que fosse eu um Ebenezer Scrooge que vê o passado circular em sua frente.

Esse cara está doido, alguns pensarão. Mas existem ícones locais que nos fazem ou fizeram viajar, colaborando para uma impressão intimista do que se imagina do passado. Alguns pensarão que tudo é besteira. Fulano era um “zé ninguém” e não merece tanto destaque assim. Mas, por ser um artigo assinado e assim expressar minha opinião pessoal, reservo-me ao direito de vasculhar aquilo que me foi importante no passado.

Desta forma, ainda sentado, com celular na mão fotografando uma página aqui e ali de jornais antigos, passam pela minha imaginação pessoas como Jair Toledo Veiga, Hugo Pedro Carradore, Waldemar Iglésias, Mario Neme e outros nomes os  quais não recorro agora. Muita informação em pouco tempo.

Acabo me levantando vendo no chão pedaços de jornais que amarelaram no físico, mas que na mente continuam como sendo do dia de ontem. Resta apenas a incógnita de que no futuro não serei eu um destes fantasmas que habitam o imaginário coletivo de Piracicaba.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 10 de junho de 2025 e na Tribuna Piracicabana de 13 de junho de 2025)


quinta-feira, 5 de junho de 2025

No mundo da lua

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Ela já foi cortejada por muita gente, mas continua lá. Por mais que o ser humano tenha nela pisado, ainda é um objeto de obsessão e desejo. Foi cantada por poetas ao longo de vários milênios. A Lua é tão distante e tão próxima da Terra que ainda instiga a ciência e os corações apaixonados.

Aliás, foi um galante Cary Grant ou James Stewart que prometeu laçar a lua para sua namorada num filme do sempre impecável ítalo-americano Frank Capra. No cinema ela inspirou até James Bond e o vilão Gru que a reduziu, trancafiando o satélite natural em sua casa misteriosa. Mas, qual sua influência ? No passado era a guia para as marés, para as plantações e – acho que ainda hoje – serve para agendarmos a visita ao cabelereiro ou barbeiro.

Glenn Miller imortalizou seus vistosos raios romantizados por nós, terráqueos, em 1939 através de sua “Moonlight Serenade”, composição que ele próprio fez com Mitchell Parish. Vira e mexe, a serenata ao luar retorna em novas releituras e volta ao topo das execuções musicais. Pena que Miller não pôde nunca mais pode ver a Lua, já que repousa no fundo das águas devido à queda de seu avião na viagem que ele fazia da Grã-Bretanha para Paris durante a Segunda Guerra Mundial. Triste história para quem fez uma elegia para um dos mais belos fenômenos da natureza.

A Lua também foi motivo de briga política entre as grandes potências internacionais. Era o ponto de chegada dos humanos caso uma guerra nuclear viesse a ser desencadeada, conforme grande corrente dos anos 1950 e 60. Ou você tinha um bunker em casa para enfrentar a radiação ou partia para a Lua na tentativa de colonizá-la como tivemos na Guerra Fria com americanos e russos enviado ao espaço símios e cães, e depois homens. Não deu certo. Tivemos que continuar vivendo em solo terrestre cantando e versejando sobre os raios lunares. Agora por que “lunar” se falamos “lua”? Coisa de nossa língua que sofre forte influência do latim, do grego, do árabe ... É algo como freio e frenagem.

Nossa tão cansada MPB também elegeu a lua para grandes hits. Raul Seixas se enamorou por ela louvando São Jorge montado num jumento. Aliás, foi no dragão que São Jorge combatia que Monteiro Lobato se inspirou para criar sua Cuca que marcava presença em seu Sítio. Guilherme Arantes estava no mundo da lua em “No lindo balão azul”, alegando que era cientista e vivia num papo futurista.

Eis o xis da questão. Devaneios, pensamentos distantes, fases de num namoro ou paixão sempre são interrompidos com um “ei ! tá no mundo a Lua?”. O distanciamento nos coloca em solo lunático.

Porém, a história demonstra outra situação já que “viver no mundo da Lua” veio dos pensamentos pré Revolução Industrial de alguns ingleses não muito bem vistos pela sociedade de então. Os membros da “Sociedade Lunar de Birmingham”, cidade da Inglaterra, eram considerados extremos malucos pois pensavam em criar veículos movidos a motor automáticos e não por animais, ou, ainda, fazer um balão voar pelos ares manuseado por um ser humano. Parecia a mais profunda verve da imaginação de Jules Verne. Mas, não era. Foram eles os criadores dos protótipos do veículo e do avião. Só que ninguém os entendia. A “Sociedade” queria criar melhores condições de vida para a humanidade. Ciência não existia e dogmas religiosos eram contra boa parte das inovações benéficas para a humanidade. A igreja demonizou a criação de garfos por possuímos pinças naturais conhecidas por dedos. O tempo demonstrou que o pensamento de gente que se encontra hoje nos anais da ciência mundial tenderia a prevalecer melhorando nossa vida. Entre os membros da “Sociedade Lunar”, aqueles que viviam com a cabeça na Lua, estavam Erasmus Darwin (avô de Charles), Joseph Priestley (que descobriu o oxigênio – chegando a misturá-lo à água) e James Watt (criador da bomba de combustão que drenava água para minas de carvão depois utilizada em locomotiva e veículos).

Resumindo, se alguém lhe falar que você está no mundo da Lua. Tenha orgulho. As grandes invenções surgiram das mentes de lunáticos.


quinta-feira, 29 de maio de 2025

Imprensa local

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Ainda evocando a mídia local, vários nomes surgem. Muitos deles são dos impressos, tal qual das pessoas que fizeram a arte da escrita diária na Noiva da Colina. Universo estritamente masculino por muito tempo, relembraremos alguns profissionais que escreveram nossa história dia a dia. Outros conduziram a imprensa como diretores ou proprietários. Aliás, rica é a história de Piracicaba contada na época do Império através das páginas da Gazeta de Piracicaba que surgiu em 1882 e até o final do século narrou a rotina local, sendo fonte de pesquisa para os Almanaks posteriores assim como para historiadores como Mário Neme, Leandro Guerrini, Guilherme Vitti e tantos outros aos quais Piracicaba deve se render por ter viva esta tão longínqua memória.

“Piracicaba”, pelos registros existentes, foi o primeiro jornal local. Totalmente precário – era escrito a mão – com textos de Brasílio Machado que aguça a curiosidade de qualquer um para saber como ele enxergava a sociedade no ano de 1874 quando lançou o periódico em 4 de julho. Assim como outros jornais, circulava de quarta e sábado, cobrindo os fatos semanais. Curioso é ver que esta periodicidade reinou na cidade quase até os anos 1940. Quem sabe Piracicaba fosse pacata demais e as notícias não circulavam como na atualidade...

A Gazeta teve como proprietário Mário Arantes, renomado professor do ensino elementar. Antes dele, na sua primeira circulação em 10 de junho de 1882, seus responsáveis foram Vitalino Ferraz do Amaral e José Gomes Xavier. Ferraz era conhecido por seus discursos inflamados sendo orador na inauguração da água encanada e na comemoração pela proclamação da República.

Outro professor de renome nacional foi Alceu Maynard Araújo que por muitas vezes utilizou-se do pseudônimo Almayara, numa corruptela das iniciais de seu nome. Recentemente, a Cinemateca Brasileira resgatou uma obra sua, não impressa, e sim um documentário em celuloide que mostra as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste brasileiro. Foi um expositor exemplar das culturas e do folclore interioranos.

Dias atrás, aqui nestas páginas, foi escrito sobre o vínculo de piracicabanos com Monteiro Lobato, grande inteligência deste país. Pedro Ferraz do Amaral foi um destes nativos que partiu para a capital atuando como secretário de redação nos anos de 1923 e 1924 da “Revista do Brasil”, importante produção de Lobato em parceria com Breno Ferraz do Amaral (seu irmão). Pedro também atuou na imprensa paulistana em “A Tarde”, “Correio Paulistano”, “Gazeta”, “Diário da Noite” e “Diário Nacional”. Breno do Amaral foi levado à capital pelo amigo Léo Vaz. Aqui em Piracicaba ambos assinaram o semanário “A Noiva da Colina”. Na capital atuou no “Estado de S. Paulo”, “Diário Nacional” e “Correio de S. Paulo”.

Se houve quem fazia a matéria-prima do jornalismo, existiu também aquele grupo que colocava palavras e pensamentos no físico, o tangível jornal, ou a revista ou ainda o livro. Um destes que por toda a vida dedicou-se ao texto impresso foi Fernando Aloisi, falecido em 1965. Deixou uma herança ainda viva em muitas hemerotecas e bibliotecas. A Tipografia Aloisi publicou os principais trabalhos dos grandes pensadores locais. Aloisi esteve na fundação do jornal “O Momento” e também no segundo “Diário de Piracicaba”, 1935.

Nas páginas dos matutinos, “Piracicaba não é cidade morta” nominou uma coluna publicada no “Jornal de Piracicaba” por Silvio de Aguiar Souza, pela alcunha de Antônio Calixto. Ironia ácida sobre a sociedade local com direito a colocar o dedo na ferida. Seu pai, Osório Dias de Aguiar e Sousa lhe inspirou a verve jornalística. Este, por sua vez, colaborou com jornais locais e de Capivari, onde nasceu. Escrevia sob o pseudônimo Orênio Sabaúna. Além da escrita de extensa criação de poesias e artigos, foi jurista e juiz de direito em várias cidades interioranas. Rica história.