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quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Cinemas e cinemaníacos

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba



A arte do cinema sempre foi vista como um escapismo à realidade. É o mundo da ilusão. Foi uma indústria multibilionária que criou consumidores, estrelas, sonhos, desejos ... É um entretenimento que está na moda há quase 130 anos. Ainda temos salas exibidoras com alto investimento, ao contrário de outras formas de exposição cultural, como os teatros, por exemplo. Ano passado, em “Babilônia”, Damien Chazelle fez uma elegia à sétima arte que explica como funciona todo este universo cheio de estrelas. Na sua esteira surgiram outras indústrias riquíssimas como a televisão, o Super 8, VHS, DVD e atualmente o streaming.

Piracicaba sempre foi bem receptiva com esta arte, com cinemas e profissionais da exibição. E, claro, a cidade teve seus amantes da telona. Por aqui funcionou o Clube Piracicabano de Cinema, sendo presidido de 1949 a 1952 por Gastão da Silva Dias (1924/2008). Ele foi um dos fundadores da Sociedade de Cultura Artística.

Outros viram o cinema como fator mercantilista. Influente na cidade, tendo sido seu prefeito em dois mandatos iniciados em 1926 e encerrados em 1932, José Barbosa Ferraz foi proprietário do Teatro e depois cinema São José, cujo prédio ainda existe na rua São José entre a Governador e a praça José Bonifácio. O teatro-cinema possuía poltronas para duas mil pessoas. Foi construído pelo arquiteto Antonio Borja Medina com teto pintado por Bruno Bacelli. Acertou quem pensou que esse proprietário era o Coronel Barbosa, que levou nome no antigo Clube Piracicabano.

Visionário foi Medina (cujo nome chega a ser desconhecido), arquiteto e construtor. A cidade deve a ele suas principais e clássicas salas exibidoras. Nos anos 1930 edificou o cine Broadway na São José (também foi o Tiffany e o Bingo Broadway) ocupado hoje por um templo religioso.

A história remonta a união da imagem em movimento ao som. Com isso, surgem opções de orquestras que animam as apresentações. Entre os músicos que sonorizaram a tela grande está Belmácio Pousa Godinho (1892/1980), também um dos fundadores do XV de Novembro. Integrou a Orquestra Lozano de Piracicaba através da qual criava som aos filmes mudos na década de 1910.


A Orquestra Lozano era capitaneada por Fabiano Sebastian Rodrigues Lozano. Este criou em 1913, a Orquestra do Teatro-Cinema de Piracicaba que contou também com Erotides de Campos como um de seus músicos. Note que estamos referindo aqui à pesos-pesados da cultura local.

A orquestra teve participação de Perfetti, maestro no cinema Íris, Broadway e Politeama. Carlos Brasiliense Pinto e Melita Brasiliense Pinto também tocaram com Perfetti. Outras orquestras que abrilhantaram os cinemas locais foram regidas por Zico Marzagão e Adolfo (ou Adolpho) Silva. Também participaram deste time José de Aguiar (Aguiarzinho), Osório Aguiar Sousa e Totó Carmello.

João Baptista Vizioli (1902/1983) – advogado, vereador e vice-prefeito de Francisco Salgot Castillon em 1959 – participou da orquestra que animou exibições dos cines Íris e Politeama. 

Francesco Stolf foi quem criou o cine Politeama – o segundo – situado à praça José Bonifácio nº 914, funcionando de 1954 a 1981 quando o espaço foi ocupado pelas agências bancárias Itaú e Bradesco.

Se a cidade era um celeiro de amantes do cinema e das salas exibidoras, cabe destacar que também produziu obras. Jaçanã Altair Pereira Guerrini – com o esposo Leandro Guerrini foi uma das fundadoras do IHGP – escreveu o livro “João Negrinho”, adaptado para o cinema na década de 1950. A obra utiliza do escravismo brasileiro para relatar a amizade de um negro e um branco unidos por um padre que prega a igualdade racial e social.

De passado também vivemos e cabe lembrar de Victor Walker, um dos primeiros exibidores fixos de cinema. Foi cenógrafo dos teatros na cidade na década de 1900.

Samuel Pfromm Neto no seu “Dicionário de Piracicabanos” (Editora IHGP) evoca Romeu Cândido Moraes (1918/2006) que dedicou boa parte de sua vida ao cinema. Foi projecionista do Cine Brodway. Era responsável por escolher as músicas executadas antes da exibição dos filmes. Participou do Clube Piracicabano de Cinema lá por volta de 1950 emprestando filmes de sua coleção particular para exibições públicas. O Clube funcionava como uma cinemateca com exibições nos clubes Cristóvão Colombo, Coronel Barbosa e Sociedade Italiana.

Mais recentemente, nos anos 1980, a cidade contava com o cine Broadway (demolido), Rivoli (igreja), Colonial (desocupado), Paulistinha (comércio) e também a Sala Grande Otelo / Cine Arte, no Teatro Municipal Dr. Losso Netto. São locais que reuniram famílias e namorados. Atualmente a cidade consta com salas exibidoras apenas no Shopping Center Piracicaba, com apresentações 2D, 3D e em 4K.

Publicado no Jornal de Piracicaba de 29 de outubro de 2023 e na Tribuna Piracicabana de 09 de novembro de 2023


quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Telas exibidoras em Piracicaba

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Falar em cinema no dias de hoje é evocar a nostalgia daqueles que, nos anos 1980, foram ao Tiffany, Broadway ou Cines Center 1 e 2. É relembrar uma época em que os filmes demoravam para chegar a Piracicaba. Lembrar da bala de menta comprada na bomboniere e ressaltar que a pipoca no cinema surgiu muito tempo depois, não falhando a memória, na segunda metade da década de 80 quando o Grupo Paris Filmes instalou suas lojas exibidoras no Shopping Piracicaba, comandadas pelo CEO Márcio Fracarolli e pelo gerente seu Silvio, figura de extrema educação e finesse.

Samuel Pfromm Neto tem estudo dizendo que os filmes cinematográficos possuem registros de exibição desde 1896. Em outubro deste ano, Klene e H. Mewe apresentaram aos cidadãos o “primeiro cinetógrafo projetando vistas naturais animadas”, em cinco horários seguidos. O ingresso para a novidade – a fotografia em movimento – era de 1 mil réis. E Piracicaba, entre os seus projetos pioneiros – entre eles a iluminação elétrica, a fluoretação da água e outros – fez a exibição dez meses após os Irmãos Lumière realizarem a primeira apresentação pública de cinema que se tem história, em Paris.

O cinema também percorreu pelas mãos de Antônio de Mello Filho que exibiu filmes no térreo do sobrado existente à rua Prudente de Moraes nº 112, com ingresso a 200 réis.

Já em 1901 possuía uma sala exibidora no Restaurante Porta Larga, de José Maria Fernandes, um empreendedor nato, dono de confeitaria, restaurante e uma casa de concertos líricos (ele cobrava ingressos de uma plateia que se reunia para ouvir discos – cada ingresso custava 500 réis). Adquiriu um projetor Lumière, vindo da França, no qual realizava exibições de filmes mudos.


Broadway ou Tiffany na rua São José, ao lado da praça José Bonifácio

O Teatro Santo Estêvão situado na praça 7 de Setembro (hoje José Bonifácio) foi, além de teatro, uma sala permanente de cinema. Criado em dezembro de 1908, o “Cinematógrafo Cháritas” tenha renda revertida à Santa Casa, dona do projetor de filmes. Na mesma época, em barracão situado na rua Boa Morte, tivemos o “Ideal Cinematógrafo”. Nada como conhecemos hoje. Mutas vezes, a plateia assistia em pé aos filmes, que eram curtos, ou ainda sentados em cadeiras de madeira. Os filmes eram mudos e existem registros de que para entender essa nova narrativa (estávamos acostumados com o teatro e com os livros), havia uma pessoa explicando : “olha ! o ator agora vai chorar porque a namorada lhe deu um sopapo!”. Depois veio a sonorização ao vivo com piano ou orquestra. O som só aparece no início dos anos 1930.

Hoje é comum ir às salas existentes no Shopping Piracicaba, propriedades da Cinematográfica Araújo, e ver nas filas pessoas com travesseiro ou almofadas. Sim ! Isso ocorre pois existe um conforto danado nas salas, com poltronas que reclinam como sofás ergométricos ou ficam estiradas como camas. É uma forma de fazer as pessoas saírem de casa e terem acesso a uma experiência diferente. Talvez até uma forma de atrair as pessoas numa época em que predomina o streaming. O mesmo ocorreu nos anos 1980 com as proliferações das videolocadoras. Para que sair de casa se em meu lar posso assistir ao filme que quero ?

Quando o som não era acoplado ao celuloide, a música ao vivo era executava para dar um ar especial ao que ocorria à tela e também para tirar o marasmo de muxoxos, pigarros, tosses etc etc etc. A Orquestra Piracicabana tocava em filmes e também em apresentações solo nos cinemas Íris e Politeama. Osório Dias de Aguiar e Sousa (1869/1937) foi um de seus máximos expoentes, utilizando também o pseudônimo Orênio Sabaúna. Nos anos 20, ainda jovem, Jayme Rocha de Almeida (1907/1964) era flautista nos cinemas. Depois virou agrônomo e professor da Escola Agrícola.

Erotides de Campos foi outro que animou exibições em cinemas. Foi contratado por Antônio Campos para ilustrar as apresentações cinematográficas no seu Polytheama, situado então à rua São José mais ou menos onde está hoje o Poupatempo Estadual. O cinema foi desativado e no seu interior funcionou um rinque de patinação. Os cinemas ocuparam por boas décadas a área central da cidade. O Supermercado Jaú Serve na Governador, já foi Kalunga, Shopping Zilliat, Balas Atlante e nos anos 1920 um cinema.

J. B. Andrade tinha empresa com seu nome a qual administrava os cines Broadway e São José. Um dos seus funcionários, de prenome Max, era um exímio letrista criando cartazes e letreiros. Isso tudo de forma artesanal. Além de acomodações, os cinemas também tiveram pinturas que hoje deixam boquiabertos qualquer um, como o Teatro (depois cinema) São José, cujo interior tem obras de Bruno Barcelli.  Cabe lembrar que as salas de teatro e cinema eram bem rentáveis. Eram diversões que não deixavam as pessoas presas em casa. Anos mais tarde enfrentaram a concorrência do rádio e mais depois da televisão. (I’ll be back)


(Publicado no Jornal de Piracicaba de 25/10/2023 e na Tribuna Piracicabana de 4/11/2023.

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Restaurantes conceituados

 Edson Rontani Júnior, jornalista, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 

A recordação me leva para uma noite quente lá por volta de 1988, época em que o Centro de Piracicaba ainda possuía vida noturna com segurança. Os jovens, principalmente, percorriam a Governador. A Galeria Brasil era uma passagem obrigatória, ficando intransitável aos sábados pela noite. A praça José Bonifácio ainda acolhia as pessoas que buscavam passar o tempo, sair com a família, ou simplesmente namorar. Era ostentação segurar a namorada em um dos braços e carregar na outra mão um tape deck com um equalizador Tojo.

Foi na rua Governador esquina com a São José, possivelmente o estabelecimento era denominado Restaurante Ortiz (um dos vários pontos em que ele se situou). Pedi uma pizza e claramente me lembro do garçom muito bem educado, polido e numa gentileza imensurável. Anos depois o reencontrei, num local ao qual vou ao menos uma vez por mês desde 1999: Cláudio Poteche. Matou a charada quem lembrou do Claudinho’s Place ou simplesmente o Restaurante do Claudinho.

Piracicaba é conhecida por sua vida gastronômica desde o século retrasado, buscando nos bares e restaurantes marcar uma notoriedade histórica. Me lembro que aqui no Jornal de Piracicaba, o colunista Mauro Pereira Vianna não deixava de perguntar aos seus entrevistados : qual seu restaurante predileto e qual o seu garçom preferido ?

O Mirante era exemplo de finesse à mesa, com a família Benites recebendo piracicabanos, “estrangeiros” e celebridades. O restaurante fez escola e hoje tem seus expoentes com delícias de peixes na brasa alicerçada individualmente pelos irmãos Vado e Agostinho, além do Givaldo e Reginaldo. Sem contar em quantas vezes não ouvimos o Faustão no seu “Perdidos na Noite” ou no seu “Domingão” falar do cuscuz do seu Hélio da Arapuca ? Aliás, sou do tempo do “prensadão” na avenida Armando de Salles Oliveira e do churrasquinho no Bar do Décio na rua Santa Cruz. Anos depois do hamburger no Daytona. Houve vida antes e depois disso, principalmente na praça José Bonifácio (Brasserie e Café do Bule, entre outros) e a prainha com o Bistecão.

Tendo sempre à mão, o livro de cabeceira “Dicionário de Piracicabanos” (Editora IHGP), o autor Samuel Pfromm Netto, nos brinda com informações importantes sobre a gastronomia local. O Bar e Restaurante Familiar Giocondo situava-se à praça José Bonifácio. Tinha como especialidade, nos anos 1930, os bifes – a parmegiana veio na segunda metade do século passado. O local era frequentado pela intelectualidade local. Foi vendido depois para o japonês Oscar Miziara que o transformou em Restaurante Alvorada.

Próximo, estava o Restaurante Banhara, num dos cruzamentos da rua do Rosário com a Prudente de Moraes. Teve seu auge nos anos 1930. Dirigido por imigrantes italiano tinha variedade no cardápio.

Ricos são os almanaques locais. O “Almanak de 1900”, de Manoel de Camargo, traz uma relação de proprietários de restaurantes na virada do século retrasado, entre eles: António Amendola, Pedro Benedicto, Frederico Bertolini, José Biajonni, António Botiglieri, Belatasso Fernandes, João Moretti Folvenço, Irmãos Gabbi, João Gallana, Celeste Gilli, João Lucci, Luiz Maranho, Ângelo Massoneto, Paulino José Miranda, Fortunato Minello, Pedro Monteran, Albino Negri, Salvador Oranges, Domingos Patrian, Gaspar Piatti, João António dos Santos, Francisco Scabelli, Santo Stremendo, Márcia Telles, João Tolagne e Pedro Vargas. Nomes que não concorreriam de forma alguma com aquilo que é chamada de “geração Nutella” que participa dos famosos “maters chefs” da televisão. Cabe lembrar que naquela época, não existia refrigeração como hoje e a conservação de alguns alimentos era feita com o salgar da carne e outros alimentos. A carnes não eram vendidas em açougue como hoje. Lembram-se do Matadouro existente no caminho a Santa Terezinha ? Até a carne tinha outra denominação com via-se nos noticiários e nas publicidades : carne verde.

Além da gastronomia, bares e restaurantes também eram ponto de encontro exclusivamente masculino. Por isso, alguns traziam a inscrição “ambiente familiar”, como forma de atrair esposo, esposa, filhos e ... até a sogra !!! Um dos casos era o Restaurante Papini, onde, na primeira metade do século passado, foram acirradas as disputas de bocha com campeonatos que varavam as noites. Isso, claro, regado a muito cigarro, bebida, papo, amizade e uma boa comida.

Hotéis como o Lago e o Central, ambos na praça José Bonifácio, também tinham restaurantes abertos não apenas aos hóspedes e voltados para a elite. Era possível consumir bifes com batatas, a nata da gastronomia de então.

Hoje a cidade diversificou-se. Não é mais necessário esperar a Festa das Nações para comer um prato típico de determinado país ou região. Basta abrir o iFood e ver um cardápio no qual paira a indecisão diante de tantas opções.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 15/10/2023)

domingo, 8 de outubro de 2023

Ainda sobre hotéis e hoteleiros

Ainda sobre hotéis e hoteleiros

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba 

Hotéis em Piracicaba sempre movimentaram a sociedade. Foram ponto de chegada e partida de muita gente, além de referência à gastronomia na cidade. Cabe olhar ao passado para conhecer a história deste ramo do comércio.

O Hotel Marques foi inaugurado em 1º de agosto de 1883. Era de propriedade de José Gomes Marques nascido em Portugal (São João de Covas), sogro de Octávio Teixeira Mendes. Era de sua propriedade o Restaurante do Marques inaugurado em fevereiro do mesmo ano.

Situado em frente a Estação Sorocabana, o Hotel e Restaurante Moretti recepcionava aqueles que vinham de outras cidades através desta estrada férrea. Estava situado à rua Rangel Pestana com a rua Benjamin Constant (na época, à rua da Glória nº. 6). O restaurante era especializado em jantares para batizados e casamentos com preços módicos, segundo publicidade veiculada no Almanak de Piracicaba para 1914, de Roberto Capri. Tinha estoque de bons vinhos. Tanto Marques quanto Moretti trabalharam na área financeira da Boyes, em épocas distintas.


Já no início do século passado, a cidade contava com três hotéis, sendo eles o Central (acima em foto possivelmente dos anos 1950), do Lago e um hotel administrado por Bento de Campos. Nos anos 1930, Ângelo Baruzzi administrou o Hotel dos Viajantes, situado à rua João Pessoa nº 184 (antes rua do Commércio e hoje Governador Pedro de Toledo), junto ao largo do Mercado. Houve outro administrador hoteleiro, Bento de Campos, proprietário de um hotel na rua XV, no início do século passado.

Manoel do Lago foi proprietário do Hotel do Lago, este situado no Largo do Teatro Santo Estêvão, precisamente esquina da praça José Bonifácio com a rua São José (onde está o Poupatempo Estadual – Samuel Pfromm Cita cita em “Dicionário de Piracicabanos” anúncio como sendo seu endereço na rua Moraes Barros nº. 161). O Lago tinha um restaurante considerado “a melhor casa de petisqueiras da cidade”, segundo anúncio veiculado no Almanak de Piracicaba de 1914. Lago foi vice-presidente da Sociedade Espanhola local quando esta entidade foi fundada em junho de 1898.

“Asseio rigoroso com pessoal habilitado para o serviço”, assim descrevia publicidade de 1914 do Hotel Bela Vista, propriedade de Barbarini e Bardi, situado na rua do Commércio nº 79 (atual rua Governador).

Nicolau Pereira de Campos Vergueiro (senador Vergueiro, também ministro no Império do Rei Dom João) veio a Piracicaba em 1807. Residiu em casa situada na então rua Moraes Barros com o Largo Central, que décadas depois deu espaço ao Hotel Central. Foi ele quem planejou o arruamento de Piracicaba, executado por José Caetano Rosa (o Alferes José Caetano), quando em 1808 a cidade tinha cinco ruas, travessas, pátio para igreja e largo para a cadeia. Esta casa funcionou como “Casa da Aposentadoria” uma espécie de ouvidoria do município, onde as reclamações eram relatadas e encaminhadas ao legislativo. Foi nesta casa que ocorreram as primeiras eleições da cidade, no dia 10 de agosto de 1822.

João Baptista de Castro foi proprietário do Grande Hotel Central, este inaugurado em 1894 (19 de maio). Outras fontes indicam que sua inauguração ocorreu dois anos antes (13 de abril de 1892). O Hotel situava-se no Largo da Matriz nº 5, onde encontra-se hoje o Oxxo, ao lado da Catedral. Pfromm Neto diz que Baptista era chamado de Castrinho e Janjão. Inicialmente criou o Restaurante do Janjão, depois adaptado para o Hotel Central. O Almanak de Piracicaba o descrevia como “um dos melhores do estado”. Aliás, o autor do afamado Almanak de 1900, Camargo, residiu com sua família no Central durante elaboração deste. Dizia que o espaço tinha quartos claros, arejados e com preços razoáveis. O Central foi administrado depois pela esposa e filhos, quando Baptista faleceu.

Hotéis também serviram de localização para prestação de serviços. Francisco Simões da Costa era médico e atuou na cidade de 1922 e 1926 realizando consultas no Hotel Central. Atendia crianças e senhoras. Montou consultório na praça José Bonifácio e atuou na Santa Casa, deixando a cidade para atender em Batatais.

Orlando Carneiro foi professor da ESALQ ao longo de 32 anos. Coordenou a reforma do Hotel Central. Este, possuía um pavimento, sendo reformado e ampliado para dois pavimentos.

Attilio Romano Giannetti foi o último proprietário do Hotel Central, na praça José Bonifácio, ao lado da Matriz de Santo Antonio. Também foi proprietário do Restaurante Brasserie situado próximo, vendido por ele à família Pedreira em 1954. Attilio foi o responsável pela primeira linha de transporte coletivo de Piracicaba para a capital paulista, em 1932, com nove veículos disponíveis. Cada um levava cinco passageiros numa jornada que levava seis horas para realizar o trajeto.

Uma jornada ao passado que o tempo não pode apagar.

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 08/10/2023)

sábado, 23 de setembro de 2023

Hotéis e concierges de Piracicaba

 Edson Rontani Júnior – jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 

Almeida Júnior, pintor que viveu do mecenato de Dom Pedro II, foi morto em frente a um hotel. Na região, o Grande Hotel de Águas de São Pedro funcionou como cassino. Dom Bertrand de Orléans e Bragança se hospedou no Hotel Beira-Rio em 2021. Estes são alguns fatos que nos remetem a hotéis da região de Piracicaba. Mesmo em época de hostess, moradas em containers e Airbnb, os hotéis ainda são sinônimos de luxo, não apenas em Piracicaba, mas mundo afora.

Isso tudo teve seu ponto de partida ao comentar dias destes com o amigo cirurgião-dentista Waldemar Romano sobre a arquitetura do Hotel Paulista. Uma foto que estampava o Teatro Santo Estêvão trazia à uma de suas laterais – onde se encontra hoje o Poupatempo Estadual – referida acomodação, numa arquitetura de dois pavimentos, com portas e varandas altíssimas, como aqueles casarões dos anos 1700 e 1800 que vemos em cidades com Tietê e Itú. Segundo Romano, ao lado deste, também sitou-se o Hotel do Lago, da família do compositor e ator Mário Lago, naquilo que era conhecido como o Largo do Teatro, na então praça 7 de Setembro (hoje, praça José Bonifácio). Não muito distante tivemos também o Hotel Central e décadas depois o Grande Hotel, próximo ao Mercado Municipal.


Estas rememorações surgem pois foram várias as contribuições destes hotéis para a cidade. Não apenas pela arquitetura de dois séculos atrás retidas apenas em pouquíssimas fotos como também para a vida social e a vida profissional da cidade. Um dos exemplos foi Aurora Conceição que por aqui clinicou como médica, formada pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, atendendo moléstias de senhoras e perturbações digestivas. Chegou a residir no Hotel Central de 1929 a 1931. Outra situação, desta vez de movimentação social: o Hotel do Lago, aliás, era ponto de partida dos troles que funcionavam com tração animal – atuavam como transporte coletivo na época – saindo pontualmente às cinco horas da manhã, isso em 1900.

A dimensão de alguns fica por conta da imaginação do leitor. Poderiam ter sido albergues, pensões, ou redutos de romeiros e retirantes. Samuel Pfromm Neto no seu “Dicionário de Piracicabanos” (Editora IHGP) lembra do “Hotel Europa”, situado na rua Governador, pertencente aos pais de Ida Schalch (o pai era engenheiro suíço e a mãe era alemã), uma das primeiras missionárias brasileiras educadas por metodistas.

Cartões postais nem tanto, mas os almanaques que povoaram Piracicaba no século passado traziam divulgações (textos e publicidades) de hotéis locais. Aliás, este era o papel dos almanaques, realizar a divulgação da cidade para o “estrangeiro nacional”.

Luciano Guidotti foi um cultuado “mestre de obras”. Criou a Pinacoteca, canalizou o Ribeirão do Itapeva, finalizou em seu segundo mandato o Estádio Barão da Serra Negra e tinha por intenção criar o Hotel Municipal. Este estava situado no parque ecológico de Luiz de Queiroz, pouco antes da Ponte dos Irmãos Rebouças, sentido Centro-Vila Rezende. O local também foi denominado de Parques Sachs em homenagem a André Sachs, onde, na segunda metade do século 1800, a sociedade piracicabana desfilava. Era o espaço onde ocorriam os piqueniques, apresentações de bandas em coreto edificado, e disputas de “partidas hamburguesas” ou boliche. O Hotel Municipal começou a ser erguido na década de 1960. Foi passado para iniciativa privada e arrematado anos atrás pela família que administra o Beira-Rio Palace Hotel.


Os hotéis locais também eram ponto de referência para a gastronomia. Anúncio em jornal de 1882 deixava claro que o Hotel Piracicabano, sr. Vicente Russo, disponibilizava a partir das 8 horas bifes a 400 réis com batatas ou ovos. Vicente comprou o hotel de Modesto Antonio Corrêa Lemos e este situava-se, lá por 1880, no Largo do Teatro. “O Piracicaba”, jornal da época o definiu como antigo e acreditado hotel, com cômodo e comida todas as horas e serventes para promover o giro do estabelecimento, além de veículos de tração animais para passeios, viagens e transporte para as estações da Paulista e Ituana.


Referência na cidade, o “Hotel dela Giardineira” situava-se onde próximo de encontra-se hoje a rede Oyo, rua XV de Novembro esquina com a Benjamin Constant. Era propriedade dos irmãos italianos – Paulo e Ricardo Pucci – e Archile Ghiara. Tinha quartos também para solteiros com gastronomia italiana. Para uma viagem ao tempo como esta, não se paga passagem ...

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 20 de setembro de 2023)

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Criadores e conteúdos

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba


É oco por dentro. Mas dentro tem água. Um coco alimenta tanto pelo seu líquido quanto por sua polpa. Mas não deixa de ser oco. Curioso é ver que muitos conteúdos são ocos, mas não tão nutritivos quanto o coco que nos beneficia pelo sabor, pelos nutriente etc etc etc ...

O caos proporcionado pela informação nos joga num mundo sem lei tal qual o bandido que saca a arma para duelar com o xerife no velho oeste americano. Daí é que surge o caos da informação, do entretenimento e do conteúdo. Mas ... que raios ?!?! Onde chegar com esta conversa ? Simples ... estamos sendo bombardeados por conteúdos ocos todos os dias, fazendo com que isso seja uma necessidade, criada pelo incrível poder midiático, e, assim mesmo nos extasiamos, de tanta banalidade. Ué ! Você já notou algo enriquecedor intelectualmente no Tik Tok ? Ou já se deu conta do modismo que vemos nesta plataforma – e não tão somente nela – fazendo com que a sociedade mude conceitos e comportamentos ? Isso me faz lembrar aquela máxima : não é porque todo mundo está fazendo que está certo; e não é porque apenas uma pessoa está fazendo que está errado. O errado é errado mesmo que todos o estejam fazendo. Mas, a quem compete julgar ? Complicado, não ?

Nosso papel como escritores não é lançar conceitos e ponto final. A intenção é movimentar a “massa cinzenta” e botar os neurônios a funcionar. Dizem que a leitura abre portas para o mundo, elucida pré-conceitos, leva-nos a novos caminhos. Tudo bem, até aí.

Mas algo me instigou nesta semana que se passou. Nosso ilustre diretor do JP, Marcelo Batuíra, esteve presente na sessão de posse da Academia Piracicabana de Letras, realizada na última quarta-feira na Câmara de Vereadores, na qual inclusive tal nobre advogado e representante da imprensa local assumiu a cadeira de Archimedes Dutra. Em seu pronunciamento, Batuíra foi muito feliz ao citar que escritores, jornalistas, poetas e outros são “criadores de conteúdo”, embora ele, com certa ironia, disse nem saber do que se trata isso.

O embate está em seu primeiro round, numa interminável disputa. Está começando e não se sabe onde vai parar. Filosofias elucidativas, longas páginas de livros, conteúdo intelectual de primeira e outras manifestações aprofundadas se afastam do conhecimento humano pelos três parágrafos cada qual com três linhas que os estudiosos apontam como caminho para a mente humana se prender e entender determinado assunto quando algo é postado no Instagram.

Isso me lembra a teoria do canadense Marshall McLhuan que previa o encurtar as barreiras e termos uma globalização interminável, criando a denominada “aldeia global”. Ótima visão do futuro quando ele teorizou isso. Misto a isso nos vem a memória do Grande Irmão (o Big Brother) criado por George Orwell em 1949 que também anteviu um mundo controlado pela tecnologia, porém com poder de inibir qualquer pensamento ou sentimento. Posso citar teorias de Eric Hobsbawn ou Gay Talese, entre outros papas da comunicação, os quais previram tudo o que estou comentando: a informação como meio de entreter, informar (ou desinformar ?!?), comercializar e fazer o meio mais importante que a mensagem. As fake news são prova disso.

Intelectuais, propagadores da mensagem – com credibilidade por carreiras bem pontuadas – jornalistas, escritores, historiadores e outros profissionais da comunicação são legados a um segundo plano quando, não os criadores de conteúdo, e sim os influenciadores digitais berram baboseiras em nossos ouvidos na telinha do smartphone ou na TV de 56 polegadas. O filtro, me disse certa vez o radialista Djalma de Lima ao lado do professor Alceu Marozzi de Righetto, é o profissional como o jornalista que tem o senso de escolher o que vai falar e levar a mensagem para seu público. Hoje todos tem o poder de ser comunicador – de forma errada ou certa – propagando via mídia social o que bem entender. Como dito anteriormente, não é papel aqui julgar e sim estimular o pensamento para novos conceitos.

A denominação de criador de conteúdo nos remete ao desktopistas do jornalismo na primeira metade do século passado. Era o profissional que ia a campo, sondava uma situação, chegava na redação e ditava a jornalista o que viu. Este segundo profissional é quem fazia a matéria jornalística. Algo do tipo “ghost writer” ainda hoje em voga, situação na qual um profissional faz um texto e outro alguém é quem o assina, como vemos em discursos, artigos ou livros de políticos, por exemplo. Até outro dia, as redações tinham seus revisores de texto, trampolim na profissão para muitos jornalistas e que amargavam o ingrato horário do final da noite, quando o jornal estava prestes a ser impresso. Haviam filtros.

A internet possibilitou que todos sejam criadores de conteúdo, alguns, sem qualquer ironia, mais ocos que o conteúdo do coco citado logo no início. E durma-se com um barulho destes ! 

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 3 de setembro de 2023)

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Desfiles da vida

 Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 

- “É com orgulho”. Então que vá com orgulho !

Há 50 anos (pode ter sido 49 anos também ...), fomos desfilar pela Independência do Brasil. O local era a rua Gomes Carneiro em frente a Escola Assunção. A conversa foi traçada entre minha pessoa, a amiga Ana Giuliani e o primo Humberto D’Abronzo Gil. Quem puxava o “orgulho” eram minha mãe Ivete e sua irmã (minha tia) Ivone. Lá fomos desfilar pelas imediações da escola em memória ao mérito de Dom Pedro I, que, com um grito, tornou o Brasil independente de Portugal. Dizem que foi assim, não sei ...

Deveria ter sido uma manhã fria, pois estávamos uniformizados. Shorts azul escuro igual ao agasalho de linho que cobria uma camisa branca com gola. Assim era o uniforme deste centro de ensino que acaba de completar 130 anos. A memória pode falhar, uma vez que tudo isso tentei alcançar com a única foto que possuo e a qual representa o tão ímpar desfile de 7 de setembro que participei ao longo destes últimos 50 anos.

- “É medo”. “Não. É vergonha!”. Então que fosse com medo e vergonha. Batalha que travei comigo mesmo anos depois no ginásio. Após o Colégio Assunção passei pelo Grupo Barão do Rio Branco e pelo Jorge Coury. O medo me consumia no caso de errar o passo no desfile, ficar desatento com a banda, ou tentar medir a reação do público que então se prostraria por uma das ruas centrais de Piracicaba. Era “o medo de fazer o feio”. Acreditava que para tocar na banda, segurar bandeira ou fazer as acrobacias então destinadas às alunas, exigia estudo ... dedicação ... honra ! Mas muitos daqueles que disso participavam, fazia por “curtição”. “Deixa prá lá a vergonha ... Isso não me incomoda”, ouvia dos amigos.

Salvo pelo congo ! Professores em greve no final de agosto. Que ótimo ! Me cobria pela vergonha de expor nas ruas aos olhares atentos de pais, vizinhos e amigos da sala de aula. Assim foi um 7 de setembro ... depois foi outro ... mais um e eu nunca desfilei. Greve após greve.

Desfilei sim pelas cadeiras de ensino da Escola Estadual Dr. Jorge Coury, moderna para aquilo que eram os anos 1970. Por ali, tive sábias aulas com o professor Franscílideo Beduschi e a “dona” Miquelina que me deram os primeiros passos de cidadania e civismo. Dona Conceição Brasil nos ensinava a cantar o Hino Nacional Brasileiro por obrigação como uma professora de matemática nos ensina aritmética. “Seis de seis são 36 !”. “Conseguimos conquistar com braço forte e não braços fortes !!! Quantas vezes vou ter que repetir?”. As palavras da professora ainda ecoam pela minha cabeça. Unem-se ao imaginário destas mais de cinco décadas de vida. Além de professores, eles foram líderes que nos ensinaram o respeito e a educação através de disciplinas implantadas pelo regime militar. Organização Social para o Trabalho (OSBP) e Educação Moral e Cívica (EMC) ensinavam antes de tudo o respeito, a dignidade e conhecer que o seu limite vai até onde começa o limite do outro.

“Coragem e orgulho. Mas ... e o medo ? Que medo ?!?”. Novamente o conflito com meu ego toma corpo. “Às favas”. Lá fui vestido de farda militar com o ombreira escrita monitor do Tiro de Guerra desfilar nos Jogos Regionais do Interior de 1986, no Estádio Barão da Serra Negra. Uma única volta nas laterais do campo. Foi a apoteose. Segurava uma das bandeiras, a qual creio que tenha sido a do município. E teve, confesso, o olhar incansável de uma atleta vinda de outra cidade que a todo momento me fitava dando intenção de um certo paquerar. Sabe-se quem lá era. A timidez falou mais alto que o medo ou a vergonha. E assim foi ... De centro de atenção para público.

Nos últimos anos acompanhei diversos desfiles sejam eles realizados sob sol ou chuva, pela Governador Pedro de Toledo ou Boa Morte. Muitos amigos desfilaram por esta vida e hoje além de estarem apenas na memória, ausentes deste mundo terreno, mostraram um pouco de como é este palco chamado de vida.

 (Publicado no Jornal de Piracicaba em 6 de setembro de 2023 e na Tribuna Piracicabana de 16 de setembro de 2023)

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

De um tempo que não volta ...

 Edson Rontani Júnior – jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

Semana passada veiculamos nas mídias sociais do IHGP um vídeo conseguido no Tik Tok. Durava pouco mais de dois minutos. Originalmente foi gravado em VHS e mostrava o passeio de alguém nas ruas e avenidas de Piracicaba nos anos 1980. Como provocação, o título foi “Assim era o Google Street View nos anos 80”.

Parece ser algo banal, mas este vídeo ajudou a remexer a massa cinzenta de muita gente que hoje beira os 50 anos de idade e que viveu a década de 1980 com sua efervescência cultural. Falar que a vida era mais difícil financeiramente para esta geração ninguém, falou. E era, embora muitos fossem ainda jovens e sequer tinham a preocupação de sustentar um lar, numa época na qual a inflação chegava aos 80% ao mês (!!!).

Mas muitos lembraram como era acolhedora nossa “terrinha”. O vídeo apresentava um passeio rápido pela Governador Pedro de Toledo e muitos se lembraram da Lobrás, a Lojas Brasileiras, umas das primeiras lojas de departamento, verdadeiro shopping center para a época. Tal loja, situada entre a Dom Pedro II e a Rangel Pestana, meio da Governador no lado direito, tinha de tudo: roupas, revistas, LPs, alimentos, presentes e até uma lanchonete no fundo onde era possível sentar-se logo no balcão e comer um x-salada ou um bauru ... nada mais. Eram os hamburgers da época. A Lobrás era a loja do tipo em que você dizia à vendedora : “só vim dar uma olhadinha” e ela a seguia por todos os corredores. Daí você ia na seção de balas e pegava uns 100 gramas Chita hortelã e saia desconcertado.

O mais criativo foram os comentários sobre o vídeo. Uns lembraram da Portalarga, tradicional loja do comércio local, da família Maluf que vestiu por quase um século o piracicabano. Outros lembraram do Kraide Magazine situado embaixo do Clube Coronel Barbosa na praça José Bonifácio. O vídeo teve até a última quinta-feira 180 mil interações (orgânicas).

Estes pensamentos nos levaram a viajar no tempo e lembrar do Shopping Center Ziliat, da família Petrin. Como era gostoso, antes da aula noturna, parar e comer um prato executivo, ver a fonte instalada no centro deste “mallzinho” e sentir-se feliz por a cidade possuir um shopping mesmo que ele fosse uma pequena galeria. O local abrigou nos anos 1930 um cinema, depois foi a fábrica de Balas Atlante e mais recentemente uma papelaria e um supermercado.

O vídeo também lembrou de lojas como A Musical da família Pousa, a Brasserie dos Lescovar, o Shopping Cidade Alta, O Cacau do Basso Rolim, da Galeria Brasil quando ainda era um atrativo noturno aos finais de semana... Os mais antigos ainda irão se lembrar do seu Balacini na Banca Gianetti bravo com as pessoas que folheavam jornais e revistas e saiam sem comprar nada. Ou ainda os potes que enchiam os olhos dos petizes do seu Passarela na loja situada ao lado esquerdo do Cine Politeama.

Mas, o vídeo referido no início do texto nos remete à uma mudança cultural provocada pela TV que então despontava como sucesso a Xuxa, “Rainha dos Baixinhos”, num período pré “Amigos” em que três duplas sertanejas criaram um rumo para a cultura musical tomando uma cerveja que hoje é jogada ao ostracismo por todos. Aliás, os anos 80 trouxeram consigo a formação de um gênero conhecido por “new wave” na música, com expoentes como Gang 90 e as Absurdetes, João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, Léo Jaime, Lulu Santos, Kid Abelha e Seus Abóboras Selvagens, Ira !, Barão Vermelho, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso etc etc etc ...

As imagens são nostálgicas. Mostram locais que se foram. Espaços mágicos nos quais vivemos, os quais nos trazem à memória pessoas que já partiram. Períodos especiais de nossa vida. Saudade ... de um tempo que não volta mais ...

Visualize o vídeo clicando aqui

(Publicado no Jornal de Piracicaba de 30 de agosto de 2023 e na Tribuna Piracicabana de 09 de setembro de 2023)